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Posts de outubro 2009

Dia dos Mortos

31 de outubro de 2009 2
Acho que não existe feriado mais justo que o de hoje, Dia dos Mortos, nem mesmo o Natal, que celebra — ou deveria celebrar — o nascimento e a vida. Pensar nos que se foram nos faz pensar numa verdade inexorável: também iremos um dia, e não há nada que possamos fazer para mudar esse destino.
— Do pó ao pó! — não era assim que diziam os antigos?
Hoje é um dia de reflexão e humildade, e nada é mais necessário nos tempos que correm. Nas últimas décadas, afastamos a morte do nosso cotidiano, higienizamos nossas vidas de tudo que possa lembrar o fim e nos tornamos bonequinhos bem-vestidos que cultivam a ilusão da eterna juventude.
           (Prévia da crônica de segunda-feira, no Santa).

Postado por Maicon Tenfen

Pornopopeia - 2

30 de outubro de 2009 1
Ih, moçada, esqueci de fazer o link para a crônica que trata daquela tal palestra sobre o cinema pornô, ministrada na Furb pelo historiador Viegas Fernandes da Costa. Saiu ontem no DC, ou seja, AQUI.

Postado por Maicon Tenfen

Big Brother às avessas (continho)

29 de outubro de 2009 1

Big Brother: a banalização da intimidade./Divulgação.

Quando tinha 12 anos, Genaro Barbosa foi obrigado a ler um poema diante de uma câmera super-8. Tímido que era, tentou fugir, chorou, esperneou, mas não teve escapatória.
 — Vai ser filmado, sim! — disse a professora. — Pensa que é diferente, é?
Trauma irreparável! Mais tarde Genaro faria o impossível para se esquivar dos tradicionais álbuns de família. A mãe teve que arrastá-lo pelos cabelos para que tirasse a 3×4 da carteira de identidade. Virou um recluso. Adulto, parou de aceitar convites para festas de casamento onde, sabia, haveria filmadoras VHS que inevitavelmente capturariam sua imagem. Por pouco não sofreu um colapso nervoso quando soube da profecia de Andy Warhol: “no futuro, todo mundo será famoso por 15 minutos.”
 — Isso ainda vai demorar — pensava Genaro, horrorizado. — Vai demorar!
Demorar? Todo mundo sabia que esse futuro de hiperexposição já estava aí, com câmeras espalhadas por todos os lados, tão vivas e tão presentes que — fatalidade! — não tardaram a alcançar Genaro.
Foi numa terça-feira de manhã, o horário mais inocente da semana. Ele caminhava para o trabalho quando, num susto, alguém lhe enfiou um microfone no nariz:
 — O que o senhor faria se ganhasse na loteria?
Genaro só entendeu o que se passava ao avistar a câmera — um ciclope de olho quadrado e mecânico — a alguns palmos de distância. Sem saber o que dizer, sem saber o que balbuciar, só conseguiu esboçar uma careta, uma triste careta de desamparo, antes de fugir pela rua movimentada.
A estranha cena foi exibida em cadeia nacional. Não, não era nenhum foragido da justiça, era apenas um sujeito comum que — incrível, ainda existe isso?! — não estava a fim de aparecer. Óbvio: acabou-se o sossego de Genaro.
Seu telefone ficou congestionado. Jornais, revistas, rádios e emissoras de TV exigiam uma entrevista. “Quem é Genaro Barbosa?”, perguntava a manchete do principal diário do país, que emendava: “Por que esse homem insiste em continuar anônimo?”
No Orkut surgiram mais de 2000 comunidades dedicadas a ele, sendo que as principais — “Genaro é o herói do milênio” e “Queremos Genaro no Big Brother” — possuíam mais de 3000 membros cada. Sabe-se lá como, alguém descobriu o filme super-8 que Genaro fez quando tinha 12 anos e o jogou na Internet. Foi o site mais visitado do mês.
Repórteres e fãs seguiam o infeliz na rua, que se refugiou, assustado, no apartamento da mãe. Helicópteros passaram a sobrevoar a área. Até o presidente Lula, num momento de descontração com os jornalistas, pediu que Genaro aparecesse e desse uma palhinha.
Com efeito, Genaro pensou em se matar. Antes da besteira, porém, lembrou-se das palavras de sua antiga professora (pensa que é diferente, é?). Só Deus sabe com que sacrifício, resolveu entregar-se à mídia. Mas bastaram quatro aparições, uma no Domingão do Faustão, uma no Superpop, uma na Hebe e a última no TV Fama.
A exemplo de tantos que vendem a alma para aparecer, Genaro deu profundas declarações sobre o Brasil — “sim, é o país do futuro” —, sobre futebol — “claro que vamos ganhar o hexa” —, sobre política — “acho que a corrupção atrapalha nosso desenvolvimento” — e sobre arte dramática — “quero muito ver a Cleo Pires na Playboy”.
Perdeu a popularidade tão-logo aceitou o papel que lhe impunham. Pôde então voltar para casa, para seu anonimato, e finalmente viver em paz…

Postado por Maicon Tenfen, republicando.

