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Posts de março 2010

Transar em 1970

31 de março de 2010 3
Uma amiga, digamos assim, com certa idade… me conta como era difícil transar com segurança na época em que a chamada revolução sexual chegava ao Brasil, a Santa Catarina e a Blumenau.
Para tornar o conteúdo desta crônica um pouco mais misterioso, por ora omito a identidade dessa minha amiga. Não que ela se importasse em ter o nome aqui divulgado, até porque, quando conta os episódios que seguem, conta-os com indisfarçável orgulho e alegria, mas fato é que se trata de pessoa conhecida do público, e por isso, para poupar o público — e não ela — resolvi deixá-la na categoria de fonte anônima.
Mas o assunto era sexo, não é mesmo? Então vamos ao que interessa. Por volta de 1970, as moças que se consideravam prontas para a fase da carnalidade tinham poucas opções. Claro, o casamento era sempre a primeira pedida, e daí viriam os filhos, o tédio e as varizes, mas quem não conseguia ou não queria se entregar ao matrimônio precisava se sujar de lama (literalmente) para se manter na ativa.
Naquela época, um idílico período sem Aids, a camisinha era um utensílio tão antiquado quanto o próprio Império Romano que a criou. Na tabelinha também não dava para confiar, já que o método só funcionava no tempo das nossas bisavós (que nunca morriam antes de amamentar dez ou doze crianças). Coito interrompido? Só se você acreditasse em Papai Noel. O jeito seria recorrer a algo que ainda era novidade no momento: a pílula anticoncepcional.
Só tinha um problema: não era fácil consegui-la. Como acontece hoje com os antidepressivos, os anticoncepcionais exigiam receitas médicas que, pior, só possuíam a validade de um mês! Quem não era casada não dispunha de cara de pau suficiente para abrir o jogo — o jogo, ok? — com o ginecologista. E agora, o que fazer?
A sorte, segundo minha amiga, é que na região da Vila Nova existia um farmacêutico capaz de vender até a mãe sem receita. Naquela época, porém, não havia asfalto ou calçamento na área, e as ruas, com ou sem chuva, normalmente viviam cobertas de lama. Outro jeito? Lá vinham as mocinhas, com seus vestidos e sapatinhos brancos, para depois voltar cobertas com o barro molhado das estradas!
— Quer metáfora melhor? — diz minha amiga, às gargalhadas. — Mas não pense que a lama representava a nossa vergonha. Era a hipocrisia da sociedade que respingava nas nossas roupas!
                          (Crônica publicada hoje, no Santa).

Postado por Maicon Tenfen

Cidades iguais

30 de março de 2010 5
— Essa gentinha “sacana” faz de tudo para te destruir. São caçadores de peru. Sabe como se caça peru? Atirando naquele que levanta a cabeça. Aqui só sobrevive quem não se sobressai. Por isso é uma cidade tipicamente classe média.
— Por ter nascido aqui, você quer que Blumenau seja mãe. Eu sempre aceitei que ela fosse madrasta.
— Perdi a paciência. Escreva um “grande” livro, tenha uma grande ideia, descubra uma nova constelação… qualquer coisa importante que você fizer será um passaporte para a obscuridade. É assim que essa “droga” de elite continua comandando tudo. Somos tão forasteiros quanto você, não importa muito ter nascido aqui, nem nossos pais terem lutado para o progresso da cidade, se você não tem um sobrenome, será sempre estrangeiro.
— Mas os forasteiros chegaram ao poder, como deputados, prefeitos…
— Quem continua comandando a cidade? Veja os sobrenomes. “Caramba”, tudo na mão deles, uma elite que não produziu nada de importante, apenas administrou riquezas, controlando posições de mando.
— Talvez você tenha razão.
— Claro que tenho. Veja que “porcaria” que é a cidade, totalmente sem acústica. Estamos “ferrados”, sempre falaremos sozinhos.
— Mão de obra que não deve ser bem remunerada.
— É assim mesmo que eles nos veem. Agora tire a contribuição do pessoal do interior, dos que vieram de outros estados, o que sobra de Blumenau? (…) Tudo aqui é importado. Falsamente europeia. Uma cidade que copia estilos, dirigida por imitadores.
***
O texto acima não é meu. Raptei-o das páginas 145 e 146 do novo romance de Miguel Sanches Neto, Chá das Cinco com o Vampiro, sobre o qual dissertei dias atrás. Apenas tomei o cuidado de trocar Curitiba por Blumenau e substituir os palavrões pelas palavras mais amenas que aparecem entre aspas. Transcrevi o diálogo por ter me lembrado de uma conversa muito semelhante que tive com um blumenauense desapontado. Sinal de que todas as cidades são iguais? Talvez, mas minha motivação vai um pouco além. Fiz questão de demonstrar que esse “rancor” e esse descontentamento com a dinâmica da cidade não vêm apenas de forasteiros como eu. Vêm também dos nativos que se preocupam com o destino de Blumenau.
                           (Crônica publicada hoje, no Santa).

