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Posts de fevereiro 2010

Dicas de redação

27 de fevereiro de 2010 1

Divulgação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De um professor de redação a seus alunos:
 
Não é nada chic encher o texto de palavras estrangeiras. Coisa mais démodé! Melhor deixá-las out side, caso contrário corremos o risco de que fiquem sem sentido ou com cara de pari passu.
Essa minha opinião nada tem a ver com bairrismos ou nacionalismos. É jequice mesmo. Quer dizer, o uso de vocábulos estrangeiros, não a minha opinião.
Pero que sí, pero que no, para que vocês fiquem a la vonté e realizem um verdadeiro capolavoro, nada mais nice que deixar de lado o chiffon, dar um start com ideias soft e depois arranjar um plus mais hard para oferecer feed back ao paper.
Como diria Júlio César, “alea jacta est”.
Outro item que me carcome e me amofina é o uso de palavras raras no corpo da redação. Para que obnubilar e obstacularizar a escorreita acepção dos excertos? Assaz estúpido, isso é, como se tudo fosse pouco, indiscretíssimo. Não desejo que me tomem por axiomático, mas, como sugeriu Quintana, nada mais espalhafatoso que a palavra “espalhafatoso”.
Outra coisa que acarreta em fúria é uma preposição mal colocada. Gente, vocês precisam estudar regência! Só Deus entende como aspiro alunos que saibam diferenciar um verbo transitivo direto de um indireto! Estudem, crianças, estudem, estudem e estudem. Como diziam os antigos, “reprehendet aliquis, citius atque imitabitur”.
Por isso nem quero falar desse vício execrável que é a voz passiva. As últimas redações não foram adequadamente escritas por vocês justamente por causa dessa maldita pústula gramatical. Já disse e repito, meus queridos: a voz passiva deve ser evitada, mormente se vier sucedida por esses agentes de ação horrorosos e explicitamente explícitos.
O que dizer dos advérbios terminados em “mente”? Que baixaria! Simplesmente não entendo como vocês conseguem! E, data venia, não me venham com linguagem jurídica, nem com linguagem empresarial para otimizar os recursos do seu texto.
Mas o pior de tudo, aluninhos e aluninhas do meu coração, é o gerundismo que devemos estar evitando a todo custo. Também devemos estar prestando atenção no fetiche das citações. Mania besta essa de escrever entre aspas! Não compreendo o porquê de encher o texto de citações, ainda mais quando pescadas de línguas mortas — deve ser para impressionar os bobos! — e lançadas na página sem o menor contexto e função. Como nos ensinou Fergunson, “as citações são a morte do intelecto”.
Enfim, ainda devo adverti-los dos perigos de se iniciar um parágrafo de conclusão com expressões conclusivas do tipo “portanto”, “sendo assim”, “por fim” etc. É mais redundante que “subir pra cima”, tropeçar num “elo de ligação” e “cair um tombo” daqueles. Jamais terminem um texto de repente.

Postado por Maicon Tenfen

Chatear e Encher

26 de fevereiro de 2010 2

Paulo Mendes Campos, o escritor que não enche e nunca chateia./Divulgação.

E aí está, conforme promessa, a crônica do Paulo Mendes Campos a que me referi hoje na coluna do Santa e no post abaixo. É provável que muitos de vocês já a conheçam, mas sempre vale a pena fazer uma releitura. Com este post, a propósito, inauguro a nova série do blog: CRÔNICAS INESQUECÍVEIS.
 
Um amigo meu me ensina a diferença entre “chatear” e “encher”.
Chatear é assim:
Você telefona para um escritório qualquer na cidade.
— Alô! Quer me chamar por favor o Valdemar?
— Aqui não tem nenhum Valdemar.
Daí a alguns minutos você liga de novo:
— O Valdemar, por obséquio.
— Cavalheiro, aqui não trabalha nenhum Valdemar.
— Mas não é do número tal?
— É, mas aqui não trabalha nenhum Valdemar.
Mais cinco minutos, você liga o mesmo número:
— Por favor, o Valdemar já chegou?
— Vê se te manca, palhaço. Já não lhe disse que o diabo desse Valdemar nunca trabalhou aqui?
— Mas ele mesmo me disse que trabalhava aí.
— Não chateia.
Daí a dez minutos, liga de novo.
— Escute uma coisa! O Valdemar não deixou pelo menos um recado?
O outro desta vez esquece a presença da datilógrafa e diz coisas impublicáveis.
Até aqui é chatear. Para encher, espere passar mais dez minutos, faça nova ligação:
— Alô! Quem fala? Quem fala aqui é o Valdemar. Alguém telefonou para mim?

