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A bicicleta verde de Londres

11 de agosto de 2012 3


Pedalar, sem sair do lugar.


Dois pesos, uma medida

Aqui, sim. No Brasil, não. Encontrei, mais de uma vez, suásticas para vender em Londres. Brasões, uniformes nazistas, quepes com a águia de Hitler.

— Não é apologia, é parte da História — explicou um morador local.

Em Porto Alegre, existe uma lei municipal proibindo a exposição de símbolos que representem a pregação do ódio e da intolerância. Correto.

Londres foi destruída pelos bombardeios alemães na II Guerra. Os avós dos britânicos que hoje passeiam com seus carros de luxo viveram meses embaixo da terra, resistindo à ofensiva da Luftwaffe.

"Mantenha a calma e siga em frente" — a frase, criada quando a cidade agonizava, mas resistia, até hoje é um mantra por aqui.  Todo mundo na Grã-Bretanha sabe o que significa uma suástica. No Brasil, não. Ainda bem.

Trepidante

Brit Cops. O programa policial é a atração noturna da Sky 1 TV.

Os casos exibidos: Duas jovens bêbadas que ofendem um policial, um homem que foi visto com uma faca, um bebum que caiu da janela e um pacote suspeito boiando no mar. Violentos, esses britânicos.

Prevenção

As novas estações de metrô são equipadas com paredes de vidro temperado nas plataformas. Elas só se abrem quando otrem para. São comuns em Londres os incidentes com pessoas que caem - ou se jogam - nos trilhos.

Saudade de casa

No restaurante, duas pessoas esperam na fila para serem conduzidas às suas mesas. Um casal russo chega e vai entrando. O maître, polidamente, os adverte:

— Por favor, é preciso esperar a sua vez.

O cara

Só dá ele. Entre Picassos, Matisses, Bacons e Pollocks, o brasileiro: Nelson Leirner foi um dos escolhidos peloTate Modern para a exposição do acervo que está sendo visitada por milhares de turistas durante a Olimpíada. Uma das suas obras também está na Casa Brasil, espécie de embaixada cultural do Rio de Janeiro em Londres.

História online

Será lançada oficialmente em setembro a digitalização dos arquivos de Winston Churchill, o lendárioprimeiro-ministro que liderou a vitória dos aliados contra o nazismo. Quem quiser um aperitivo, é só acessar www.churchillarchive.com.

Churchill nunca esteve no Brasil, mas o nome do país aparece em 52 referências no mecanismo de busca, a maioria em cartas e em documentos oficiais.

Leve a Rainha para casa por R$ 50

11 de agosto de 2012 2


Pelo equivalente a R$ 50, leve a Rainha para casa. Não se aceitam devoluções.

Disfarce
Mais de meia-noite. Proibido vender álcool. Mas o garçom não se mixa. Atrás do balcão, enche um bule de chá com cerveja. E serve aos clientes. Jeitinho inglês? Não. O restaurante é chinês.

Antenas
Zero. Em 15 dias de Londres, as ligações feitas do celular local não caíram sequer uma vez.

A coisa certa
Como é bom não precisar conferir o troco.

Palavra de honra
A passageira se dirige ao fiscal da estação:
— Eu tenho créditos, mas meu cartão falhou.

Sem pestanejar, o funcionário libera a passagem. É praticamente impossível que ela não esteja falando a verdade.

Festinha na firma
Uma pesquisa publicada ontem revelou que os " lanches de escritório" acrescentam, em média, 4,5kg por ano a cada um dos britânicos. A maioria dos entrevistados se considera vítima das tortas e dos salgadinhos trazidos pelos próprios colegas de trabalho.

Banho de sangue

10 de agosto de 2012 2

Na lojinha de suvenires, as aparências enganam. É gel para usar embaixo do chuveiro. Só isso.
Não há o que não haja.

Busum
Pelas ruas da cidade, a mensagem verde e amarela: "O mundo se encontra no Brasil. Venha celebrar a vida. Obrigado, Londres".

