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Posts de agosto 2009

Jeitinho blumenauense

31 de agosto de 2009 4
Paro por aqui porque não pretendo me aventurar na questão, tampouco condenar o tal jeitinho e seus 180 milhões de praticantes em potencial, e isso pela mais prosaica das razões: hoje quero falar de outro jeitinho, um jeitinho tão adorável, nocivo e contraditório quanto o brasileiro. Hoje quero falar do jeitinho blumenauense. Como caracterizá-lo? Nada mais simples, amigo leitor. Basta preencher sua imaginação com fileiras e mais fileiras de florzinhas (o plural correto seria florEzinhas, mas prefiro a forma coloquial por ser mais parecida com o que quero dizer).
(Fragmento da crônica de amanhã, no Santa).

Postado por Maicon Tenfen

Memória de minhas putas tristes

28 de agosto de 2009 3

Gabriel Garcia Márquez: meditações sobre a velhice e a solidão./Divulgação.

Na época de seu lançamento no Brasil, Memória de minhas putas tristes, do Nobel colombiano Gabriel Garcia Márquez, bateu O Código da Vinci nas listas de livros mais vendidos entre nós. O dado numérico se faz necessário, porque Márquez, desde que estourou em 1967 com Cem Anos de Solidão, constituiu-se num raro exemplo de escritor coroado com o sucesso tanto de público quanto de crítica.
Naturalmente, não é fácil explicar um fenômeno dessa natureza, mas basta ler três linhas de qualquer de suas obras para percebermos que sua genialidade passa longe do hermetismo e da falsa erudição que se tornaram moeda corrente no mundo das letras. Márquez consegue ser simples sem ser banal, profundo sem ser prolixo, poético sem ser clichê.
“No ano de meus noventa anos”, começa o personagem-narrador, “quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem.” É assim, com apenas vinte palavras, num chute de primeira e sem pulo, que o autor configura o protagonista, promete uma grande trama e dá o tom para o resto de sua novela.
A partir dessa sentença de abertura, não por acaso polêmica, uma história aparentemente imoral vai aos poucos se transformando numa lírica meditação sobre a vida. E essa meditação, sempre intercalada pelas tiradas espirituosas da cafetina Rosa Cabarcas (“Também a moral é uma questão de tempo”), vem confirmar aquilo de que os mais novos desconfiam e que os mais velhos sentem na pele: o Amor, fantasma incansável, rondará e atormentará até o último de nossos dias.
Enquanto narra seus encontros noturnos com a púbere Delgadina, espécie de anti-Lolita enclausurada nos mistérios do silêncio e da inocência, o protagonista nonagenário, raro na literatura e praticamente impossível no cinema, revive suas lembranças de fidalgo terceiro-mundista e seus infinitos quase-amores de bordel.
O título, por isso, não é despropositado. As prostitutas de antigamente, que norteiam as inúmeras fases da longa e solitária trajetória do narrador, são concretas, vivas, delineadas, ao contrário da jovem aspirante a concubina, tão vaporosa e fugaz quanto às melhores virgens do Romantismo. Quem ler entenderá o porquê dessa diferença.
Claro que não estamos diante de um novo Cem Anos de Solidão, imbatível inclusive por seu próprio criador, mas isso não quer dizer que Memória… não tenha os encantos e a simetria das outras obras de Garcia Márquez.
Há, nas páginas iniciais, uma melancolia que nos remete às melhores passagens de Ninguém escreve ao coronel, até que essa comparação — inevitável — se dissipa ao entendermos que aqui há mais ironia e mais sutileza no tratamento dos dois temas essenciais do autor: a velhice e a solidão.
Livro que inquieta e diverte. Recomendo. Especialmente a quem anda meio desanimado com as listas de mais vendidos.

