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Posts de novembro 2009

Menos política

30 de novembro de 2009 0

Lula e Collor confraternizando: ainda é possível acreditar na atividade política?/Divulgação.

Amanhã, no Santa, farei referência ao professor Alejandro Labale, que escreveu toda uma página no jornal Expressão Universitária para responder à crônica abaixo, publicada no longínquo mês de julho. É ele o “amigo sociólogo” que cito no texto, mas cometi um erro pelo qual me desculpo. Alejandro não é sociólogo, é antropólogo. Se obtiver permissão, reproduzirei aqui o texto de Alejandro. Assim farei porque acredito que o debate que daí pode advir é pertinente.
 
Menos política
 
 
Se o Brasil fosse um país sério, até que valeria a pena escrever com uma certa indignação. Mas o Brasil é um poço de mediocridade — desculpe, mas é — e sair por aí com o dedo em riste é tão inútil quanto acreditar em políticos íntegros ou Papai Noel. Tenho um amigo sociólogo que critica esse meu ceticismo de gabinete. Segundo ele, só se combate a “má política” com “mais política”.
— Talvez — respondo com uma careta de incredulidade. — Só temo o que acontecerá quando a “mais política” vencer a “má política”.
Sim, isso já aconteceu muito por aqui. A “má política” dos militares foi substituída pela “mais política” das oligarquias nordestinas. A “má política” dos oligarcas (leia-se Sarney e Collor) foi substituída pela “mais política” do PSDB. A “má política” dos Tucanos foi substituída pela “mais política” do PT, que conseguiu a façanha de tornar-se “má política” em tempo recorde. Tudo muito repetitivo e previsível.
A diferença é que agora estamos numa sinuca de bico mais intrincada, pois inexiste uma “mais política” para se opor à “má política” vigente. E a culpa — digo isso com um bocejo — é dos deslumbrados que batem palmas para Lula. Fazem correntes de e-mails para reclamar que a imprensa brasileira não noticiou o prêmio que o nosso presidente recebeu em Paris, mas silenciam quando ele elogia Renan Calheiros, quando defende o Sarney e quando sobe no palanque com o Collor – com o Collor, caramba, logo o Collor, o presidente que renunciou para não sofrer impeachment.
Aí eu pergunto: o que me resta fora do silêncio e do desprezo em relação à atividade política? Minha única alternativa como cidadão é virar as costas para o poder, é esnobá-lo, desacreditá-lo, ridicularizá-lo, mostrar às pessoas que ele não vale a pena porque corrompe em absoluto. O Lula não é esse cara que aceita o beijo dos canalhas. Esse que está aí, esse Fausto que vendeu a alma pelo gostinho da vitória, esse Ulisses que se rendeu ao canto das sereias, esse sujeito é apenas o produto da vaidade e das péssimas companhias de Brasília. É a vanguarda que se transformou em velharia, a “mais política” que se converteu numa “má política” imunda e cara-de-pau.
Nas eleições presidenciais de 1989, Collor derrotou o PT ao utilizar o depoimento de Miriam Cordeiro, ex-namorada de Lula, acusando o adversário de pressioná-la a fazer um aborto, história que nunca ficou de todo esclarecida. Se Lula fosse o homem que diz ser, deixaria Collor no seu devido lugar. Em vez disso, convida-o para abraços e palanques. Quando faz isso, o presidente não está cuspindo apenas no próprio passado, mas na cara de todos que alguma vez votaram no seu partido.

Postado por Maicon Tenfen

Mais Fonseca

30 de novembro de 2009 1

Divulgação.