A fórmula
A solidez ética precisa de companhia. Os britânicos têm medo. Não estacionam em lugar proibido porque sabem que o carro será recolhido. E que a multa virá. Não entram no metrô sem pagar porque têm certeza de que serão pegos, mais cedo ou mais tarde. Não brigam nos estádios porque nunca mais poderão assistir aos jogos dos seus times.

Educação é assim. Primeiro a gente combina as regras. Depois as explica para quem está chegando. E, por fim, pune os que não as cumprem. Não há outro jeito de compartilhar entre 8,1 milhões de pessoas esse espaço restrito que se chama cidade.

Disciplina é liberdade. De vez em quando, Renato Russo nos faz lembrar da frase. Quando as regras de convivência são respeitadas, sobra mais tempo para o resto. Para estar com a família, para sentar em um pub, para mudar o mundo, para falar mal do governo, para ir ao cinema. E se alguém me xingar, respondo: reacionário é quem acha o contrário.

O PREÇO DAS COISAS
Um prato de massa chinesa em uma loja fast-food custa 9 libras, ou R$ 29.

Bons companheiros
Oscar e Leandro Damião ficam no mesmo quarto na concentração. Oscar cresceu, Damião cresceu junto.

Cutucada
Da capa do Financial Times de ontem: "Os funcionários do Banco Central do Brasil estão em greve por um aumento de 23% para acompanhar a subida dos preços, embora um dos principais papeis da instituição seja o de controlar a inflação".

Faixa própria
O presidente da Federação Gaúcha de Futebol, Francisco Noveletto, passou por Londres. Veio a convite de uma fornecedora da sua rede de lojas.
Passou longe do esquema CBF.

Um ano depois
A Justiça britânica condenou 16 envolvidos nas revoltas de rua do ano passado a 73 anos de prisão. O grupo assaltou um restaurante. Também atacou lojas e carros de polícia.

Assim você me mata
A festa rolava solta em Picadilly Circus. A multidão de turistas dançava noite adentro.
De repente, pelos alto-falantes, a surpresa: "Ai, seu te pego / Ai, ai. Se eu te pego".
A galera foi à loucura.

Reflexão
Simples e ousada. A exposição Superhuman, na Wellcome Collection, em Londres, explora os limites éticos da busca pela melhora do desempenho humano. Em várias áreas. Entre as peças expostas:
Sapatos de salto alto: para ganhar altura.
Viagra: para ganhar potência.
Uma prótese de dedo retirada de uma tumba do Egito antigo.

Novo imperialismo
A África, a Índia e o Oriente são coisa do passado.
A exposição Superhuman termina com uma linha de tempo futura. A previsão: "2050 _ recursos da Lua, Marte e de outros planetas serão explorados".

Perdeu

O atleta alemão Robert Harting, campeão no arremesso de disco, foi assaltado em Londres. Sua credencial foi roubada, além de outros objetos pessoais. Sem identificação, não pode entrar na Vila Olímpica.
Se fosse no Brasil...

Verão londrino

09 de agosto de 2012 0

Quem não tem praia, inventa uma.

A saideira
A garçonete olha o relógio na parede do pub e faz as contas. Dá tempo. Mais três minutos. Estende a mão e pressiona a alavanca. A última cerveja jorra pela torneirinha prateada. Meia-noite, fim de festa.
O alcoolismo é um problema gigantesco na Europa. O inverno rigoroso e a baixa luminosidade impulsionam o consumo de bebida. O governo não consegue controlar a quantidade emborcada pelos cidadãos. Mas consegue determinar o horário de disponibilidade da oferta, pelo menos nos lugares públicos.
O happy hour, pague uma e beba duas no fim de tarde, é parte dessa solução precária. Antecipar a demanda, ir embora antes. A noite em Londres termina cedo. Porque amanhã é outro dia.

Corrida do ouro
Damigol vai virar Damigold?

Parada
Londres vai bombar.
Os britânicos estão organizando, para depois dos Jogos, um desfile público com todos os seus medalhistas de ouro.

