
A greve dos trabalhadores da Tupy mostra alguns fatos aos quais raramente as empresas dão a devida atenção. A mobilização para paralisação de funcionários pode nascer quase espontaneamente, sem que o sindicato force a situação, como era comum nos anos 80. Naquela época, o componente político aflorava com muito mais força do que atualmente. Em 2011/2012, a ação do sindicato é muito mais direcionada às questões salariais e de participação nos resultados, do que por orientação anti-patronato ou político-partidária. O dado negativo da greve é o momento. A data-base da categoria dos metalúrgicos em Joinville foi prorrogada até 30 de abril e, portanto, convinha esperar desfecho das negociações sindicais. A impaciência prevaleceu. E rompeu o laço, criando um ambiente de desconfiança.
De todo modo, alguns números indicam caminhos. A receita da companhia foi de R$ 1,87 bilhão em 2010, e aumentou para R$ 2,18 bilhões um ano depois. No mesmo período, o lucro saiu de R$ 154,43 milhões para R$ 203,38 milhões. Quer dizer, o lucro subiu 31,7%, praticamente o dobro da expansão do faturamento, que foi de 16,8% no mesmo período. Sem considerar o extraordinário retorno sobre o patrimônio líquido, de 18,5%, atestando competente gestão financeira Neste contexto, oferecer 6% foi interpretado como subestimar a insatisfação dos empregados. Este caldo resultou num clima a eclodir em paralisação forte e inesperada.

Alguns fatos objetivos: a Tupy fez, recentemente, investimentos milionários e está prestes a inaugurar nova fábrica "C". Na semana retrasada, obteve o "de acordo" das autoridades mexicanas para compra de duas fábricas de blocos e cabeçotes. O Brasil (e Joinville não é diferente) vive uma fase de pleno emprego. Nesta circunstância, o trabalhador, sob pressão por máxima produtividade, acaba por imaginar a possibilidade de trocar de empresa, ganhando mais uns trocados. Uma visão equivocada: quem vai conseguir novo emprego na indústria depois de ter feito greve?
Na outra vertente, e sobre o mesmo ponto, pode acontecer o contrário: muita gente tem interesse em trabalhar numa empresa com o nome e o conceito que a Tupy tem no mercado. Então, em breve, ficarão abertas portas para gente com disposição para o trabalho. Em busca de melhores vagas em um mercado aquecido, a quantidade de brasileiros que se demite das empresas é recorde. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram que 30,5% dos desligamentos no primeiro bimestre ocorreram por decisão do trabalhador. O País teve quase 3,2 milhões de desligamentos até fevereiro. E, do total, 969 mil por iniciativa do empregado.
Vai daí, a greve sempre é um passo a ser dado com alguma cautela. No caso de agora, surpreendeu até líderes de funcionários de chão de fábrica. O fato alerta para outro dado: as empresas já não conseguem dominar a cena laboral como desejam. Há limites. Normalmente, não há paralisação maciça sem que se tenha chegado à exaustão nas conversas. Não foi o caso. "A greve, nos pegou de surpresa e não é o caminho para equacionar aspectos discordantes", analisa o executivo do Sindicato das Empresas Metalúrgicas, Mário Brehm. Então, as negociações foram mal conduzidas pelos dois lados. Certamente, antecedentes sociológicos internos desembocaram no fato.
Para quem está do lado de fora, e não acompanha, cotidianamente, os bastidores da metalúrgica, a notícia aparece como novidade extraordinária. Novidade é. E exigiu mobilização do sindicato dos empregadores para compreender a situação e decidir o que fazer. Obviamente, a greve não interessa. Para produção. Compromete a imagem da corporação num mundo dominado por facebook e internet.

A última greve na Tupy aconteceu em 1996. À época, a pressão do sindicato foi intensa, com fechamento de portões. Desta vez, deriva menos do trabalho do sindicato e mais do profundo desagrado dos empregados. A greve serve de sinal para outras empresas se antenarem com a realidade interna, e não descuidarem de suas políticas de recursos humanos para evitar desgastes de imagens e perdas de produção.
Ambos são prejudiciais. Principalmente, para companhias com atuação em vários continentes, e que se enquadram como empresas de classe mundial pela excelência do que produzem. Como se diz no mundo corporativo, a área de recursos humanos precisa atuar nas estratégias maiores das organizações e na formulação de soluções para que problemas menores não ganhem peso, e desemboquem em paralisação organizada a partir de combinação originada de bilhetes escritos em banheiros.