Para completar o post anterior, uma crônica que publiquei há alguns meses no Santa:
Desacompanhados
Rubem Fonseca é aquele tipo raro de escritor que conheceu o sucesso (tanto de público quanto de crítica) logo depois dos primeiros livros publicados. De fato, os contos reunidos em Os Prisioneiros, A Coleira do Cão e Lúcia McCartney, todos dos anos 1960, representaram uma pequena revolução na literatura brasileira. Sua linguagem despojada concretiza temas urbanos normalmente ligados ao sexo e à violência, e anuncia, num interessante jogo de espelhos com uma realidade de metrópoles e industrialização, o florescer de uma nova (des)ordem social.
Na década seguinte, publicou suas obras-primas, Feliz Ano Novo (1975) e O Cobrador (1979). No contexto da ditadura militar, contos em que marginais invadem mansões para fazer cocô sobre colchas de cetim não agrediriam apenas a moral e os bons costumes da classe média cristã. Claro: os livros de Fonseca foram recolhidos pela censura e, como de praxe nesses casos, a burrice do Estado totalitário se transformou numa bela plataforma de consagração.
Depois veio o “deixa disso” dos tribunais, a abertura política e o oba-oba dos anos 1980. Já em sua condição de lenda viva, nosso escritor dedicou toda a década ao cultivo de narrativas longas. É dali que surgiu Bufo & Spallanzani, sua terceira obra-prima. Romance policial repleto de referências a Flaubert e a Madame Bovary, constitui-se no suprassumo da obra de Fonseca.
Dali em diante, o escritor não precisaria ter escrito mais nada para se tornar o mito que é. Antes pelo contrário. Boa parte do que produziu nas duas últimas décadas veio a público com um ar cansado e pouco original, tanto que o adjetivo fonsequiano, comum nos suplementos literários brasileiros, já faz mais sentido se aplicado aos imitadores que ao próprio mestre.
Recentemente, Rubem Fonseca saiu da Companhia das Letras, a mais conceituada editora do país, desfazendo uma parceria que durava quase 20 anos. Não se fala de outra coisa nos bastidores do mercado editorial, ainda mais porque ninguém é capaz de explicar direito o que aconteceu. Em nota divulgada à imprensa, a editora restringiu-se a dizer que o autor está livre para publicar onde quiser. E Fonseca, que se recusa a dar entrevistas ou mesmo a divulgar fotos, reservou-se no silêncio que lhe é peculiar.
Fã incondicional, continuarei lendo tudo o que Rubem Fonseca publicar, até o fim, pouco importando a editora. Entretanto, e essa é uma conclusão que dói um pouco em mim, preferiria que fosse nas edições ultraelaboradas da Companhia.  Se existe, ou se existiu, uma parceria que deu certo por aqui, é, era a deles.

Postado por Maicon Tenfen

O Seminarista

30 de novembro de 2009 0

Rubem Fonseca: o maior ficcionista vivo do país./Divulgação.

É o costume de uma década ou mais. Sempre que sai um novo livro de Rubem Fonseca, os críticos se apressam para apresentar as mesmas depreciações: que o autor já não é o mesmo, que está com uma escrita cansada, que perdeu o fôlego do princípio da carreira, que virou um plágio de si mesmo.
Algumas dessas observações talvez façam sentido se aplicadas a obras ligeiras e pouco ambiciosas como O Doente Molière (2000) ou Diário de um Fescenino (2003), mas soam como balela se pensarmos em seu novo romance, O Seminarista, que acaba de chegar às livrarias.
Com narração em primeira pessoa — característica recorrente em Fonseca e boa parte da ficção contemporânea —, O Seminarista conta a história de um matador de aluguel que decide pendurar as pistolas para se dedicar mais completamente à leitura e à contemplação da vida.
Ex-seminarista, daí o título, adora citar máximas latinas no original, recorrendo a Horácio, Cícero, Virgílio, Petrarca, Propércio e Santo Agostinho. Para aumentar os paradoxos do personagem, um assassino dotado de sensibilidade e erudição, ele também gosta de passar o tempo lendo poesia para a namorada alemã.
O problema — ou a solução, já que toda história precisa se desenrolar — é que o conselho de Sêneca, Alia tentanda est via (Deve-se procurar outro caminho), não é tão fácil de ser seguido. Pouco demora para que o passado de crimes comece a assombrar o seminarista. Daí para frente, enquanto os mistérios crescem na correria dos fatos, cadáveres são empilhados até a apoteose nas páginas finais.
Claro que o enredo, contado assim aos atropelos, é de uma imbecilidade imperdoável, tanto que se parece com um desses filminhos de justiceiro mata-mata, mas a literatura se faz por outros caminhos, pela linguagem, pelos detalhes, por uma forma peculiar de descrever e narrar.
O Seminarista está nesse estágio de excelência, nível em que se encontra a capacidade de dar significação e interesse ao mais batido dos assuntos. No mais, um livro de Rubem Fonseca só pode ser considerado inferior se comparado a outro livro de Rubem Fonseca. Aos 85 anos de idade, ele continua fazendo a melhor ficção escrita do país.
                (Crônica publicada em 30/11/09, no Santa).

