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Posts de setembro 2009

Oktoberfest

30 de setembro de 2009 8
Conforme os anos passam, a Oktoberfest fica mais chata e sem sentido. Fala-se em cultura germânica, seja lá o que isso possa significar hoje em dia, mas na prática temos magotes de bêbados inoportunos, brigas por todos os cantos, enfermarias lotadas, baldes de vômito e idiotas mostrando a bunda nos semáforos.
Mas isso não é problema — de repente pode até ser diversão, já que temos louco pra tudo —, e não era exatamente esse o assunto que desejo abordar, aliás, hoje eu nem queria escrever sobre a Oktober. A cidade está tão empenhada no tema que referendá-lo seria o mesmo que pagar pau ao óbvio ululante rodriguiano. Só que me arrisco mesmo assim, devo me arriscar, a data exige e, mais que isso, as circunstâncias que envolvem o nosso carnaval de outubro.
                     (Prévia da crônica de amanhã, no Santa).

Postado por Maicon Tenfen

Breve história de um leitor - parte final

30 de setembro de 2009 0
Folhetim autobiográfico – parte final
Mas nem sempre fui tão feliz e bem sucedido quanto nesse caso. Como todos os que respiram sobre a terra, o contador de histórias também está à mercê do fracasso, e o fracasso, é triste reconhecer, muitas vezes nos condecora com uma dor que extrapola o sentido figurado. Logo depois da onda de interesse causada pelas maldades de Setembrino, minha capacidade de inventar personagens e tramas, ou mesmo de adaptá-los da realidade empírica, tornou-se subitamente menor que o público disposto a me ouvir. Senti necessidade de garimpar mais histórias nas minhas leituras, mas não para contá-las como experiências de leitura — o que não funcionaria, como já tive chance de comprovar — e sim como experiências autênticas de vida, fatos superados ou no mínimo testemunhados.
          Embora já conhecesse os livros, não havia largado os gibis no seminário. Enquanto devorava os romancinhos da Coleção Vaga-Lume e os contos que Herberto Sales escreveu sobre o folclore brasileiro, continuava lendo quadrinhos, meus ou emprestados, porque, entre os interessados, todo o tipo de material impresso costumava circular de mão em mão. Entre a minha pequena coleção de gibis, havia um com historietas de terror que eu apreciava muito. Dele tirei um conto que incluí no meu repertório e passei a disseminar durante as breves pausas que dava ao infalível Setembrino. Ainda posso visualizar cada desenho e cada lance da história.
          Havia, numa cidadezinha do interior, um sujeito boa pinta e pé-de-valsa que, nos bailes, dançava com todas as moças, menos com a mais pobre e mais feia das redondezas. Para complicar, a coitadinha estava apaixonada pelo rapaz. Suas declarações de amor, entretanto, não encontravam ressonância fora do desprezo e do escárnio dele, que era muito convencido. Eis que a moça morre afogada. Talvez porque tenha se recusado a guardar luto, o rapaz foi cercado numa encruzilhada, à meia-noite de uma sexta-feira 13, por um sexteto de almas penadas que, empunhando gaitas e violões, começaram a tocar uma série de músicas dançantes. O fantasma da moça também apareceu, e o pé-de-valsa, sem alternativa, viu-se forçado a dançar com ela até o sol nascer.
          Como de praxe, inseri no episódio uma série de pormenores familiarizantes e referências regionais: a encruzilhada ficava a poucos quilômetros da casa de meus avós; a moça morrera afogada no Itajaí-açu; os músicos-fantasmas, não se sabe por quê, tocavam apenas xotes e vanerões; e o pé-de-valsa, claro, era ninguém mais ninguém menos que um tio aloprado que eu tinha. Se não me falha a memória, consegui um certo sucesso com o público. O problema é que, dias depois, o gibi do qual roubei a história caiu nas mãos de um certo Samuel, da oitava série, um dos meus ouvintes mais atentos (e mais fortes também).
          Veio tomar satisfações tão-logo descobriu a fraude:
          — O que é isso? — gritou, atirando-me o gibi no rosto. — Não foi o seu tio coisa nenhuma! Você só quis fazer a gente de palhaço!
          — Calma, eu…
          Não pude concluir. Ele se sentiu tão enganado e ofendido que a única coisa que lhe ocorreu foi me dar um murro no nariz. E deu com toda força, pois o sangue correu farto e pintou a minha camisa de vermelho. Foi o primeiro dos muitos socos que eu levaria vida afora. Mas com esse soco — gosto de olhar o lado positivo das coisas — recebi uma justa e valiosa lição: o plágio não compensa.

