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Posts de junho 2010

A loteria dos pênaltis

30 de junho de 2010 1

Ainda que seja o maior e mais afamado dos eventos futebolísticos, a Copa do Mundo me lembra muito aqueles “torneios de pasto” a que assisti, quando criança, em lugares remotos como Alto Rio Engano ou Chapadão do Lajeado. Como havia muitos times inscritos e tudo precisava se resolver num único fim de semana, cada partida durava no máximo meia hora, com quinze minutos para cada lado, e não era raro que a grande final se decidisse na loteria dos pênaltis.

Na Copa do Mundo existe uma pressa e um frenesi semelhantes, já que muitas são as seleções e pouco é o tempo para descobrirmos os melhores do planeta. É por isso que, ultrapassada uma primeira fase em que se joga por pontos e pela classificação, entramos na etapa do “perdeu-morreu”, a mais estimulante, sem dúvida, graças à impossibilidade de um jogo terminar empatado. Que o digam os japoneses, coitados, os primeiros a vivenciarem a tragédia dos pênaltis nesta Copa.

Mas aí, depois de vencermos o nervosismo dos 90 minutos habituais e o stress quase insuportável da prorrogação, adentramos o vertiginoso campo da injustiça esportiva. Todo mundo sabe que a decisão por pênaltis têm mais a ver com a sorte do que com a raça, ou, para ser mais específico, têm mais a ver com o estado de espírito do que com o preparo técnico dos jogadores. É o momento em que o psicólogo de uma seleção se torna mais importante que o técnico.

Outra coisa que todo mundo sabe sobre a hora agá dos pênaltis: os craques costumam errar! Ou alguém aí se esqueceu do Roberto Baggio, que chutou para o mato e nos coroou em 94? (Pobre italiano: depois do fiasco diante do gol, foi considerado o pior dos garotos-propaganda oriundos do futebol). A mesma coisa pode ser dita de Zico, um dos muitos heróis da minha infância, que perdeu um pênalti em pleno jogo, contra a França, e fez o Brasil voltar mais cedo em 86.

Se eu fosse Dunga, no caso de chegarmos à agonia dos pênaltis, pouparia Robinho, Luís Fabiano e principalmente Kaká, jogando a bomba para o pessoal de trás, mas a verdade é que, na hora extrema, serão justamente Robinho, Luís Fabiano e Kaká que darão os primeiros tiros. Mais uma vez, isso me faz lembrar os “torneios de pasto” da minha infância. Naturalmente, os melhores em campo é que encaravam a tensão do pênalti, instante em que os goleiros crescem e as traves encolhem.

As chuteiras de um craque pesam mais com a responsabilidade, pois ele sabe que a cobrança será maior. Como resultado, tínhamos falhas seguidas de palavrões, mesmo que a disputa valesse um novilho acompanhado por dois engradados de cerveja. Se quisermos saber o que é a pressão de uma Copa, basta imaginarmos o zumbido das vuvuzelas e os milhões em contratos publicitários que estão em jogo…

Maradona é Deus?

29 de junho de 2010 3

Quem vai a Buenos Aires não volta sem perceber a onipresença de Maradona. Ao lado de Carlos Gardel e Eva Peron, suas fotos e estátuas meio kitsch enfeitam todos os pontos turísticos da cidade. Os três são ícones nacionais, claro, mas é como se fossem mais do que isso, é como se fossem santos a quem deveríamos acender velas e fazer o sinal da cruz.

No meio de tanto folclore, uma realidade desconcertante: enquanto Gardel e Evita morreram há décadas, Maradona continua zanzando por aí, mais faceiro do que nunca, ainda mais agora, com o bom desempenho da seleção argentina na África. Ou seja, está vivo e ainda tem muito o que decepcionar, mas para os hermanos inexiste gafe capaz de ofuscar os grandes momentos do ídolo.

Ao contrário do que se possa imaginar, não há nada parecido no Brasil. Também amamos Pelé, óbvio, também amamos a memória de Ayrton Senna, sentimos uma ponta de orgulho quando lembramos os feitos de um Santos Dumont ou uma Carmem Miranda, mas nunca com o mesmo compromisso e a mesma devoção dos argentinos.

Em outras palavras: só um país como a Argentina teria a capacidade de santificar em vida um sujeito como Maradona. Eles se merecem, assim como merecem ser felizes, e isso é mais do que compreensível.