Postado por Maicon Tenfen

Continho quase infantil

27 de agosto de 2009 0
Era uma vez…
 
Mal abriu os olhos, o E percebeu que o R e o A, seus vizinhos de palavra, aparentavam uma estranha pigmentação.
— Onde estamos? — disse, esticando-se na base para enxergar melhor as adjacências.
— Não percebeu ainda? — respondeu o U, tão antipático quanto o M e o outro A que o acompanhavam. — Estamos na tela de um computador.
— Ô saco! — exclamou o V de “vez” (o segundo E ficou calado, porque era mudo, enquanto o Z, esquisitão e insociável, tentava se virar para a direção oposta). — Tela de computador é dose. Tenho alergia a toda essa luz que nos cerca. E depois morro de medo de levar um choque.
— Deixa de ser fresco! — gritou o M, que se achava superior pelo fato de possuir mais pernas que qualquer outro indivíduo do alfabeto. — No computador somos perfeitos, temos caracterizações mais diversificadas, mais dinâmicas. E depois, junto à mensagem que formamos, viajamos para longe, muito longe. Ainda mais agora com a Internet…
O V era meio esnobe. Elegante, sem dúvida, mas frágil devido ao equilíbrio precário. Mexeu os braços num sinal de deboche:
 — Tudo bem, tudo bem. Com certeza somos mais chiques, mas perdemos muito do glamour de nossos pais e avós. Pensem nos livros, nos alfarrábios, nos palimpsestos. Que bela aristocracia! Pensem nas letras capitulares da Idade Média. Aquilo sim é que era luxo!
— Que tal pararmos com essa discussão inútil? — tornou o primeiro E. — Alguém poderia me explicar quem é aquele sujeito?
— Sujeito? Que sujeito?
— Aquele ali, ó. Bem na nossa frente.
Um pouco intrigadas, as letras lançaram olhares para além do vídeo em que se encontravam. Viram uma face enorme, com grandes lábios e nariz, óculos de aros finos e testa larga, enrugada, sem um pingo de cabelo.
— Oh, Deus! — exclamaram os AA, trêmulos de pavor. — Esse monstro vai nos devorar.
— Vai nada — disse o V, que ficou engraçado e meio obsceno com as mãos na cintura. — Ele é apenas um escritor.
— Um o quê?
— Um escritor. Um sujeito tolo e cheio de ilusões que foi encarregado de nos colocar no papel. Quer dizer, na tela do computador.
— Nossa! Que olheiras profundas ele tem.
— Não são olheiras. Acho que ele está com fome. Dizem que pagam muito mal a esse tipo de gente.
— Vai ver está sofrendo de algum bloqueio criativo. Só três palavras em todo esse tempo. O que será que está tentando escrever?
— Provavelmente uma narrativa. Começou com o mais comum dos lugares comuns.
— Não, não. Vejam! Parece que desistiu do texto. Começou a fazer caretas e a dar socos no teclado.
— E agora — ai, meu Deus! — está mexendo no mouse.
— Ui! Que arrepio na espinha. O que aconteceu? Todos nós ficamos repentinamente brancos.
— E a página ficou negra. Sabem o que isso significa?
— Que ele vai usar o delete?
— OK, rapazes! Foi bom conhecer voceeeiiiiiiiiiiiiiissssssssss!!!
E lá se foram as letras, para o limbo do esquecimento, levando consigo o conteúdo das míseras palavras que formavam. Letras tão perfeitas, tão sofisticadas, tão abrangentes. Mas tão efêmeras também.

Postado por Maicon Tenfen

Eleições 2010

26 de agosto de 2009 1
Tudo corria bem para a campanha de 2010, Dilma e o PT pra cá, Serra e o PSDB pra lá, de modo que teríamos mais um plebiscito do que uma eleição propriamente dita. O voto do brasileiro não passaria de um “sim” ou um “não” às peripécias do atual governo. Nada mais agradável a Luís Inácio. Contando com níveis de popularidade nunca dantes imaginados, restava saber se Dilma seria identificada como lulista, bela chance de vitória, ou como petista, sinal certo de derrota. Vai daí, a Senadora Marina Silva renasceu das cinzas e trocou o PT pelo PV. O próximo passo será anunciar sua candidatura a presidente.
(Prévia da crônica de amanhã, no Santa).

Postado por Maicon Tenfen

Terror!

25 de agosto de 2009 0

Divulgação.

Etienne e Veronil
(Baseado num antigo conto provençal)
 