Postado por Maicon Tenfen

Breve história de um leitor - parte 7

30 de setembro de 2009 1

Divulgação.

Folhetim autobiográfico – parte 7         

Numa tarde de faxina, enquanto varríamos o pátio externo, relatei a um colega da turma as peripécias do temido e famigerado Setembrino Piava, um pistoleiro com mais de quarenta mortes nas costas que, além de botar medo nas polícias da Argentina, do Uruguai, do Paraguai e do sul do Brasil, tinha o corpo fechado e atualmente era um dos únicos hóspedes da pensão dos meus pais. Se esse Setembrino não era uma criatura totalmente fictícia, pois adaptei sua trajetória e suas características de boatos que ouvi na infância, é lógico que não devia ser tão vastamente famoso, nem podia ter o corpo fechado, já que na época eu mal sabia o que isso significava, e — que dúvida? — é lógico que meus pais nunca foram proprietários de nenhuma pensão.
          Todas essas minúcias, porém, eram necessárias, ao menos como mecanismo de persuasão. Se o personagem fosse familiar e bem detalhado, as chances de o ouvinte crer no contado cresciam consideravelmente. De qualquer forma, e apesar dos meus esforços, parece que meu amigo não estava muito disposto a acreditar nas minhas invencionices. Então parti para uma estratégia de risco. Ao falar da última vítima de Setembrino, revelei a meu incrédulo ouvinte que só fiquei sabendo do incidente graças a uma carta que acabara de receber da minha mãe. Antes que ele pedisse, rapidamente me ofereci para lhe mostrar a correspondência e enfim provar a verdade das minhas palavras.
          Encerrada a faxina, corri para o chuveiro e tomei um banho relâmpago. Enquanto os outros seminaristas comiam sanduíches no refeitório, busquei papel e caneta e, escondido no confessionário da capela, falsifiquei a carta e a letra da minha mãe. Para tornar a artimanha verossímil, enumerei todos os clichês que imaginei numa carta materna, as recomendações para que cuidasse da minha saúde, para que obedecesse aos professores e estudasse mais, as novidades da casa e da nossa família, algumas notícias sobre meus irmãos e minhas irmãs (detalhe: nunca tive irmãs) e, para fechar com chave de ouro, uma inocente fofoquinha sobre a filha da vizinha, aquela desmiolada. No fim da carta, com uma casualidade que provavelmente soaria falsa a um leitor mais maduro, minha mãe falava do Senhor Setembrino e de seu terrível hábito de folhear o álbum negro onde mantinha as fotografias de todas as suas vítimas, inclusive da última, um pobre moço que, todos juravam, fora seduzido pela voluptuosa esposa do prefeito.
          Pus a falsificação num envelope usado, com selos já carimbados pelo correio, e poucos minutos após ela passou para as mãos do meu amigo São Tomé, que a leu com olhos brilhantes e de imediato pediu permissão para mostrá-la a outros seminaristas. No mesmo dia, depois do jantar, senti-me um rei ao ser procurado por um grupo de moleques que também queriam conhecer as façanhas e as carniçarias do diabólico Setembrino. Nos dias, meses e anos seguintes, vi-me na incumbência de criar uma espécie de Setembrineia. A saga do pistoleiro cresceu e se desdobrou em capítulos, o personagem ganhou uma juventude, uma velhice e uma morte exemplar, passou por várias versões e hoje figura num de meus livros, Mistérios, mentiras e trovões!, sob o pseudônimo, talvez menos sonoro, de Anastácio Menezes.

                                                       (Continua no próximo post).