Agora, o que não dá para compreender, mas nem a pau, é a existência de uma paródia de religião chamada Igreja Maradoniana de La Mano de Dios. Criada em outubro de 1998 por torcedores desgostosos com a eleição de Pelé como o maior jogador de futebol de todos os tempos, a seita possui membros em dezenas de países, com destaque fora da Argentina para a Espanha, o México e outras nações de fala espanhola.

Para eles, o Natal deve ser comemorado no dia do aniversário de Maradona. Já a Páscoa ficou para 22 de junho, data do gol que Maradona fez com “la mano de Dios” contra os ingleses, nas quartas de final da Copa de 1986. Como bobeira pouca é bobagem, a religião também possui um tetragrama sagrado, o D10S, forma alternativa de escrever a palavra Dios (Deus em castelhano) misturando o D de Diego com o número de sua camisa.

Depois tem gente que ainda pergunta por que o Maradona é tão bobo e metido a besta. Se a Argentina faturar esta Copa, não teremos apenas o inconveniente de vê-lo correr pelado ao redor do obelisco. Também teremos o aumento dos membros da tal Igreja Maradoniana.

País do futebol?

28 de junho de 2010 2

Não me lembro dos motivos que me levaram à total indiferença quanto à Copa de 2002. Seria a derrota para a França em 98, que me fez chorar? Não, acho que foi por causa do horário dos jogos, de madrugada, o que exigia um empenho de fanático para levantar no frio de junho, ligar a TV e ver o que estava acontecendo nos gramados da Ásia.

Seja como for, os ecos de uma Copa são tão poderosos que é impossível se isolar do evento. Ao ouvir o estouro dos foguetes, eu levantava a cabeça do travesseiro e concluía: “gol do Brasil”. Depois virava para o canto e esperava a próxima manifestação da vizinhança. Assim, antes mesmo de acordar direito, eu já sabia mais ou menos o resultado da partida.

Depois me recuperei da apatia futebolesca. Acompanhei a preguiçosa seleção de 2006, e agora, em 2010, continuo acompanhando uma seleção que, salvo surpresas hoje à tarde, continua mais preguiçosa do que nunca. Mas há pessoas que não se livraram da apatia pelo esporte bretão, mesmo durante uma Copa. A propósito, sequer chegaram à apatia, simplesmente porque nunca conheceram a simpatia ou o interesse por futebol.

Vejo as novas gerações viciadas em saúde e tecnologia. Salvo engano, poucos se mostram preocupados com o destino da nossa seleção. Alguns torcem o nariz à simples menção do assunto. Sentem vergonha dos pais e tios que, passivos, com suas barrigas molambentas, enchem a cara de cerveja para acompanhar um espetáculo do qual não teriam a mínima condição de tomar parte. A realidade virtual lhes parece mais divertida, já que, graças à interatividade, oferece ao menos a ilusão de controle, de comando, de pró-atividade.

Cresci ouvindo a máxima de que vivemos no país do futebol… Mais um mito alimentado pelo nosso ufanismo pantaneiro! E quem diz isso não sou eu, é o Juca Kfouri, um cara que deve saber o que está falando. Em recente entrevista ao Le Monde Diplomatique, sentencia, sem meias palavras, que “o Brasil NÃO é o país do futebol”. E argumenta: “Acabou de sair uma pesquisa do DataFolha que mostra que maior do que a torcida do Flamengo são as pessoas que dizem não ter time de coração: 25%! Depois vem o Flamengo, com 17% e o Corinthians com 14%. Na Argentina, em uma pesquisa igual, apenas 7% disseram não ter clube”.

Não digo que verei o jogo de hoje com a orelha no travesseiro. Agora, chorar como chorei em 86, isso eu não faço mais.

Michael vive (republicando um ano depois)

25 de junho de 2010 2

Já tem gente dizendo que Michael Jackson não morreu coisa nenhuma. Para se livrar dessa vida de celebridade bizarra, ele teria simulado a própria morte com a ajuda de uma boneca de cera e agora estaria em alguma praia da Jamaica tomando uma gelada com o sogrão Elvis Presley.

A ideia é atraente e inevitável. Aconteceu com Jim Morrison, Bob Marley, James Dean, Bruce Lee e uma série de outros ídolos que partiram antes do tempo. Todos têm seus álibis e disfarces para permanecerem anônimos no meio da multidão. No caso de Michael, bastaria que se inscrevesse em concursos que dão prêmios aos melhores imitadores de Michael Jackson. Sempre ficaria em último lugar.

