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Posts de julho 2010

Tentei destruir o Santa

30 de julho de 2010 11

Chego à sexta-feira deprimido. Ao longo dessa semana, dois fatos concorreram para que os ânimos da coluna e do próprio colunista se abalassem. Primeiro: membros do Conselho do Leitor do Santa, durante uma reunião a que compareci, disseram na minha cara que GOSTAM das “coisas” que eu escrevo. Segundo: uma moça que trabalha no telemarketing do jornal me mandou mensagem dizendo que VENDEU uma assinatura graças à minha coluna. Mas, perguntarão vocês, eu não deveria estar comemorando? Claro que não, pois tive duas provas concretas de que tudo sai errado na minha vida.

Meus adoráveis inimigos vão afirmar que estou me gabando às avessas, mas não é isso. A propósito, por falar nos tais inimigos, acabo de encontrar uma terceira prova da minha desgraça. Se é verdade que a grandeza de um homem pode ser medida pela quantidade e qualidade dos seus inimigos, então devo ser um poço de mediocridade. Além de poucos, meus inimigos são de baixíssima envergadura. No momento, nem são os blumenauenses fundamentais, mas os gaúchos (os patéticos) que adoram estufar o peito para cantar o Hino do Rio Grande do Sul.

Mas eu dizia que não estou me gabando às avessas. Na verdade, sou uma espécie de terrorista infiltrado no jornal. Conforme rumores que circulam na internet, faço parte de uma confraria de pseudointelectuais universitários que pretende acabar com a influência do Santa no Vale do Itajaí. Meu objetivo, portanto, não era receber elogios do Conselho do Leitor, mas críticas que desmoralizassem o jornal em que escrevo. Também não era meu objetivo vender assinaturas, mas cancelá-las, diminuí-las, botar o leitor para correr. Eis que o tiro sai pela culatra.

Faz um tempinho aí, tentei destruir o Santa com um atentado terrorista convencional. Visitei a redação com uma bomba na sacola, não uma bomba comum, mas daquelas de efeito moral, que fazem as pessoas perderem o controle do esfíncter e dos intestinos. No meio de tantos jornalistas, porém, avistei uma criança, provavelmente filho de algum editor, e resolvi abortar a ação. Quando voltei para o carro, a bomba explodiu no meu colo. Vocês não perceberam que há duas semanas publiquei uma série de crônicas antigas? Pois é. Passei três dias com caganeira.

Devido à minha incompetência como sabotador, acabo de ser expulso da confraria, daí o porquê da minha confissão. Quem sabe seja o momento de mudar o tom e, em vez de achincalhar, escrever para agradar? Eu me sentiria meio “vendidinho” ao que mais temo nesta vida — o “gosto” do leitor —, mas quem sabe assim eu não alcanço meus objetivos?

Hino e Capital

29 de julho de 2010 0

Olha só: se for para mudar a letra do Hino de Santa Catarina, então deveríamos primeiro mudar o nome da nossa capital. Isso sim é que seria um ato político significativo.

Coincidência ou não, o Hino foi composto e sancionado na mesma época em que os homens do Coronel Moreira César promoveram a carniçaria de Anhatomirim, fuzilando catarinenses que se rebelaram com os achaques autoritários de Floriano Peixoto.

Eram tempos complicados, a União tinha suas diferenças com o sul, o choque é politicamente compreensível, menos pela truculência desnecessária que os milicos trouxeram para a Ilha. Prender, tudo bem; dar umas borrachadas, até que vai; agora, matar?!

E para apertar de vez o gasganete revolucionário dos barrigas-verdes, rebatizaram Desterro como Floriano Pólis, a Cidade do Floriano. Não se podia esperar outra coisa de um ditador. O que não dá para entender é a nossa passividade nos anos que se seguiram. Ninguém se lembrou de devolver à Ilha a sua antiga denominação?

E o Hino maldito? Por que não fala dos nossos mártires? Por que não discorre sobre as nossas belezas naturais? Em vez disso, exalta a revolução republicana, que teve um papel importante na libertação dos escravos, perfeito, mas que também se sentiu autorizada a atirar nos nossos bisavós.