Postado por Maicon Tenfen

Breve história de um leitor - parte 6

29 de setembro de 2009 2

Folhetim autobiográfico – parte 6

Mas creio que não foram apenas esses os fatores que me descortinaram as grandes possibilidades da leitura e mais tarde da escrita. Nos meus primeiros meses de seminário, lembro bem, ouvia com certa admiração e até mesmo com uma discreta inveja as reclamações de estudantes da oitava série que, como parte fundamental de seus estudos de Língua Portuguesa, tinham de resumir os enredos de livros seriíssimos, destinados apenas aos iniciados, que traziam em suas capas títulos exóticos como Iracema e Ubirajara. Por incrível que pareça, eu também queria ter o direito de me tornar importante através da leitura desses textos elevados e, de quebra, possuir uma razão a mais para xingar o professor.
          Por outro lado, igualmente invejava os poucos seminaristas que, ao contrário dos primeiros, falavam da Virgem dos Lábios de Mel e do índio Jaguarê com uma familiaridade que lhes atribuía experiências bem maiores do que realmente possuíam. Quando alguém relatava com palavras corriqueiras uma obra de cem ou duzentos anos de idade, investia-se, ao menos a meu ver, de uma aura carregada de nobreza e sabedoria. Tiro disso uma modesta conclusão: lemos porque temos curiosidade e queremos descobrir mundos alternativos, mas também lemos porque precisamos ter o que contar e, sobretudo, o que compartilhar com nossos semelhantes.
          Assim, de tanto imitar alguns desses meus colegas mais velhos, lentamente me tornei aquilo que se poderia chamar de um contador de histórias, alguém que gostava de entreter ou chatear os amigos com tramas escabrosas extraídas da realidade, dos livros ou da imaginação. Muitas vezes, nas longas conversas que tínhamos à noite, depois do jantar, alguns dos meus colegas solicitavam que eu contasse mais “uma daquelas”, de preferência uma que contivesse assombrações ou enigmas insolúveis, mas muitas também foram as ocasiões em que alguém interrompia minhas narrativas com impaciência e grosseria:
          — Ah, cara! Por que não cala a boca e para de encher o saco?
          Tentei calar a boca, juro que tentei, como também passou a me abominar a ideia de encher o saco dos outros. No entanto, fui envolvido de tal modo pela lascívia do relato que, a partir de um determinado momento, tornei-me incapaz de participar de uma conversa mais longa sem sacar algum enredo da cartola. Com o tempo, percebi que as pessoas não suportavam ouvir casos que identificassem como mera ficção, como parte de um livro ou de um filme. Se acreditassem, por outro lado, que o conteúdo do conto fosse real, arregalavam os olhos e praticamente não piscavam antes do desfecho. Um bom contador de histórias precisa necessariamente ser um bom mentiroso, e todos sabemos que não há nada pior para um mentiroso que ser desmascarado enquanto tece a sua mentira.
          Fui desmascarado várias vezes, e por isso pagava o preço a que todo contador de histórias está sujeito ao cultivar o seu vício, mas também lembro que, quando conseguia convencer a plateia da veracidade dos meus relatos, e pouco importava se a plateia fosse composta por um ou por dez ouvintes, experimentava uma alegria e uma plenitude espiritual dificilmente explicáveis em palavras. Desconfio que foi esse inebriante sentimento de recompensa que me tornou o mentiroso obcecado que tantas vezes se aproximou do ridículo.

                                                    (Continua nos próximos posts).

Postado por Maicon Tenfen

Breve história de um leitor - parte 5

28 de setembro de 2009 0

Gutemberg: o pai espiritual de todos os leitores ocidentais./Divulgação.

