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A última coluna

30 de setembro de 2011 22

Sendo assim, faço minha última colaboração para o Santa – incluindo este blog. Depois de exatos quatro anos de coluna diária – completados no último dia 24 – sou chamado a outros compromissos como escritor e contador de histórias.

Esclareço que minha decisão nada tem a ver com as “forças ocultas” que desde cedo rondaram os ouvidos dos meus editores. Bem que eu gostaria que as coisas tivessem acontecido dessa forma perniciosa e cinematográfica. Já pensaram? Eu, debaixo de uma tempestade, diante da minha mãezinha moribunda, gritando e jurando vingança contra os crápulas e poderosos que me perseguiram e me condenaram ao ostracismo dos pobres desgraçados.

Infelizmente, não foi isso que aconteceu, primeiro porque os crápulas e os poderosos já se tornaram caricaturas do que foram no passado, e segundo porque os editores do Santa, contrariando os meus preconceitos mais íntimos, nunca se pareceram com aqueles personagens de filmes americanos capazes de vender a alma para manter o status quo. Sim, hoje em dia o jornalismo é mais sério do que vocês imaginam. Mais sério do que eu imaginei antes de vivê-lo no dia a dia.

A minha decisão tem a ver, isso sim, com aquela bela dama a que me referi ontem, a Literatura. Mesmo tendo ares de moça sabida e independente, ela me exige casamento e dedicação integral, exige ser amada e até mesmo bajulada, caso contrário ameaça arrumar as malas e me abandonar para sempre. No mesmo passo, vejo que minha colaboração diária, tão frenética e cansativa, já cumpriu o seu ciclo natural, já disse o que deveria ter dito, incluindo os meus erros e acertos de cada dia. Sinceridade: se eu, que sou o autor, já não sinto o mesmo prazer escrevendo diariamente, imagine vocês, que insistem na leitura.

De coração, agradeço ao Santa, que me confiou este espaço, em especial ao Edgar Gonçalves e à Jô Laps, que há quatro anos me fizeram o convite e que, há cerca de 30 dias, aceitaram e compreenderam os motivos que me levaram a encerrar esta fase da minha peregrinação pelo mundo da palavra. Agradeço aos leitores, é claro, aos que me contemplaram com críticas e sugestões, principalmente aos Blumenauenses Fundamentais, com quem pude estabelecer um diálogo de amor e ódio, de honestidade recíproca, de desenvolvimento humano e intelectual.

Que mais falta dizer? Pra ser honesto, que é muito bom, mas muito bom mesmo, não ter que escrever as crônicas da próxima semana, dos próximos meses, dos próximos anos. Nada é melhor do que ficar livre de vocês. E vocês, é lógico, de mim. Valeu muito a pena, mas na vida existe hora para tudo: para começar e para encerrar.

O Jornalismo e a Literatura

29 de setembro de 2011 2

Faz tempo que venho servindo a dois senhores.

Ou melhor, a um senhor e a uma senhora. O primeiro, que responde pelo nome de Jornalismo, usa monóculo e bigodes, é um sujeito sisudo que costuma controlar o meu horário, me obriga a bater ponto e lhe dedicar atenção nos momentos mais impróprios e menos inspirados do dia.

A segunda se chama Literatura. É bela e airosa, cheia de lascívia e criatividade, e sempre que pode me entretém com suas palavras canoras, com sua conversa doce, com seu ar de mulher vivida e cosmopolita.

Todos os dias o Jornalismo olha por sobre o meu ombro e, soltando um bafo incômodo no meu pescoço, pergunta sobre as 36 malditas linhas diárias que devo entregar até o fim da tarde.

— Que é isso, Maicon?! Ainda não acabou?

— Calma, que tô quase lá. Só preciso de mais uns minutos…

— Não é possível esperar um segundo sequer!

— Mas… mas…

— Não tem “mas”! Ou conclui o texto agora, ou admite que é um fracassado e joga a toalha de uma vez!

À noite, chego em casa cansado e me esparramo no sofá. Aquela bela dama, a Literatura, me chama lá do quarto, me convida para o seu leito de sabores e delícias, mas, infelizmente, nem tudo sai como o sonhado.

