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Posts de abril 2010

O iPad e a leitura

30 de abril de 2010 2

Em janeiro deste ano, quando a Apple anunciou o lançamento do seu “leitor de livros eletrônicos”, o iPad, pensei que se tratasse apenas de uma versão colorida do Kindle. Mesmo assim, pelo simples fato de termos o nome de Steve Jobs no projeto, era possível desconfiar de que algo realmente grande estivesse acontecendo.

O iPad chegou ao mercado americano no princípio de abril. Com as pompas de uma estreia hollywoodiana, o evento estava superpovoado de fotógrafos, jornalistas e fãs. Sim, fãs. Estamos num estágio tão avançado do capitalismo pós-industrial que uma empresa de tecnologia chega ao cúmulo de possuir uma legião de fãs mesmerizados, coisa que antes só ocorria com as estrelas de cinema e os astros da música pop.

No primeiro fim de semana, previa-se a comercialização de 300 mil unidades do aparelho. Venderam o dobro. Marquetagem ou não, a Apple já anunciou que atrasará o lançamento do produto em outros países porque não está conseguindo atender as demandas internas. Mesmo assim, o iPad deve chegar ao Brasil ainda em 2010.

Há motivo para tanta balbúrdia e expectativa? Acho que sim. Nessa semana, graças ao Prof. Paulo César Rodacki, tive a oportunidade de ver e manipular um iPad. O que ele faz? Tudo. Conectado à Internet e com tela sensível ao toque, é capaz de armazenar e exibir qualquer formato de mídia, de livros e filmes a reproduções de obras de arte, de histórias em quadrinhos a complexíssimos mapas de anatomia.

Alguém dirá que os computadores já fazem isso há séculos. É verdade, mas não com o mesmo dinamismo e a mesma portabilidade do iPad. Pouco maior que um livro aberto, possui bateria com carga para dez horas e pode ser levado para qualquer lugar que o usuário vá. A difusão da informação e o próprio hábito da leitura sofrerão modificações com o iPad.

Isso significa que finalmente chegaremos à extinção das publicações impressas? Acho que não, ainda, mas a popularização dos e-readers representará um importante passo para a digitalização total do conhecimento.

Por enquanto, o maior inimigo do iPad é sua própria sofisticação, pois se trata de uma “máquina” à frente do seu tempo. Foi feito para viabilizar a leitura de livros eletrônicos, mas esse mercado, inclusive nos Estados Unidos, não consegue avançar por causa das eternas dúvidas sobre pirataria e direitos autorais.

Essa lenga-lenga dos livros eletrônicos, a propósito, será o nosso tema de segunda-feira.

O Seminarista

29 de abril de 2010 1

(Respondendo o comentário de Waltrick, no post abaixo, reproduzo resenha que, em novembro último, escrevi sobre o mais recente romance de Rubem Fonseca).

O Seminarista

 É o costume de uma década ou mais. Sempre que sai um novo livro de Rubem Fonseca, os críticos se apressam para apresentar as mesmas depreciações: que o autor já não é o mesmo, que está com uma escrita cansada, que perdeu o fôlego do princípio da carreira, que virou um plágio de si mesmo.

Algumas dessas observações talvez façam sentido se aplicadas a obras ligeiras e pouco ambiciosas como O Doente Molière (2000) ou Diário de um Fescenino (2003), mas soam como balela se pensarmos em seu novo romance, O Seminarista, que acaba de chegar às livrarias.

Com narração em primeira pessoa — característica recorrente em Fonseca e boa parte da ficção contemporânea —, O Seminarista conta a história de um matador de aluguel que decide pendurar as pistolas para se dedicar mais completamente à leitura e à contemplação da vida.

Ex-seminarista, daí o título, adora citar máximas latinas no original, recorrendo a Horácio, Cícero, Virgílio, Petrarca, Propércio e Santo Agostinho. Para aumentar os paradoxos do personagem, um assassino dotado de sensibilidade e erudição, ele também gosta de passar o tempo lendo poesia para a namorada alemã.

