Certa vez, depois de aturar o papo-aranha de um sujeito que glorificava o estilo ordeiro e o empreendedor da cidade, respondi que ele estava falando como um blumenauense típico. Naquela época, e isso expliquei a ele, a posição do adjetivo era crucial para debatermos o tema. Uma coisa é o “típico blumenauense”, aquela caricatura que aparece na TV em outubro, outra bem diferente é o “blumenauense típico”, algo como a caricatura da caricatura. Embora o sujeito não fosse blumenauense de berço (só “de coração”, como se exige de quem desembarca na nossa rodoviária), sinalizou que não havia gostado muito da gracinha. Com a amarela dignidade de um intelectual, farejei o perigo e dei um jeito de sair pela tangente.
Mas desde então não esqueci o assunto. Qual seria a expressão, o slogan, a palavra de ordem capaz de sintetizar esse estado de espírito característico da cidade? Descartando a banalidade dos discursos oficiais, tentei encontrar uma resposta na observação do cotidiano. Tenho uma amiga — blumenauense ela mesma — que reclama muito do clima “aquisitivista” da região. Contou-me que foi perdendo os colegas do chope e das baladas porque, conforme o tempo passava, todos botaram na cabeça que havia chegado a hora de cessar a diversão para adquirir o “casón” e o “carrón”. A imagem é interessante, mas ainda acho que é genérica e um pouco vaga. O ato de adquirir puro e simples não diz tudo, há algo faltando nessa história.
Pois bem. Após anos de meditação, acho que descobri um retrato capaz de resumir, ao mesmo tempo, toda a grandeza e toda a miséria do blumenauense fundamental (e aqui uso nova nomenclatura para deixar a história do “típico” lá atrás). No último domingo, ao dar uma volta pelas ruas do meu bairro, não pude deixar de perceber a quantidade de pessoas lavando e encerando os seus carros. Nada novo nisso, mas o modo como o blumenauense limpa os automóveis, e em plena tarde de domingo, com o Faustão se esgoelando ao fundo, é uma dessas imagens que valem por mil palavras.
Existe uma espécie de ternura, de lascívia, mas também de orgulho e exibicionismo na forma com que acariciamos o mais representativo de todos os bens de consumo, e isso vale para o dono do fusquinha e o do BMW. Digo em minha defesa que tentei me livrar do pensamento, mas não teve jeito. De agora em diante, sempre que alguém mencionar o que seja um blumenauense fundamental, pensarei numa esponja e num sujeito esfregando o capô. E, claro, com o Faustão gritando “ô louco!” em algum momento.
Postado por Maicon Tenfen, republicando para inticar.
Cara, não foi por causa do que o Martins escreveu aí embaixo. Mas enquanto lia o teu post, tbem pensei em gado. Será que no teu texto tem uma mensagem subliminar que nos faz ver o blumenauense típico assim?
Lavar carro ao som de música ou de tevê não é virtude só de blumenauense. Em São Paulo também se faz isso, no mundo inteiro se faz isso. É coisa da cultura de massa. Eu sou blumenauense, e acho que a cidade está deixando de ser provinciana e assume a sua cultura verdadeira aos poucos, a dos colonos alemães e italianos. Só que na era Vargas e na 2ª Guerra, esses foram abrasileirados a força, o que trouxe sequelas em vários níveis. Talvez, o caráter reprimido e moralista do blumenauense venha daí.
Eh, Oh,Oh, Vida de Gado...