O Preço das coisas
Uma volta de meia hora na roda-gigante London Eye custa 18,90 libras, ou R$ 60,50.

Migué
Um estudo elaborado pela Universidade de Yale revelou os truques usados pelos passageiros no metrô e nos ônibus para tentar impedir que alguém ocupe o lugar ao lado:
1) Fazer cara de mau.
2) Colocar uma bolsa ou mochila sobre o assento vazio.
3) Ouvir música nos headphones em volume elevado.
4) Fingir que está dormindo e se inclinar para o lado.

Tesouro 1
Está na Biblioteca Britânica, que fica a 100 metros do estúdio da RBS em Londres: Cuthbert Gospel, um manuscrito do século VII.
A vitrina onde está exposto é blindada. Há seguranças ao redor.
Em abril deste ano, a peça foi comprada por 9 milhões de libras, o equivalente a R$ 28,8 milhões. "É o livro intacto mais antigo da Europa", garantem.

Tesouro 2
Do lado do Cuthbert Gospel, outra vitrina blindada. Nela, manuscritos originais de letras do Beatles. A Hard Day's Night foi composta em um cartão de aniversário de criança, estampado com um trenzinho amarelo e azul. O maquinista é um menino bochechudo de boné.
A letra de Michelle está lá: atrás de um envelope.
Os versos de Yesterday descansam sobre uma folha branca de papel.

Business
A Olimpíada inspirou a edição de 30 selos comemorativos no Reino Unido. A lojinha improvisada na Euston Road está com os estoques em baixa.
- Vendemos quase tudo - comemora o funcionário.

Choque cultural
Dois brasileiros degustam suas cervejas no bar do Royal Albert Hall enquanto o concerto não começa.
- Vocês já querem comprar mais duas para o intervalo? - pergunta o atendente.
Surpresos, eles topam. E pagam adiantado.
Uma hora depois, quando voltam, uma multidão se aglomera no balcão.
- E agora?.
E agora que ali, no meio da muvuca, sobre uma mesinha, dois copos cheios e a respectiva nota fiscal aguardam seus donos.
Ninguém mexeu.

A roubada do dia
O Museu do Filme de Londres. O acervo é bom, mas desorganizado. Peças cenográficas, figurinos, fotos e documentos estão empilhados. O lugar é escuro e mal cuidado.
As salas dedicadas a Charles Chaplin decepcionam. Pontos interessantes: uma máscara de macaco usada na magistral sequência A Aurora do Homem, de 2001, uma Odisseia no Espaço, dirigido por Stanley Kubrick. Tem também a vassoura voadora de Harry Potter e três armaduras de combate de Guerra das Estrelas.
Mesmo abstraindo o cheiro de mofo, não vale as 15 libras (R$ 52,50) do ingresso.

De cantinho

08 de agosto de 2012 2

Entre outras mil, és tu, Brasil.

O ser público
A Rainha sumiu. Depois do salto de paraquedas e das palavras econômicas na abertura da Olimpíada, sua majestade saiu de cena. Há quem diga que fugiu de Londres em busca de paz. Ou que se recolheu a algum dos seus palácios para assistir pela TV às provas mais nobres desses Jogos. Hipismo, por exemplo. A Rainha não vibra, arqueia levemente a sobrancelha.

Já o prefeito de Londres, Boris Johnson, está em todos os lugares. Boris e suas Boris bikes. Boris vibrando, Boris sorrindo. Boris sendo Boris. Onde está Boris? Aqui, bem do seu lado.

Boris precisa de votos. A Rainha não.

Boris sabe que, se sumir, perde o emprego. A Rainha sabe que só deve aparecer quando o país realmente precisa dela.

Na base
Eles querem mais.
A boa safra de medalhas de ouro colhida pelos britânicos fez aumentar a pressão para que o esporte seja mais valorizado nas escolas do país.
Faltam quatro anos para a Olimpíada do Rio.

Jeitinho à distância
Morador brasileiro de Londres conseguiu uma credencial daquelas que servem para quase nada. Apontando para ela, foi entrando, entrando, entrado. Até que parou dentro do ginásio do vôlei, para o qual não tinha ingresso.
Nessa modalidade, ninguém nos bate.