Postado por Maicon Tenfen

Doença crônica

26 de fevereiro de 2010 1
*                 
Na crônica de hoje, no Santa, rendi-me completamente à nostalgia. Mas foi uma forma de homenagear duas pessoas essenciais na minha trajetória como amante da palavra escrita. Claudino Zermiani, o professor citado abaixo, e Paulo Mendes Campos, exemplo de escritor que fez a vida nos jornais, ou seja, um cronista. Ambos, infelizmente, são falecidos.
 
 
Doença crônica
*                  Quando eu estudava no Ensino Médio, tive um professor de Português que de vez em quando lia poemas e fragmentos de romances para a classe. Acho que ainda não inventaram forma mais eficiente de despertar o gosto pela leitura. Alguém abre um livro, lê um fragmento, faz comentários e indica novos autores. Se não funcionar desse jeito, então é melhor desistir porque não funcionará de jeito nenhum.
O professor também gostava de trabalhar com material jornalístico. Muito material jornalístico, por sinal. Ele tinha uma coleção de recortes composta por editoriais dos principais jornais catarinenses. Desse modo, além de discutir a escrita como arte, discutíamos a escrita como informação, análise e opinião. A síntese disso era a leitura de crônicas, um tipo de texto peculiar que, se não é exatamente jornalismo, também não é exatamente literatura.
Crônica! Eis uma palavrinha que sempre foi meio misteriosa para mim. Sei que tem a ver com Cronos, o deus do tempo, mas na época eu não conseguia separar a palavra dos transtornos que acompanham os doentes crônicos. Isso quer dizer que, na minha pobre cabeça, “crônica” era coisa de gente enferma. Ridículo, né? Nem tanto. Contaminado por essa doença de escrever sobre o cotidiano, hoje posso perceber como o raciocínio fazia sentido.
Inclusive, sou capaz de determinar o momento e a causa do contágio. Eu tinha dezesseis anos e sonhava escrever contos e romances de suspense. Naquele dia, o professor entrou com um sorriso enigmático, fez a chamada e disse que, antes de passar a matéria, leria uma antiga crônica do Paulo Mendes Campos chamada CHATEAR E ENCHER (no próximo post).
— Esse cara faleceu no ano passado — informou à turma. — Era um mestre do gênero.
Depois da leitura da crônica, que possui um desfecho sensacional, a sala foi tomada por uma comoção gargalhística inesquecível. “Massa!”, pensei. “Seria legal se eu tentasse fazer algo parecido”. Segundo meu professor, todos os estilos e assuntos cabem nas trinta linhas de uma crônica, do humor ao lirismo, da curiosidade à cidadania, da acidez à candura. Resultado: estou tentando até hoje! A partir de 2002, quando comecei a escrever semanalmente para o Diário Catarinense, os contos e romances de suspense ficaram para as horas vagas. Em 2007, cometi a loucura de aceitar uma coluna diária no Santa. E cada dia, sempre que me bato em busca de palavras para preencher este espaço, reforço a conclusão de que a minha doença só pode ser CRÔNICA mesmo.

Postado por Maicon Tenfen

Madrigal Melancólico

25 de fevereiro de 2010 6

Cara e coroa: Maneco no auge da carreira!/Divulgação.