Postado por Maicon Tenfen

Analogias infantis

27 de novembro de 2009 2
Um ambientalista visitou a quarta série de uma escola do interior para dar uma palestra sobre ecologia. Lá pelas tantas, o aluno mais miudinho da turma levantou o dedo e perguntou:
— Quer dizer que o senhor gosta dos bichos?
— Sim, claro.
— E dos animais, gosta também?
O ambientalista olhou para a professora, que a custo continha o riso. Então, didático e compreensivo, voltou-se para o menino e respondeu:
— Gosto dos animais também, mas você acha que existe alguma diferença entre bichos e animais?
“Pronto!”, deve ter pensado o ambientalista, agora bastava bancar o baluarte da sabedoria universal e explicar à classe o que era um sinônimo. Mas qual não foi seu espanto ao ouvir o moleque, muito sério, dizer que sim, existe diferença entre bichos e animais?
— Existe?! E qual seria essa diferença?
— Ora! — e o guri fez um gesto de impaciência. — Os animais vivem em casa, os bichos vivem no mato.
Óbvio que a definição do menino foi pedagogicamente desprezada — tanto o ambientalista quanto a professora insistiram que bichos e animais são a mesma coisa —, mas, se prestarmos atenção, perceberemos a lógica superior do raciocínio infantil. Depois de estabelecer a diferença entre o que é doméstico e selvagem, ele agiu exatamente como os filósofos e os cientistas: ao nomear as duas realidades com vocábulos diferentes (mesmo que sinônimos), acrescentou novos significados à sua experiência.
O chato é que as limitações da vida adulta nos tornam incapazes de compreender as analogias do universo infantil. Quando não podamos as crianças, preferimos rir da sua “inocência”. Soube de uma história curiosa — e divertida, assumo minha limitação — envolvendo uma mãe, uma filha de 5 anos e um programa de TV que citava a palavra “camisinha”.
— O que é isso, mamãe?
— Ah, minha filha, é uma coisa que as pessoas usam para não engravidar e não pegar doenças.
— Xi… Então a mamãe não usa camisinha…
— Por que você está dizendo isso, meu bem?
— Eu e o maninho nascemos, não nascemos? E depois a mamãe vive dizendo para o papai que está morrendo de dor de cabeça…
                 (Crônica publicada em 27/11/09, no Santa).

Postado por Maicon Tenfen

Arqueologia dos Prazeres

26 de novembro de 2009 3
Na próxima segunda-feira, dia 30, no Auditório do Bloco J da Furb, ocorrerá a palestra Arqueologia dos Prazeres, com o filósofo Fernando Santoro. Quem promove é o grupo de discussão Clio no Cio, o mesmo que organizou a palestra sobre o cinema pornográfico com o historiador Viegas Fernandes da Costa. Abaixo apresento uma pequena entrevista com o palestrante.
 