Esse tipo de história surge porque os deuses simplesmente não podem morrer. Eles precisam ficar e despertar suspeitas sobre a autenticidade dos fatos — uma forma eficaz de manter o mundo de pé e pleno de sentido.

Mas a grande verdade — e digo isso aos fãs incondicionais — é que o Michael Jackson morto é infinitamente melhor que o Michael Jackson vivo. Como provado no noticiário do fim de semana, a morte é capaz de absolver todos os pecados, todos os crimes, todas as idiossincrasias. Repito aqui o que escrevi no meu blog: “Michael morreu como curiosidade e ressuscitou como artista.”

Há muitos anos, ele vinha sendo chamado pela imprensa americana de Wacko Jacko (algo como “esquisitão”). Isso naturalmente se deve ao branqueamento de sua pele, às suas incontáveis cirurgias plásticas e às acusações de pedofilia que pesaram sobre seus ombros (acusações, vale dizer, que nunca se transformaram em sentenças judiciais).

Nos últimos anos, sua voz estava sem brilho e sua música sem ritmo. Invencible, o CD que encerra sua carreira, é péssimo se comparado a Thriller ou Dangerous. Possuía um clip-curta-metragem com a presença de Marlon Brando, mas já não contava com as cores e a inspiração dos anos 1980.

Essa turnê maluca na Inglaterra, que jamais acontecerá, lhe daria um lucro de 50 milhões de dólares, mas fontes fidedignas garantem que ele devia dez vezes mais. É provável que seria forçado a leiloar o seu maior patrimônio, os direitos comerciais das canções dos Beatles, para se livrar dos credores e continuar bancando o Peter Pan da Califórnia.

Não, não dava mais para ele. A melhor coisa que aconteceu a Michael Jackson — e a todos os que amam o cantor — foi a chegada repentina da Morte.

Thriller (republicando um ano depois)

25 de junho de 2010 0

 

É noite e um carro para na estrada deserta. O rapaz explica à garota que a gasolina acabou. Ela sabe que isso é mentira, mas se finge de tola porque está visivelmente apaixonada.

— O que vamos fazer agora? — diz a moça, insinuante.

Em vez do tão esperado beijo, os dois saem à procura de ajuda. O rapaz caminha em silêncio. A garota não gosta disso, tenta puxar assunto. Param no meio da floresta.

Ele, sério:

— Preciso te dizer uma coisa.

Ela (será que vai me beijar agora?):

— Diga o que quiser. Sou toda ouvidos.

— Sabe que gosto de você, não sabe?

— Sim, eu sei.

— Que bom. Espero que goste de mim do mesmo jeito.

— Claro que gosto. Gosto muito. Gosto demais.

Os dois se abraçam, mas nada de beijo, nem mesmo no rosto. O rapaz tira alguma coisa do bolso. É uma espécie de anel de noivado, que põe no dedo dela.

— Agora você vai ser a minha garota. Mas primeiro tenho uma revelação a fazer.

— Faça, meu bem. Pode se abrir comigo.

— Eu não sou como os outros rapazes.

— Claro que não. É por isso que eu te amo.

— Você não está entendendo. Sou um cara diferente.

— Diferente? Do que está falando?

Antes da resposta, um vento impetuoso sopra as nuvens que até então bloqueavam a claridade da lua cheia. O rapaz sente engulhos, geme e cai aos pés da moça.

— O que houve? — diz ela. — Você está bem?

— Ah! — exclama ele, agora com olhos brilhantes e voz cavernosa.

A garota grita, mas é tarde demais. Diante de nossa incredulidade, o “cara diferente” passa por uma horrível metamorfose. Torna-se lobisomem e começa a perseguir a mocinha por entre as árvores e as sombras. Ao que tudo indica, irá matá-la, esquartejá-la e dilacerá-la.

 

                                  ***

 

Só quem mora em Marte não assistiu à cena acima. É a abertura de Thriller, o clip-marca-registrada de Michael Jackson, a quintessência do que sua música representa para o mundo. Fiz questão de descrever a cena em detalhes porque agora, com sua obra finalizada, tudo parece claro na vida do ídolo.

No momento mais brilhante de sua carreira, o rei do pop fez questão de mandar uma mensagem subliminar a todos os seus súditos. Chamou atenção para o fato de ser “um cara diferente” antes de se transformar naquela criatura branca e sem nariz que de vez em quando aparecia nas revistas de fofoca. Os fãs não tiveram melhor destino. Surpresos com o excesso de plásticas e as histórias de pedofilia, acabaram encarnando a mocinha que desejava um beijo. Foram simbolicamente assassinados, esquartejados e dilacerados.