Na minha modesta opinião, Manuel Bandeira é o maior poeta que o Brasil conheceu em toda a sua história, e é por isso que resolvi iniciar com ele a série dos POEMAS INESQUECÍVEIS. É óbvio que encontraremos momentos de felicidade poética em outros autores, mas Bandeira, quando pensado no conjunto de sua obra, possui uma coesão e uma singularidade raras num mesmo escritor. Em quase todos os seus textos, ele consegue ser popular e experimental ao mesmo tempo.
Agradeço a sugestão do Tiago Ribeiro, que indicou o Último Poema (e isso me fez lembrar da Última Crônica do Fernando Sabino, o que certamente nos levará a uma nova “série”, eita!, a das CRÔNICAS INESQUECÍVEIS), mas hoje vou seguir a escolha do Andarilho, Madrigal Melancólico, por coincidência o poema que eu tinha em mente para começar.
Madrigal é um tipo de composição poética geralmente destinada à musicalização que surgiu no norte da Itália renascentista. No seu madrigal — que até hoje não sei por que ele chama de “melancólico” — Bandeira faz uma espécie de declaração de amor com passagens enigmáticas e final inesperado. Ou, para quem conhece a biografia do autor, nem tão inesperado assim. Tuberculoso notório, passou a vida pensando que morreria no dia seguinte (mas acabou morrendo de velho!), daí a recorrência quase obsessiva a Eros, a nossos instintos vitais e ao lema horaciano do Carpe Diem.
Com vocês, Madrigal Melancólico!
 
 
O que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.
O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito sutil,
Tão ágil, tão luminoso,
— Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.
O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba e que satisfaz.
O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi.
Não é a irmã que já perdi.
E meu pai.
O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti — lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a VIDA.

Postado por Maicon Tenfen

Pra que serve a ficção?

25 de fevereiro de 2010 0

Paul Auster, que soube responder a pergunta ali do título./Divulgação.

Já que me intrometo a escrever contos e romances, muitas vezes parei e me perguntei para que exatamente serve a ficção, se é que ela serve para alguma coisa. Acho que ninguém respondeu essa pergunta com mais propriedade do que o romancista americano Paul Auster. Numa passagem de Desvarios no Brooklyn, ele conta uma história — real! — sobre Franz Kafka, um dos maiores escritores do século 20.
Em seu último ano de vida, Kafka finalmente abandonou Praga e se mudou para Berlim, onde passou a viver com Dora Diamant, uma jovem de 19 anos por quem estava enamorado. Apesar da saúde abalada e dos graves problemas que a Alemanha enfrentava na época, parece que nosso escritor viveu feliz os seus últimos meses.
Quase todas as tardes, saía de casa para dar uma volta no parque. Certo dia, num susto, encontrou uma menina chorando à beira do caminho. No que se aproximou para perguntar o que havia acontecido, ela se acalmou um pouco e explicou que acabara de perder a boneca. Com o intuito de consolar a garota, Kafka decidiu que deveria usar os seus dotes de ficcionista:
— Você não a perdeu — disse. — Na verdade, ela saiu para viajar. Sou um velho amigo da sua boneca, sabe? Ela me escreveu contando tudo.
— Você tem a carta aí?
— Esqueci em casa, mas prometo que trago amanhã.
Imediatamente, Kafka voltou para seu escritório e, com o mesmo capricho que dedicava a seus contos e romances, inventou uma carta para a menina. Conforme o combinado, encontrou-a no dia seguinte, sentou-se num banco do parque e leu em voz alta a suposta mensagem da boneca, que se desculpava pelo sumiço, no fundo amava muito a sua dona, mas decidiu que chegara a hora de sair e conhecer o mundo.
O mais impressionante dessa história é que Kafka repetiu a operação todos os dias durante as três semanas seguintes. A boneca cresce, entra numa escola, conhece gente nova, faz amigos, arruma um namorado. Vive tantas aventuras que, apesar da saudade, está impossibilitada de voltar para casa. “Pouco a pouco, Kafka vai preparando a criança para o momento em que a boneca desaparecerá de sua vida para sempre (…) Descreve o jovem por quem ela se apaixona, a festa de noivado, o casamento no interior, até mesmo a casa onde a boneca e o marido vão viver. E, por fim, na última frase, a boneca se despede de sua antiga e amada amiga.”
      Para terminar de responder a pergunta lá de cima, resta dizer que a menina, agora dona de uma ficção para substituir sua perda, teve condições de curar sua infelicidade e voltar a viver em paz.
                                 (Crônica publicada hoje, no DC).

Postado por Maicon Tenfen

Sonho (quase) erótico

25 de fevereiro de 2010 2

Divulgação.