A roubada do dia
Saída do Estádio Olímpico. O turista pergunta ao voluntário para que lado fica a estação do trem.
- Brasileiro? Eu também! Na verdade é por ali, mas se tu fores pelo outro lado é um pouco mais longe, mas tá vazio.
Um pouco mais longe: meia hora de caminhada no meio da noite.

Mistério
Na calçada que beira o Tâmisa, adesivos em forma de pegadas anunciam: "Os 29 passos para chegar a Hitchcock". Você segue a trilha. E chega a lugar algum.

A língua é minha pátria
Ingleses e americanos. Eles têm o mesmo DNA, mas o software é bem diferente.
Os dizeres de uma placa em um pub Londrino: "Saibam todos os clientes que, infelizmente, ladrões de bolsa estão atuando nessa área. Por favor, cuidem de seus pertences pessoais o tempo todo. Obrigado".
Se fosse em Nova York: "Cuidado. Ladrões".

Topo do pódio
A música Heatwave, do rapper inglês Wiley, é a primeira colocada nas paradas de verão da Grã-Bretanha. O refrão: "Ponha as mãos no meu corpo / No meu corpo / No meu corpo / Ponha as mãos no meu corpo".
É pura poesia.

O PREÇO DAS COISAS
Um litro de gasolina custa 1,24 libras, ou R$ 3,60 reais.

Senso de humor
O nome do simpático café da Biblioteca Britânica: Final Word, ou Palavra Final.

A roubada do dia

07 de agosto de 2012 0

David Bowie morou aqui. Na década de 70, pintou toda a casa de preto: paredes, móveis, janelas. O Camaleão queria viver numa mina de carvão. Foi um gesto de solidariedade: os trabalhadores do setor estavam em greve. Ontem, me fui faceiro pra Oakley Road. Nada vi. Prédio em reformas. Legal o Fusca cor de rosa, né?

Aperto
Estação do metrô de South Kensington lotada. Mal acomodado no colo na mãe, o bebê tem sua mãozinha esmagada quando a porta do vagão se fecha. Começa o berreiro. Imediatamente, um segurança à paisana surge do meio da multidão. Pelo rádio, chama reforço e um médico.

Tensão. O agente dá uma bronca na família de turistas. Chega uma policial fardada. Todos são conduzidos a um local reservado. Na plataforma, a vida volta ao normal.

Harry Potter
A plataforma está lá, na estação de King´s Cross. Próximo trem: Hogwarts.

Sacou?
O pingue-pongue virou febre na cidade. É só chegar e jogar. Está sozinho? O aviso pintado na mesa encurta o caminho: "Sem parceiro: convide alguém que está passando".

Festa na toca
Nos últimos dois anos, 29 departamentos regionais de controle de pestes foram fechados na Grã-Bretanha. Eles eram responsáveis pelo combate estatal dos ratos.
Uma empresa privada cobra, no mínimo, R$ 320 pelo serviço.

Cartão vermelho
O ziriguidum rolava solto na Casa Brasil. A London School of Samba animava a turistada quando, pelo rádio, veio a orientação. As quatro passistas seminuas deveriam ser, discretamente, retiradas de circulação.
Não é essa a imagem que o Rio e o Brasil querem mostrar ao mundo.
As dançarinas foram avisadas que, "por motivos de segurança", o show terminava ali.

Em berço esplêndido
É típico. É verdadeiro. Quando a gente entra na Casa Brasil, a primeira coisa que encontra são cadeiras de praia para descansar.

O preço das coisas
Uma hora de estacionamento em Chelsea custa 4,50 libras, ou R$ 14,40.