Postado por Maicon Tenfen

Fumantes na Fornalha

29 de março de 2010 9

Isso sim é que abraçar a causa!!!/Divulgação.

Já expus minha teoria sobre essa perseguição social e legislativa perpetrada contra os fumantes: como a classe média não pode mais manifestar seus preconceitos contra negros, gays e comunistas, precisou eleger novos alvos para a sua necessidade de se diferenciar da “incorreção política” e se identificar como “pessoas de bem”. Atolada num consumismo frenético e vazio, a classe média – ou seja, vocês que agora me leem – ainda não teve condições de renunciar à sanha fascista de nossos avós e ao desejo de ditar padrões de comportamento para reconstruir o mundo conforme as exigências de sua própria intolerância. Resultado: os fumantes, que já sofriam os efeitos do cigarro no corpo, passaram a sofrê-los também na alma, visto que, de uns tempos pra cá, tornaram-se os imundos e os malfeitores da hora.
O texto da lei antifumo que entrou em vigor inicialmente em São Paulo e depois foi plagiado por outras capitais, inclusive Florianópolis, é um dos maiores modelos de segregação da nossa história. Se trocarmos “fumante” por “negro”, teremos algo muito parecido com a antiga cartilha do Apartheid, na África do Sul. Do mesmo modo, se trocarmos “fumante” por “judeu”, entraremos no túnel do tempo e voltaremos à Alemanha nazista de Hitler. Só falta mandar os tabagistas para a fornalha. Mas o pior: ao proibir o fumo em ambientes fechados como bares e casas noturnas, o Estado se intromete na esfera privada e tira do proprietário e seus fregueses o direito de decidir sobre o que se deve ou não fazer.
Levante o dedo quem quiser prova maior da ditadura. Acrescente-se ao fato a instrumentalização e o patrulhamento que acompanham a lei. Auxiliados por denúncias anônimas, um batalhão de fiscais tem direito de notificar, multar e até mesmo fechar casas comerciais que não se livrarem imediatamente do cheiro do cigarro. Enquanto isso, faltam policiais para combater o crime, notadamente o relacionado ao tráfico de drogas, e acho melhor nem lembrar que as pessoas continuam morrendo nas rodovias porque a Lei Seca naufragou por pura falta de fiscalização. Nos mesmos jornais que leio sobre o calvário dos tabagistas, encontro enquetes sobre a legalização da maconha. Eis a hipocrisia esperneando na nossa cara!
Em tempo: não sou fumante e tampouco defendo os possíveis benefícios financeiros da indústria do tabaco. Só quero dizer que, se os fumantes respeitarem meu nariz, é justo que eu também respeite o seu amor pela fumaça.
                           (Crônica publicada hoje, no Santa).

Postado por Maicon Tenfen

Salto Alto

26 de março de 2010 1

O atacante Friaça: campeão por antecipação!/Divulgação.