Às vezes entro em pânico, perco o sono imaginando que algum dia ela possa me abandonar. É uma mulher capaz de oferecer os mais indizíveis prazeres, mas é também exigente, não raro brande o dedo diante do meu nariz e sentencia:

— Ou o Jornalismo, ou eu!

— Não é isso, querida, eu te adoro, eu quero sempre ficar ao seu lado, mas é preciso ganhar a vida.

— Ganhar a vida! Quando nos conhecemos, você me prometeu que viveríamos apenas de amor!

Ontem encontrei a coitadinha encolhida no canto do quarto. Estava abraçada aos próprios joelhos e soluçava com uma ternura que de pronto me deixou comovido:

— Você não… me ama… mais?…

Quase morri de remorsos. Mas entendi que na vida é preciso tomar decisões. Amanhã mesmo vou conversar com o Jornalismo, vou lhe dizer umas verdades, botar os pingos nos is, resolver essa história de uma vez por todas. Sei que será difícil viver apenas de amor. Mas pelo menos poderei me dedicar, por inteiro, a essa bela dama, a Literatura.

Cronistas e romancistas

29 de setembro de 2011 0

Um rápido olhar sobre a imprensa brasileira contemporânea, ou mesmo sobre a imprensa mais antiga, abarcando todo o século 20 e boa parte do 19, revelará a constante e ostensiva presença de cronistas que, nas horas vagas, dedicaram-se também ao romance, o mais braçal dos gêneros literários.

Exemplos temos em Machado de Assis e José de Alencar, em Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz, em João Ubaldo Ribeiro e Carlos Heitor Cony.

Não deixa de ser curioso que os dois grandes extremos da prosa criativa, a crônica e o romance, a primeira tão sucinta e cotidiana, o segundo tão complexo e palavroso, costumem se tocar sob a pena de um mesmo escritor.

É claro que há um abismo entre os dois gêneros, mas ninguém pode negar que também exista uma espécie de simbiose entre a tentação do infinito que é o romance e o cotidiano ligeiro representado pela crônica.

Alguém, acho que o próprio Cony, já disse que tanto o cronista quanto o romancista são peixes que não podem viver fora da água.

A diferença é que, por viver no aquário, o cronista desfruta de maior visibilidade, daí os seus malabarismos para se manter em evidência e disfarçar a sua irrevogável condição de superficialidade.

O romancista, por sua vez, é um peixe de águas profundas, quase ninguém o vê, por isso costuma surpreender os que decidem segui-lo para descobrir as belezas de um mundo novo e inusitado.

O mais interessante é que tanto o romancista quanto o cronista, cedo ou tarde estafados por sua solidão, sentem uma irresistível necessidade de bater as barbatanas em outras águas.

Mesmo que corra todos os riscos, chegará o momento em que o peixinho do aquário tentará desbravar o fundo do oceano.

Do mesmo modo, o sisudo peixe das profundezas começará a se perguntar como seria viver, nem que fosse por um tempo, sob as luzes do aquário, na vitrine de uma crônica de jornal.

Mas não devemos encerrar antes de lembrar a antiga máxima musical: “tudo que sobe desce, tudo que vem tem volta”.

Ao fim e ao cabo, graças às experiências conquistadas em outras águas, cada peixe retornará ao seu habitat natural.


Leitura, leitura!

26 de setembro de 2011 1

Várias vezes perguntei aqui na coluna se nós realmente queremos a leitura.

O “nós” que eu digo são os pais, os professores, os governantes, a sociedade. Diante de tantas campanhas a favor do livro e sua difusão, minha pergunta deveria ser de uma estupidez imperdoável. Infelizmente, não é.

Não sei se vocês já perceberam, mas certos representantes de instituições vagas como “a moral e os bons costumes da família cristã” fazem o impossível para impedir que a literatura chegue aos jovens.

Harry Potter faz sucesso? Então não presta! A Bússola de Ouro caiu no gosto da garotada? Mande queimar, pois o autor tem parte com o diabo! É assim que se acendem as fogueiras da ignorância e do obscurantismo.

Boa ou má, a literatura não precisa nem deve ter compromisso com sistemas políticos, morais ou religiosos. Mesmo assim, a partir de questionamentos sobre o próprio texto, ela conseguirá problematizar a política, a moral e a religião.