O problema — ou a solução, já que toda história precisa se desenrolar — é que o conselho de Sêneca, Alia tentanda est via (Deve-se procurar outro caminho), não é tão fácil de ser seguido. Pouco demora para que o passado de crimes comece a assombrar o seminarista. Daí para frente, enquanto os mistérios crescem na correria dos fatos, cadáveres são empilhados até a apoteose nas páginas finais.

Claro que o enredo, contado assim aos atropelos, é de uma imbecilidade imperdoável, tanto que se parece com um desses filminhos de justiceiro mata-mata, mas a literatura se faz por outros caminhos, pela linguagem, pelos detalhes, por uma forma peculiar de descrever e narrar.

O Seminarista está nesse estágio de excelência, nível em que se encontra a capacidade de dar significação e interesse ao mais batido dos assuntos. No mais, um livro de Rubem Fonseca só pode ser considerado inferior se comparado a outro livro de Rubem Fonseca. Aos 85 anos de idade, ele continua fazendo a melhor ficção escrita do país.

Raduan Nassar

29 de abril de 2010 2

No Brasil, quando o assunto é escritores reclusos, fala-se muito em Rubem Fonseca e Dalton Trevisan, que continuam publicando sem dar entrevistas, mas o verdadeiro similar de Salinger entre nós é Raduan Nassar, autor de Lavoura Arcaica e Um Copo de Cólera. Depois do sucesso nos anos 1970, Nassar deixou a literatura para se dedicar ao plantio de feijão e à criação de frangos no interior de São Paulo. Conta hoje com 74 anos. Continua escrevendo nas horas vagas? Prepara inéditos cuja publicação virá com o atestado de óbito?

Os inéditos de Salinger

29 de abril de 2010 0

Faz três meses que J.D. Salinger morreu. Não aparecia em público, não se deixava fotografar, não publicava nada inédito desde 1965. Mesmo assim, tornou-se um dos escritores mais cultuados de seu tempo. O Apanhador no Campo de Centeio, seu livro mais famoso, tornou-se uma espécie de símbolo da rebeldia dos baby boomers, a imensa geração de americanos que proliferou com o fim da Segunda Guerra Mundial. Sufocado pela fama e pela fortuna, Salinger trancou-se em casa e passou os últimos 55 anos de vida escrevendo apenas para si.

Como aconteceu com outros ermitões notórios, boatos e maledicências de todas as espécies surgiram em torno de seu nome. Além da ex-namorada que publicou um livro caça-níqueis para afirmar que o homem era um monstro (não apenas no sentido figurado), uma das filhas chegou a garantir que, dado a satanismos, o papai costumava beber o próprio xixi! Teorias da conspiração também não faltaram para sublinhar a fama do escritor, principalmente depois que o assassino de John Lennon foi pego com um exemplar do Apanhador no bolso do casaco.

Tudo isso, porém, é bobagem se comparado à pergunta que surgiu com a morte do autor: nesses 55 anos de isolamento, ele escreveu alguma coisa a sério? Se sim, deixou ordens para publicar? Ou deu um jeito de destruir os manuscritos antes do fim? Um vizinho assegura que, em conversa casual, Salinger lhe confidenciou que possuía 15 livros prontos. Exagero? Talvez, mas a mesma namorada do livro caça-níqueis garante que viu, embora não tenha lido, dois romances terminados. Entre os herdeiros e os editores, em Nova York, reina um silêncio incômodo e misterioso.

Sinal de que não há novas obras de Salinger? Ou sinal de que estão preparando uma avalanche de publicações? Em breve saberemos a resposta.

Enchente

28 de abril de 2010 3

Um filósofo do cotidiano acessou meu blog e, parodiando Otto Lara Resende (“o mineiro só é solidário no câncer”), afirmou que “o blumenauense só é solidário na enchente”. Desconfio que ele tem razão. Alguns podem achar chata a presença do “só” na frase, mas hoje não estou a fim de discutir as miudezas do assunto. O que importa é dizer que algo diferente acontece quando as águas e os barrancos começam a cair nesta cidade.