Outro dia, no blog, comentei o fiasco que foi a final da Copa de 98, quando a seleção brasileira entrou em campo para (não) jogar contra a França e, graças a uma inércia dificilmente repetível em qualquer esporte, tomou três merecidos gols para que víssemos, daqui do Brasil, o Zidane, com um discreto sorriso de superioridade, beijar e levantar a taça.
- Cambada de vagabundos! – lembro que comecei a espernear na frente da TV. – Isso é cambalacho, é armação dos patrocinadores, o Zagallo mandou entregar o jogo, deve ter rolado uma grana no vestiário, ou alguma troca política, não sei, só sei que é impossível que tenham jogado tão mal!
Vai daí, alguém – e digo quem: Evandro de Assis, o editor de política e economia do Santa – entrou no blog e fez o seguinte comentário: “Em todas as outras arenas da vida, somos acusados de complexo de inferioridade em relação aos gringos. Mas no futebol temos uma enorme dificuldade para admitir que o outro foi – ou é – melhor!”
Eis uma opinião para se assinar embaixo. E acrescento: desde o princípio, nossas chuteiras não possuíam garrões, mas saltos de madame. A nossa soberba futebolística é ancestral. Muito antes de Pelé e dos títulos mundiais, os cronistas esportivos – e os torcedores, sempre impávidos e inclementes – já se referiam à supremacia tática e artística do futebol brasileiro.
Quer melhor exemplo do que a Copa de 50? Construímos o Maracanã sob medida para a Copa de 50 porque, vamos e venhamos, a Copa de 50 foi construída sob medida para o Brasil. Todos os ventos sopravam a nosso favor, até que, naufragados num mar de deslumbramento, os jogadores, incitados pelo público e pela imprensa, resolveram contar com o ovo na cloaca da galinha.
Na véspera da final contra o Uruguai, o jornal A Noite publicou as fotos de todos os jogadores da nossa seleção sob o título “Estes são os campeões do mundo”. Em vez de se concentrarem para a partida, os “campeões” foram ao estádio de São Januário e se renderam ao assédio dos torcedores. “Eu assinei autógrafos como ‘campeão do mundo’”, revelaria mais tarde o atacante Friaça. Logo depois, porém, na hora da verdade, quando os uruguaios venceram de virada, 200 mil pessoas simplesmente emudeceram no Maracanã, como se estivessem num enterro.
Considerando a tradição, na Copa de 2010 podemos esperar tudo da nossa seleção, menos humildade.
(P.S.: mas que teve truta na final de 98… ah, isso ninguém me tira da cabeça!).

Postado por Maicon Tenfen

Carros oficiais

25 de março de 2010 2
O meu conhecido “amor” pela Vila do Dr. Otto não deixou que eu me tornasse jornalista de profissão. Se fosse para seguir a carreira, na época da faculdade eu precisaria me mudar para Itajaí. Isso já era impossível para mim. Depois de me hospedar por uma semana na casa da minha tia e conhecer os encantos da Linda e Loira Blumenau, renunciei a viver em qualquer outra parte do Brasil ou do mundo. Isso não me impede de imaginar o que hoje estaria aprontando se, lá atrás, tivesse entrado na faculdade de jornalismo. As hipóteses são muitas e fantasiosas, mas com certeza, se possuísse a competência necessária, eu gostaria de estar fazendo algo parecido com o que o repórter Rafael Waltrick e o fotógrafo Gilmar de Souza fizeram ao flagrar o mau uso dos carros oficiais. Como dois detetives trabalhando calma e criteriosamente, proporcionaram um dos grandes momentos do jornalismo catarinense e prestaram um inestimável serviço à comunidade. Quebro aqui uma das minhas regras de ouro – “evite elogiar pessoas vivas” – e parabenizo a dupla pelo excelente trabalho. Continuem assim.

Postado por Maicon Tenfen

Era Cristo gay?

25 de março de 2010 16

Detalhe de um afresco de Giotto di Bondone (século XIV), no teto da Capella degli Scovegni, em Pádua, Itália.