Se houve alguma justiça no caso, quem a promoveu foram os sertanejos de Canudos, na Bahia, que deram um jeito de mandar Moreira César direto para o colo do capeta. No mais, abaixamos as cabeças e esperamos o tempo passar. A letra do Hino de Santa Catarina fala de força e bravura, mas pelo jeito somos frouxos, passamos um século com a crista quebrada, sem vontade de reparar uma sacanagem histórica.

Pior é que a ideia de mudar o hino surge como uma perfumaria turística, um desejo de vender barato o “catarinan way of life”, de gritar mais uma vez que temos a melhor capital do país (será que isso ainda é verdade?). Pouco tem a ver com ideologia ou autoafirmação política, até porque desconhecemos o nosso passado. Caso o conhecêssemos, ninguém teria estômago para continuar se referindo à Ilha como a Cidade do Floriano.

Não por nada, parece que os catarinenses não se mostraram interessados no novo Hino, nem no velho, porque hino, convenhamos, é coisa de quem gosta de guerra. Nós preferimos assobiar na praia.

O Padroeiro da Internet

29 de julho de 2010 0

Quem acompanha a coluna deve pensar que sou um anticatolicista visceral. Nada mais falso. Embora tenha me manifestado a respeito de algumas atitudes da Igreja que considero abomináveis — acobertamento a padres pedófilos, birra contra a ciência e os métodos anticoncepcionais, mercantilismo em nome do divino —, isso não significa que despreze a religião com a qual cresci. Logo eu, ora essa, que estudei em seminário e li a Bíblia de cabo a rabo.

Não sei se alguém se lembra, mas neste mesmo espaço destaquei algumas características que fazem do catolicismo, apesar de todos os seus defeitos, um movimento propenso à pluralidade do mundo atual. A primeira delas é a retórica anticapitalista. Nada mais contraditório à riqueza do Vaticano, mas como é bom ouvir palavras que desqualificam os bens materiais e elegem a eternidade como a verdadeira meta a seguir (principalmente quando meu extrato bancário está no vermelho).

Depois vem a ritualização politeísta e paganista das cerimônias, algo normal numa seita que surgiu no seio do Império Romano. Outro dia, na missa, o povo inteiro se esqueceu da cruz para aplaudir uma criança vestida de Virgem Maria, exatamente como faziam os romanos em suas celebrações. Eis a força e a beleza do multiculturalismo. E por mais que o padre insista nessa história do Deus único e verdadeiro, nunca deixarei de invocar a proteção de São Francisco de Salles, padroeiro dos escritores e jornalistas, e agora de Santo Isidoro, padroeiro da internet!

Sim, sim, já temos um padroeiro da internet! Bispo influente em sua época, Santo Isidoro nasceu na Espanha e viveu entre 560 e 636. Autor de muitos livros, era dono de um conhecimento enciclopédico incomparável, daí a identificação do seu nome com a web. Portanto, meus queridos, antes de se conectarem à internet, agora vocês podem fazer a seguinte oração:

Deus eterno e todo poderoso, que nos criou à sua imagem e semelhança e nos fez procurar tudo que é bom, verdadeiro e belo, especialmente na divina pessoa de Seu Filho unigênito, Nosso Senhor Jesus Cristo, permita-nos que, através da intercessão de Santo Isidoro, bispo e doutor, durante nossas jornadas pela Internet nós dirijamos nossas mãos e olhos apenas ao que é agradável a Vós e tratemos com caridade e paciência todas as almas que encontremos. Por Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

Jamais serei anticatolicista. Que outra religião poderia me oferecer santos a la carte?

Ser traíra

28 de julho de 2010 6

Vivo falando mal dos blumenauenses fundamentais — ou BFs, vamos simplificar —, mas não pensem que nego apreço a essa criatura docilmente materialista e incapaz de enxergar um palmo diante do nariz. O BF se preocupa em demasia com a casa na praia (que ainda não comprou), mas no fundo tem bom coração.

Basta que caia uma chuvinha mais forte para que ele abra a janela e verifique a situação dos vizinhos (depois de levantar os próprios móveis, é claro); basta que o governo anuncie um novo pacote de impostos para que o BF comece a filhodaputear os canalhas de Brasília que, em vez de trabalhar, só se interessam em sugar a seiva do sul; basta que algum colunista metido a esperto critique a Oktoberfest para que o BF, que dificilmente vai à Oktoberfest, mande cartinhas para o Santa dizendo que alguém flagrou o colunista tentando entrar de graça na Vila Germânica.