Fale em enchente, fale em Blumenau. Fale em arregaçar as calças e entrar no lodo da leptospirose, fale então nos blumenauenses (não só os fundamentais). A chuva possui um significado ímpar para nós. Por isso, da solidariedade passamos facilmente ao otimismo. Segunda-feira, no Jornal Nacional, uma senhora desabrigada por causa das últimas chuvas deu uma excelente demonstração de resistência:

— A nossa família está bem — disse ao repórter. — Pegamos apenas água. Imagine quem pega os barrancos. Imagine quem pega os deslizamentos.

É isso, minha gente. Esqueçam as palestras motivacionais e os gurus da autoajuda. Se alguém quiser saber o que é ter coragem, o que é ter uma atitude positiva diante da vida, basta encontrar essa senhora e com ela conversar uns dez minutos. (Bonito, né? Tanto que quase me entrego às lágrimas — sim, sou um chorão incorrigível). O problema é que, sozinho, o nosso espírito inquebrantável não vai segurar as próximas enchentes. O susto das últimas chuvas serviu para demonstrar que continuamos frágeis diante das intempéries da natureza.

Por isso pergunto: o que estamos realmente fazendo para impedir deslizamentos e mortes diante de uma nova tormenta? O poder público está tomando as providências necessárias para desocupar ou, pelo menos, não continuar povoando as áreas de risco? Onde estão os loteamentos seguros para as pessoas que hoje vivem penduradas em avalanches prestes a desabar?

Nunca me canso de repetir que, nas últimas eleições, dezenas de candidatos ao executivo e ao legislativo saíram pelos bairros prometendo legalizar regiões problemáticas. Isso ninguém me contou, não. Vi na televisão, na propaganda eleitoral, o vale-tudo do voto fácil, mas também um arquivo de provas incontestáveis.

Caríssimos dirigentes da cidade: vocês não podem ou não querem tomar providências efetivas?

Nostalgia

27 de abril de 2010 3

Era cedo e eu caminhava pelo centro da cidade. Não havia nada importante para fazer a não ser contemplar as pessoas e os carros que passavam em marcha reduzida. Depois de parar numa lanchonete e tomar um cafezinho, entrei na tenda de uma Feira de Artesanato.

Meio aéreo, admirei os produtos em pano e madeira, os suvenires, os bordados e as bonecas, os chapéus, os ímãs de geladeira. Olhava todas aquelas coisas sem compromisso, sem a curiosidade necessária para me aproximar, perguntar, testar e comprar.

Não suspeitei, é claro, que lá dentro havia algo à minha espera. Do mostruário improvisado sobre a caixa de papelão, o objeto começou a pular e a gritar e a encher meus ouvidos de saudade:

- Aqui, Maicon, aqui embaixo, olha pra cá, não se lembra mais de mim?

Ao perceber o que estava acontecendo, o vendedor se aproximou:

- Gostou do bilboquê? Apenas três reais.

Era a quantia que me restava no bolso. Destino? Olhei de novo para baixo e ouvi os apelos do brinquedo:

- Me leva pra casa, vai… me leva pra casa…

Comprei o bilboquê, mas pedi que o vendedor dispensasse o embrulho. Saí praticando pela calçada. Como um bobo, tentava recuperar a habilidade da infância. “Vou dá-lo de presente à minha filha”, pensei com certo moralismo. “As crianças de hoje não sabem o que estão perdendo. Gastam todo o tempo com jogos eletrônicos e sequer têm oportunidade de conhecer brinquedos mais antigos que, embora simples, exigem tanto do físico quanto do intelecto”.

