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Posts de maio 2010

Pregadores e professores (2)

31 de maio de 2010 6

Há muitos anos, quando um colega da faculdade de Letras começou a dar aulas num colégio particular, alguém da turma (juro que não fui eu, pois já havia superado a minha fase pseudomarxista) perguntou se agora ele se dedicaria a limpar as bundas dos filhos da burguesia da cidade.

— Claro que sim — respondeu o espirituoso colega. — Do mesmo modo que vocês vão limpar as bundas dos filhos do proletariado!

Apesar do tom jocoso, ele estava expressando um descontentamento presente entre os velhos e os novos membros do magistério. Já naquele tempo, todos sabíamos que, independentemente de a escola ser pública ou privada, o paternalismo pedagógico e a “alunocracia” eram gerais. O pior é que não há exagero nisso. “Limpar a bunda” é apenas uma expressão mais direta para aquilo que nas salas de professores se conhece por “passar a mão na cabeça” dos alunos.

Quando um estudante não faz a tarefa ou bagunça uma aula inteira, existem mil e uma formas de explicar o que aconteceu: é muito pobre (ou é muito rico!), os pais não lhe dão atenção, sofre de TDAH (Transtorno do Déficit de Aprendizagem e Hiperatividade), é uma vítima da TV e dos meios digitais etc. Em vez de encararem a realidade de que, na maioria dos casos, o aluno se aproveita das colheres de chá da pedagogia moderna, os psicopedagogos criam nomenclaturas complexas para justificar a preguiça e a indolência.

Triste é que muitos pais caem no conto sem a menor necessidade. Alguns chegam a admitir a incapacidade dos próprios filhos e, em vez de exigir empenho, entregam tudo nas mãos… de Deus? Não, dos professores! Estes, por sua vez, ao perceberem que serão responsabilizados pelo fracasso de toda uma geração, a partir de um determinado momento resolvem fingir que estão ensinando. É quando surgem as provinhas moleza, as notas fáceis, os infindáveis trabalhos de recuperação…

Ontem resumi o Sermão da Sexagésima, do Padre Vieira, para reclamar dessa lógica “catolicista” da educação brasileira, em que a responsabilidade é toda depositada nos ombros do pregador, isto é, do professor. Ora, ninguém precisa estudar em Harvard para perceber o óbvio: por mais brilhante e preparado que seja um professor, ele não irá longe sem o apoio da coordenação da escola, o auxílio dos pais e a disciplina dos alunos.

Os alunos, a propósito, deveriam deixar de lado as desculpas e estudar a sério. Deveriam, no mínimo, aprender a limpar as próprias bundas.

Pregadores e professores (1)

31 de maio de 2010 2

No seu mais famoso sermão, o da Sexagésima, proferido em 1655, o Padre Antônio Vieira parte de uma criativa interpretação da Parábola do Semeador para constatar que a palavra de Deus não faz bom fruto na terra.

— Por que isso acontece? — pergunta-se o padre. — Porque tem algo errado, óbvio. Mas, exatamente, o que está errado?

A partir dessa pergunta, nosso pregador dá uma verdadeira aula de lógica “catolicista”:

— Para um homem ver a si mesmo, são necessárias três coisas: olhos, espelho e luz. Se tem espelho e é cego, não se pode ver por falta de olhos; se tem espelho e olhos, e é de noite, não se pode ver por falta de luz. Logo, há mister luz, há mister espelho e há mister olhos. (…) O pregador concorre com o espelho, que é a doutrina; Deus concorre com a luz, que é a graça; o homem concorre com os olhos, que é o conhecimento. Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos: de Deus, do pregador e do ouvinte, por qual deles devemos entender que falta? Por parte do ouvinte, ou por parte do pregador, ou por parte de Deus?

A resposta é digna de um padre: Deus é perfeito, logo não pode faltar; os ouvintes são ignorantes, logo não adianta culpá-los; resta pôr a culpa no PREGADOR, que falha por enfeitar demais o discurso, por falar com voz inadequada, por não dar bom exemplo etc. Daí em diante, na busca de soluções para que a Boa Palavra frutifique na terra, Vieira dá dicas de como proceder para realizar um bom sermão. “E saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto”, conclui o jesuíta.