Ah, Etienne, percebes que algo vai mal. Abres teus olhos e tudo continua na mais profunda escuridão. Sentes calor, e sede , e respiras com dificuldade o ar abafado — o restinho de ar abafado — que te chega aos pulmões.
Mesmo assim imaginas que estás na tua aldeia, no teu lar, e que despertas ao lado de tua jovem esposa. Para tocá-la, estendes o braço direito, mas ele não vai longe porque se choca contra a madeira dura e intransponível. É o suficiente para entenderes que não estás em casa, nem ao lado de tua mulher e nem mesmo próximo de tua antiga rotina de camponês.
Onde estás, então? Pensas logo nas masmorras do Imperador, onde foste trancado por protestar contra os novos impostos da Coroa. Sim, é ali que te encontras, é ali que despertas para mais um dia, na tua cela cheia de ratos e no teu catre cheio de pulgas. Moras há muito na Ilha dos Suplícios, da qual poucos tentam escapar, e tens como abrigo as muralhas de pedra bruta, os grilhões inquebrantáveis e as portas estertoras do calabouço.
Respiras com dificuldade. É preciso que te levantes e vás até a janela do claustro — a minúscula abertura da parede colossal — para absorveres o ar fresco da madrugada. É preciso, mas não consegues. Bates com a cabeça numa tábua que, só agora percebes, encontra-se a centímetros do teu rosto. Um pozinho seco cisca teus olhos, irrita teu nariz, salpica tua boca. Começas a tossir e a mexer-te dentro do… Meu Deus!… do caixão. Agora entendes, pobre Etienne, entendes que foste enterrado vivo!
Teu primeiro intento é gritar, espernear e esmurrar a madeira que te cerca por todos os lados. Ficas quieto, porém. Não apenas porque sabes que o soco, o chute e o grito são inúteis, mas também porque te lembras de Veronil, o coveiro da prisão. Recordas-te de que tu e ele tendes um trato. Em troca de tua liberdade, a Veronil ofereceste metade do teu rebanho, um lindo rebanho que, sabes, continua aos cuidados de tua esposa devota. Mas como tirar-te do cárcere diante dos olhos de todos aqueles soldados?
O velho coveiro tinha um plano, um magnífico plano que, inclusive, proporcionara fuga a outros antes de ti:
 — Presta atenção, meu jovem. Se beberes deste chá esfumaçante, cairás como morto durante toda uma noite. Desse modo, poderei levar-te para fora dos portões. Serás enterrado (para que despistemos os guardas), mas amanhã reabrirei a cova e ficarás livre para correr ao outro lado da ilha e encontrar a pequena balsa que te levará de volta a tua família.
 — Enterrado vivo? Mas isso é medonho.
 — Não há outro jeito. Toma, leva contigo estes palitos de fósforo. Acende um, quando acordares. Um pouco de luz auxiliará a tua espera.
É verdade, Etienne, estás mais calmo. Agora que recobraste a memória, sabes que Veronil removerá a terra que te cobre para despregar a tampa do caixão. Depois disso, a liberdade.
Enquanto aguardas, imaginas como tudo ocorreu durante a noite. Veronil passa com o carrinho dos mortos e recolhe o teu corpo inerte. Depois sai pelos portões de trás, sempre acompanhado por dois ou três soldados, e te conduz até a capela, onde o padre, irritado, resmunga uma rápida prece funerária. Mais um minuto e o coveiro já está no depósito, escolhe um belo caixão para sepultar-te.
Daí para frente, Etienne, teus pensamentos não conseguem completar a cena. Tu te mexes no interior do caixão e percebes que tua camisa está completamente molhada. Sim, sentes um inconfundível cheiro de sangue, e sentes também, num próximo movimento, que há um pequeno peso sobre o teu peito. Apalpas o objeto, mas não consegues identificá-lo.
Os fósforos! Tu te lembras do que lhe fora dito sobre luz e consolo, enfias a mão no bolso e encontras o primeiro palito. Ao acendê-lo, todavia, descobres que o velho se enganara. As luzes, desta vez, assustarão mais que a escuridão: vês, sobre teu peito, os olhos esbugalhados e a face retorcida de Veronil. E é agora que teus pensamentos se completam. O plano fora descoberto, e os guardas, sádicos, decapitaram o coveiro para te presentear com a cabeça. Na testa dela, a sangue, uma inscrição: in pace requiescat.
Etienne, Etienne… Mesmo que seja inútil, só te resta arranhar as paredes do caixão, espernear até a fadiga, e gritar, gritar, gritar…
 
 

Postado por Maicon Tenfen, republicando.

Bom Selvagem!

