Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Posts de janeiro 2010

Férias!

09 de janeiro de 2010 8

Pois então, moçada, eis que o amigão de vocês ficará em férias. Um mês sem fazer nada, mas nada mesmo, em absoluto, com exceção do necessário e enigmático prazer de respirar sobre a terra. Em 34 anos de vida, é a primeira vez que cometo essa loucura – temo tomar gosto demasiado pelo ócio e, a partir de então, tornar-me um vagabundo irrecuperável. Mas viver é perigoso, já diria o velho Guimarães, daí a necessidade da experiência. Nesse período, a coluna do Santa republicará as piores crônicas de 2009, sob a responsabilidade e seleção de Jô e Mô, minhas editoras biônicas. No caso do Diário Catarinense, onde alimento uma coluna semanal, escrevi os textos antecipadamente. De resto, aviso para ninguém perder tempo com este blog. Salvo guerra civil ou, vejamos, o anúncio de um filme como O Filho do Brasil 2, o próximo post só aparecerá no próximo dia 10 de fevereiro. Até lá, minha gente, saúde, fortuna e felicidade.

Postado por Maicon Tenfen

O Original de Laura

08 de janeiro de 2010 2

Vladimir Nabokov: melhor escritor do que caçador de borboletas./Divulgação.

“Enquanto praticava seu amado passatempo da entomologia, meu pai caiu numa encosta em Davos e ficou preso em uma posição estranha num barranco íngreme enquanto os turistas que lotavam o teleférico reagiam com gargalhadas, interpretando como brincadeira os gritos de socorro e o movimento da rede de borboletas. A oficialidade pode ser impiedosa; ele foi em seguida repreendido pelos funcionários do hotel por voltar cambaleando ao saguão, sustentado por dois mensageiros, com o short em desalinho.”
Parte da introdução do recém-lançado O Original de Laura, a passagem acima foi escrita por Dmitri Nabokov, filho do grande Vladimir, autor de Lolita (1955), o romance dos romances do século 20, tão romance que ainda hoje é incompreendido por boa parte dos que se aventuram na leitura. Quem abre Lolita à procura de uma história pornô há de se frustrar; por outro lado, quem espera encontrar a baboseira existencialista do pós-guerra começará a se surpreender a partir da segunda página. Lolita localiza-se num meio-termo tão equilibrado que possui potencial para conquistar gregos e troianos, desde que seja lido sem preconceitos ou expectativas equivocadas.
Mas voltemos à passagem acima, que narra o começo do fim de Nabokov. Depois da queda em Davos, o escritor nunca mais se recuperou por completo. Faleceu num hospital de Montreux, na Suíça, em 1977. Pouco antes, pediu que os manuscritos de O Original de Laura fossem destruídos se ele morresse sem completar o romance. Para a alegria dos leitores mundo afora – e também do filho Dmitri, que ganhou alguns milhões com a publicação do livro – a esposa de Nabokov não levou o seu pedido a sério e trancou os manuscritos num cofre, onde ficaram por mais de 30 anos.
Semana passada, fui a uma livraria e contribuí com a conta bancária de Dmitri. A edição é bilíngue. Nas páginas pares, podemos visualizar os originais em inglês, todos escritos a lápis em cartões cheios de rasuras; nas ímpares, a tradução fiel de José Rubens Siqueira – digo fiel porque é nítido que o texto estava apenas no embrião, de modo que, em vez de um romance, temos apenas ANOTAÇÕES para um romance. Se a leitura valeu a pena? Acho que sim, pois tudo que Nabokov escreveu é digno de interesse.
Entretanto, alimento opiniões ambíguas em relação a O Original de Laura. Pequeno patrimônio da humanidade, é bom que tenha chegado ao público, mesmo contra a vontade do autor. Agora, que foi uma bruta jogada para ganhar dinheiro, isso ninguém tem como negar.
                            (Crônica publicada hoje, no Santa).

Postado por Maicon Tenfen

O paradoxo das baguinhas

07 de janeiro de 2010 4

Por que as cabritas fazem cocô em forma de baguinhas?/Divulgação.