Não é isso que queremos dos nossos estudantes, que pensem com a própria cabeça? A retórica diz que sim, mas as campanhas bem ou mal sucedidas contra os livros supracitados provam o contrário.

Se romances infanto-juvenis merecem proibição, então, para sermos coerentes, também precisamos proibir clássicos como O Cortiço, que possui cenas de lesbianismo, além de toda a obra de Machado de Assis, um obcecado pelo tema do adultério, e a de Shakespeare, mais sanguinária que os noticiários da tarde.

Por incrível que pareça, boa parte da Bíblia Sagrada é composta por histórias de violência, traição, sadomasoquismo e incesto. Definitivamente, não é um livro indicado para menores de 18 anos!

O que a escola e os pais — a sociedade, enfim — precisam entender é que o mais importante não está no que lemos, mas COMO lemos. Nas mãos de um bom leitor, ou de um leitor adequadamente orientado por seus professores, o pior dos livros pode se tornar um libelo contra os preconceitos e a tacanhice.

Mesmo assim, o que mais aparecem são correntes de e-mails advertindo as famílias contra este ou aquele livro — o mesmo acontecendo em relação a filmes, games e outros produtos culturais —, considerados o veneno que há de corromper a integridade moral de nossos jovens, coitadinhos, tão inocentes do mundo e seus percalços.

De duas, uma: ou realmente estimulamos a moçada a ler com os olhos livres, ou ressuscitamos o INDEX e os tribunais da inquisição.

Santa quarentão

23 de setembro de 2011 0

Folhear a primeira edição do Santa, publicada há exatos 40 anos, foi uma experiência instigante e curiosa. Eu já havia tido a mesma oportunidade com o número de estreia do Diário Catarinense, mas o Diário, tão mais jovem, não me despertou o mesmo estranhamento. Em 1986, com idade suficiente para ver e tentar entender o mundo pela TV, acabei fixando na memória alguns acontecimentos importantes do período, inclusive o lançamento do próprio Diário, com a primeira redação inteiramente informatizada da América Latina.

Com o Santa, o impacto veio mais forte, pois o Santa, um jornal tão íntimo, praticamente meu vizinho de porta, foi lançado no longínquo ano de 1971, época em que eu e boa parte dos que agora me leem sequer figurávamos como projetos de existência. O mundo parecia ser muito remoto naquele então. Seja como for, a primeira edição saiu magra, modesta, tímida, tateante, embora pretendesse, através da distribuição e do editorial, dialogar com todo o estado de Santa Catarina – daí o seu nome, é claro.

Como conseguiram a façanha de manter um jornal estadual por tanto tempo, transportando-o em lombo de jipes e caminhonetas de entregas rápidas? Sem tirar o mérito dos pioneiros, só posso encontrar explicação no fato de que, há 40 anos, as estradas de Santa Catarina eram melhores, muitos melhores do que são hoje! No quesito editorial, impressionaram-me a quantidade e o detalhamento de notícias internacionais, com nomes como Eva Perón, Nikita Kruchev e Mao Tse Tung ocupando os “leads” e as manchetes. A edição também reservou um belo espaço para notícias e comentários sobre o assassinato de Carlos Lamarca (o que deve ter feito os BFs da época salivar), taxado como uma espécie de “último grande terrorista” nos editoriais comprados d’O Globo e do Estado de S. Paulo.

Por fim, as notícias locais, fraquinhas, ainda que a capa denunciasse: “Esgoto só existe em duas cidades de Santa Catarina”. Era como se nada relevante acontecesse aqui; ou, por outra, como se ainda não soubéssemos prestar atenção no nosso próprio umbigo, coisa que o Santa atual faz de forma obsessiva, sistemática e contundente. Vivendo e aprendendo.

P.S.: aproveitando os 40 anos do Santa, eu tinha uma surpresa, uma espécie de presente, para apresentar no último parágrafo desta coluna. Infelizmente, as circunstâncias me levaram a guardar a surpresa para a próxima sexta-feira. Até lá, peço que me aguardem. Por ora, desejo a todos um bom fim de semana.

Disney Tupiniquim

22 de setembro de 2011 1

Se existe um sujeito que deu certo no Brasil, e deu certo pelo próprio empenho e persistência, o nome desse sujeito só pode ser Maurício de Souza. Com mais de 50 anos de carreira e 1 bilhão de gibis vendidos ao redor do planeta, o pai da Mônica e do Cebolinha não dá sinais de que pretende pendurar as chuteiras.