 
ARQUEOLOGIA DOS PRAZERES
 
 
 
 
por Nathália Perdomo
 

“Nunca a destruição, mas a moderação. Não o excesso, mas o equilíbrio, a medida, a ocasião apropriada, os modos. Por isso, o uso dos prazeres requer um saber dos prazeres, um saber que pode regulá-los de acordo com o melhor. Os prazeres podem ser uma força perturbadora, mas apenas quando estão sem rédea, sem comando, sem seu cocheiro, para usar mais uma metáfora platônica”.

Arqueologia dos Prazeres é o mais recente livro de Fernando Santoro, professor do Departamento de Filosofia da UFRJ, que resgata a discussão acerca das relações dos prazeres entre os filósofos gregos.

Para saber mais sobre o livro confira abaixo o papo com o autor.

Em seu livro Arqueologia dos Prazeres, você comenta que os gregos associavam os prazeres ao sofrimento. E hoje, a cultura ocidental associa o prazer a quê?
Quando digo que os gregos associavam o prazer ao sofrimento, isso quer dizer primeiro que o sofrimento e o prazer ocupam o mesmo campo de problematização moral referente à realização de uma vida humana virtuosa e feliz. Mas esta associação é mais íntima do que a natural associação entre dois opostos. Significa que em muitos casos a proximidade alcança a própria ambiguidade: prazeres que trazem dor, dores que trazem prazer; e é justamente nesse campo da ambiguidade que o saber filosófico é mais requisitado, porque deixam de valer distinções infantis e o campo da construção dos valores e dos sentidos da existência entram em jogo, abrindo espaço para a liberdade e a autenticidade. Os códigos morais gregos não visavam padronizar os homens sob regras de conduta, mas antes possibilitar que os indivíduos construíssem um estilo de vida coerente com si mesmos. Hoje, o prazer não é visto como um valor no campo da construção da liberdade, mas antes como uma experiência de consumo. Consumo tanto dos objetos, quanto dos que os usufruem. Mesmo os prazeres oriundos dos objetos que, naturalmente, se consomem, como bebidas e comidas, eram vistos pelos gregos não pela lógica do consumo, mas da repleção. De modo que acreditavam que o prazer era alcançar uma plenitude, e não gastar ou gastar-se. Mas estes prazeres eram também considerados mais vulgares. Os prazeres dos grandes mestres gregos associavam-se mais à atividade do que à passividade: a amizade, o amor, o refinamento da sensação, a própria filosofia eram vistas como as atividades mais prazerosas. O consumismo contemporâneo tende a esvaziar o prazer da vida e o próprio gozo dos objetos. Por isso, é sempre urgente repensar o que significa para nós a felicidade, tanto no campo do exercício das virtudes, quanto no desfrute da vida. Para Epicuro, a sabedoria dos prazeres estava em encontrá-los à mão: figos, mel, uma fonte de água pura, a boa conversa entre amigos.

A indústria de consumo pode ser apontada como a principal responsável por fomentar desejos na cultura contemporânea? Você considera isso um risco proposital “oferecido” pelo regime capitalista?
A felicidade, o prazer, o gozo estão sempre ligados aos desejos. Muitos gregos, principalmente os cínicos e estóicos, mais moralistas, associam o desejo à dor. O desejo é consequência da falta, da carência. De modo que por mais riquezas que alguém possuísse, se seu desejo não era aplacado, ele continuava carente, e de um modo muito real era mais pobre do que alguém de poucos recursos, porém com poucas necessidades. Sócrates tornou esta equação mais complexa, vendo que o desejo, o amor, não eram apenas filhos de carência, mas também a expressão de um recurso vital que busca não apenas alcançar um bem, mas também gerar e produzir os bens. Tomados de desejos não ficamos apenas carentes de coisas belas, mas nos movemos para gerá-las. A lógica do desejo no capitalismo tem uma dimensão perversa porque a produção não se move para preencher as necessidades e os desejos; mas, inversamente, primeiro se produzem desejos e carências e depois a produção se move para supri-los. O capitalismo, quanto mais rico mais produz carência. E não estou falando da perspectiva marxista da mais-valia e da apropriação do trabalho. Estou pensando, justamente, no consumidor que possui recursos. Para ele, a engrenagem da propaganda produz uma carência infinita, que não pode nunca ser suprida, sempre há um novo supérfluo que é transformado em necessidade. Quem vive hoje sem um celular, sem uma televisão? No entanto, há poucas décadas estas necessidades sequer eram cogitadas de existir. O perverso do capitalismo é que até o rico se torna carente, como na dialética hegeliana do senhor e do escravo.