É provável que você conheça algum desses sabichões que vivem de vomitar sua suposta sabedoria sobre a paciência alheia. Conheço muitos, ou pior, convivo com muitos, gente que sabe tudo de tudo, que dá palpites e pitacos sem parar, pouco importando se os ouvintes estão interessados em tanta chatice travestida de inteligência.
Bem, devo agora fazer uma confissão: fui um sabichão precoce! Meus detratores diriam que continuo sabichão, especialmente quando me meto a escrever sobre temas que ignoro, mas, no bem da verdade, hoje conheço o conforto e a segurança do meu devido lugar graças a uma lição que tomei na época em que tinha treze anos de idade. Foi uma lição tão instrutiva — e tão valorosa — que decidi batizá-la de “o paradoxo das baguinhas”. Passo-a de lambuja, na boa, para que você também passe um corretivo no sabichão da sua área.
A história foi assim: havia um carpinteiro muito afamado e muito velho que estava consertando o telhado da nossa casa. Um dia recebeu uma correspondência e, por ser analfabeto, pediu que eu a lesse para ele. Prestei o favor cheio de um orgulho que rapidamente se transformou em soberba, vejam só, eu, que mal criara aquela penugenzinha debaixo do braço, lendo cartas para um sujeito que poderia ser meu bisavô. Dali para frente, comecei a tomar o tempo do carpinteiro para discursar sobre coisas que aprendia na escola.
Acho que no primeiro dia ele achou graça. No segundo, tolerou. No terceiro, de saco cheio, largou o serrote e disse:
— Então tá bom, ô piá, me responda uma curiosidade que tenho desde criança: por que a cabrita faz cocô em forma de baguinhas?
A pergunta era estranha e meio debochada, por isso fiquei quieto para ganhar tempo (sabichão que é sabichão também tem que saber a hora de se calar). Mas ele voltou à carga, rindo, e acrescentou:
— Não é tu que sabe tudo?
— Também não é assim, eu só…
— Responde logo: por que a cabrita caga baguinhas?
— E eu lá vou saber?!
— Tá vendo como são as coisas, moleque? Se tu não entende nem de merda, então por que ficou tanto tempo me enchendo os ouvidos?
Daquele dia em diante, passei a duvidar de tudo que eu sabia que não sabia que sabia. Ah sim, quase que me esqueço: o nome do carpinteiro era Aristóteles!

Postado por Maicon Tenfen

Arrogante, prepotente e ignorante

06 de janeiro de 2010 20

Dedico o retrato de Voltaire a todos que confundem ignorância com discordância./Divulgação.

Reproduzo a “cartinha” que a publicitária Tatiana Dalmagro publicou hoje na página 2 do Santa:

 

Cada vez que leio o Santa, me enojo dos artigos do colunista Maicon Tenfen. Sempre cheios de arrogância, de prepotência e de ignorância. Muitas vezes, demonstra que ele não tem o que falar. No artigo em que se refere ao filme Lula, O Filho do Brasil (clique aqui e aqui para ler), fica evidente seu pouco ou nenhum conhecimento de História, do que realmente foi a luta sindical no Brasil no final dos anos 70 e início de 80. Sugiro ao colunista que deixe de considerar os eleitores como idiotas.

 

Fiz questão de trazer a carinhosa mensagem da Tatiana para o blog porque concordo com quase todas as palavras dela. Sou arrogante, prepotente e ignorante? Xi, isso já admiti faz tempo, nem vale a pena discutir a questão. Também já admiti que muitas vezes não tenho o que falar (o que não é o caso das duas colunas sobre o filme do Lula). E essa história de considerar os eleitores idiotas… Ai, ai, ai, só posso negar uma coisa dessas se faltar com a sinceridade, e infelizmente acho que não estou sozinho nesta opinião. Dito isto, gostaria que a Tatiana, junto às deliciosas acusações que lançou à minha pessoa, combatesse também os meus argumentos contra o filme do Lula. O blog, que segue o lema de Voltaire inscrito ali em cima, está aberto à Tatiana e a quem mais considere injustas as minhas críticas. Entendam, minha gente, eu não estou preocupado em ter razão, só quero promover o debate. Quanto aos ataques pessoais, fiquem à vontade para mandar. Faz uns dois anos que eles deixaram de me ofender e passaram a me deleitar!