Mais filmes de curta e longa-metragem, mais personagens para HQs, mais parques temáticos, mais projetos educacionais, mais produtos licenciados… objetivos é que não faltam para os próximos anos, principalmente agora que a parceria com a Panini mostrou-se tão fecunda. Esclarecendo: depois da Abril e da Globo, a Panini é a terceira grande editora que publica as 1200 páginas mensalmente produzidas pela Maurício de Souza Produções.

Mas em que consiste exatamente o êxito do cartunista? É certo que ele possua talento e criatividade exemplares, mas, se olharmos ao redor, veremos que há centenas de outros artistas que desfrutam das mesmas qualidades e mesmo assim não conseguem decolar. Se decolam, logo aterrissam, não conseguem ficar muito tempo no ar, ainda mais num mercado editorial tão cheio de altos e baixos como o brasileiro.

O que Maurício de Souza sempre teve, além de suas capacidades de criador, foi uma abençoada vocação para o gerenciamento financeiro dos seus personagens. Isso vale tanto para o conteúdo das revistinhas quanto para os complexos sistemas de distribuição e merchandising que desenvolveu nas últimas 5 décadas. Sabe-se que os personagens não nasceram prontos, a começar pela própria Mônica, inspirada num dos 10 filhos de Maurício – sim, ele é pai de 10 filhos concebidos ao longo de 4 casamentos.

A partir de experiências com novas formas de desenho e roteirização de histórias, um processo baseado na velha aventura das tentativas e dos erros/acertos, cada personagem foi adquirindo a forma e a característica com que finalmente conquistou o público. O mesmo pode ser dito dos negócios que extrapolam o mundo dos quadrinhos, como as adaptações cinematográficas e a utilização – sempre criteriosa – dos personagens em produtos infantis.

Agora, mal a Maurício de Souza Produções anunciou que vai lançar um gibi com o Chico Bento e outro com a Turma da Mônica adulta, as críticas começaram a surgir de todos os lados. Bobagem. A mesma coisa foi dita da Mônica Jovem, que hoje, em termos de vendagem, é disparado o maior sucesso dos quadrinhos nacionais. De minha parte, estou curioso para ver velhos personagens em novas fases de suas vidas imaginárias. O Disney Tupiniquim sabe, e muito bem, o que faz.

Uma da enchente

21 de setembro de 2011 2

Ontem eu estava tomando um copo de café com meu amigo José Endoença quando ouvi, por parte da senhora que cuidava do quiosque, um curioso relato sobre a última enchente:

— Vejam só como são as coisas! Enquanto lá na nossa rua estávamos todos alagados, a minha vizinha, coitada, que tem dois rottweilers, foi obrigada a amarrar os bichinhos na sacada do segundo andar. Ela chegou ao cúmulo de separar a água e a comida das crianças para não faltar nada aos cães. De repente, antes mesmo do lodo baixar, apareceu uma louca de canoa — de canoa, veja bem! — e começou a xingar a minha vizinha, coitada, dizendo que ela estava maltratando os cães e que não podia deixar os pobrezinhos dos animais ali naquela situação, presos pelas coleiras. Ai, meu Deus do céu, mas a minha vizinha é muito da mansa mesmo! Eu, se fosse ela, dava um jeito de soltar os bichos em cima daquela ignorante montada naquela porcaria daquela canoa, que não tinha nada que se meter com os cachorros das outras! Ficaram batendo boca a tarde inteira, enquanto o resto da cidade corria, ou melhor, nadava atrás de comida e água potável para enfrentar a enchente. Tem pessoas que não se tocam mesmo, né não?!

Ao ouvir o caso, imediatamente apontei o dedo para o José Endoença e sentenciei:

— A culpa é dele!

Claro que pensaram que eu estava de bobeira, mas não, acho que nunca falei tão sério em toda a minha vida. Graças a professores como o Zé, há algumas décadas o mundo começou a se defrontar com uma nova realidade: a visualização das minorias. É lógico que isso possui um lado bastante positivo. Hoje, o público feminino e a comunidade negra, bem como a turma dos GLS e as sociedades protetoras de pets gozam de direitos nunca dantes imaginados no mundo dos homens brancos ocidentais.