24 de agosto de 2009 19
 E eu pensando que ninguém mais dava o chilique por causa das “bobagens” que escrevo! Reproduzo o e-mail que o Sr. João Adriano Perez da Silveira me enviou em resposta aos artigos Vale da Morte e Vale da Morte – 2, nos quais discuto a forma como a história da nossa colonização é descrita em textos didáticos usados nas escolas públicas de Blumenau. Não comentarei o texto, deixando as conclusões por conta de cada leitor. Também não fiz modificações, nem mesmo de ordem gramatical, com exceção das ofensas que o remetente lançou contra mim e os meus poucos leitores. Eu adoraria deixar as tais ofensas no texto, até porque, como já registrei aqui, prefiro o desaforo ao elogio, mas isso iria contra as normas éticas do Jornal de Santa Catarina, ao qual este blog está ligado. 
 
Maicon:
Você é mesmo uma piada. Sarcástico e ignorante da verdadeira história – leia mais, sobre indios recomendo o Coelho e o Darci Ribeiro. Você só quer criar polêmica com um inabalável senso comum e umas pitadas de ignorancia, aqui e acolá e mais adiante. Um dia vai se envergonhar disto. (…) Sabe quantos colonos foram massacrados pelos índios no Vale? E em que circunstâncias. Pela tua concepção deveríamos ir embora e deixar o Vale ignoto pros ignorantes selvagens. Teria lugar certo pra ti.
Os botocudos foram expulsos de Guarapuava no começo do século 19(1814) e vieram dar aqui quando já havia São Pedro de Alcantara cheio de alemães, inclusive o tal Alfredo Wagner. O Garcia já estava em Blumenau – no ribeirão que leva o nome desta família, seu (…) – vá ler Blumenau em Cadernos. Já tinha gente no Ribeirão do Koch em 1824. Pense nisto – Bem. Você nem sabe aonde isto é. Você não é jornalista coisa nenhuma, pois tem uma visão romanceada e de senso comum sobre indios no Vale. Chega a ser estúpido! Estes indios, como aliás os guaranis vindos do RGS, do Paraguay e do Mato Grosso do Sul também nem são daqui.São uns espertalhões que jogam com uma massa de ignorantes assim como Você. Os indios que estavam no planalto -= os caingangs, estes sim eram daqui, mas do Planlato e não do Vale.Os botocudos – que meus tios avós deveriam ter matados todos, são a pior gente que se possa ter notícia. Tudo o que é de ruim eles tem. Ladrões, mentirosos, sujos, covardes e… mimados por gente como Você que ignora a realidade da questão indígena. Um autêntico `bocó`-  vá saber o que é isto. Faziam guerras de guerrilhas entre sí pra roubar mulheres, suas primas. Eram grupos errantes que o Eduardo de Lima e Silva Hoerahmm – o pacificador dos botocudos `assentou` no Vale Itajaí do Norte. Massacraram famílias inteiras de colonos. E decerto Você defende isto, né. Os Tenfenn vem daonde hem? Nem tu sabe. Ignóbil tracejador de linhas mentirosas e cheias de preconceito. Cara – como Você é (…)! Já soube de Korikrã. Vá tentar saber. A questão do índio é muuuuito mais complexa do que Você pode imaginar. Já assistiu Aleluia Gretchen. Nem sabe o que é isto. A família do Martinho Bugreiro foi toda massacrada em Bom Retiro. Daí que a saga dele é vingança. Foi contratado por várias colonizadoras pra acabar com as ondas de massacres de colonos em diversas regiões do Estado. Pena que não acertaram uns Tenfenn, né! Tú nunca ouviu falar dos Coral, ou dos Castanho. Nunca, decerto. Fique com os Xóclens um ano lá em José Boiteux, bobalhão. Melecado de merda até o pescoço e de cachaça até a alma, se é que tens uma. Animais não tem. Cai na real.´Você não sabe nada de antropologia, etnocentrismo, diversidade cultural, e outro conceitos que não estão nem aparentes nos teus textos sobre indios. Daqui há uns vinte anos, escrevinhando aí, é que quem sabe Você poderia escrever o que tentou explanar(?) nos textos totalmente preconceituosos e deformantes sobre o Vale da Morte- que aliás, fica nos EUA. Os indígenas que restam aí na Reserva Duque de Caxias são uma mistura de tudo o que restou de bandidos e vagabundos desde 1917, com uns ladrões da Funai junto e o Zimmermann – procurador deles, lhes roubando. Escreve sobre isto. Vá falar co Zimmermann. Vai pra rua e tente se informar. Indios alí na reserva são só 18 por cento. Querem avançar sobre terras de Bonsucesso e Viuva Castilho e a reserva florestal nacional de araucária pra vender pros madeireiros de sempre. Tudo errado e Você não sabe disto.  Tem até caboclos fugidos da Guerra do Contestado. Você distorce tudo e decerto – como qualquer empregada doméstica que adora ver novelas, acredita no Bom Selvagem, um conceito ultrapassado na virada do século 19 para o século 20 – quer dizer, Você tá atrasado só uns cem anos. Se Você soubesse um pouquinho da real história do Vale, se arrependeria profundamente do que escreveu sobre o `Vale da Morte`. Nenhum Tenfenn decerto foi morto por indios. Devem ser uns covardões e nunca desbravaram nada. Gentre como a minha, que foi das primeiras a entrar nestas terras, sabe bem quanto custa a felicidade…Você é uma criança sonhadora que insiste em continuar escrevendo bobagens absurdas pra leitores mais (…) que Você. Você já matou uma galinha ? Fresco ! Fale cum parente do Martinho Bugreiro pra saber um pouco das razões que Você ignora. E decerto por ter se formado num cursinho destes, ou por ter lido alguns livrecos você se acha culto. Aposto que tens ainda sotaque alemão.Curto – isso é o que Você é. Pega uma corda e te atira.
 