Folhetim autobiográfico – parte 5
      
 Naturalmente, por tudo que relatei até agora, não preciso reafirmar que a minha razão de ser como leitor se encontrava e se encontra mais essencialmente nesses ditos livros recreativos — contos, novelas, romances, dramas e poemas — que reinventam a vida e as sociedades de mil formas e de mil formas procuram nos entreter, nos consolar ou despertar nossa rebeldia e nosso inconformismo quando, por analogia, vislumbramos o chamado mundo real sob a perspectiva da arte.
          Aqueles trinta minutos de leitura obrigatória, que aos poucos foram irrigando meus momentos de folga e principalmente o horário destinado às tarefas escolares (no qual a leitura de romances era proibida!), conduziram-me aos autores e às obras que formavam a nossa pequena e esplêndida biblioteca: Marcos Rey, José Mauro de Vasconcelos, Aristides Fraga Lima, José Maviel Monteiro, Robert Louis Stevenson, Emilio Salgari, Edgar Allan Poe, Júlio Verne, Alexandre Dumas, Bram Stocker e outros.
          Naquele então eu desconhecia qualquer diferença entre autor “sério” e autor “popular”, autor “agregado” e autor “segregado”, autor “rebelde” e autor “cooptado”, e isso era bom. O único critério que organizava minhas escolhas dizia respeito ao interesse ou ao aborrecimento que um livro pudesse me causar. É claro que o título e a capa norteavam o meu passeio pela biblioteca. No entanto, se o texto não correspondesse às expectativas criadas pela fachada, seria devolvido antes da vigésima página e substituído por outro que me parecesse mais auspicioso.
          Não sou a favor da obrigatoriedade e muito menos da proibição, mas seria um hipócrita se negasse que esses dois fatores, pelo menos no princípio, é que me fizeram “progredir”, se é que essa palavra será possível aqui, de leitor de quadrinhos e pocket books para leitor de livros diversos. A leitura de contos e romances rapidamente se tornou um prazer para mim, mas o primeiro passo sem dúvida foi dado por aqueles poucos instantes diários em que era obrigado a ler.
          Quanto à proibição, logo descobri que havia uma seção de obras malditas na biblioteca do seminário, obras que não deveriam ser emprestadas sem que o interessado conversasse antes com o padre-orientador. Curioso: se aqueles livros não podiam ser lidos sem uma orientação prévia, por que ficavam tão expostos e ao alcance de qualquer mão? Seria algum tipo de descuido gerado pelo excesso de confiança na inquebrantável disciplina da casa? Ou, por outra, seria uma forma meio matreira de aguçar nossa curiosidade em relação aos segredos escondidos naquelas páginas?
          Nunca soube a resposta. Só sei que, com a ajuda de amigos, dei um jeito de distrair o bibliotecário e surrupiar alguns dos volumes secretos. Minha decepção não pôde ser maior. Eram maçantes digressões sobre temas como a Teologia da Libertação, sofisticados e sérios demais para alguém da minha idade, ou então textos crivados de sexo e palavrões que, divertidos num primeiro momento, logo se tornavam chatos devido ao seu caráter repetitivo e banalizador. Nos mesmos moldes da Operação Empréstimo Forçado, realizamos a Operação Devolução Obscura e retornamos aos caudalosos romances de Karl May, então uma febre que se abateu sobre mim e muitos dos meus colegas de classe.
                                                    (Continua nos próximos posts).

Postado por Maicon Tenfen

Breve história de um leitor - parte 4

28 de setembro de 2009 0

Divulgação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Folhetim autobiográfico – parte 4         

Infelizmente, não passei pela mesma descoberta em relação aos chamados livros espirituais. A nossa hora diária de leitura era sabiamente dividida em três partes. Os quinze minutos de dedicação à Bíblia ocorriam no fim da tarde, pouco antes da missa. Os trinta destinados aos livros recreativos se davam à noite, das 8h às 8h 30min, uma espécie de aquecimento à seriedade dos estudos que viriam depois. Os quinze minutos de leitura espiritual, por fim, eram a última atividade do dia — menos às quintas, quando havia oração na capela — e nos pegavam no mais das vezes cansados e sonolentos.
          Os livros dessa natureza, quase sempre longas e tediosas dissertações sobre o poder da fé ou o papel da Igreja na emancipação dos povos, pouco ou nada tinham a me dizer. Eu gostava mesmo era de ação, de mistério, das peripécias lendárias, por isso os debates teológicos, mesmo quando apresentados em linguagem didática, pareciam-me estar a anos-luz das façanhas e dos heróis dos quadrinhos que secretamente mantinha no meu armário.
          Não digo que nunca tenha lido um livro espiritual interessante o suficiente para me agradar. As biografias de santos ou de grandes ícones do catolicismo figuravam nessa classificação, e às vezes era possível encontrar o dinamismo das boas narrativas nas vidas atribuladas e cheias de reveses de, por exemplo, São Francisco de Assis e Santo Antônio de Pádua e Lisboa. No geral, entretanto, os livros espirituais nada possuíam dos enredos e dos personagens que eu tanto apreciava. Eram textos que desprezavam a alegria da fabulação para se concentrar unicamente em reflexões sisudas sobre as comunidades cristãs, quando não em moralismos reacionários e grosseiros, e me forçaram a desenvolver a eficientíssima habilidade de dormir sentado, sem deixar que o chefe de classe e os outros colegas (muitos se tornaram delatores impiedosos) percebessem.