Como você vê a crítica da imprensa sobre o seu livro, especificamente? Em geral, as críticas são levianas?
Ainda não posso falar de críticas da imprensa, porque ainda não chegaram. As primeiras manifestações vieram de um campo fora da literatura e da filosofia, por conta do apelo do título. A imprensa que se mobilizou até o momento buscou no livro conteúdos eróticos ou de consumo, justamente! Mas não vai encontrar exatamente o que espera — afinal é um livro para se pensar, não para consumir. Apareceu uma matéria no caderno “Ela” do jornal O Globo, que tende a tratar as mulheres como as maiores consumidoras. O título era “Filósofo e Gato”; obviamente, o gato não era eu, mas o Chico Bosco que também está lançando um livro na coleção filosófica. O jornalista que tentou ler o meu livro, disse que era muito difícil, tinha palavras estranhas como “complexificar” (posso garantir que tem umas cem palavras mais estranhas do que essa, entre os conceitos morais dos gregos) e ficou insatisfeito porque a arqueologia só foi dos primórdios até Epicuro, ainda muito longínquo (sic).

Como surgiu a ideia de escrever Arqueologia dos Prazeres?
A idéia começou a ser gestada quando Mirian Goldemberg, professora de antropologia do IFCS, me propôs de ministrarmos um curso em conjunto, para estudantes de ciências sociais e de filosofia. Resolvemos preparar um curso sobre a História da Sexualidade de Michel Foucault, mais especificamente sobre o segundo livro “O Uso dos Prazeres”, que é uma obra que aborda os gregos para revirar alguns conceitos contemporâneos sobre a sexualidade, principalmente a ideia errônea de que o discurso sobre a sexualidade era resultado de uma liberação recente de temas recalcados até o séc. XIX. Montamos o curso, juntando duas turmas das duas faculdades e reunimos, de um lado, as pesquisas de Mirian sobre os discursos de sexualidade no Brasil atual e, de outro, as minhas pesquisas em torno das fontes gregas. O curso me empurrou para a literatura filosófica sobre o tema e acabei montando, na Casa do Saber, um mini-curso em seis lições que já se chamava Arqueologia dos Prazeres e foi a espinha dorsal do livro. O curso teve boa repercussão e a editora Isa Pessoa, da Objetiva, me convidou para abrir a sua coleção filosófica. Com isso, refugiei-me na montanha e escrevi a maior parte do livro neste verão, à beira agradável de um córrego…
 