João Adriano Perez da Silveira – gente que desde 1710 a partir de Tijucas, Penha, Itajaí, Ribeirão Garcia e Ribeirão do Koch assentaram gerações de colonos mansos e ignorantes assim como Você – que escreve aí estas bobagens porque não sabe fazer mais nada.Nada. Nadinha mesmo. (…) Se alguém der um grito tu te caga todo. Buh!

Postado por Maicon Tenfen, defecando-se de medo.

Educação

21 de agosto de 2009 4
Outro dia, por acaso, encontrei com amigos professores num restaurante e, sem perceber, emendamos uma conversinha muito chata e repetitiva sobre Educação. Digo chata porque nunca há novidades para quem é do meio, são sempre os mesmos problemas, os mesmos transtornos, a mesma falta de soluções; e digo repetitiva porque, quando nos demos conta, estávamos pronunciando as mesmas frases que costumávamos pronunciar há dez ou quinze anos.
Felizmente, um dos presentes teve o bom senso de encerrar o “debate”:
— A Educação não tem remédio. Pronto. Próximo assunto?
(Prévia da crônica de segunda-feira, no Santa).

Postado por Maicon Tenfen

O episódio do colar

21 de agosto de 2009 0
Espalharam na internet, com toda a sorte de salamaleques e desacertos, o inacreditável episódio do colar. Na época prometi que não tocaria no assunto. Todavia, agora que o caso veio à baila, entendo que já não possuo o direito de me calar a respeito.
Assim, movido por minhas obrigações cívicas e morais, e também na condição de testemunha ocular (e depois auricular) do evento, sou forçado a me manifestar publicamente e esclarecer, com todas as minúcias e peripécias, o que realmente aconteceu entre aquele sábado e aquela segunda-feira de abril de 1995.
Foi durante o período em que trabalhei como vendedor numa das principais joalherias de Blumenau. O sino batia meio-dia, hora de fechar, quando um casalzinho muito simpático — e muito suspeito — entrou na corrida e no último minuto.
Ele era baixinho, barrigudo, feio, mas bem falante e bem vestido, do tipo que se torna um melhor amigo depois do sexto minuto de conversa. E ela — ai, meu Jesus Cristinho! — ela era uma verdadeira valquíria, a típica blumenauense, linda, loira, fenomenal.
Estereótipos à parte, pensei cá com minha inocência: o que a dona de tantas delícias e sobejos fazia com aquele anãozinho de jardim?
— Não se acanhe — disse ele, e conduziu a moça até o mostruário mais próximo. — Escolha a joia que quiser. Dinheiro não é problema.
Ah, bom!
Interessante é que a valquíria não se acanhou nem se fez de rogada. Foi que foi seca num colar de safiras, se bem recordo a peça mais cara em exposição.
Sorriso ambulante, o baixinho sacou o bloco de cheques, preencheu o valor tranquilamente e entregou-me a folhinha com toda a educação. O gerente da loja torceu o nariz e olhou feio para mim. Um alarme soou na minha cabeça.
— Oh, entendo — disse o baixinho. — O valor é um pouco alto, né?
— O problema nem é o valor. É esse cheque. Desculpe, mas não posso aceitá-lo.
A loira quase levantou voo. Mas o baixinho não se deu por achado:
— Escuta, meu amigo, vamos fazer o seguinte: você fica com o cheque e com o colar. Segunda-feira, quando o banco abrir, você confere o fundo, faz o depósito e entrega a joia no endereço dela. Pode ser?
— Nesse caso, sim.
— E pra você, querida, algum problema?
— Não, claro que não. Imagina.
Então o baixinho se esticou nas pontas dos pés e estalou um beijo na boca dela (com cacófato e tudo). Saíram de mãos dadas.
Segunda-feira, quando fui ao banco, confirmei que o cheque NÃO tinha fundo. Um pouco constrangido, liguei para o baixinho e expliquei que, infelizmente, não seria possível entregar a joia na casa da loira.
— Loira? — resmungou ele, sonolento. — Que loira?
— A do colar, não lembra? No sábado… o senhor deixou um cheque na joalheria…
— Ah! — riu-se ele. — Esquece o colar. Não preciso mais dele, não.
— Por quê?
— Porque a loira… eh! eh!… a loira eu já tracei!