Postado por Maicon Tenfen

A BBB Elenita

06 de janeiro de 2010 6

A BBB Elenita no seu uniforme de mestra-doutoranda!/Divulgação.

O tal BBB é de torrar o saco, não sei como tanta gente aguenta. Mas parece que nem tudo está perdido. Uma das participantes, Elenita Rodrigues, é mestre-doutoranda em linguística pela Unicamp. Vamos ver se ela fará a mediação dos conflitos e dos preconceitos linguísticos que costumam aparecer no programa, já que a atração conta com inúmeros idioletos (fala pessoal) do país. Abaixo, uma notinha que catei na Folha Online:

 

A partipante do “BBB” Elenita Rodrigues fez mestrado em linguística aplicada pela UnB (Universidade de Brasilia), em 2002, e atualmente desenvolve seu projeto de doutorado na mesma área pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).
As informações foram publicadas por ela na plataforma Lattes, que reúne o histórico acadêmico de estudantes do país.
“Tem experiência na área de Lingüística Aplicada, dedicando-se primordialmente ao ensino de português como LE/L2. Atualmente, interessa-se por estudos sobre culturas e identidades em contextos de sala de aula de português para estrangeiros”, explica.

Postado por Maicon Tenfen

O filme do Lula - parte 2

06 de janeiro de 2010 6
Mesmo que Lula nunca tivesse ocupado um cargo de destaque, sua história mereceria ser contada em imagens. Quem não gosta de uma bela saga de superação? Pra falar a verdade, a trajetória do presidente é tão incrível e exagerada que jamais ocorreria a um cineasta de bom senso. Chegou às telas graças à premissa do “baseado em fatos reais”, e é aqui que começa o nosso problema.
De um lado, o filme nos mostra as tragédias de um personagem destinado a “algo maior”; de outro, simultaneamente, vemos a atividade política, o aprendizado do sindicalista, a construção de um líder de massas. No primeiro caso, temos a emoção, a desgraça, as lágrimas; no segundo, uma aparente tentativa de racionalizar episódios da história recente do país.
O filme deixa de ser filme e se transforma em peça de propaganda quando mistura as duas coisas e confunde os dramas pessoais com a atividade política de Luís Inácio. Por exemplo: logo depois de sermos emocionalmente contaminados com as cenas da morte da primeira mulher de Lula, somos forçados a acompanhar – com a mesma emoção! – os seus primeiros passos no sindicalismo. É assim que se constrói um mito, um messias, um salvador da pátria.
Mas o pior vem agora: fabricar a imagem do “líder do povo” como um herói capaz de superar todos os obstáculos é um procedimento semelhante ao adotado por ditadores como Fidel Castro (Cuba, esquerda) e Francisco Franco (Espanha, direita). Tais procedimentos, entretanto, só se tornam possíveis graças ao controle das multidões, no caso com o paternalismo do Bolsa-Família, e ao aplauso inconsequente dos chamados formadores do opinião.
Quando professores universitários ou jornalistas encantados com o filme vêm a público dizer que “Lula é maior do que o Brasil”, estamos patinando no processo democrático e ferindo a autonomia das nossas instituições. O mais engraçado é que Lula não precisava do filme para legitimar sua popularidade. No entanto, temos o filme, e com ele uma espécie de piada sobre a nossa ânsia de heroísmo e o nosso desejo de conforto sob as asas de um Grande Irmão.
Pois é desse jeito que Lula é retratado na tela, um Grande Irmão orwelliano, o “escolhido” que traz equilíbrio à “força” sindical, já que não existe mácula, nem tropeço ou a menor sombra de erro no personagem. O Filho do Brasil não deveria ser criticado pelos opositores do presidente, mas por seus fãs, seus amigos, seus partidários. É o maior ato falho da nossa história presidencial.
                             (Crônica publicada hoje, no Santa).