                                                   (Continua nos próximos posts).

Postado por Maicon Tenfen

Dois anos

25 de setembro de 2009 4

Divulgação.

Rapaz, quase não me dei conta! Ontem a coluna diária no Santa completou dois anos. Para “comemorar”, reproduzo a crônica de hoje, na íntegra, pois ela me saiu como uma espécie de declaração de intenções.
Grande abraço do
Maicon
 
Direitismo
 
Depois que manifestei minha admiração pela escola de um assentamento do MST que visitei há alguns dias em Fraiburgo (SC), recebi uma dúzia de e-mails me acusando de ser ingênuo e irresponsável, ou seja, de ser ESQUERDISTA. Alguns desses e-mails são raivosos, outros condescendentes, outros irônicos e até mesmo divertidos (no bom sentido). Alguns possuem embasamento teórico invejável, mas outros são simplesmente paranoicos, esquizofrênicos, conspiratórios, e todos, em absoluto, são doutrinários, pedagógicos e proselitistas, ou seja, tentam converter minha pena ao ideário salvacionista da liberdade individual e da economia de mercado.
Peço que leiam o que agora escrevo com observância, pois falo como uma donzela a quem passaram a mão: a pena de Maicon certamente vale pouco, mas mesmo que valesse muito não estaria a serviço de nada que se afaste da minha maneira meio deficitária de ver o mundo, isto é, da minha própria ignorância. O recado vale para todos os arautos do radicalismo, sejam de direita ou de esquerda, e vale também para os leitores, que podem esperar tudo de mim, menos mentira e bajulação, bem como para os editores, que sempre mantiveram a palavra de respeitar a precariedade do meu texto e a futilidade das minhas opiniões.
De resto, não tenho o hábito de desrespeitar as pessoas que professam ideias diferentes das minhas, e é por isso que, no meu blog, fiz questão de inscrever a máxima de Voltaire: “Posso não ser a favor de nenhuma palavra que tu dizes, mas defenderei até o último instante o direito de dizê-la.” E é justamente essa consciência que me autoriza a ignorar e-mails que, contaminados por preconceitos de uma direita destemperada e irracional, chamam Sartre, Marcuse, Derrida e Deleuze de pseudointelectuais, ou que, difundindo teorias conspiratórias dignas de Dan Brown, classificam Marx como um satanista que realizava missas negras em sua casa.
Entendam, meus caros, não posso dar corda a esse tipo de paranoia. Mais um pouco e estarão afirmando que “agentes bolcheviques” da minha laia, infiltrados na imprensa, desejam que os negros, os gays, as mulheres e os paranaenses (no contexto local) façam uma devassa e enforquem a maior quantidade possível de blumenauenses fundamentais. Vocês sabem que eu jamais pensaria numa coisa dessas.

Postado por Maicon Tenfen

Breve história de um leitor - parte 3

25 de setembro de 2009 1

Divulgação.