O que quero dizer com isso? Que eu adoro o BF, que a sua presença torna a nossa cidade menos cinzenta e desinteressante. O BF é, antes de tudo, um forte. Ainda que não goste de ser chamado de brasileiro, o BF também não desiste nunca. BFs, we can!

Mas é preciso fazer uma ressalva: o BF é traíra, muito mais que o manezinho, o peixeiro e o lageano. O BF é tão traíra que chega a ser mais traíra que o IBM (nada a ver com a empresa de tecnologia, mas com uma sigla genérica para Ituporanguense Bobo e Mascarado). A trairagem do BF não se destina aos que estão fora do seu círculo étnico e social. A trairagem do BF é interna, portanto pior.

Digo isso por causa de uma história que um grande amigo BF me contou (não vou dizer que o nome dele é Dieter para evitar complicações). Há muitos anos, numa festa de casamento lotada de BFs, estavam todos dançando ao redor dos noivos quando começou a tocar aquela música da boquinha da garrafa (viu?, casório BF também é cultura).

— Todo mundo dançando na boquinha da garrafa! — gritou um BF, mas só para ver se alguém perdia a compostura.

Meu amigo Dieter, coitado, entusiasmado que estava, correu para a garrafa e executou aquela coreografia meio estranha a um ambiente de BFs. De repente, viu-se no meio da roda, sozinho, sob o escárnio e as gargalhadas dos convivas. Quinze anos depois, ele continua sofrendo com as chacotas dos parentes.

O BF é líder em muita coisa, inclusive na trairagem.

Hino pra quê?

27 de julho de 2010 18

Ontem o Santa publicou matéria sobre o Hino de Santa Catarina. Ninguém conhece a letra, que é horrenda e pouco tem a ver com a nossa realidade histórica e geográfica. Para completar o quadro do desastre, o Hino é praticamente “incantável”, a música não casa direito com a métrica, a voz precisa dar um monte de voltas até chegar ao fim de certos versos. Há quem diga que os catarinenses não sabem cantar o Hino por causa dos defeitos da composição. Discordo. Os catarinenses não sabem cantar o Hino porque estão se lixando para bobagens como civismo. (É por isso que me ufano do meu Estado).

Um projeto em análise na Assembleia Legislativa pretende abrir concurso para a criação de um novo Hino de Santa Catarina. Tomara que seja vetado. Por que digo isso? Simples: não precisamos de hinos, não gostamos de hinos e não entendemos a letra de nenhum hino, a começar pelo nacional. A propósito, cantamos hinos apenas nos tempos de colégio, e isso porque nos ameaçam com o diário de classe. Só esse fato já revela a natureza autoritária dos hinos e outros apetrechos bairristas.

Além do mais, o que significaria um novo Hino, mesmo bonitinho e ritmado, para o povo catarinense? Nada. O povo catarinense não existe. Existe o ilhéu, o blumenauense, o lageano. Nosso Estado é um arquipélago de culturas alheias umas às outras. Qual delas seria predominante na nova letra? A da Ilha? Bato o pé. A do Planalto Serrano? Idem. A do Vale? Piorou. Já que seria muito superficial e genérico falar na colcha de retalhos que é Santa Catarina, o melhor é ficarmos com o hino velho e pronto. Como ninguém sabe cantá-lo, estamos livres de suas influências maléficas.

Sim, maléficas, pois todo hino é um tratado de xenofobia belicista. O atual Hino de Santa Catarina termina assim: “E nesta grande Nação/ É cada homem um bravo/ Cada bravo um cidadão.” Ora, ora. Se condicionarmos a bravura à cidadania com tanta facilidade, então só podemos concluir que, “nesta grande nação”, não há espaço para os covardes como eu, que suspeitam da bravura e do próprio conceito de Pátria.