Vejo-me forçado a fazer uma confissão: na noite passada, tive um sonho que mexeu comigo. Antes de contá-lo, devo dizer que acredito muito nos sonhos. São uma espécie de mensagem simbólica que enviamos a nós mesmos. Através deles, podemos descobrir quem realmente somos, o que queremos, o que tememos. Não estou de bobeira, não. Falo sério. Nunca falei tão sério como agora.
Sonhei com uma loira fenomenal. Alta, esbelta, lábios de açucena, olhos de verde em flor. O nome dela — e eu sabia disso no sonho, pois a conhecia — era Blunalva. Blunalva, entende? A mulher por quem deixei meus pais e minha aldeia, no finzinho do século passado, seduzido por promessas de amor e felicidade.
Ela sorria, bela, enquanto seus cabelos se ondulavam em câmera lenta. Estava de braços abertos, disse que me queria de volta em seu leito de paixões, convidava-me a provar os sabores e as delícias que tinha a oferecer. Sobre ela, uma aura incandescente, e longe, bem longe, tocava uma música do… Victor e Léo?!?
Logo vi que era bom demais pra ser verdade. Assim que me aproximei para tocá-la, Blunalva cruzou os braços e começou a bater com a ponta do pé no chão. Fez beicinho antes de falar.
— Maicon, Maicon! Como estou decepcionada contigo.
— Mas por quê?
— E ele ainda pergunta! — disse como se estivesse num palco. — Tudo fiz por ti, e a ti acolhi em meu seio, dei-te tudo que havia para dar. E o que recebo em troca? A infâmia, a calúnia, a difamação…
— Não entendo.
— Achas que não sei o que vives espalhando por aí? Que não escovo os dentes, que tenho mau hálito…
— E não é verdade? — retruquei, tapando o nariz.
— E minhas pernas? Por que disseste que são cabeludas?
— Porque são, uai! É por isso, aliás, que fugi de ti. Por isso e por sua mania de querer ser sempre bajulada, de exigir admiração e submissão canina de todos os que se aproximam.
— Cafajeste! — e me deu um tapa na cara.
Acordei banhado em suor. Felizmente, foi apenas um sonho. Um sonho? Blunalva que me perdoe a indiscrição, mas não se pode confiar numa cidade, quer dizer, numa mulher que varre a sujeira para debaixo do tapete.
                          (Crônica publicada hoje, no Santa).

Postado por Maicon Tenfen

Poemas inesquecíveis

24 de fevereiro de 2010 4

Manuel Bandeira: como esquecer os seus poemas?/Divulgação.

Amanhã – ou depois de amanhã, nunca se sabe – iniciaremos uma “série” nova aqui no blog. Há de se chamar POEMAS INESQUECÍVEIS. O objetivo é publicar, com alguns comentários, poemas que marcaram época na literatura brasileira, ou portuguesa, ou francesa, ou americana… É provável que algum texto do senhor da foto ao lado faça a estreia da seção. Escolherei os poemas conforme critérios de gosto pessoal, por isso seria interessante se vocês enviassem sugestões de poemas inesquecíveis para reproduzirmos aqui no blog. Mas ó: eu disse inesquecíveis, hein! Não me venham com bagaceiras ou chumbreguices, que aí não dá.

Postado por Maicon Tenfen

A mulher que amava o Amado Batista

24 de fevereiro de 2010 5

O que aconteceu à mulher que amava o cantor?/Divulgação.