Set list
O prédio e imponente e sóbrio. O interior dele, nem tanto.
A exposição sobre design britânico no Victoria and Albert Museum é um arraso. Começa com porcelana clássica e termina quebrando tudo com os Sex Pistols.
Numa das salas, o telão exibe uma seleção de seis clipes que revolucionaram a estética da ilha.
1. Strawberry Fields _ The Beatles
2. Trecho do filme Jubille, de Derek Jarman, com Suzi Pinns cantando Rule Britannia
3. Ashes to Ashes _ David Bowie
4. Ghost Town _ The Specials
5. Avalon _ Roxy Music
6. It's a Sin _ Pet Shop Boys
7. Country House _ Blur

Morada eterna

06 de agosto de 2012 1


Domingo pela manhã, chuva fina. Silêncio do cemitério londrino. Ao fundo, as estruturas metálicas do estádio do Chelsea, a nova casa do ex-colorado Oscar.

Domingo no parque

O que faz uma cidade especial é o jeito como ela trata seus espaços públicos. Não há meio termo. Os parques, praças, ruas, monumentos. Ou são de todos. Ou não são de ninguém.

Se são de todos, a tarefa de cuidar não é exclusiva dos governos, a quem nos dirigimos tantas vezes com o dedo em riste. Não há sofás boiando no Tâmisa. As flores penduradas nos passeios ainda estão lá.

Se são de ninguém, não adianta os governos cuidarem, porque a turba vai lá e quebra, suja, picha. Há, porém, um atenuante nessa culpa coletiva. Os cidadãos percebem as mensagens, mesmo que cifradas. E se sentem mais motivados a zelar pelo que é bonito e bem feito. É assim que funciona quando a gente sente que o banco da praça está ali para ser usado e não porque o fabricante é amigo de alguém.

Tempo técnico

Enquanto a chuva não passa, um chocolate quente no The Troubadour. Bob Dylan tocou aqui em 1962. Paul Simon, em 65. Jimmy Page, em 75. Cheguei uns 45 anos atrasado, mas cheguei.

Little blue

Poucos carros na rua, a garoa caindo. Sob a marquise, protegido por duas paredes, o fiscal de trânsito fumava. E falava ao celular.

Debates

Depois de visitar a casa do escritor George Orwell em Londres, fui atrás da sua obra. Encontrei numa pequena livraria, a Woolfson & Tay, na Bermondsey Square: "Por que eu escrevo. A linguagem política é desenhada para fazer mentiras soarem verdadeiras e para dar aparência sólida ao puro vento ".

Grenalização?

Vestido com a camiseta do Grêmio, o gaúcho entrou no pub. Educadamente, o garçom perguntou:

— É uniforme de time de futebol?

Diante da resposta afirmativa, veio a orientação. É preciso tirá-la, ou cobri-la.
Gol contra: o estabelecimento teme brigas entre torcidas, que já foram bem mais comuns, mas ainda acontecem.

Visita rápida

04 de agosto de 2012 2

Número 27b, Canonbury Square. O endereço do escritor George Orwell, morto em 1950, é quase um esconderijo. Muros altos do lado de fora. Duas portas, uma destrancada. Na parede da frente, uma placa discreta lembra: "Prédio histórico".

Londres, 1948. Lugar e ano em que Orwell terminou de escrever 1984. Winston, o herói do livro, vive num mundo dominado pela opressão. Através das lentes espalhadas pela casa, é vigiado pelo Big Brother, o Grande Irmão. Pedro Bial deve a ele seu emprego.

Na vida real, pode ter sido ironia. Ou respeito. Esta semana, entrei no terreno do edifício. O jardim é bem cuidado, pontilhado de flores e de amoras quase maduras.

Procurei. Não encontrei sequer uma câmera. Nem na porta principal, nem nas paredes, nem no jardim. Pelo menos aparentemente. No máximo, um porteiro eletrônico. Mesmo assim, tive a nítida sensação de estar sendo vigiado. Bati algumas fotos e fui embora, rapidamente. Eu não resistiria a um paredão.

O preço das coisas

Uma pizza média de frango, pra comer no restaurante, custa 10 libras, ou R$ 32.

Investimento

Começar cedo. Terminar bem.


A roubada do dia

Na mesma estação do metrô, podem passar até três linhas diferentes. Se não prestar atenção, pega a errada. Adivinha...