E lá veio uma onda de gostosa nostalgia. Lembrei-me do tempo em que, guri de nove ou dez anos, ficava perto de um fogão a lenha para jogar tafona com primos e irmãos. Embora não houvesse tabuleiro, apenas uma cartolina riscada a caneta (com grãos de milho e feijão funcionando como peças adversárias), tudo contribuía para aumentar o interesse e a alegria do joguinho.

Depois ganhávamos a rua para bater bola e jogar clica à brinca, para soltar pandorga, para lascar pião e se arriscar no manejo do “tchaco” (sim, sou da geração em que as crianças quebravam o nariz tentando imitar o Bruce Lee). E tinha também o bilboquê, claro, o centro de todas as atenções. Mas note que não estou falando desses bilboquês de plástico que se encontram em bancas de camelô. Pouca vergonha! Os nossos eram mais ou menos como o que comprei na feira, de madeira maciça e com o “chapeuzinho” pesado, difíceis de encaixar e de fazer a pirueta.

Continuei praticando calçada afora, lembrando os velhos tempos e condenando os playstations da vida. Antes de chegar em casa, porém, tive um devaneio filosófico e finalmente entendi que a aquisição do bilboquê pouco tinha a ver com o meu saudosismo. Pelo sim, pelo não, descobri que o brinquedo é um símbolo da nossa existência, da nossa passagem por este mundo instável em que tudo depende de aprendizado, tentativas e erros, sobretudo erros.

Mais que um exercício de sensibilidade e paciência, jogar o bilboquê e fazê-lo encaixar com elegância (ou não) é uma bela metáfora das incertezas que cercam nossa vida. Mesmo entre os habilidosos, ninguém pode jurar que vai conseguir de primeira. E, para aqueles que conseguem, não resta a menor dúvida: é impossível acertar indefinidamente. Mais cedo ou mais tarde, todos tropeçaremos nas nossas falhas.

O que resta é desenrolar o cordão, posicionar o bilboquê, respirar fundo, com calma, e tentar mais uma vez.

Puxadas e Mulheres

27 de abril de 2010 2

Prefiro as mulheres, claro. São mais sensíveis, mais delicadas, mais cheirosas, mais divertidas. Esteticamente, então, dão um show. Os homens são feios e desajeitados. Coçam o saco e se orgulham dos próprios gases, uma vergonha!

Não há mulher que não veja a vida como uma girândola de cores e possibilidades. Os homens ainda não saíram do cinza, da névoa, continuamos contaminando o mundo com a desconfiança de nossos pragmatismos.

Ao sonho e ao desejo de ousar, contrapomos descaso e às vezes indiferença. É que as mulheres criam e os homens deformam. Dançam enquanto tropeçamos nas próprias pernas. A elas, estima ou admiração; a eles, pêsames protocolares.

Ao contrário dos homens, que se calam com a pachorra de quem já conquistou o universo, as mulheres sempre têm uma história para contar. Contam com malícia e peçonha, é verdade, mas até nisso se mostram agradáveis. Nossos motores e nosso futebol não estão à altura de suas fofocas sempre alegres e cheias de evoluções.

Por isso, é sempre uma covardia comparar o chamado sexo frágil com qualquer outro sexo existente ou que porventura venha a existir. Sem as mulheres, o mundo seria tosco e mal arranjado. Bendita seja aquela costela de Adão.

 

***

O texto acima pertence a uma crônica antiga. Por que repeti-lo? Confesso: ao contrário de muito marmanjo que se esbanja por aí, sou daqueles que, quando acertam, gostam de dizer “eu não disse?” (Quando erro, em compensação, fico bem quietinho no meu canto). Reitero o óbvio, mas agora com um exemplo arrojado à face do leitor: as mulheres são infinitamente mais humanas do que os homens.

Conforme matéria publicada no Santa do último fim-de-semana, veterinários oriundos de diversas instituições  absolveram as Puxadas que ocorrem em Pomerode e outras cidades do Vale. Um detalhe que não deve passar em branco: dos sete profissionais consultados, três se mostraram mais cuidadosos com os cavalos e os possíveis danos que podem ser causados pela competição.