Eu tinha onze anos e gostava de ler histórias em quadrinhos. Na cidade onde nasci, havia apenas dois ou três lugares que vendiam papel impresso com algum tipo de letra ou desenho. Um desses lugares, o que eu costumava frequentar, era uma espécie de lojão-tem-de-tudo, uma casa comercial que vendia de móveis a eletrodomésticos, de discos e revistas a artigos de papelaria.
Como tinha pouco dinheiro e só podia comprar um gibi por vez, folheava todas as revistinhas e demorava um bocado até escolher a que eu levaria para casa. Num fim de tarde, indeciso entre um lançamento de Tex Willer e uma reedição do Mágico Mandrake, assisti a uma cena que, se na época considerei absurda e um pouco incompreensível, hoje não tenho a menor dúvida de seu caráter simbólico.
Vi uma mulher jovem e que então me pareceu muito bonita acariciando a capa de um LP do Amado Batista. Como ficaria claro a seguir, ela não estava nem um pouco interessada na música do cantor. Olhava ternamente para a foto, sorria com doçura e, se agora não me engano, lágrimas perigavam fugir de seus olhos marejados.
— Maria! — uma voz autoritária a chamava. — Vamos embora!
Se não fosse o dono dessa voz, um senhor rude e bochechudo que de repente encheu o momento de dramaticidade, eu teria voltado para meus quadrinhos e provavelmente esquecido o assunto. Mas o modo como a chamou, a forma estúpida com que extraiu a coitadinha dos braços do Amado Batista fizeram-me perceber uma tragédia em andamento.
— Vamos logo! — repetiu o homem. — Ainda temos que tirar o leite das vacas.
Guri imaturo, demorei um pouco para entender que não era o pai dela, mas o marido. Sempre abraçada ao LP, objeto que acalentava com carícias de amante, a mulher se aproximou do velho e suplicou:
— Vamos comprar?
Ele respondeu com uma bronca. Acho que era incapaz de falar sem agressividade:
— O que você quer com essa porcaria?
— Não é porcaria. É do Amado Batista.
— Se nem temos toca-disco em casa.
— Não é preciso ouvir.
— Comprar um disco pra não ouvir? Vai fazer o que com isso, então?
— Guardar para quando eu tiver um aparelho de som.
E continuaram a discussão no meio da loja, para quem quisesse ouvir, a ponto de uma das vendedoras, depois duas e por fim todas as três tomarem partido da mulher. Por que ele não comprava o LP?, perguntavam. Porque gosto dela, respondia o homem. Forma estranha de gostar, hein? Não veem que ela é fraca das ideias e que eu preciso cuidar da cabeça dela?
— Melhor cuidar da sua! — ouvi um cliente cochichando com outro.
No começo imaginei que aquelas mulheres só estavam interessadas na comissão da venda, mas logo ficou claro que se tratava de uma sincera manifestação de solidariedade feminina. Tanto que, quando as coisas começaram a esquentar pra valer, as três resolveram fazer uma vaquinha e presentear a esposa do carrasco com o LP do Amado Batista. Foi a gota d’água:
— Minha esposa não precisa de presentes, ainda mais de gente como vocês.
Segurou o braço da mulher — tinha uma força de cavalo, pois ela rapidinho largou o LP — e tratou de levá-la para fora. Entraram num picape Ford cor-de-laranja, o emblema motorizado dos pequenos proprietários rurais. Pelo jeito como ele bateu a porta e pela forma dolorosa como ela se esforçava para conter os soluços, contas seriam acertadas quando chegassem em casa.
Indignadas, as vendedoras ficaram um longo tempo debatendo a questão. Quanto a mim, finalmente escolhi a revistinha do Mandrake e apaguei a cena de minhas preocupações. A lembrança desse dia só voltou quando me tornei adulto. Cada vez que passo num magazine e vejo um CD do Amado Batista, penso com nostalgia na pobre mulher que o amava. O que será que aconteceu com ela?

Postado por Maicon Tenfen, republicando.

Alarme falso?