Entre a virada de ano e as vésperas da Páscoa, as bancas de jornais costumam ser invadidas por publicações que trazem o rosto de Jesus estampado nas capas. Prometem formas originais de interpretar passagens bíblicas polêmicas e com isso oferecer novos significados sobre quem teria sido o “filho de Deus”. O problema é que, usada à exaustão a partir do ano 2000, a fórmula perdeu o poder de impacto.
Entender Jesus como uma espécie de Che Guevara palestino já virou lugar-comum há certo tempo, até porque movimentos nascidos dentro da própria Igreja Católica — a Teologia da Libertação é um deles — contribuíram para que essa visão se espalhasse. Outros preferem enxergar o filho do carpinteiro como um hippie porra-louca que vivia zanzando pelo deserto e bebendo vinho com a ralé.
Com a proliferação dos movimentos sociais, criou-se margem para a afirmação de que Cristo era negro, já que a Bíblia fala nos seus “pés cor-de-cobre”, e até mesmo de que era gay, pois beijava seus discípulos e os recebia em particular. Com a febre d’O Código Da Vinci, pouco faltou para dizerem que Jesus era mulher. Segundo essa versão, de qualquer forma, Cristo viveu muito perto de uma, Maria de Magdala, a quem teria confiado os segredos mais profundos de sua doutrina.
Falando em doutrina, há quem renegue o milagreiro para preservar o filósofo, sem dúvida um divisor de águas do pensamento ocidental, e há também quem pregue que Jesus nunca existiu fisicamente. Para esses, os fragmentos em que o historiador judeu Flávio Josefo cita o messias não passam de uma fraude engendrada durante a Idade Média.
Se alguém se ofendeu com a conversa do Cristo gay, prepare-se para o que vem agora: existem correntes para as quais Jesus era um marciano dotado de poderes cósmicos, daí a “explicação científica” dos milagres e da sua própria ressurreição!
 Essa multiplicidade de interpretações é condizente com nossa época, um período plural em que tudo é transformado em mercadoria de consumo subjetivo. Até há pouco monopolizada pela Igreja Católica, hoje a marca “Jesus” atende os mais diversos segmentos do mercado de bens simbólicos. Qual deles é o verdadeiro? Todos e nenhum, dependendo o veredicto apenas das nossas necessidades políticas e espirituais.
De uma coisa, porém, podemos ter certeza. Jesus podia ser tudo, menos modesto. “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, disse, ou disseram que disse, vá lá. Não me admira que o tenham pregado numa cruz.

Postado por Maicon Tenfen

Direito ao Suicídio

25 de março de 2010 3

Sede da Associação DIGNITAS, na Suíça./Divulgação.

Muito hesitei antes de trazer essa discussão sobre “suicídio” aqui para a coluna, já que nossa proposta inicial era trabalhar com temas leves, que envolvessem pouca ou nenhuma seriedade. Duas razões, porém, concorreram para que eu resolvesse encarar o assunto e, com todo o seu mal-estar, transferi-lo para vocês leitores.
Primeira: quem lê a coluna há de lembrar que sou inimigo das certezas prontas e simplificadas, do preto no branco, do maniqueísmo que, no mais das vezes, contenta-se em trazer alívio e consolo para nosso cotidiano. Não se trata de ficar em cima do muro. O que segue é a expressão de uma dúvida, da uma ausência de respostas objetivas.
Segunda: não me refiro ao suicídio generalizado, que possui milhares de contraposições religiosas, morais e até mesmo racionais, mas àquele que se aproxima de conceitos como eutanásia, quando doentes terminais, auxiliados por médicos ou familiares, renunciam ao sofrimento através de uma overdose de barbitúricos. Juridicamente falando, isso é possível em quatro países europeus: Bélgica, Holanda, Luxemburgo e Suíça.
Na Suíça, inclusive, existe uma associação chamada DIGNITAS que auxilia pessoas do mundo todo a cometer o suicídio assistido. Fundada em 1998, possui 5698 membros, sendo 7 brasileiros. Até o fim de 2009, 1041 pessoas morreram com sua ajuda. Desnecessário dizer que essa associação é duramente criticada por vários setores da sociedade. Mas há um dado curioso: apenas 13% dos associados que recebem permissão médica para morrer vão até o fim na decisão. Para a maioria, o simples fato de poder optar entre a vida e a morte serve de conforto.
Não pretendo discutir os possíveis lucros de associações como a DIGNITAS ou problematizar a existência de filhos irresponsáveis que, em vez de amparar os pais doentes, incentivam-nos a caminhar para a morte. Minhas elucubrações se dirigem apenas ao direito – ou a falta dele – de decidir sobre nosso próprio destino. Sendo assim, as perguntas que seguem são mais ou menos óbvias.
Como acontece nesses países europeus, não deveríamos ter autonomia para, em casos extremos, optar pelo suicídio assistido? Isso seria um ato de dignidade, de covardia ou de egoísmo? Como ninguém precisa frequentar a Universidade para saber que existe um abismo entre a teoria e a prática, não me sinto capacitado para oferecer nenhuma resposta e, por isso, jogo a bomba no colo de vocês.
                          (Crônica publicada hoje, no Santa).

Postado por Maicon Tenfen

A fábula do espermatozoide

24 de março de 2010 0

Casamento na Roça, 1940, tela de Cândido Portinari.