 

***

 

Escrevi tudo isso apenas para dizer que, pelo visto, a maioria dos teóricos da educação, ao dissertar sobre os problemas do ensino no Brasil e no mundo, resolveu seguir a lógica fácil do Sermão da Sexagésima. Troquemos Deus por conteúdo, ouvinte por aluno e pregador por professor. Quem é o culpado pelo fracasso do sistema educacional? O professor, lógico, por isso ele deve aprender a se comportar assim ou assado para “conquistar” a atenção dos alunos e fazer a boa palavra da educação frutificar. Cá pra nós: não está na hora de mudar essa ladainha? Não está na hora de deixarmos de lado o paternalismo estudantil e questionarmos um pouco mais a postura dos alunos? É sobre isso que falarei amanhã.

A Copa dos Economistas

28 de maio de 2010 3

Por achar a atitude desnecessária, até hoje não perdi tempo para tirar sarro dos economistas. O mais desatento dos telespectadores já percebeu que não passam de projetos mal-acabados de nostradamus. Vivem criando fórmulas e teorias mirabolantes para prever as reações dos mercados, mas quase sempre erram (uso o “quase” para lembrar a existência do fator “sorte”). Mesmo assim, insistem em fazer mesuras com suas bolas de cristal. Aliás, não fossem essas mesuras e pouco sobraria para o sustento da classe.

Mudei de ideia ontem. Ao saber que analistas financeiros do Goldman Sachs e do PJ Morgan, assim como alguns engomadinhos dos departamentos de Economia da USP, resolveram usar seus incríveis conhecimentos para determinar quem vencerá a Copa, fiquei sem alternativa. Já que minha coluna — como disseram dia desses por e-mail — é a maior hospedaria de besteiras e inutilidades de toda a história do Santa, decidi reservar um aposento para a soberba dos economistas.

Não por acaso, é o mesmo pessoal que dizia, em 2008, que os mercados estavam em crescimento, que tudo corria bem, que nada poderia acontecer para barrar o avanço das economias ocidentais. De repente — pimba! — surge a tal crise imobiliária nos Estados Unidos. E os economistas, então, do alto de sua sabedoria napoleônica, tomaram os microfones para explicar que as projeções não estavam necessariamente equivocadas, com exceção de um detalhezinho pequenininho que tocou a vaca pro brejo.

É a tal história: os chineses sofrem com terremotos, os iranianos sofrem com o Ahmadinejad e nós sofremos com os economistas. Eu é que não sou louco de seguir as recomendações dessa turma. Se dizem para investir na poupança, corro ao caixa eletrônico e saco o pouco que tenho. Se dizem que a hora é de consumir, volto ao banco e faço uma poupancinha. Se esse procedimento não me faz progredir, não significa que os economistas estejam acertando. Dia após dia, folheio os jornais e me deleito com suas gafes.

E agora vêm me dizer quem vai ganhar a Copa? Ah, meu amigo, que é isso? De duas, uma: ou os jornais estão mesmo desesperados para preencher todos os seus espaços com conteúdo futebolístico, ou os economistas, que erram e continuam sendo ouvidos, não se preocupariam com mais uma bola fora. Em toda essa história, porém, uma coisa me preocupou como torcedor: a maioria deles garante que o Brasil vai vencer…

Moreninha ai-meu-dente!

27 de maio de 2010 0

Quando eu e “minha velha” fomos até a rodoviária de Blumenau e embarcamos num ônibus noturno com destino a Lages, nem em sonho imaginei que voltaria com esta crônica na bagagem. (A expressão “minha velha”, explico e descomplico, é a forma carinhosa com que apelidei a “minha velha mania de bisbilhotar a vida alheia” para depois repassar tudo aos simpáticos hóspedes aqui da coluna).

O motor já estava ligado no instante em que, frenética e sorrisbela, a moreninha-ai-meu-dente entrou causando alvoroço. Digo moreninha-ai-meu-dente porque era do tipo que faz os homens chuparem o ar para dentro da boca e de encontro às cáries — daí a dor de dente, compreende?

Sentou-se um pouco adiante, no outro lado do corredor, junto a um rapaz alto e bem apessoado (mas meio fraco da cabeça, como já veremos).