Reforma Protestante

29 de outubro de 2009 0

Lutero: reforma religiosa... e econômica!/Divulgação.

Deus me livre de ofender qualquer pessoa que tenha paciência de ler este texto. Do mesmo modo, Deus me livre de ofender qualquer pessoa que NÃO tenha paciência de ler este texto. Meu objetivo não é desrespeitar os crédulos, nunca foi, e se peço que o Altíssimo me resguarde de causar danos à convicção alheia, não o faço por leviandade. O tema de hoje é religião – a data é propícia por causa do Dia da Reforma Protestante, comemorado amanhã -, por isso não dispenso um sinal da cruz e um pedido de proteção divina. Já que nasci e fui criado católico, também tenho o direito de pedir a São Francisco de Salles, padroeiro dos escritores e jornalistas, que me guie na jornada que findará lá embaixo, na última frase e no último ponto final. Dito isto, vamos à tese que interessa: religião é dinheiro, dinheiro é religião, ponto final.  O que Lutero e a Reforma Protestante têm a ver com essa antiga relação entre as moedas e os crucifixos? Tudo, mas isso não é um julgamento, apenas uma constatação.
                               (Leia o resto amanhã, no Santa).

Postado por Maicon Tenfen

Faixa de pedestres

28 de outubro de 2009 2
Diga-se de passagem, mas de passagem segura, sobre as marcações brancas do asfalto, que a faixa de pedestres é uma das maiores invenções da modernidade urbana. Ela não representa apenas ordem e prudência, mas também democracia, o sacro direito de ir e vir a salvo de uma possível trombada com um arrasta-sandálias ou um caminhão carregado de concreto. As funções e as vantagens da faixa são óbvias em si mesmas. Deve ser por isso, presumo, que as pessoas evitam utilizá-la.
(Fragmento da crônica de amanhã, no Santa).

Postado por Maicon Tenfen

Pornopopeia

28 de outubro de 2009 4

Leila Lopes: exemplo de famosa que aderiu ao pornô./Divulgação.

Eita que este blog tá virado num motel! A culpa é do Lima, claro, um moralista que gasta o seu precioso tempo lendo as indecências e as bobagens que publico por aqui. O jogo é simples: quanto mais ele reclama, mais eu publico, publico e publico. Pura questão de princípios! Conforme combinado, amanhã, no DC, falarei como foi a palestra sobre o cinema pornô que aconteceu na Furb. Segue um fragmento da crônica:
 
A pornografia no cinema nasce imediatamente depois da invenção dos irmãos Lumière. Logo nos anos 1920, era comum a exibição de filminhos pornográficos em ambientes clandestinos como prostíbulos e cabarés. Esses filminhos eram chamados de “stags”, duravam menos de dez minutos e valorizavam o vouyerismo (sempre havia um desocupado espiando pelo buraco da fechadura). Não deixa de chamar atenção o caráter transgressor dos “stags”, que primavam pelo ataque debochado a instituições estabelecidas como a Igreja e a Família – além de situações adulterinas, eram recorrentes as encenações de surubas envolvendo padres e freiras!

Postado por Maicon Tenfen

Mais história da prostituição!

28 de outubro de 2009 21

Toulouse-Lautrec.

Para complementar a coluna de hoje, no Santa, apresento mais informações sobre a história da prostituição. Baseio-me no livro História da Prostituição – Uma Interpretação Cultural, de Lujo Basserman, e numa recente matéria publicada pela revista Aventuras na História.
 
Antiguidade Clássica
No mundo pré-cristão, ao que parece, a prostituição era encarada sem muito espanto. Na Grécia, as prostitutas podiam ser divididas em várias categorias, das mais comuns (e baratas) às mais sofisticadas, luxuosas e caras. Já em Roma elas atendiam pelo sugestivo nome de LOBAS. Sua atividade era reconhecida por lei, mas em troca pagavam altos impostos ao poder público. Há indícios de abundante prostituição masculina no período.
 
Idade Média
Com a proliferação do cristianismo e de novos valores sociais na Europa medieval, as prostitutas já não eram encaradas com a mesma naturalidade de outrora. A profissão era evidentemente pecaminosa, e a Igreja trabalhou pesado para converter prostitutas em beatas ou no mínimo senhoras de alguma virtude. As condições de saúde e higiene eram precárias, as doenças venéreas grassavam e, após os 30 anos, as mulheres, consideradas velhas e acabadas demais para o ofício, viam-se obrigadas a voltar para a lavoura.
 
Renascimento
Eis um momento de esplendor para as artes, a ciência e… a prostituição. O comércio do corpo em bordéis e banhos públicos ganhou novo vigor, e uma espécie de tropa de elite das prostitutas, as cortesãs, começou a atuar em troca de presentes valiosíssimos ou grandes somas de dinheiro. Além de belas, eram mulheres cultas, sensíveis, que se vestiam de forma elegante e falavam pelo menos dois idiomas!
 