Postado por Maicon Tenfen

A namorada chinesa

05 de janeiro de 2010 1

Camões: mestre na lírica e na épica da nossa língua./Divulgação.

Conta-se que Camões enfrentou inúmeros naufrágios em suas andanças pelo Oriente. O mais famoso se deu na foz do Rio Mekong, quando uma tempestade pôs a pique a caravela em que viajava.
Na confusão que se seguiu, o poeta deparou com um dilema que atravessaria os séculos: de um lado, sumindo na imensidão das águas, viu a bolsa com o manuscrito d’Os Lusíadas; de outro, tomando os primeiros caldos e gritando por socorro, a sua bela namoradinha chinesa. A quem salvar?
Veja que a resolução do problema não era tão simples quanto pensam os apressados.
De certa maneira, Camões sabia que Os Lusíadas tornar-se-iam o poema mais importante do nosso idioma. Símbolo máximo da cultura portuguesa, é composto por 8816 decassílabos simetricamente heroicos (com tônica na sexta e na décima sílaba de cada verso), algo muito difícil de fazer, trabalho que lhe consumiu anos e mais anos de reclusão.
E a namorada chinesa… Ah, era doce e graciosa como um lírio num vaso de ouro, um pêssego em forma de gente, uma flor de laranjeira. Dizem que se chamava Dinamene, tinha os olhos mais verdadeiros que o poeta conheceu, era culta e declamava madrigais depois do amor.
Se Camões salvasse Dinamene, Os Lusíadas desapareceriam nas águas inclementes; se salvasse Os Lusíadas, Dinamene é que afundaria e morreria afogada. Mais que violenta, a borrasca não permitia a alternativa de socorrer a obra e a amada ao mesmo tempo. Ou uma, ou outra, e o poeta tinha menos de dois segundos para decidir.
Considerando que hoje o resumo d’Os Lusíadas aparece em todos os manuais de Língua Portuguesa do mundo, nem preciso dizer que Camões ignorou as súplicas da pobre Dinamene e mergulhou para salvar a bolsa com o manuscrito. Mais tarde, talvez para se penitenciar, ele dedicou à memória da amada um dos seus mais famosos sonetos, aquele que começa com o cacófato “maminha”:
“Alma minha gentil, que te partiste/ Tão cedo desta vida, descontente,/ Repousa lá no céu eternamente/ E viva eu cá na terra sempre triste”.
Será que Camões agiu mal? O que você teria feito no lugar dele? Bem, a resposta a esse tipo de pergunta é capaz de revelar muito de nós mesmos ou do momento pelo qual passamos. De minha parte, portanto, restrinjo-me a dar um conselho às potenciais Dinamenes que ora me leem: nunca namorem poetas, a menos que vocês saibam nadar.

Postado por Maicon Tenfen, republicando.

O filme do Lula - parte 1

05 de janeiro de 2010 10

Glória Pires faz o papel de Dona Lindu, mãe de Lula./Divulgação.