Folhetim autobiográfico – parte 3         

Apesar dessa receptividade pouco calorosa à minha mania de ler gibis, o seminário possuía uma biblioteca esplêndida, talvez não muito grande, mas com certeza bastante completa e convidativa. Todos os estudantes tinham a obrigação de frequentá-la. Entre as três longas horas que diariamente dedicávamos às tarefas escolares, havia um tempo reservado à prática “descompromissada”, porém obrigatória, da leitura. Todos os dias, inclusive aos sábados e aos domingos, tínhamos por norma dedicar quinze minutos à Bíblia, quinze aos livros espirituais e outros trinta aos livros recreativos.
          Digno de nota é que isso não era uma opção. Devíamos ficar na sala onde realizávamos nossos estudos, sentados em fileiras e em silêncio absoluto, sem poder fazer nada além de olhar para o livro que fatalmente precisava estar aberto sob nossos narizes. Às vezes, quando recordo aquela época, fico imaginando como era possível que três dezenas de meninos de 11 e 12 anos fossem capazes de permanecer em silêncio durante tanto tempo e, o mais escandaloso, sem ninguém a não ser o líder da classe para garantir a ordem. A explicação, claro, está na rígida disciplina a que éramos submetidos desde o nosso primeiro minuto de seminário.
          Confesso que achei um pouco estranho ser forçado a ler a Bíblia, embora já tivesse a capacidade de compreender que isso seria inevitável numa escola feita para a formação de religiosos. Pra ser sincero, nos primeiros dias ou mesmo nos primeiros meses eu me recusava a dar atenção ao Livro Sagrado, e sei que o mesmo acontecia com meus colegas, pelo menos em sua maioria. Mas o tempo foi passando e, como minha única alternativa era ficar ali folheando as finíssimas páginas do Pentateuco, dos Salmos, dos Provérbios e do Novo Testamento, num certo dia decidi, quase num arroubo de cólera, que leria tudo aquilo de cabo a rabo. Para assegurar que minha decisão continuaria firme na manhã seguinte, lancei um desafio a mim mesmo: teria paciência o suficiente para chegar ao fim? Fechei a Bíblia num estrondo que chamou a atenção dos meus colegas, respirei fundo e tornei a abri-la na primeira página. “No princípio, Deus criou o céu e a terra.” Existe começo mais radical do que esse?
          Realmente não lembro se nos dois anos seguintes cumpri o desafio com toda a honestidade, sem pular páginas, capítulos ou mesmo livros inteiros, mas pouco demorou para que eu me desse conta da variedade e da riqueza das histórias que desfilavam diante dos meus olhos. Antes de ser uma obra religiosa, uma mensagem de Deus aos homens, um código de conduta ou a expressão de uma verdade universal, a Bíblia é nada mais nada menos que literatura, é uma coleção de livros que contêm aventura, romance, suspense, emoção. Não é por acaso que os estúdios de cinema, desde o seu nascimento, vêm adaptando e readaptando as sagas bíblicas para as telas. O público gosta de boas histórias, e a Bíblia, tive a chance de perceber logo nos meus primeiros anos, está cheia delas.

                                                       (Continua nos próximos posts)

Postado por Maicon Tenfen

Breve história de um leitor - parte 2

25 de setembro de 2009 0

Folhetim autobriográfico – parte 2

Quando concluí a quarta série primária, minha família achou por bem que eu deveria continuar meus estudos num colégio de padres. Em março de 1987, então com 11 anos completos, mudei-me de mala e cuia para o Seminário São Francisco de Assis, um internato que ficava a menos de dois quilômetros da casa dos meus pais.
          Ainda que tenha estudado apenas dois anos e meio nesse colégio, desde cedo pude afirmar, sem medo de erro, que o seminário mudou completamente a minha vida porque me inseriu de vez no mundo dos livros e me embriagou com o desejo de narrar, de inventar e de fantasiar a existência para torná-la menos banal do que geralmente é. Sem a minha passagem por ali, é provável que eu não tivesse aprofundado os meus hábitos de ler e escrever.
          Graças à meia-dúzia de gibis que levei na bagagem, logo descobri que as HQs, embora não fossem sumariamente proibidas no seminário, não eram vistas com bons olhos nas mãos dos estudantes, e isso não apenas por parte dos padres e dos professores, mas também dos seminaristas mais velhos que já estavam imbuídos de preconceitos contra a frivolidade dessas publicações.
          Lembro-me de um fato, logo na minha primeira semana como interno, que me esclareceu essa questão de forma inequívoca. Talvez por causa da lentidão com que costumo me enturmar, passei meus primeiros momentos de folga lendo números antigos das Superaventuras Marvel. Numa certa tarde, um bando de estudantes da oitava série passou por meu armário e um deles, que usava óculos fundo de garrafa, colocou as mãos para o alto e exclamou a todo volume:
          — Pelo amor de Deus! Você veio pra cá pra ficar lendo gibis?
          Até hoje não sei se o comentário tinha por finalidade me incentivar a fazer parte do grupo ou me deixar excluído de uma vez. Por via das dúvidas, tratei de interromper a leitura e, por um bom tempo, não fui mais visto com nenhuma HQ em público.