Era um rapaz alto e meio narizudo. Não sabia dançar direito, mas frequentava as suarês porque era o melhor local para se arranjar uma namorada. Na “domingueira” do caso, resolveu se acolherar numa mocinha bonitinha com quem trocara olhares na entrada do salão. Depois de dançarem uma primeira marca, engataram já uma segunda e uma terceira, não se desgrudaram até que o gaiteiro puxou uma valsa, a dança das danças, e se despacharam os dois numa boquinha (gíria de beijo naquela época).
E foi dessa tarde em diante que se grudaram em namoro. O rapaz alto e meio narizudo visitava a mocinha bonitinha a cavalo — a égua, na verdade —, uma tubiana passarinheira que o derrubou um par de vezes no trecho. Braço engessado, comprou uma bicicleta, moderninho. Tempos após, com o namoro evoluído, deu umas voltas com a Picape da família e sentiu-se o próprio príncipe das alemanhas.
Um dia, a mocinha pediu que ele falasse de amor. Poético, apressou-se em contar a fábula do espermatozoide.
— De quem?
— Do espermatozoide, ora. Nunca ouviu falar?
— Que nome esquisito!
— Pois é. Mas esse sujeito sempre embarcava no cavalinho dele, ou na bicicleta, ou na Picape, e cruzava os vastos vales de falópio para encontrar a criatura que mais amava e desejava na vida.
— E quem era?
— O óvulo, que está aqui.
— Atrevido!!!
Uma hora depois do tapa, a mocinha também resolveu contar sua história:
— Sabe o “seu vizinho”?
— Aquele ladrão de melancia de uma figa!
— Não, não é desse vizinho que estou falando. É desse aqui ó, do dedo. Dedo mindinho, seu vizinho, pai de todos…
— Tá, tá, entendi.
— Pois então. O “seu vizinho” vivia triste porque se achava inútil no meio de uma mão tão grande. Mas num belo dia, chegou até ele um cavalheiro — um CAVALHEIRO, compreende? — e ornamentou sua inutilidade com um lindo anel de noivado. Houve depois uma festa enorme, parece que até bolo teve no final.
Narizudo, sim; burro, não. Entendeu na hora que a fábula do espermatozoide só se realizaria depois de finalizada a história do “seu vizinho”. Topou a parada e pediu a mocinha em casamento. Apesar das controvérsias, reza a lenda que, naquele tempo, as coisas aconteciam nessa ordem.

Postado por Maicon Tenfen, republicando.

O Trono do Leitor

24 de março de 2010 2

Divulgação.

Você gosta de ler no banheiro? Eu gosto, embora pratique a leitura em todos os cômodos e recantos da minha casa. Mas hoje vamos ficar apenas no banheiro. Não foi à-toa que Roland Barthes, ao discursar sobre o prazer da leitura, buscou exemplo num episódio de La Recherche du Temps Perdu, aquele “em que Proust nos mostra o jovem Narrador se fechando no gabinete sanitário de Combray para ler”.
Mas deve haver alguma desvantagem nesse costume. Já ouvi mais de um afirmar que ler no banheiro causa hemorroidas. Mais tarde soube que um leitor adoentado enviou correspondências protocoladas ao Governo Federal e à Associação Brasileira de Direitos Reprográficos. Exigia que no frontispício de cada livro, a exemplo do que acontece com as embalagens e a publicidade do cigarro, aparecesse a seguinte mensagem: O MINISTÉRIO DA SAÚDE ADVERTE: LER NO VASO SANITÁRIO É PREJUDICIAL À SAÚDE.
Há quem discorde. Tenho uma amiga tão fissurada na leitura sanitária que instalou uma pequena biblioteca no banheiro da sua casa, com clássicos portugueses e espanhóis, romances policiais do Chandler e do Hammett, dois ou três títulos da Danielle Steel (fora as brochuras da Sabrina e da Bianca que comprou numa liquidação de sebo) e uma parte considerável de sua coleção de gibis do Tex Willer. Mais eclética impossível. Escolhe o que vai ler conforme seu estado de espírito e suas intenções intestinais. Capaz de passar uma tarde inteira no “trono”, jura que nunca sofreu de hemorroidas.
Ao que parece, muitos adolescentes do sexo masculino facilmente viciam-se nesse tipo de leitura. As preferências deles, todavia, não são tão variadas quanto as da minha amiga da biblioteca. Concentram-se com exclusividade na Playboy, na Hustler e na Private. Nada anormal na escolha. O problema é quando existe apenas um banheiro na casa. Depois que a mãe e as irmãs, desesperadas, quase arrombaram a porta, surge o pai, falando grosso, para resolver a questão:
    Como é que é, rapaz?
 — Minutinho, pai. Só falta terminar o parágrafo.
 — Termine aqui fora. Pra que ficar trancado o dia todo?
E a resposta, num gemido meio uivado:
 — Tô acabando, pai. Só mais um pouquinho, tô chegando lá, tá quase, pai… tá quase… quase…
Como diria Barthes, ler no banheiro é mesmo um prazer.
                                (Crônica publicada hoje, no Santa).