Ataram conversação tão-logo o ônibus partiu e as luzes internas se apagaram. Em menos de cinco minutos tateavam assuntos íntimos, visto que a moreninha — ai! preciso marcar uma consulta com o dentista! —, cheia de muxoxos e subentendidos, partiu a se queixar do namorado. Do ex, aliás, na correção dela.

Já estavam permutando saliva na altura de Indaial. E assim a coisa foi até Rio do Sul, onde ela saltaria. Trocaram os números dos celulares e despediram-se com um beijo pra lá de retórico. Eu e minha velha não perdemos o lance.

No que a moreninha desceu, subiu um conterrâneo do garanhoso que, espectador do beijo, começou a bajular o amigo:

— Pô, Carlos, que mulherão! Tu é o bicho, cara, um verdadeiro animal! Me passa a receita, vai… Tô precisando!

E Carlos — eis o nome do boboca — imediatamente se entregou à vaidade testosterônica. Falou como se fosse o próprio Don Juan, no último volume, para que todos os outros passageiros ouvissem os segredos do seu sucesso com as mulheres. Admito que eu e minha velha sentimos uma certa ojeriza.

A partir de Trombudo Central, entretanto, Carlos ficou quietinho da silva. Mexeu-se na poltrona, coçou-se indiscreto, foi ao toalete e voltou, gemeu e… chorou!

— Quéque deu, cara? — disse o amigo, preocupado.

— Aquela… aquela… aquela…

— Aquela o quê, cara?

— Aquela sem-vergonha! — explodiu o pobre Carlos, revelando-nos, enfim, a sua maior estratégia de sedução. — Ela… levou… a minha… carteira!!

Broblema de bronúnzia

27 de maio de 2010 1

Bode me jamar de Batrízio, é esde o meu nome mezmo, denho drinda e drês anos e vreguendemente me bergundo bor gue dudo zai errado na minha vi… Ei, gual é a graza, bô? Denho gara de odário, é izo? Bois zaiba gue odário é vozê, zeu vio duma buda zavado! Bozo adé falar zguizito, mas não zou baiazo, não! Endendeu?

Mas eu dizia gue às vezes me bergundo bor gue dudo zai errado na minha vida. Guando eu ztudava no brimário, bor ezemblo, os meninos e as meninas viviam gorrendo adrás de mim e gridando gue eu era redardado. Dinha hora gue eu ganzava de gorrer e gomezava a dar dabeves na gara deles e delas, eu não gueria nem zaber, o gue vieze bela vrende levava bau. Eu zembre vui voda na borrada.

Voi neze momendo gue a brovezora dize:

 - O Badrízio é uma grianza garente.

Jamaram minha mãe, gue me deu uma zurra e debois me levou bra uma médiga bsigobada que enviava uma luz na minha boga e mandava eu dizer goizas gomo “baralelebíbedos” e “gonsdiduzionalizimamende”.

O dembo bazou, mas não meus broblemas. Adolezende, dendei arranjar um embrego de vendedor de azinaduras de uma revizta bornô. O véio gordo que ztava adrás da meza zimblezmende  gomezou a rir de mim. Butz grila, viguei muido adagado, budo da gara mezmo! Bulei bor zima da meza e agarrei o gordo belos golarinhos da gamiza:

 - O que voi, seu banaga? Bozo adé falar zguizito, mas não zou baiazo, não. Endendeu?

Guebrei a gabeza dele, debois arranguei sua oreia, gom uma dendada, masdiguei e engoli. Glaro que vui barar num revormadório bara delinguendes juvenis. Zaí debois de um dembo e, zeis dias mais darde, numa noide de zedembro, gonzegui arrumar uma namorada. Bedi bara beijar ela, mas ela desviou a boga e dize:

 - Zó ze vozê azoar o nariz brimeiro.

Azoar o nariz? Gue goiza mais nojenda!

- Bozo adé falar zguizito – eu dize bra ela – mas não zou baiaço, não. Endendeu?

Hoje, borém, ztou agui benzando: e ze eu azoaze o nariz, o gue agondezeria? Deije-me ver. Gom lizenza, zó um minudo… chhhhhiiifftiuuuiiiííí… chhhhhiiifftiuuuiiiííí… Pra falar a verdade, é a primeira vez que faço isso na vida. Agora posso continuar com minha história e… O que foi, hein? Por que você começou a rir de novo? Quer que eu te quebre a cara? Tome cuidado, mano. Posso até falar esquisito, mas não sou palhaço, não. Entendeu?