24 de fevereiro de 2010 3
No finzinho do ano passado, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP15, em Copenhague, publiquei aqui uma crônica que começava assim:
“Vocês podem até achar que estou me exercitando na inglória e divertida arte de ‘ser contra’, mas faz tempo que esse negócio de Aquecimento Global me deixa com a pulga atrás da orelha. Então as calotas polares vão derreter e, como acontece naqueles filmecos-catástrofes de Hollywood, seremos tragados por uma onda do tamanho do mundo? Sei não. Com base nos mesmos dados — e dados imprecisos, totalmente questionáveis — cientistas de lá e de cá divergem sobre as reais dimensões do alarme soado pelas ONGs verdejantes. A propósito: um dos grandes medos da década de 1970 era de que o planeta congelaria, e não derreteria, como estão dizendo agora.”
Claro que muita gente me chamou de lunático — ou, para ser mais exato, um “agente do Grande Capital a serviço das nefastas corporações que querem destruir o planeta” —, mas, coincidência ou não, os alarmes sobre o fim dos tempos sofreram um importante abalo nas últimas semanas. Graças a uma série de escândalos envolvendo cientistas que manipularam informações para aumentar o pessimismo do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão da ONU, a histeria em torno do Aquecimento Global começa a ser tratada com mais desconfiança. Pressionado pela imprensa, o próprio Phil Jones, um dos maiores “clilmatologistas da catástrofe”, foi obrigado a admitir que — sim, senhor — “incrementou” dados que levaram os demais especialistas a conclusões equivocadas.
Como fiz no ano passado, mais uma vez peço que não me entendam mal: ainda devemos preservar o meio ambiente e cultivar a consciência ecológica das nossas crianças, não devemos jogar lixo no chão ou tomar banhos demorados, em suma, vale a pena seguir a cartilha do feliz e perfeito amante das árvores e do planeta. Só estou chamando atenção para o alarmismo de pessoas e instituições que, por se posicionarem ao “lado do bem”, acham-se no direito de trapacear para atingir seus objetivos. Mas que objetivos seriam esses? Salvar o mundo? Claro que sim, mas só depois de conseguir mais verbas para os seus projetos de pesquisa.
                            (Crônica publicada hoje, no Santa).

Postado por Maicon Tenfen

Prepare-se para a mordida

23 de fevereiro de 2010 4

Divulgação.

Você é um otário. Mais do que isso, aliás. É também um coió, um bestiola, um mané-coco, um pascácio, um toleirão, um papalvo, um babaquara, um apombocado, um bate-orelha, um molongó, um lapardeiro, um zé xexé. Pra resumir, você é um “inhenho”, nem mais nem menos.
E por quê?
Simples: você não é um cidadão, quem disse essa besteira? Você é apenas um pagador de impostos, um idiota que trabalha o ano inteiro para financiar farras em Brasília. Como se isso fosse pouco, você, imbecil, estulto, pancrácio, ainda é a principal vítima de nossas leis hiperbólicas e autoritárias.
Isso aqui é Brasil, esqueceu? É um país de todos, menos meu, menos seu, menos ainda dessa piazada que cresce vendo espertalhões se dando bem e trouxas pagando a conta. É a terra do Arruda. Ele é que vai sair de fininho no final. Você, não.
Você é um zero-à-esquerda, um pobre diabo, uma lesma, uma ameba, um verme utilitário, você chega a dar nojo, só existe na hora da derrama, só vira gente diante do Leão.
Falar nisso, não sei se você sabe, nosso sistema de coleta do imposto de renda, principalmente quando ativado contra um pé-rapado da sua laia, é um modelo para o mundo. Sim senhor, nisso o governo é bamba, não dá ponto sem nó. Mas diga lá, ô seu papa-bosta, você tem saúde pública de qualidade? Tem educação condizente para seus filhos? Tem segurança onde mora?
O mais triste é que de vez em quando aparece algum asno maior que você e declama que “o imposto de renda é o mais justo dos tributos”. Só rindo. Por acaso o mais justo dos tributos ajudou a encerrar os trabalhos na parte sul da BR-101? Ajudou a atender os apelos da comunidade para dar um jeito na matança que está a BR-470?
Enquanto as pessoas morrem no asfalto, e isso só para citar um exemplo da negligência do estado com as vaquinhas de presépio aqui debaixo, continuamos pagando o mais justo dos tributos, e os mais injustos também, pois imposto é o que não falta no Brasil, digo, na Corruptolândia, na Mensalândia, na Prende-e-soltolândia.
Mas o pior de tudo, ô panaca, é que você é manso. Sim, manso, frouxo, passivo, é isso mesmo que está escrito. Deixa os ladrões bafejarem no seu cangote e não faz nada, ou porque não pode, ou porque já desistiu de lutar. Duvida?  Então me diga o que vai fazer depois de ler estas linhas. Não sabe? Eu sei: você vai rir ou me xingar, tanto faz, e depois vai continuar pastando, pagando e votando no mesmo tipo de crápula em que votou até hoje.
Até a próxima, otário.

Postado por Maicon, depois e conversar com o contador.