Postado por Maicon Tenfen

Xadrez: o jogo imortal

23 de março de 2010 2

Bobby Fisher: um dos grandes gênios do xadrez./Divulgação.

Mesmo quem não conhece as regras do xadrez cultiva um silencioso respeito diante do tabuleiro. É que o chamado jogo imortal, além de seus aspectos filosóficos e matemáticos, possui algo mítico, metafísico, algum elemento profundamente religioso que nos leva a contemplar a ilusão da totalidade.
Quando peões, torres, cavalos, bispos, reis e rainhas se deslocam e se enfrentam sobre as 64 casas brancas e pretas que representam o campo de batalha, alguma coisa grave acontece nos espíritos dos jogadores e das plateias mais concentradas. Movida a primeira peça, não se pode voltar atrás ou numerar as possibilidades de lances e consequências de uma partida.
Jogar xadrez, por isso, é como viver em miniatura e caminhar na direção do infinito.
É mais ou menos essa a explicação que o jornalista David Shenk, num livro sobre o tema (O Jogo Imortal, Jorge Zahar Editor, 312 págs.), dá para a longevidade do xadrez. Contra os 75 anos do Banco Imobiliário ou mesmo os 150 do beisebol, o xadrez conta com o absurdo de quase quinze séculos de idade!
Criado provavelmente pelos hindus, aprimorado pelos persas e difundido pelos guerreiros islâmicos, foi usado como guia moral na Idade Média e metáfora política predileta do Iluminismo.
— O mundo inteiro é como um tabuleiro de xadrez — escreveu o filósofo John Locke. — A sociedade desse tabuleiro são os homens deste mundo, todos tirados de uma bolsa comum… E quando o jogo chega ao fim, tal como eles vieram de um lugar e de uma bolsa, assim também serão colocados de volta a um lugar, sem distinção entre o rei e o pobre peão.
Devido a seu caráter ao mesmo tempo lógico e artístico, o xadrez desempenhou papel preponderante no desenvolvimento da ciência cognitiva e na estética da arte moderna. Às portas do século 21, os engenheiros da inteligência artificial partiram da estrutura enxadrística para criar e aprofundar suas teorias. Saíram-se bem, pelo visto. Em 1997, o campeão mundial Garry Kasparov perdeu uma série de partidas para um certo Deep Blue, o super-computador da IBM programado para “pensar sozinho”.
Impressionante é o número e a variedade de personalidades que dedicaram parte de suas vidas ao xadrez. De Karl May a Georg Bernard Shaw, de Ivã o Terrível a Abraham Lincoln, de Voltaire a Jorge Luis Borges, de Samuel Beckett a Woody Allen, todos de alguma forma se envolveram com roques, gambitos e xeques-mate. Mais que um jogador dos bons, Benjamin Franklin escreveu ensaios e teorizou sobre o jogo.
Houve até quem abandonasse tudo para se concentrar exclusivamente no xadrez, caso do artista plástico Marcel Duchamp, que em determinada altura de sua carreira elegeu o tabuleiro como a maior das manifestações artísticas. Também não se podem esquecer as celebridades oriundas dos próprios campeonatos de xadrez, como o já citado Kasparov e o recluso Bobby Fischer, recentemente falecido, o único jogador americano a obter o título mundial.
De minha parte, não passo de um patzer, um amador, e já admiti que nunca serei um grande jogador. Apesar disso, sou incapaz de recusar uma boa partida. Além de aguçar o pensamento lógico e o espírito competitivo, jogar xadrez, como nos ensinou Locke, é um eterno exercício de humildade.

Postado por Maicon Tenfen