O que há de comum entre os três? Ora, o quê!? Eram as mulheres do grupo! Quer dizer, todos são veterinários, todos possuem o mesmo olhar técnico sobre o fenômeno, mas só as mulheres – as mulheres, repito – quebraram a dureza da ciência para se preocupar com o sofrimento dos animais. Coincidência? Acho que não. É apenas uma prova de que o mundo precisa da sensibilidade feminina.

As Puxadas e o Gênesis

26 de abril de 2010 5

Essa balbúrdia em torno das Puxadas de Cavalos levou-me a uma pequena reflexão sobre a espécie humana. Somos o mais maldoso, covarde e patético dos animais. Não temos garras para atacar nossos oponentes; não temos pelos para nos protegermos do frio. Para sobreviver ao impiedoso processo de seleção natural, criamos a inteligência e a cultura, ou seja, a capacidade de explorar outros seres em prol do nosso bem-estar. Um evento como a Puxada, muito semelhante aos rodeios crioulos e às rinhas de galo, possui a finalidade básica de exibir a nós mesmos a nossa suposta superioridade.

Textos fundamentais da cultura ocidental legislam em favor dos nossos sentimentos de potência antropocêntrica. O Gênesis, por exemplo. Lá diz que “Deus criou o homem à sua imagem e semelhança”. Considerando que a frase foi escrita por um homem, nela temos um belo exemplo de vaidade e pretensão. (E nem me venham com a história de que Deus ditou o livro; se Deus tivesse feito isso, teria exigido um mínimo de humildade ao redator). Na sequência, eis o pior, Deus autoriza o homem a reinar sobre a natureza. “Sejam fecundos, multipliquem-se, encham e SUBMETAM a terra; DOMINEM os peixes do mar, as aves do céu e todos os seres vivos que rastejam sobre a terra”.

Daí eu pergunto: como respeitar os animais e a natureza se, geração após geração, ouvimos que temos a aparência do Criador, que somos superiores em relação aos outros seres e que temos autorização para submetê-los à nossa vontade? Graças à superação de um período histórico em que a tração animal era necessária ao progresso (do qual TODOS usufruímos), hoje temos condições de perceber que farras e puxadas são acontecimentos prenhes de inutilidade. Entretanto, desacatar e desqualificar as comunidades que se reúnem em torno dessas atividades só agrava o problema.

Nesses casos, deixamos de empurrar nossa suposta superioridade sobre os animais para empurrá-la, com um traje de civilização, sobre nossos semelhantes. Óbvio que as reações seriam furiosas. Enquanto as farras do boi passaram a ocorrer com mais violência e assiduidade, alguns adeptos das puxadas, conforme vimos na TV, chegaram ao cúmulo de agredir membros de organizações protetoras de animais. O que quero dizer é simples: coibir farras e puxadas com leis e protestos é tão ridículo quanto maltratar bois e cavalos.

Então devemos cruzar os braços? Negativo. Devemos conscientizar as novas gerações. Uma crença de mil anos não se muda do dia para a noite.

Mesma coisa

22 de abril de 2010 6

Não sei quanto a vocês, mas eu não aguento mais as celebridades. Esse pessoal sempre fala a mesma coisa. E olhe que não me refiro apenas aos jogadores de futebol — que estão trabalhando para que o time possa atingir os melhores resultados e tal —, mas a toda essa fauna que costuma distribuir sorrisos e palavras na mídia.

O que diz, por exemplo, uma ex-BBB que acabou de posar nua?

— No começo foi um pouco difícil, sabe? Eu morria de vergonha (risos). Mas a equipe era superprofissional, aos poucos fui me soltando, tornei-me personagem de mim mesma!

E um ator — sobre o diretor com o qual trabalhou — em entrevistas do gênero making off?