* Texto publicado em Olhar Virtual – UFRJ

Postado por Maicon Tenfen

O Túnel da 7

26 de novembro de 2009 5
Parece que todas as atenções estão voltadas para a passarela da Antônio da Veiga, em frente à Furb, mas a verdade é que os problemas relacionados ao tráfego de pedestres é maior, bem maior, em Blumenau. Se alguém duvida do que digo, basta lembrar o túnel que cruza a 7 de Setembro nas proximidades do Shopping Neumarkt.
É fato que muitos utilizam a passagem subterrânea a fim de chegar ao seu destino em segurança, mas quantos atravessam pelo asfalto em passo apertado ou mesmo “correndinho” para escapar à ira dos ônibus e automóveis?
Com trejeitos de quem vai assaltar um pomar, as pessoas se posicionam à beira da calçada e esperam uma oportunidade de saltitar até o outro lado. Quando o semáforo, mais abaixo, fica vermelho, a rua é tomada por pequenos blocos humanos que demonstram uma ansiedade comparável à displicência com a segurança e o bem-estar comunitário.
Estudar, trabalhar ou comprar, tanto faz. Os indivíduos têm pressa e desconhecem a paciência necessária para trocar dois minutos pela segurança de uma faixa, um túnel, uma passarela.
Ao meditar sobre a questão, ocorre-me um pensamento quase axiomático sobre Blumenau: por mais de um século, vivemos numa cidade industrial, regida pelo cartão-ponto e pelo apito da fábrica. Como o atraso era pecaminoso para nossos avós, aprendemos a correr com alegria e imprudência, pouco importando os riscos que isso acarreta aos outros e a nós mesmos.
Resultado: o blumenauense pensa que é culto e organizado, mas ainda não aprendeu a andar com civilidade.
Mas também me ocorre um segundo pensamento, tão axiomático quanto o primeiro: Blumenau nunca foi pensada para os pedestres. Muitas vezes, fica a impressão de que tudo é feito pelos veículos particulares. Por mais que o pedestre seja relapso, a verdade é que ainda temos poucos túneis, faixas e passarelas, pouca projeção solidária do espaço urbano e poucas ciclovias de verdade (nem me falem desses riscos ridículos sobre as calçadas).
Como no trânsito, o problema da correta utilização da passarela — ou do túnel — é uma via de mão dupla. Falta conscientização, falta responsabilidade, mas também falta atenção do poder público e, o mais importante, falta uma cultura que valorize o ato de caminhar pela cidade.
               (Crônica publicada em 26/11/09, no Santa).

Postado por Maicon Tenfen

Cigarro no cinema

25 de novembro de 2009 0

Rita Hayworth: uma deusa que fumava!/Divulgação.

No filme Sem Fôlego (Blue in the Face, 1995), misto de ficção e documentário sobre o dia a dia num bairro de Nova York, um dos personagens olha diretamente para a câmera e comenta que se tornou fumante por causa do cinema. Nos grandes clássicos de Hollywood, sempre pairava uma nuvem de fumaça entre o mocinho e a mocinha. Depois do sexo ou do tiroteio, era obrigatório acender um cigarro e, junto a baforadas espessas e elegantes, lançar “bobiças filosóficas” à cara do espectador.
Hoje está tudo diferente reclama o personagem. As pessoas pararam de fumar no cinema.
 Aí é que todos nos enganamos. Embora pareça que atores e atrizes de porte tenham deixado de fumar na telona, a grande verdade é que xepas e isqueiros permanecem mais presentes do que nunca. Segundo estudo publicado nos Estados Unidos, 60% dos filmes lançados em 2008 contêm cenas de tabagismo. A maioria dessas produções eis um dado interessante é destinada ao público adolescente. E a Marlboro é a marca campeã em termos de visualização cinematográfica.
Cito esses dados apenas para confirmar uma suspeita: embora as aparências estejam de roupa nova, no fundo as coisas mudaram menos do que desejaram os nossos pais. Ainda que higienizada e por isso mais eficiente a mídia sempre dá um jeitinho de fazer o seu comercial. Apesar das leis e das cruzadas antitabagistas, os números mostram que as pessoas continuam queimando dinheiro para encher e esvaziar seus pulmões de fumaça.
Qual o motivo dessa “resistência”? Não arrisco um palpite muito seguro, mas talvez tenhamos a necessidade natural de desobedecer àquilo que identificamos como hipocrisia. Qual o problema de aparecer um cigarrinho num filme em que os personagens cafungam carreiras e mais carreiras de cocaína? Quantos tiros são disparados, quantas cabeças são cortadas, quantas serras elétricas entram em ação? E queremos implicar logo com o glamour da nicotina?
Mas uma coisa de fato mudou com o passar dos anos. Se é verdade que o cigarro permaneceu apesar de tudo, pelo menos as “bobiças filosóficas” depois do sexo e dos tiroteios diminuíram. Nisso lucramos.