Quem lê a coluna sabe que venho acompanhando as controvérsias que cercaram a produção, a realização e agora a distribuição de Lula, O Filho do Brasil. Ideologias à parte, há muito o que dizer sobre o filme, uma das maiores picaretagens já ajambradas pelo cinema nacional. Hoje falarei dos aspectos externos da obra, ou seja, quem a financiou, a quem se destina e como os políticos estão se beneficiando dela. Amanhã falarei do filme em si mesmo, das imagens, das promessas de messianismo contidas no roteiro.
Logo no início da projeção, aparece um letreiro que diz mais ou menos o seguinte: “Este filme não foi financiado por nenhuma lei de incentivo à cultura federal, estadual ou municipal, mas por patrocinadores privados que investiram diretamente no projeto”. E aí começam a desfilar as logomarcas dos tais patrocinadores, por coincidência empresas beneficiadas pelo governo Lula através de empréstimos milionários ou bilionários concedidos pelo BNDES.
Cito algumas dessas empresas, acompanhadas dos valores dos empréstimos: Ambev (319 milhões só em 2005), Grendene (314 milhões para comprar a Azaleia), Neoenergia (600 milhões em 2008), EBX (mais de 3 bilhões de reais para o grupo do empresário Eike Batista só em 2009) e Oi (4,4 bilhões em 2009, o maior valor já concedido a uma empresa de telecomunicações). Segundo os produtores, o filme custou 12 milhões de reais, ou simplesmente as migalhas que sobraram das transações acima. Quem pagou a conta, portanto, foi o BNDES.
Em determinado momento, quando apareceu a logo da construtora Camargo Corrêa, as pessoas começaram a rir dentro do cinema. Ficou claro que estávamos diante de uma piada genuinamente brasileira, mas não devemos esquecer um detalhe fundamental: o filme não foi feito para ser visto em cinemas de shopping, mas em telas improvisadas nas salas das centrais sindicais do país. Antes de chegar ao conteúdo de O Filho do Brasil, podemos perceber pelo financiamento e pela distribuição que se trata de uma sofisticada peça de propaganda. Quem acessar o Blog da Dilma (Rousseff) verá como ela já começou a “capitalizar” sua candidatura com o filme.
Lá aparecem personalidades como Paulo Henrique Amorim afirmando que “Lula é maior do que o Brasil”, ou seja, stalinismo deslavado. Sorte que o filme é ruim. Se estivesse à altura de Dois Filhos de Francisco, por exemplo, é possível que acabássemos todos no paredão de fuzilamento. Mas isso é assunto para amanhã.
                           (Crônica publicada hoje, no Santa).

Postado por Maicon Tenfen

Sobre leitura

04 de janeiro de 2010 4
Todo mundo se pergunta por que os jovens, pelo menos em sua maioria, têm aversão à leitura, em especial à leitura de livros. Claro que não é fácil encontrar a resposta. Já nos ofereceram tantas pistas falsas que simplesmente não conseguimos enxergar a verdadeira natureza do problema. A influência da internet e da TV sobre os hábitos da juventude já foi debatida à exaustão. Por outro lado, quando se fala da leitura entre jovens, principalmente dessa que é realizada a partir da escola, quase ninguém se lembra de perguntar ao tal jovem o que ELE acha do assunto. Vamos ouvi-lo, portanto:
— Esses livrinhos indicados pela profe? Coisa mais chata, pô! Chata e careta!
Sou obrigado a concordar com o guri. Depois que as grandes editoras descobriram o filão da chamada literatura infanto-juvenil, os professores de Língua Portuguesa e as bibliotecas das escolas (das que possuem biblioteca, é bom lembrar) foram bombardeados com toda a sorte de romancinhos insípidos e oportunistas, rasteiros mesmo, sufocantes em seu bom-mocismo e suas infaltáveis lições de moral.
É uma contradição, não é? Os jovens não gostam de ler e mesmo assim consomem milhões de exemplares produzidos pelas megaindústrias do setor. Não falo em “produção” e “indústria” por acaso. Os chamados romances infanto-juvenis são concebidos em verdadeiras reuniões de marketing, aproveitam-se das tendências e dos modismos “que fazem a cabeça da garotada” e nunca ousam em sua estrutura narrativa que, por ter funcionado comercialmente numa certa ocasião, agora é repetida até o limite do tolerável.
— Isso é exagero — diria um conformista. — Pelo menos os jovens estão lendo.
Estão nada. Com ou sem a ajuda do governo, estão fazendo algo bem diferente: estão comprando livros que os tratam como idiotas completos. Depois do terceiro romancinho comercial, o moleque se enche da mesmice e do blablablá politicamente correto e dá um tchau definitivo para a leitura. Infelizmente, poucos encontram um substituto em obras que lhes pareçam mais autênticas.
Como os adolescentes, que são menos bobos do que os pais e os professores imaginam, reafirmo minhas suspeitas em relação a esses livros certinhos e a eles, mais do que à internet e à TV, atribuo uma boa parcela da responsabilidade pelo desestímulo à leitura. Então — você deve estar se perguntando — o que sugiro que os jovens leiam? Pornografia? Violência gratuita? É óbvio que não. Apenas tomei a liberdade de expressar uma opinião e esclarecer que a literatura, ao contrário da escola, não possui funções necessariamente educativas ou moralizantes. Se não confundirmos esse conceito, quem sabe um dia poderemos perguntar: “por que os jovens GOSTAM de ler?”
                                (Crônica publicada hoje, no Santa).