Em compensação, hoje também não é raro encontrar malucos que prefiram “dar a vida” para defender o que consideram maus tratos a uma dupla de cães a estender um dedo para ajudar crianças indefesas, já que essas, problemáticas como todo o ser humano, um dia crescerão e ajudarão a semear o mal sobre o planeta… Pensando bem, até que a ideia não é má. É bem melhor dedicar os nossos esforços aos animais, que deitam e rolam quando mandamos, que se enroscam em nossas pernas e lambem nossas mãos, do que gastar tempo com as pessoas, tão complicadas, que cedo ou tarde dão um jeito de demonstrar o seu egoísmo e a sua ingratidão.

De um jeito ou de outro, sempre vale a pena apontar o dedo para o Zé Endoença e lembrar que a culpa é dele!

Perdeu a graça

20 de setembro de 2011 1

De vez em quando me pego pensando nas vantagens e desvantagens da internet. Isso normalmente acontece depois que converso com alguém de pouca idade, que encontrou a revolução pronta e não teve a chance de participar da grande mudança proporcionada pela popularização da web.

Antes era tudo tão demorado; hoje é tudo tão rápido, tão frenético, tão obscenamente imediato!

À paciência e ao vagaroso prazer da descoberta, a internet, justamente por resolver um problema grave de acesso à informação, acabou nos obrigando a viver num mundo de verdades reveladas, de descobertas instantâneas e de superficialidade reinante.

Antes da internet, ou pelo menos até o momento em que ela ainda era um artefato de vizinhos excêntricos e endinheirados, ouvíamos um boato tresloucado, uma fofoca sobre a estrela de cinema, uma barbada do mercado imobiliário, uma teoria da conspiração… e ficávamos dias, talvez semanas, cogitando o caso com os amigos até termos o esclarecimento final dos fatos.

Nos dias atuais, como se sabe, bastam duas ou três googladas para compararmos os dados e descobrirmos a “verdade” por trás dos boatos, das fofocas, das barbadas e especialmente das teorias da conspiração, que, diga-se de passagem, perderam todo o glamour.  

Ninguém mais tem a oportunidade de acreditar que haja túneis secretos em Blumenau, que descobriram fotos da Scarlett Johansson pelada (fotos que imaginaríamos ao invés de visualizar na tela do laptop), que estão vendendo terrenos em solo lunar ou que existem alienígenas aprisionados pelo Pentágono. Eita mundinho mais insosso, sô!

Esse meu pensamento retroativo — vamos chamá-lo assim — me faz lembrar de um tio lá de Ituporanga e da máxima de que os avanços tecnológicos, além do estranhamento previsto, trazem uma saudade comparativa a cada geração.  O meu tio adorava assistir TV, mas só na época em que ela pegava mal, ou nem pegava, consistindo a programação em chiados e chuviscos que dominavam a velha Telefunken.

Quando a coisa evoluiu e as televisões começaram a funcionar com a nitidez de um espelho, o tio desistiu da telinha e saiu em busca de uma nova forma de entretenimento. Por que fez isso?

— Simples — foi a resposta. — Antes, quando eu tinha de adivinhar o que estava acontecendo na novela, a diversão era garantida. Agora, com essa clareza de som e imagem, o brinquedo perdeu toda a sua graça…

Morar em Blumenau

16 de setembro de 2011 3

Outro dia uma senhora me parou na rua e disse que adorava morar em Blumenau.

Sim, adorava, adorava, adorava!

Apesar do valor abusivo do IPTU e da administração atabalhoada do DEM, apesar das carrancas nos pontos de ônibus e da aparente antipatia desse povo loiro e pouco dado à conversa fiada, apesar ainda das enchentes e da atual poeira nas ruas, a Dona Tereza — pois se chamava Tereza — reiterou, e fez isso martelando as sílabas de um verbo gratuito e meio abilolado, que a-do-ra-va morar em Blumenau.

— Que máximo! — respondi como quem tenta participar da alegria geral do município. — Fico ex-tre-ma-men-te feliz pela senhora!