                                                      (Continua nos próximos posts)

Postado por Maicon Tenfen

Breve história de um leitor - parte 1

24 de setembro de 2009 0

Divulgação.

Folhetim autobiográfico        
Embora ciente de que a palavra “romance” seja pesada para o tipo de livro a que ora me refiro, gostaria de começar afirmando que leio romances desde os dez anos de idade. Minhas lembranças me remetem a um desses westerns vendidos em bancas de jornal, um pocket book impresso em papel barato, provavelmente encomendado a algum aspirante à glória literária forçado a usar pseudônimos que soassem estrangeiros. Achei o bolsilivro na casa da minha avó durante uma tarde chuvosa, no fundo de uma velha gaveta e junto a outro exemplar do gênero. Estranhamente, lembro-me de Flechas Sanguinárias, título do livrinho que não li. Do que li, guardei apenas o nome da coleção — Oeste Beijo & Bala — e a ilustração da capa: uma loira peituda com um decote cheio de babados e uma Winchester engatilhada nas mãos.
          Não faço idéia de como aqueles dois livrinhos mundanos foram parar numa casa tão “católica” e desabituada à leitura como a de minha avó. Só sei que, antes daquela tarde, já haviam passado várias vezes por minhas mãos. Folheados com provável interesse inicial, voltavam à gaveta por não possuírem gravuras, falta grave para quem lia somente quadrinhos e desde cedo aprendera a conhecer o mundo pela televisão. Naquela tarde de chuva, enfim, sem nenhuma HQ por perto, deixei que meu tédio me conduzisse a um dos bolsilivros. Sentado entre a porta da cozinha, por onde me alcançavam o barulho e a friagem da chuva, e o fogão a lenha do qual emanava um calor nada saudável, abri na primeira página e comecei a ler sem grandes esperanças de concluir a história. Antes da estiagem, porém, já havia vencido o capítulo inicial com a sensação de um dever cumprido.
          O que me estimulava, acho, era a curiosidade. Nos dias seguintes, visitei cada página, cada parágrafo e cada palavra da minha aventura de caubóis, algo em torno de um pistoleiro que chega a uma cidadezinha do velho oeste para transar com a dona do hotel (a loira da capa?) e acabar com os malfeitores locais. Naturalmente, o bolsilivro se perdeu em alguma limpeza de fim de ano. Inúmeras vezes pensei se seria produtivo tentar encontrá-lo para uma nova leitura — isso não seria impossível contando que conheço vários sebos, recordo a capa e tenho o nome da coleção. O problema é que as releituras de obras que marcaram nossa juventude normalmente trazem surpresas desagradáveis.
          Na mesma época do bolsilivro, por exemplo, talvez um pouco depois, fiquei bastante impressionado com uma HQ do Tex Willer chamada El Muerto. Reencontrei uma reedição, há alguns anos, e não hesitei em comprá-la. Depois da décima página, entretanto, atirei o gibi no fundo de uma gaveta e lá ele deve permanecer até que seja encontrado por minha filha ou por algum dos meus futuros netos. Por que fiz isso? Acho que porque temi ler El Muerto com olhos demasiado adultos e estragar a memória de momentos tão bons e tão significativos da minha infância.
                                             (Continua nos próximos posts)

Postado por Maicon Tenfen