Postado por Maicon Tenfen

Matar ou morrer

01 de janeiro de 2010 1
Superprotetora que é, minha mãe sempre me aconselhou a usar cinto nas calças e nunca brigar por causa de mulheres. Embora esteja até hoje matutando sobre o primeiro item do seu conselho, acho que desde cedo entendi a importância e a utilidade do segundo.
Não será tão grave levar uns cascudos e sair com o rabo entre as pernas se você brigar por futebol, política, ignorância ou religião. Se for por mulher, porém, o buraco é mais embaixo, bem mais.
Quem briga por mulher não tem direito de guardar desaforo no bolso. É preciso passar do grito ao soco, do soco à facada, da facada ao tiro, do tiro ao canhonaço e do canhonaço ao atentado nuclear.
E principalmente — ai, ai, ai! — se a mulher estiver na plateia. Aí danou-se! Para quem adentra a lavanderia da honra, é preferível morrer a voltar pra casa com o nariz quebrado e sangrando.
Acho que foi por isso que os antigos inventaram o duelo. Uma disputa mortal entre cavalheiros armados com lâminas ou paus-de-fogo devia ser o melhor remédio para os males da honra.
E olhe que isso não era coisa da ralé, não. Ben Jonhson, por exemplo, dramaturgo e arquiinimigo de Shakespeare, teve de escrever na cadeia depois de duelar com o ator Gabriel Spenser por motivos obscuros (dizem as más línguas que por causa da fogosa anã que costurava as roupas da companhia teatral!).
Também Alexander Pushkin, considerado por muitos o maior poeta russo de todos os tempos, foi alvejado num duelo por causa de… claro!… sua mulher, a bela e aristocrática Natália Goncharova. Em janeiro de 1837, Pushkin atirou suas luvas de pelica nas faces de um oficial francês chamado Georges d’Anthès.
O motivo? Na frente de toda a corte de Nicolau I, o galinhão d’Anthès corria freneticamente atrás de Natália e, ofensa das ofensas, chegou a puxá-la pelo braço! Como profetizado numa de suas obras, Pushkin levou um tiro na barriga e passou dois dias gemendo e vomitando sangue antes de morrer.
Eça de Queiroz ridicularizou esse tipo de duelo — e de quebra, como costume, toda a burguesia lusitana — em seu romance Alves & Cia. Infelizmente, isso não impediu que Euclides da Cunha, um dos grandes autores brasileiros da época, sucumbisse à tentação de comprar uma pistola e procurar Dilermando de Assis, o jovem amante de sua esposa, com o firme propósito de matar ou morrer.
Corria o dia 15 de agosto de 1909, um domingo de chuva. Euclides só não contava que seu rival fosse campeão de tiro do colégio militar e ainda por cima tivesse o corpo fechado. É que Dilermando não mandou somente Euclides para o panteão dos imortais. Atirou também no filho mais moço do escritor, Quidinho, que anos depois tentou vingar o pai.
Um par de tragédias literárias! Pushkin morreu com 37 e Euclides da Cunha com 43. Às vezes fico imaginando as obras que esses gênios escreveriam se tivessem chegado à velhice. Mas não pensem que colocarei a culpa em suas esposas. Apenas direi que faltaram aos dois — e à literatura universal — mães que dessem conselhos como a minha!

Postado por Maicon Tenfen, republicando.