— Ser dirigido por fulano foi uma experiência humana maravilhosa. Ele tem completo domínio do set, sabe exatamente o que quer do roteiro e dos atores. Aprendi muito.

E aquela modelo magérrima, quando questionada sobre o que faz para manter o corpinho perfeito?

— Nada! — a resposta sempre vem com um ar de sonsice. — Parece incrível, mas como de tudo, tuuuuuuudo! Chocolate, sorvete, massa. Acho que sou uma protegida dos deuses.

A atriz numa declaração sobre o décimo primeiro marido?

— A gente se completa.

E a dançarina da TV que acabou de botar silicone?

— Plástica? Não, não, nunca fiz. Só coloquei as próteses. Mais nada.

Antes que me chamem de preconceituoso, vamos para um campo mais cultural. Vocês costumam ler o que dizem os escritores sobre seus últimos romances?

— A partir de um determinado momento, o livro começou a se escrever sozinho. Os personagens assumiram o comando, passaram a agir contra a minha vontade, como se tivessem vida própria!

 

***

 

Pra terminar de virada: certa vez, meio de gozação, um repórter perguntou a um jogador de futebol:

— Por que vocês sempre dão as mesmas respostas?

— Ora por quê! — disse o jogador. — É porque vocês sempre fazem as mesmas perguntas!

Kama Sutra - o diálogo

21 de abril de 2010 0

- Aqui, querida, seu presente de aniversário.

- Ai, amor, obrigada. Vem cá e me dá uma bitoca, vem… Que papel de embrulho bonito. Parece um livro.

- É um livro.

- Kama Sutra? Que título esquisito.

- Esquisito? Vai me dizer que você nunca ouviu falar no famoso Kama Sutra, escrito mais ou menos no ano 500 depois de Cristo por Mallagana Vatsyayana.

- Mallana… o quê?

- Mallagana Vatsyayana. É um dos guias sexuais mais antigos da humanidade.

- Xi! Lá vem você com sacanagem de novo.

- Não é sacanagem. Dá uma olhada, vai.

- Tá bom. Vou abrir em qualquer página. Aqui, deixe-me ler: “Como um caranguejo que encolhe suas patas, a mulher, deitada, deve dobrar suas pernas escondendo sua yoni, que o homem acariciará somente com o umbigo.” Ah, ah, ah!

- Qual é a graça?

- Eu não disse que era sacanagem? Da mais barata e ordinária.

- Você não percebeu o aprofundamento filosófico que o texto apresenta sobre a relação homem-mulher?

- Deixa de falar besteira, rapaz. Afinal de contas, o que é yoni?

- Ora, o termo que o livro utiliza para indicar o sexo feminino.

- Ah, ah, ah! Com certeza a “coisa” do homem também tem um nome assim esquisito, certo?

- Certo. É linga.

- Linga? Ai, eu não aguento… Mas tudo bem, não deixa de ser um nome sugestivo.

- Dê cá o livro. Vou ler um trecho pra você ver que obra sensacional… “À noite, durante um espetáculo ou reunião familiar, o homem pode aproximar-se docemente da mulher, pegar em suas mãos, beijar seus dedos ou jogar-se no chão para lhe acariciar as unhas dos pés com a língua.”

- Hum! Continue que está ficando interessante.

- Ok! Aqui: “Devemos levar o casamento a sério.”

- Grande Mallagana Banana, esse cara até que não era mau.

- Continuando: “Para isso, as mulheres mentirosas devem ser descartadas, assim como as carecas, as que têm manchas na pele, as que têm peitos muito grandes ou muito pequenos e as que têm as mãos sempre úmidas.”

- Pronto! Desgostei. Passa o livro pra cá. Vou colocar o Kama Sutra debaixo do meu travesseiro e depois achar um lugarzinho bem bonito pra ele na estante.

- Mas por quê?

- O que te parece mais eficiente, querido? Um manual revolucionário… ou a segurança do dia a dia? Você poderia, por favor, apagar as luzes antes de deitar?