Doeu em todo mundo, concorda? É que o fenômeno Michael Jackson não se reduziu a um mero produto empacotado pela indústria cultural. A despeito dos escândalos e dos fracassos que pesaram sobre o nosso bizarro Peter Pan, muita gente está lamentando a sua morte. Mas acho que os fãs podem se consolar no que segue: Michael morreu como curiosidade para ressuscitar como artista.

Afinal de contas, quem é rei nunca perde a majestade.

Saramago - Sétimo Dia

25 de junho de 2010 5

Passada uma semana da perda de José Saramago, vejo-me na incumbência de tecer algumas considerações sobre como sua morte repercutiu no mundo cultural, no político e no religioso.

Cultural – Mário Quintana morreu em 5 de maio de 1994. Apesar da excelente cobertura da imprensa, o passamento do poeta foi ofuscado pela morte de Ayrton Senna, ocorrida quatro dias antes. Saramago, por sua vez, morreu sozinho, absoluto, na segunda semana da Copa, quando o público já vencera a novidade das vuvuzelas e das jabulanis. Mais: Saramago morreu na manhã de sexta-feira. Considerando que a maioria dos cadernos de cultura são publicados nos fins de semana, houve tempo para preparar bons especiais sobre o mestre. Mesmo assim, a pressa era óbvia, e muitas das bobagens que saíram nos jornais acabaram reproduzidas em outros meios de comunicação.

Político – Os conservadores da direita furibunda não pouparam a carcaça do velhinho. Trataram Saramago como se fosse culpado por toda a violência cometida pelos gulags do stalinismo, quando o escritor, no fim das contas e da vida (momento em que passa a ser ouvido), era textualmente contrário a toda forma de opressão e totalitarismo. E demonstrou isso na prática. Enquanto Oscar Niemeyer e Gabriel Garcia Marquez se calaram diante do despautério cubano, Saramago rompeu com os Castro Brothers em 2003. Além dos simplismos necessários impostos por conceitos como direita e esquerda, ele combatia o Novo Imperialismo que se mascarou com o disfarce bonitinho da Globalização.

Religioso – Enquanto os maiores intelectuais do planeta lamentavam a morte do Nobel português, o L’Osservatore Romano, jornal oficial do Vaticano, publicou um editorial em que chama Saramago de “sensacionalista”, “populista extremista” e “ideólogo antirreligioso”. A verdade, a meu ver, é que a Igreja não suportou a coerência do escritor. Várias vezes à beira da morte nos últimos anos, ele nunca recuou de suas convicções materialistas. Não acreditava que exista vida no plano espiritual, mas se existir (tomara!), ele deve estar rindo à socapa. A reação do Vaticano é uma prova de que as religiões, no fundo, andam de mãos dadas com a intolerância. Por que os editores do L’Osservatore Romano não ofereceram à memória de Saramago a compreensão e o perdão da Santa e Madre Igreja? Do jeito como ficou, o editorial nos faz pensar no pecado capital da Ira.

Em defesa do Dunga

24 de junho de 2010 7

Os sentimentos humanos são ambíguos e pouco confiáveis. Por isso, acredito que haja apenas duas manifestações da alma que mereçam consideração: o amor sincero e o ódio sincero. Sobre o amor, hoje, nada tenho a declarar. Quero me concentrar no ódio porque, conforme o título ali em cima, a necessidade desta crônica é falar sobre o comportamento do Dunga.

Ao contrário da quase totalidade dos torcedores brasileiros, não vejo tanto escândalo nos palavrões que o técnico profere durante as coletivas de imprensa. Ah, dirão vocês, mas os jornalistas não merecem ser tratados a patadas… E por que não? Acaso são inocentes em suas provocações? Não podem ouvir uma crítica direta e sem ironia? Não têm peito para suportar o rancor alheio?

Parece que não, porque, em sua maioria, os jornalistas são sarcásticos e cruéis, também têm memória de elefante, só esquecem o que interessa esquecer, sabem tudo antes e depois do jogo, nunca durante, quando também ficam perdidos, provocam os entrevistados com perguntas traiçoeiras, interpretam as respostas do jeito que lhes convêm e espalham para o mundo uma verdade que já não pode ser questionada ou relativizada.