Século XIX
A época romântica trouxe novo status às prostitutas. Embora a prostituição continuasse existindo nos becos, cabarés luxuosos surgiram em toda a Europa, principalmente em Paris, onde tudo acontecia naquela época. As profissionais passaram a se vestir de um modo característico, usando sapatos de salto alto, brincos e colares espalhafatosos. Quem conhece algum dos romances de Zola ou Balzac há de se lembrar da figura praticamente obrigatória da “moça de má vida”.
 
Atualidade
Graças à pílula anticoncepcional e à independência da mulher, que conquistou o mercado de trabalho, ficou mais fácil para os homens conseguirem sexo de graça. (Mas nunca devemos esquecer as palavras de H. L. Mencken: “não há diferença entre o sexo pago e o não-pago, a não ser que o não-pago costuma sair mais caro que o pago”). Nada disso, porém, fez com que a prostituição diminuísse. Ao contrário, ela cresce ao lado da revolução tecnológica e do maior acesso a mídias como o telefone e a internet.

Postado por Maicon Tenfen

Ainda a palestra

27 de outubro de 2009 13
Nos comentários de alguns posts, ou ainda pessoalmente, quando encontro as pessoas por aí, perguntam-me como foi a palestra sobre o cinema pornô no último sábado. Responderei depois de amanhã, em coluna do Diário Catarinense que, claro, compartilharei aqui com vocês.

Postado por Maicon Tenfen

Prostitulogia - 2

27 de outubro de 2009 0
Quando eu estava na sexta série e estudava no seminário, era natural que dedicássemos muitas das aulas ao estudo bíblico. Certa vez, ao ler uma passagem do Antigo Testamento, topamos com a palavra “meretriz”, pelo jeito comum nos livros sagrados. Na tentativa de encurralar o padre-professor, o engraçadinho da classe perguntou:
— O que é… uma meretriz?
Mas o padre era vacinado: sugeriu que o moleque verificasse o significado do vocábulo num dos muitos dicionários que havia no fundo da sala. Ele foi e achou o seguinte: Meretriz (s.f.) – o mesmo que prostituta.
— E prostituta, padre? O que é?
O padre passou o lenço na testa suada. Tentou fugir pela mesma tangente:
— Não estão com o “pai dos burros” aberto? Vejam aí!
Não deu outra. Quando encontramos a palavra “prostituta”, caímos na gargalhada por causa do significado atribuído pelo dicionário: (s.f.) – o mesmo que meretriz!
(Leia o resto amanhã, na edição impressa do Santa).

Postado por Maicon Tenfen

Prostitulogia

27 de outubro de 2009 5

Segundo estudiosos, não há indício de sociedades sem prostituição./Divulgação.

Em O Filho do Feliciano, romance que escrevi em 1995 (sim, eu era um moleque) e só publiquei no finzinho do ano 2000, aparece um personagem de nome Guido Becker que criei a partir dos atos e da personalidade de um dos meus professores no Ensino Médio — cujo verdadeiro nome omito porque, pelo que sei, o mestre continua vivo e em plena atividade.

Militante inveterado da esquerda pós-ditadura, frequentemente sucumbia ao pecado de interromper a aula e partir para a pregação partidária, como se estivesse num coreto de praça, diante de eleitores e não de estudantes. Fora isso, mas apenas no universo do romance, o professor Guido também era famoso pelos conhecimentos que acumulava na nobre e sofisticada ciência da Prostitulogia.
Claro que essa história de Prostitulogia só poderia sair de uma cabeça ainda adolescente. Bancando o engraçadinho, eu pensava que estava inventando a roda, mas a grande verdade é que, já naquela época, inúmeros trabalhos sobre o tema estavam publicados e circulando em língua portuguesa. É o caso de História da Prostituição – Uma Interpretação Cultural, de Lujo Basserman, publicado pela Civilização Brasileira em 1968.
Se começarmos pelo lugar comum, confirmaremos que é a mais antiga das profissões. Com efeito, registros sobre mulheres — ou homens — que vendem o corpo aparecem em diversos documentos da Grécia e Roma antigas, onde os bordéis funcionavam sem culpa e sem preconceito; da Idade Média, período em que o cristianismo relacionou a atividade com o pecado; do Renascimento, época em que muitas cortesãs eram cultas e cobravam fortunas por uma única noite de prazer; do século 19, quando as “meninas de má vida” eram obrigatórias nos romances de Zola e Balzac; e do mundo contemporâneo, com seus exageros e acesso internáutico imediato.
Tanto os liberais quanto os conservadores consideram a prostituição uma necessidade humana fundamental, e isso não é de hoje. Já no século 13, Tomás de Aquino escrevia que a “prostituição nas cidades é o mesmo que os banheiros dos palácios. Tire-os e os palácios serão destruídos pelo fedor e pela putrefação”. Há muito o que discutir sobre um assunto tão vasto, complexo e — não riam — comunitário.
Hoje o espaço acabou, mas amanhã tem mais.

Postado por Maicon Tenfen, texto de hoje no Santa.