Palpite

Chove ou faz sol. Quantas vezes um jogador será atendido durante uma partida. Qual será a cor do vestido da rainha na sua próxima aparição pública. Os ingleses apostam em tudo e em qualquer coisa. Não sou daqui, mas aposto: o Brasil vai fazer uma baita Copa do Mundo. E a Olimpíada do Rio estará à alturas da londrina.


Tanques

Em Londres, Dilma Rousseff opinou que uma intervenção militar na Síria seria ineficiente. A presidente afirmou, porém, que o Brasil está aberto a discutir qualquer tipo de sanção econômica contra o país de Bashar Al Assad. Tipo aquelas que sufocam Cuba há várias décadas.


Ao contrário

O taxímetro marca 10,4 libras. O passageiro procura as moedas que correspondem aos centavos. O motorista, sorridente, diz:

— Esquece, deixa assim.

Pega o bilhete estampado com o rosto da rainha e vai embora. Além de dirigir pela esquerda, eles é que dão até gorjeta pros turistas. Diferentes, esses ingleses.


Donos da festa

Tem os dois primeiros. E os outros. Até o começo da noite de ontem, o terceiro colocado no quadro de medalhas tinha menos da metade da China, o segundo.


Hole in one

Sexta-feira. Fim de tarde no Regent's Park, em Londres. Em um dos gramados, o londrino era pura concentração. Praticava seu esporte favorito: golfe. Sofisticados, esses ingleses.


Zona de conforto

Quando o assunto é segurança olímpica, dois períodos são os mais críticos. A abertura, abarrotada de vips, já passou. Vem aí a segunda semana de competições. A atenção inicial das forças de segurança tende a cair.

Portobello Road

03 de agosto de 2012 0

Viajando na magrela amarela.

A ruptura
Começo a duvidar de uma verdade absoluta: o esporte faz bem à saúde.

Crises nervosas, vidas cheias de privação, lesões. Muitas lesões. Essa é a Olimpíada que a gente não vê. Me recuso a aceitar que isso é normal. Normal é praticar atividades físicas como parte de uma vida equilibrada. Ter família, amigos, dias de preguiça, exagerar no churrasco de vez em quando. Isso é o normal.

Uma fratura exposta para milhões de pessoas, ao vivo. O sul-coreano Jaehyouk Sa, de 27 anos, não suportou a carga de 158kg no levantamento de peso. Diante das câmeras, o osso do braço fez "cléc" e se espatifou. Normal? De jeito nenhum. Normal é o osso, diante de um esforço compatível, ficar no lugar. Em nome do espetáculo, inventaram que superar os limites é bonito. Bonito é respeitar os limites que precisam ser respeitados, especialmente os do corpo. Não plano das ideias, fratura exposta pode até render Prêmio Nobel. No braço, não.

O PREÇO DAS COISAS
Duas bolas de sorvete em Notting Hill: 4,90 libras, ou R$ 15,68.

Fardamento

Para enlouquecer qualquer detector de metais.

Vizinhança
O colega Marcos Castiel, editor do Diário Catarinense, está de queixo caído. Foi entrevistar uma família catarinense que vive em Londres. Na frente do prédio, um parque. Cercado. Trancado. Quem mora perto, tem a chave. Podem estrar e sair quando quer.

É nóis
Deu no Independent: a fabricante de produtos eletrônicos Olympus está sendo acusada de suborno. Teria pago viagens, refeições e outras despesas para médicos. In Brazil.

Arrasei
Exposição sobre 007 no Barbican, em Londres. Entrego o ticket e digo: Milman, Tulio Milman. A moça da entrada me dirige um olhar fulminante. Entendi: ninguém merece ouvir 500 vezes por dia a mesma piada sem graça.

Encontro de culturas

Em Londres, é cada um no seu quadrado.

A roubada do dia
Não. Você não está completamente fora de forma. É a esteira que calcula a distância em milhas.

Pega-ratão
Nesse quesito, estamos na frente. Nos anúncios de jornal da Grã-Bretanha, nem todos os produtos e serviços têm seus preços estampados de forma clara.