Feira do Livro

26 de maio de 2010 13

Hoje começo com uma confissão: sempre me sinto meio idiota quando escrevo sobre livros. Se falo sobre o preço da gasolina ou sobre o buraco na frente da casa da Dona Maria, todos me cumprimentam na rua, me dão tapinhas nas costas, me param para contar as últimas e contribuir com a coluna. Agora, se falo de livros, que tristeza!

Viram-me a cara e atravessam a rua quando estou passando. É como se eu fosse uma espécie de bandido, de pústula ignominioso, de tarado movido a vícios e caprichos que nada têm a ver com a boa ordem social. Ora, livros! O que esse pedante quer com livros? Para não exagerar, devo admitir que nem todos me ignoram. Sempre que falo de livros, recebo meia-dúzia de e-mails perguntando se estou sem assunto.

Semana passada, por exemplo, ao discorrer sobre o avanço da internet na educação, lembrei a necessidade de promovermos eventos ligados ao livro em Blumenau. Cito-me: “Não estaria na hora de termos uma feira do livro regular e organizada? Onde está a Fundação Cultural, a imprensa, a Universidade e o empresariado? Ou o livro não interessa por aqui?” Pelo silêncio dos dias seguintes, só posso concluir que a resposta da comunidade foi a seguinte: “NÃO, MAICON, SEU CHATO, O LIVRO NÃO INTERESSA POR AQUI”.

As poucas lideranças preocupadas em organizar uma boa feira do livro não encontram amparo no empresariado e no poder público, que preferem patrocinar eventos de autoafirmação étnica, certamente mais etílicos e divertidos. As universidades, por seu turno, preocupadas que estão em granjear novos alunos, não são loucas de espantá-los com sugestões de leitura. E a imprensa, óbvio, não pode pôr em evidência o que não existe ou não acontece. Conclusão: sinto-me duas vezes idiota, uma por perceber que não adianta falar em livros, e outra por continuar falando neles.

Mas não pensem que vou culpar as entidades acima pelo pouco espaço que o livro encontra em Blumenau. Eu gostaria mesmo é de falar com vocês que estão me lendo. O nosso silêncio enquanto pais, professores e cidadãos permite que a imprensa, o empresariado, a prefeitura e as universidades também fiquem quietinhas e de braços cruzados. Se nós não nos manifestarmos a favor de uma feira do livro, nada acontecerá. Se vocês não veem importância num evento do gênero, tudo bem, eu respeito e me calo, buscarei outros temas para a coluna.

Só não contem comigo para glorificar a linda, loira e culta Blumenau.  

Lost - The End

25 de maio de 2010 5

Na primeira vez que ouvi falar de Lost, pensei que se tratasse de um remake moderninho de Robinson Crusoé. Em vez do naufrágio, um acidente de avião. Em vez da refrega de um puritano contra as intempéries da natureza, a luta de um grupo multiétnico para vencer os preconceitos e se manter unido. No mais, a série seguiria o figurino da sobrevivência a qualquer custo. Num dia você consegue caçar um javali, no outro se contenta em comer amoras, e no outro, para não morrer de fome, aceita mastigar as nádegas do seu vizinho de poltrona.

Desde o primeiro episódio, porém, Lost mostrou que estava longe desses clichês. A ilha em que caíram os sobreviventes do Voo 815 possuía peculiaridades avessas a qualquer explicação. Monstros de fumaça, por exemplo. Ursos polares. Alçapões que mais tarde revelariam laboratórios e estranhas experiências científicas. Antes de se resolverem, os enigmas se desdobravam sobre si mesmos e se transformavam em mais mistério e cogitação. Teorias pipocaram na internet, e os “losties”, como passaram a se chamar os fãs da série, multiplicaram-se ao redor do mundo.