Diante de uma reação como a do Dunga, o que acontece? Correm todos para o colinho da Fifa e exigem a punição do malcriado — “foi ele, tia, foi ele que falou nome feio” —, depois entoam discursos confusos tratando de ética e bons modos, dão um show de corporativismo e ainda por cima azucrinam o público com chorumelas sobre a dureza do seu trabalho.

As celeumas entre imprensa e comissão técnica são praticamente obrigatórias durante as copas. A única diferença é que os outros técnicos brasileiros eram mais diplomáticos que o Dunga. Com exceção do Zagallo, claro. Aliás, quando o Zagallo disse “vão ter que me engolir”, muita gente pensou que estava se referindo à CBF ou ao torcedor brasileiro. Que nada! A mensagem tinha um destinatário exato: a imprensa perniciosa que tirava o sono e a paciência do velhinho.

Quando ou se o Brasil perder, ninguém vai ter pena do Dunga (até imagino a quantidade de ofendidinhos que secretamente passaram a desejar o fracasso da seleção). Sendo assim, por que ele precisa bancar o bonzinho? Que chute o pau da barraca, e que faça isso agora, enquanto está com o microfone na mão. Depois, com ou sem vitória, será obrigado a sair de cena. Quanto aos jornalistas… Bem, esses ficarão!

Maicon, o palpiteiro

23 de junho de 2010 1

Como tudo na vida, a Copa do Mundo tem um lado bom e outro ruim. Hoje quero falar do ruim, que também é chato, muito chato, quase insuportável. Lá vai: durante uma Copa, todo mundo se sente autorizado a dar palpite sobre futebol. Quando digo todo mundo, é todo mundo mesmo, inclusive os que nada sabem sobre o assunto. Prova disso é que até eu resolvi tratar da matéria.

— Ah! — dirão vocês. — Mas o Maicon já escreveu sobre futebol em dias anteriores.

Negativo. Escrevi sobre aspectos e situações que cercam o gramado e a nossa seleção. Sobre o futebol em si, sobre estratégia de campo, hoje é a primeira vez. Dito isso, vamos à minha tese, que é simples: continuo acreditando que o Brasil não vai levar o caneco de 2010, não apenas por questões políticas ou econômicas, mas principalmente por questões técnicas. Espero estar enganado, mas vamos lá.

Apesar de ter os mesmos jogadores em campo, a seleção que jogou contra a Coreia do Norte é escandalosamente diferente da que jogou contra a Costa do Marfim. Na primeira partida, tivemos todos os principais ataques oriundos da direita, nisso incluindo os lances que resultaram nos gols de Maicon e Elano.

Já no último domingo, a direita praticamente desapareceu (o nome do meu xará quase não foi pronunciado pelo narrador), e as bolas mais perigosas ao adversário surgiram do centro e da esquerda, com Kaká armando os gols de Luís Fabiano e Elano (Elano, aliás, parecia ser o único elemento comum entre os dois jogos). Fora isso, a genialidade individual do Fabuloso, auxiliada pelo juiz relapso e meio cegueta, possibilitou um dos momentos mais felizes de toda a Copa. Com Kaká fora de campo, é possível que tenhamos uma terceira seleção contra Portugal.

Essa discrepância entre os jogos significa que nossa seleção possui várias estratégias de ataque? Acho que não. Jogar assim num dia e assado no outro demonstra que o time está perdido, sem uma estratégia coerente para vencer. E isso pra não citar a defesa. Tomamos dois gols bobos, durante os quais a zaga se limitou a observar o trajeto da bola. Contra seleções mais fortes, que saibam atacar, essas limitações podem ser fatais.

Mas, para não desanimar ninguém, termino do mesmo modo que comecei: nada entendo de futebol.

Gol Pós-moderno

22 de junho de 2010 0

Copa da Suécia, 1958. Na final contra os anfitriões, Pelé recebeu uma bola meio torta na área, matou no peito e, com um toque de alumbramento rosiano, sutil como uma colher de chá, fez a bichinha viajar por sobre os dois metros do zagueirão Gustavsson, que ficou parado, com cara de bocó, só olhando e tentando acreditar no lance. Isso já seria suficiente para imortalizar a cena, mas o rei teve a audácia de finalizar com um chute sem pulo e direto na gaveta.