Postado por Maicon Tenfen, republicando.

Antitabagismo

25 de novembro de 2009 3
Ontem eu estava conversando com um amigo que possui visíveis e divulgados problemas de saúde. Lá pelas tantas, ele acendeu um cigarro e começou a fumar. Não que a fumaça me incomodasse, até porque estávamos em área aberta. Mesmo assim, dei com a língua nos dentes:
— E você ainda fuma?
— Fumo. É o maior prazer que tenho na vida.
Ao perceber que estava invadindo, digamos assim, a privacidade do meu amigo, recorri à velha comparação:
— Maior prazer? Ou você está fumando muito bem, ou o resto da humanidade está transando muito mal.
Não que eu tenha pudores de ser invasivo, mas me incomodei comigo mesmo ao perceber que acabara de bancar o perfeito e politicamente correto “agente antitabagista”. Quando repreendi — pois minha pergunta foi uma repreensão — o fato de meu amigo alimentar sua doença com nicotina, agi com o moralismo e a intransigência de uma beata, tópico a que voltarei no último parágrafo.
 Por enquanto, peço que ninguém confunda minhas palavras. Sempre zelei pelo sagrado direito que temos de não respirar a fumaça dos cigarros alheios, mas desconfio que há momentos em que as campanhas antitabagistas passam dos limites.
Isso acontece quando os panfletos transformam os fumantes em criminosos ou portadores de doenças contagiosas. Que direito tenho de questionar o vício do meu amigo? Se ele respeitar o espaço do meu nariz, nada mais justo que eu respeite o espaço da sua fumaça.
O problema é que as leis antitabagistas estão rompendo a barreira do bom senso. Em São Paulo, por exemplo, e graças ao governador e ex-fumante José Serra, entrou em vigor a lei que proíbe fumar em ambientes como bares, cinemas, boates, restaurantes, bancos, açougues e teatros (é só uma questão de tempo até a onda quebrar aqui).
Mas voltemos ao moralismo e à intransigência da beata: como a sociedade não pode mais perseguir prostitutas ou homossexuais, está canalizando o seu ódio para outras direções. Os fumantes são apenas uma das válvulas de escape.

Postado por Maicon Tenfen, republicando.

O paradoxo do fumo

25 de novembro de 2009 1

Divulgação.

Filho de agricultores, devo ter contribuído com a morte de muitos inocentes mundo afora. As folhas de tabaco que ajudei a plantar se converteram nos milhares de cigarros que viajaram para o estrangeiro e detonaram os pulmões das mesmas pessoas que, sem saber, pagavam pelo meu trabalho na lavoura.
Digo em minha defesa que nunca tive intenção de prejudicar a saúde de ninguém. Se há consumo, há produção. Portanto, enquanto houver gente que goste de inalar fumaça, sempre haverá quem providencie a matéria-prima. Acredito que o mesmo raciocínio valha para quem produz a cana da cachaça ou o leite dos queijos gordurosos.
Seja como for, fugi para a faculdade quando completei 18 anos. Meu pai, porém, continua na lida até hoje. Com mais de cinquenta safras no currículo, conversou comigo sobre o significado de produzir tabaco para uma sociedade que acaba de colocar os fumantes no paredão. Sem nunca negar que o cigarro é prejudicial à saúde, lembrou-me que o fumo é um produto típico daquilo que os economistas chamam de agricultura familiar: 30% do que Rio Grande do Sul, Santa Catarina (com destaque para o Vale do Itajaí) e Paraná produzem são suficientes para abastecer o mercado nacional. Todo o mais vai para o exterior, o que fundamenta uma rica e intrincada cadeia produtiva.
Mesmo assim, meu pai esclarece que o fator econômico não é um bom álibi para o tabagismo. Como a produção é controlada, isto é, as empresas contratam os agricultores a partir de um planejamento quantitativo, dificilmente teremos um excedente capaz de gerar uma crise repentina no setor. De todos os produtos oriundos da lavoura, o fumo talvez seja o mais propenso a se adaptar a uma gradativa redução de mercado.
Justamente por isso, a AFUBRA (Associação dos Fumicultores do Brasil) defende que o recente aumento de 23% do IPI sobre o preço do cigarro é um tiro que o governo dá no próprio pé. Em vez de diminuir o consumo, a medida fará com que os fumantes brasileiros recorram aos cigarros contrabandeados do Paraguai. O ideal é que o tabagismo diminua aos poucos, o que ocorre graças à progressiva conscientização dos consumidores. Leis que atacam a cadeia produtiva só farão com que a ilegalidade cresça no país.
Para resumir os paradoxos do fumo, meu pai falou de seus projetos para a safra 2009/2010:
— Já que, contrariando as tendências mundiais, o Brasil vai plantar mais tabaco que no ano passado, meu primeiro objetivo é aumentar a produção.
— E o segundo?
— Parar de fumar, é claro.