SINTA-SE EM CASA
A placa na saída do metrô pede: "Leve consigo o seu jornal". Nas escadas rolantes, exemplares já lidos esperam algum novo passageiro ávido por notícias. Ou que o tio da limpeza passe por ali.

Shakespeare olímpico

02 de agosto de 2012 4




Ganhei ontem o cartão de visitas de um dos ingleses mais famosos e geniais da História. Eu não o conhecia direito. Achava que era uma cara formal, difícil de entender. Que seu texto era hermético e só acessível a um seleto grupo de iniciados.


Ontem, vi a luz. Acompanhado pelo colega Marcos Piangers, talentoso jornalista da Atlântida FM e do Kzuka, entrei num teatro às margens do Tâmisa. Um lugar diferente. Sem teto. E choveu. Sem microfones e sem luz artificial: o Shakespeare's Globe é a recriação exata de uma casa de espetáculos londrina do final do século 16.


No palco, sem cortinas, A Megera Domada. Figurino perfeito. Elenco perfeito. Cenografia perfeita. Sem exageros estéticos. Humor, muito humor. Humor popular, fácil, interagindo com a plateia, brincando com a malícia. E a intensidade corporal constante. Movimentos largos, quedas, lutas, corridas.


A história: um pai que só concordaria em ceder a mão de sua filha mais moça depois que a mais velha, mal humorada e intratável, desencalhasse. E a plateia gritava. Aplaudia, gargalhava, participava.


Com o tempo, a arte se contamina com solenidade e falsa erudição. Meu amigo Zé Victor Castiel já tinha me avisado, mas só agora me caiu a ficha: Shakespeare é pop _ apesar de todos os esforços para complicá-lo.


O preço das coisas
Plano de celular mensal da Orange para iPhone 4S, com chamadas ilimitadas, textos ilimitados e 1GB: 36 libras, ou R$ 115. E a ligação não cai.


Bonecos no divã
Sabe o que os bonecos da lojinha de souvenires dizem uns para os outros de manhã?


— Você vai bem. E eu, como vou?


A roubada do dia
The London Dungeon. Trata-se se uma espécie de trem fantasma homenageando as grandes pestes e os assassinos mais famosos de Londres antiga. Percorrido a pé. Durante todo o trajeto, atores mal maquiados surgem do nada para, aos gritos, assustar os turistas. É trash. É tudo escuro. Jogam água na gente. Meninas tomadas pela histeria berram sem parar. Tem ratos vivos. Presos, mas vivos. Uma vez que que você entra, só pode sair no fim. Uma hora e meia depois. Fuja. A não ser que você goste dessas coisas.


Fog
Os administradores do aeroporto de Heathrow, em Londres, terão de pagar uma compensação aos seus vizinhos caso a construção de uma terceira pista seja autorizada pelo governo.
Tudo por conta do aumento do barulho, apesar da constante neblina que encobre essa parte do mundo.


Rigor absoluto
Um torcedor lituano foi preso durante a partida de basquete da sua seleção contra a Nigéria.
Ele e um grupo de amigos cantavam, chamando os adversários de macacos. No Reino Unido, esse tipo de manifestação é tratada como racismo. E ninguém tenta relativizar.


Liquida London
Hotel de luxo na cidade olímpica pedia o equivalente a R$ 1,2 mil por noite durante os Jogos. Sobrou lugar. E o preço despencou para R$ 200.


Quadro da dor
Sumiu. Quase ninguém mais fala nele. O "espírito olímpico" tomou Doril.
Perdão, nobre Barão de Coubertin. Mas sucesso, hoje em dia, se mede em medalhas.


Topo do pódio
Vibre, comemore, vá pra Goethe. Tem recorde brasileiro em Londres. O público que assistiu à vitória das britânicas sobre o time de Marta foi de 70,5 mil pessoas. O maior da história para jogos entre seleções femininas na Grã-Bretanha. O Brasil perdeu, mas isso foi só um detalhe.