O último episódio, exibido anteontem nos Estados Unidos, irá ao ar às 20h de hoje no Brasil. Durou 150 minutos (45 só de publicidade, rendendo US$ 175 milhões à rede de televisão ABC), mas a audiência ficou aquém da média esperada: “apenas” 13,5 milhões de espectadores. Como já era esperado, muitas perguntas levantadas ao longo da série ficaram sem respostas convincentes. No entanto, se isso desagradou uma parte dos fãs, certamente alucinará a outra, que ficaria órfã sem os fóruns on-line e a elucidação de teorias. Para não estragar a diversão dos interessados, hoje evitarei comentários sobre as opções dos roteiristas para o desfecho da saga (tão previsível que chegou a ser uma surpresa!), limitando-me a discorrer sobre algo mais urgente.

Apesar de certos exageros difundidos pela sempre deslumbrada imprensa americana, Lost é verdadeiramente um marco na história da cultura pop. Pode não ter sido a série de TV mais vista ou mais criativa da década, mas, paradoxalmente, foi a mais discutida e a mais ousada. Assim como Kung Fu, Dallas, Twin Peaks e Arquivo X fizeram em suas respectivas épocas, Lost trouxe inúmeras novidades narrativas para o formato, nisso incluindo a utilização da internet, e provou, de uma vez por todas, que o público aprecia enredos não-lineares que desafiam seu intelecto e sua capacidade de dedução.

Esse é o principal legado da série, e é por isso que ela merece nossos aplausos.

Como fazer uma greve de ônibus

24 de maio de 2010 9

Ainda me espanto quando alguma classe profissional, no desejo de sanar injustiças ou reivindicar melhores condições de trabalho, toma atitudes cuja única finalidade é azucrinar a vida do cidadão comum: bloquear rodovias, por exemplo, algo que já foi feito por caminhoneiros indignados e até por comunidades carentes de infraestrutura de segurança. O direito ao protesto é legítimo, mas a forma de concretizá-lo é de uma ineficiência que se aproxima da burrice e do autoritarismo.

O que motoristas de regiões distantes têm a ver com o preço do frete ou com a incompetência de administradores públicos incapazes de construir uma passarela? Mesmo assim, eles é que pagam o pato, eles e suas famílias, que passam horas cozinhando ao sol. Na maioria dos casos, o resultado do protesto é nulo, pois, em vez de atacarem os verdadeiros culpados do problema, os manifestantes se limitam a atormentar inocentes.

Até hoje, todas as greves e paralisações organizadas pelos profissionais do transporte público de Blumenau seguiram essa mesma lógica inepta e covarde. Num belo dia, sem mais nem menos, os motoristas resolvem cruzar os braços e deixar os veículos na garagem. Quem sofre com isso? Nós, óbvio, os passageiros. Teoricamente, deveríamos ser solidários aos grevistas. Na prática, porém, o máximo que podemos é ranger os dentes enquanto passamos frio à espera de um ônibus que nunca chega.

Vejamos essa paralisação que ocorreu na madrugada da última quinta-feira. Segundo os organizadores, foi uma “paralisação relâmpago”, mas pergunte ao usuário se ele arranjou alguma “solução relâmpago” para chegar à escola ou ao trabalho. Além do mais, o que motivou o protesto é de chorar em alemão: os motoristas estão zangadinhos porque receberam multas de trânsito! Não vamos generalizar, mas pergunte a qualquer blumenauense o que ele acha da forma como vocês costumam cortar a frente dos carros menores.

Como não adianta ficar só na crítica, termino com uma sugestão. Na próxima greve, em vez de cruzar os braços, saiam e circulem normalmente, cumpram os horários como manda o figurino, mas com uma diferença: DEIXEM OS PASSAGEIROS USAREM A PORTA DE TRÁS, SEM COBRAR PASSAGEM. Aposto que terão o apoio da população, que não se sentirá prejudicada, e aposto também que seus empregadores virão correndo para a mesa de negociação. Resta saber se vocês terão culhões para fazer isso. Maltratar o usuário é fácil. Agora, desafiar patrões cercados de assessores jurídicos…

(I)mobilidade urbana

21 de maio de 2010 2

Nos últimos dias, temas relacionados ao trânsito dominaram a pauta do jornal e das conversas na cidade. Nada mais compreensível, já que o direito de ir e vir sem muito atraso é um assunto que diz respeito a todos. Mais que assunto, aliás, é problema, e problema tão intenso que, no mais das vezes, soluções utópicas ou estapafúrdias são encaradas com a mesma naturalidade que os desabafos de pedestres e motoristas estressados.