Postado por Maicon Tenfen, republicando.

Atravessar a rua

25 de novembro de 2009 1
Não fosse um título tão longo, eu deveria chamar esta crônica de A Arte De Atravessar As Ruas Do Centro De Blumenau Em Segurança.
Coisa curiosa, ou não, é que quando penso em atravessar as ruas desta cidade, principalmente a 7 e a Beira-Rio, vem-me à cabeça aquele antigo videogame em que uma galinha abobalhada vai passando por entre automóveis velozes e furiosos. Se você está na casa dos 30, deve lembrar o joguinho, acho que fabricado pela mítica Atari.
Era preciso sangue-frio e muita habilidade para que a galinha zanzasse para cima e para baixo, na tela, sem sofrer nenhum dano por atropelamento. Entretanto, se ela bobeasse e rodopiasse para a morte ao som daquela musiquinha eletrônica de decepção, tudo bem. Bastava apertar o START que o game reiniciaria com outra galinha novinha em folha.
Na vida real não é bem assim. Se a galinha é atropelada, ela pode morrer de verdade, sem direito a uma nova e inconsequente tentativa de atravessar a rua. A propósito, é por isso que inventaram a faixa de pedestres. Diga-se de passagem, mas de passagem segura, sobre as marcações brancas do asfalto, que a faixa é uma das maiores invenções da modernidade urbana.
Ela não representa apenas ordem e prudência, mas também democracia, o sacro direito de ir e vir a salvo de uma possível trombada com um arrasta-sandálias ou um caminhão carregado de concreto. As funções e as vantagens da faixa são óbvias em si mesmas. Deve ser por isso, presumo, que as pessoas evitam utilizá-la.
De duas, uma: ou o trânsito de Blumenau está muito calmo e respeitoso com os pedestres (conta outra, Maicon!), ou as pessoas gostam de brincar de galinha abobalhada. Então, cumprindo minhas obrigações de cristão e cidadão, devo adverti-los: não estamos num game!
Alguém talvez proteste e diga que eu esteja olhando a questão apenas por um lado. Pode ser. Às vezes, o maior perigo se encontra justamente sobre a faixa de pedestres, em especial quando uma fila de carros para e a outra continua trafegando como se nada fosse nada. Incauto, o pedestre pensa que atravessará em segurança. Quando menos vê, já voou pelos ares ou adentrou por algum parabrisa despedaçado.
Se não for corretamente usada pelo pedestre e respeitada pelo motorista, a faixa se transforma numa armadilha blandiciosa. Respeito mútuo, eis uma recomendação lógica.

Postado por Maicon Tenfen, republicando.