Copa do México, 1986. Logo no princípio das quartas de final em que a Argentina enfrentou a Inglaterra, Maradona deu um passe na entrada da grande área, mas, com a falha de Valdano, a bola desviou e subiu na direção do goleiro Peter Shilton. Ressurgindo do nada, Maradona pulou e marcou o gol — com a mão!!! Todo mundo viu, menos o juiz, que se limitou a ignorar o protesto dos ingleses e a correr de costas para o centro do gramado.

Copa da África do Sul, 2010. Num “jogo pegado” contra a Costa do Marfim, Luís Fabiano recebeu — com o braço — a bola que chegava à direita da área inimiga, passou um chapéu na defesa, deixou a jabulani pular antes do segundo chapéu e preparou — novamente com o braço — o chute que se transformaria no mais belo dos gols contemporâneos. Aí foi só correr para o abraço e mostrar, com os dedos, o número 6. Nada a ver com o Hexa, mas com o aniversário da filha…

Não gosto de exageros, mas o que vimos no último domingo nada mais é que a concretização de uma dialética dos goleadores. Se o gol de Pelé é a tese da pura categoria e o de Maradona é a antítese da pura malandragem, o de Luís Fabiano é a síntese que conjuga, num lance que não se contenta com apenas um chapéu e um toque de mão, a categoria e a malandragem do verdadeiro futebol.

 O que Luís Fabiano fez diante do mundo é uma paródia em forma de arte, uma “instalação”, tudo para homenagear os gols de 58 e 86. É como se fosse a famosa pintura em que Roy Lichtenstein recria Van Gogh com a estética caricatural dos quadrinhos, lembrando que, se Lichtenstein é o Fabuloso camisa 9 da nossa seleção, Van Gogh é o único e possível Rei do Futebol, enquanto Dom Dieguito Mano de Díos Maradona — bem, Maradona é a estética caricatural dos quadrinhos.

Mas o melhor de tudo é que o gol, por desrespeitar a regra básica de um esporte feito para os pés, não passou de uma fraude que deu certo, uma espécie de simulacro baudrillariano. Em suma, um gol pós-moderno.

Livros e livrarais

21 de junho de 2010 3

Triste, a notícia já repercutiu cidade afora: a quase sexagenária Livraria Alemã está se preparando para fechar as portas. Lamentável em si mesmo, o fato há de suscitar um novo debate sobre o papel do livro — e o livro de papel, com o perdão do trocadilho — na sociedade contemporânea.

As pessoas não querem mais ler? Se querem, é só por meios eletrônicos? A circulação de material impresso está a caminho do fim? Honestamente, eu já considerava essa discussão ultrapassada. Mudei de ideia ao manusear um iPad. E confesso que fico cabreiro a cada vez que me falam do ocaso das livrarias convencionais, fenômeno que não ocorre apenas em Blumenau, mas em todo o Brasil e no resto do mundo.

A necessidade e a função dos livros de papel no nosso cotidiano ainda solicitam discussões. É o que fazem dois dos maiores intelectuais europeus em Não Contem Com o Fim do Livro, que acaba de chegar às livrarias brasileiras – bem, às que restaram! Numa série de diálogos agudos e bem humorados, o escritor italiano Umberto Eco e o dramaturgo francês Jean-Claude Carrière brincam de futurologia ao discutir os avanços tecnológicos e os retrocessos humanitários da civilização ocidental.

Em dado momento, afirmam:

— O e-book não matará o livro, como Gutenberg e sua genial invenção não suprimiram de um dia para o outro o uso dos códices, nem este, o comércio dos rolos de papiros ou volumina. Os usos e costumes coexistem e nada nos apetece mais do que alargar o leque dos possíveis. A fotografia matou o quadro? A televisão, o cinema? Boas-vindas então às pranchetas e periféricos de leitura que nos dão acesso, através de uma única tela, à biblioteca universal doravante digitalizada.

Quer dizer: o livro impresso coexistirá com o iPad por um longo tempo, quiçá para sempre. O que muda — e esta não é uma conclusão do livro, mas desta crônica que chega aos leitores por meio impresso e digital — é a forma de comercializar o conhecimento. Não apenas os arquivos eletrônicos, mas os próprios livros de papel, cada vez mais, estão sendo comprados pela internet.

Quanto à venda direta de material impresso, aos poucos ela adquire novas configurações. O próprio grupo empresarial que desistiu da Livraria Alemã assim o fez para se concentrar mais efetivamente na IMPRESSÃO e na comercialização, dentro do sistema porta a porta, de material didático, religioso e infantil.

O livro permanecerá, sem dúvida. Agora, as livrarias…