Depois segui caminho porque o tempo urge e a vida, pois é, ela continua, gostando-se ou não do lugar onde vivemos. Mas relatei essa passagem porque se trata de uma daquelas cenas que, justamente por serem tão desprovidas de sentido, adquirem um significado maior do que podemos supor à primeira vista.

Gostar de morar numa determinada cidade pode significar amor legítimo e verdadeiro, uma espécie de bairrismo inocente que jamais faria mal a ninguém, mas por outro lado, se pensarmos melhor, pode revelar uma forma de consolo e até mesmo de covardia.

Consolo porque, vamos e venhamos, é chato admitir que você não está por cima da carne seca, totalmente numa boa, colhendo os frutos de suas escolhas pretéritas, feliz e arreganhado como uma debutante na entrada do salão. E covardia porque — essa é mais simples — é melhor e mais inteligente enxergar o que é bom e ignorar, varrer para debaixo do tapete, o que é ruim.

Conheço gente que adora viver em São Paulo, apesar do trânsito e do alto custo de vida; que adora viver no Rio, apesar da violência e da soberania das favelas; ou que adora viver em Floripa, apesar da invasão das subcelebridades espetaculosas. Vejam que nesse tipo de formulação frasal sempre existe um “apesar de”, o que nos leva à simétrica conclusão de que uma formulação contrária também seria válida. Você detesta a violência, a favelização, o caos no trânsito e as subcelebridades, mesmo assim gosta de morar em São Paulo, Rio ou Floripa.

Ou Blumenau. Quer dizer, quem gosta de ficar por aí expressando a sua a-do-ra-ção pela cidade em que vive nada mais está fazendo do que imitar o figurino. Agora deixem-me seguir o meu caminho porque o tempo urge e a vida, pois é, ela continua.

Indústria das cheias?

15 de setembro de 2011 2

Ontem o Santa publicou uma curiosa matéria sobre a atuação “heróica” dos nossos políticos durante as enchentes. Alguns usaram as redes sociais para organizar as ações de socorro, outros fizeram coisa parecida através do rádio e da televisão e ainda outros arregaçaram as calças e saíram às ruas para, digamos assim, combater a crise ao lado do povo. (Quando escrevi a frase anterior, juro que senti uma repentina vontade de chorar, até porque me lembrei do Fidel Castro cortando cana com os camponeses cubanos!).

Assinada por Giovana Pietrzacka, a matéria faz exatamente aquilo que o gênero jornalístico deve fazer: informar, e não opinar, embora possa e deva sugerir um debate, uma discussão, uma tomada de posição por parte do leitor. Mas eu, ahá!, por outro lado, estou aqui para fazer justamente o contrário, quer dizer, a minha obrigação não é informar, mas dar palpites sobre manchetes veiculadas ou não pelo Santa, especialmente quando essas manchetes dizem respeito à performance de políticos excêntricos ou oportunistas além da conta.

Dito isto, lá vai: todo político é, por definição, um líder comunitário. Desse modo, é natural e até mesmo necessário que, num momento de calamidade, ele utilize os recursos de que dispõe para organizar as reações contra a adversidade. Está se promovendo? Claro que sim! Um político que não se promove definha e deixa de existir no cenário eleitoral. No entanto, vamos e venhamos: uma coisa é atuar na liderança da comunidade, outra bem diferente, mas bem diferente mesmo, é se aproveitar da desgraça coletiva para posar de super-homem ou salvador da pátria.

Tirando ações comprovadamente positivas, é impossível contabilizar a quantidade de políticos que apareceu proferindo asneiras nos meios de comunicação. Alguns, visivelmente despreparados para a tarefa, mais atrapalharam do que ajudaram, e houve dois ou três que, num alarde histérico que só gerou mais pânico entre a população, chegaram a anunciar que o rio alcançaria os 20 metros! Todo mundo sabe que no Nordeste existe uma indústria política da seca. Precisamos criar uma das cheias?

Mas o troféu joinha vai mesmo para o prefeito de Apiúna. Entronizou-se na concha de uma retroescavadeira e, como uma espécie de Rambo de Serraria, pôs-se a fazer justiça com as próprias mãos. Felizmente, segundo um amigo da cidade, um arigó da prefeitura ficou em terra firme para comandar as operações. Se eu fosse o Germano Costa, dono da foto que imortalizou a sensacional aventura, proibiria a utilização da imagem nas próximas eleições.