— O jeito é fazer um rodízio de placas como em São Paulo.

— Que nada! Os riquinhos sempre vão ter placas para todos os dias.

— E daí? Estamos preocupados em desafogar o trânsito ou em afogar os riquinhos?

— Não adianta copiar outras cidades. Temos que ser originais, um exemplo para o Brasil e para o mundo. Devemos aproveitar essa oportunidade para criarmos uma cidade-saúde.

— Cidade-saúde?

— Tô falando de bem-estar social, respeito à natureza, essas coisas. Precisamos investir em ciclovias de verdade, não nesses riscos que fizeram nas calçadas.

— Que mané ciclovias, rapaz! Quem é que vai andar de bicicleta sob o sol do verão?

— Então o jeito é construir um metrô.

— O exército não deixa cavar no centro da cidade. Os operários podem encontrar os tais túneis nazistas.

— Não tô falando de metrô debaixo da terra, mas em cima, bem em cima. Poderíamos montar um trilho sobre a Beira-Rio, a uns vinte metros de altura.

— Ah, tá legal. E a pista passaria bem perto da prefeitura, assim todo mundo poderia dar um tchauzinho para o Kleinubing.

— Por que não?

— O Kleinubing que eu digo seria o neto do João Paulo, entendeu? Quanto tempo a obra levaria para ficar pronta? Tenho um nome para o projeto: Mafisa 2!

— Então sobraram os ônibus…

— Caros e cheios demais. Quem provou o conforto de um carrinho mil não volta para aquelas latas de sardinha nem a pau.

Enquanto o diálogo continua se desenrolando, mais uma centena de blumenauenses vence os engarrafamentos para chegar à concessionária mais próxima e financiar um automóvel em 60 suaves prestações.

Nada por nada

20 de maio de 2010 4

Quem já assistiu a pelo menos uma cerimônia de formatura de alguma dessas turmas do chamado Ensino Superior deve ter uma noção bastante clara do que significam a chateação, a breguice e a mediocridade. Certa vez, depois de enfrentar duas horas de um espetáculo que misturava as honras da beca com os buzinaços daquelas cornetas usadas por torcidas organizadas de futebol, perguntei ao reitor — hoje ex-reitor — de uma famosa Universidade de Santa Catarina:

— Quantas dessas formaturas o senhor precisa encarar por ano?

— Pelo menos 30.

— Deus do céu! E como é possível suportar o tormento?

Ladino, o reitor deu uma risadinha e, típico nos políticos mais habilidosos, falou como se estivesse diante de um microfone:

— Às vezes a cerimônia é cansativa, mas sempre me comovi com os formandos e seus familiares.

Então tá. Mas a grande verdade, pelo menos a meu ver, é que as cerimônias de formatura do Ensino Superior, cada vez mais pomposas e dispendiosas, retratam a triste realidade da educação brasileira: muita aparência e pouca essência. Não bastasse a ritualização medieval que tenta promover os formandos a nobres distintos da plebe, boa parte das instituições de ensino superior, na luta por mais espaço no mercado, transformaram as formaturas em megashows e eventos de marquetagem.

Nada contra. Ou melhor — deixe-me chutar a lata de uma vez — TUDO contra, pois estaríamos muitíssimo melhor se nossos estudantes universitários pensassem menos em perfumarias e mais em leitura, pesquisa, compromisso. A esse respeito, aliás, tenho uma tese curiosa e meio irresponsável: quanto mais malandro o aluno, mais ele comemora na hora de receber o “canudo”. Pula, grita, rebola, alguns até viram cambalhotas. É como se estivessem tirando um sarro da sociedade, como se dissessem “consegui, apesar da minha preguiça, mas só consegui porque vocês, pais, professores, patrões, são tão medíocres quanto eu!”

Seja como for, toda simbologia é uma faca de dois gumes. Geralmente, aquelas latinhas que os formandos recebem em triunfo vêm vazias, o que se constitui numa excelente metáfora do que estou falando. Nada em troca de nada. Estudantes secos de conhecimento recebem diplomas que, comprados com dinheiro público ou privado, sequer existem no cerimonial.