Postado por Maicon Tenfen, republicando

Manifesto das roliças, cheinhas e simpatizantes

20 de agosto de 2009 14

Botero.

1. Nós queremos cantar o amor às boas refeições, o hábito às lanchonetes e às pizzarias.
2. Os elementos essenciais de nossa beleza serão as gorduras localizadas, as estrias e a própria celulite.
3. Tendo a mídia até aqui enaltecido a magreza mórbida, as faces chupadas e as ancas esqueléticas, nós queremos exaltar as formas arrendondadas, as bochechas sensualmente rosadas, os antebraços que vibram como gelatina, os pneuzinhos sob a camisola suave, a gastronomia, a vida.
4. Nós declaramos que o esplendor do mundo se enriqueceu com uma beleza nova: a beleza das gordinhas. A Gisele Bünchen é um amor de pessoa. Pena que seja magrela e sem bunda. As gordinhas também sentem e despertam tesão. O prazer não vem da forma, mas do desempenho.
5. Solidariedade é a nossa palavra de ordem. Solidariedade aos homens gordos ou simplesmente barrigudos. Aos carecas. Aos baixinhos. A todos, enfim, que não se enquadram nos padrões globais de beleza e consumo.
6. Propomos que todos os que comercializam a felicidade através das dietas milagrosas sejam queimados em praça pública.
7. Não há mais beleza senão na gordura. Nada de obra-prima sem um caráter adiposo. A consciência da mulher madura deve ser um assalto violento contra a silhueta padronizada e sua consequente histeria consumista.
8. Por que não prestar atenção nas verdadeiras delícias da vida? Um domingo no parque, um abraço apertado, um poema do Drummond? O bisturi é perigoso. As academias, tediosas. E as dietas, especialmente as milagrosas, uma calamidade.
9. Nós queremos glorificar a gordura – única verdade do mundo. Nossos maridos sabem o que pegam. O silicone e a lipoaspiração são as grandes falácias do nosso tempo.
10. Nós queremos demolir as academias e os institutos enganadores. Direcionamos nosso mais profundo desprezo aos tele-programas femininos que num bloco apresentam a dieta da semana e no outro a dica culinária e sempre gordurosa de algum cozinheiro inescrupuloso.
11. Livros, revistas, televisão, clínicas, simpatias, bruxedos e muito mais prometem o emagrecimento mágico e redentor. Ao inferno com tudo isso. No nosso dinheiro eles não metem mais a pata.
12. Fica claramente declarado que, a partir de hoje, a mulher que pedir desculpas por estar acima do peso estabelecido e padronizado pelo mercado da felicidade frustrada será considerada boba, panaca, otária etc.
13. E temos dito!
 

Postado por Maicon Tenfen

Raul Seixas

20 de agosto de 2009 11
Em 1990, um fã invadiu o cemitério onde o corpo de Raul Seixas está enterrado e tentou roubar a lápide do cantor para transformá-la na peça central de um santuário composto por discos, cartazes, fotos e recortes de jornal. Longe de ser isolado, o fato demonstra que muitos dos seguidores do Maluco Beleza não veneram a memória de um artista, mas a de um guru, um mago, um guia espiritual, alguém que conheceu a verdade da vida e por isso possui as respostas certas para as perguntas incertas dos fiéis. Perdoem-me se pareço grosseiro, mas essa adoração mística do Raul não passa de uma cretinice típica de quem não tem o que fazer.
(Leia o resto amanhã, no Santa).

Postado por Maicon Tenfen