Ainda ontem, junto à matéria sobre o Hino, nosso querido Edgar Gonçalves descreveu a “confortadora sensação de pertencimento” que o Hino do Rio Grande lhe ocasionou num estádio de futebol. É por isso que os gaúchos são tão patéticos. Eles ainda acreditam que pertencem a alguma coisa. Nós, catarinenses, sequer chegamos a essa ilusão.

Aos vendedores de votos

26 de julho de 2010 2

Já que teremos eleições em breve, não quero perder tempo falando mal dos políticos. Há 500 anos sabemos que são criaturas traiçoeiras e desonradas. Adianta gastar mais latim? Para que não me acusem de generalização, entretanto, devo dizer que nem todos são safados, corruptos e ladrões. Só os normais, é claro.

Resolvida a questão dos políticos, resta conversarmos um instante sobre os eleitores. É isso que importa. Também não quero perder tempo repetindo os clichês do voto cidadão, do “vamos lá, Brasil”, do oba-oba dispensável que só nos afasta da verdade sobre nossa condição de país atrasado e pouco afeito à democracia.

Mas uma coisa eu gostaria de dizer. Se você é daqueles que de alguma forma pretendem negociar o voto, pare de ler agora mesmo. Não tenho o menor interesse na sua atenção. Você é uma doença, uma praga, uma peste, não passa de um cancro, uma ferida purulenta, uma metástase enraizada no seio da sociedade.

Sim, é isso mesmo, posso xingá-lo e amaldiçoá-lo à vontade. Você é um covarde ignominioso, um sacripanta, um cagão, não fará nada para se defender porque sabe que a sua atitude é indefensável perante o mais primário código de valores.

E insisto no quesito covardia. Vender o voto não tem a ver apenas com burrice. O ato pressupõe submissão, falta de caráter e de autoestima. É um mergulho nos primórdios do Brasil, um desejo inconfesso de lamber as botas do poder, de entrar na fila de beija-mão dos coronéis e perpetuar a crença equivocada de que a política seria um festival obsceno de apadrinhamentos e favores pessoais.

Posso até ouvir as rimas dos eleitores que põem o título a rodar bolsinha por aí:

— Sou amigo pessoal do cabo eleitoral do candidato tal. Se precisarem de algo, tô na área, eh, eh.

— Pô, candidato, ajudei a eleger o senhor, agora vê se ajeita o nosso lado, né?

— Com fulano no governo, as portas se abrirão para nossa família.

Se você é desses, então não tem um pingo de vergonha na cara. A propósito, ainda não parou de ler? A quem está tentando enganar? Não tente pôr a culpa na situação econômica ou no fato de que os políticos só se lembram do povo na época das eleições. Vender voto é um crime sem arrego. E não pense que vou dizer que ainda há tempo e blablablá, que é possível cair na real e votar com consciência. Dane-se! Mesmo que eu me estrepe junto, desejo que você sofra todas as consequências do seu voto etiquetado.

Mais uma vez: se você é desses e continuou lendo até aqui, então só posso mandá-lo para o diabo que o carregue.

Como destruir uma canção

23 de julho de 2010 0

Quem assistiu à cinebiografia de Charles Chaplin deve se lembrar da cena em que Robert Downey Jr., no papel título, recebe a visita de um engenheiro de som. O cinema mudo estava com os dias contados, mas Chaplin, cismando que o Vagabundo jamais deveria falar, dispensou o engenheiro e lutou para se manter fiel às origens. Foi uma percepção de gênio. Se o Vagabundo falasse, o Vagabundo morreria. Como um mímico silencioso, tornou-se uma das figuras mais conhecidas do século 20.

A despeito dessa passagem tão importante na trajetória de Chaplin e do próprio cinema, a sonorização dos filmes não trouxe apenas os diálogos e os ruídos do set, mas também a combinação harmônica entre som e imagem. O que seria do cinema sem a música? Ou, por outra, o que seria da música sem o cinema? Se é fato que muitos filmes se destacam pela trilha sonora, também o é que muitas canções, por evocarem sequências cinematográficas inesquecíveis, adquiriram novos status e significados.

In Dreams, por exemplo, de Roy Orbison, era apenas uma canção romântica. Depois que foi usada por David Lynch em Veludo Azul (Blue Velvet, 1986), tornou-se sinônimo de esquizofrenia e depravação. Por outro lado, há canções compostas diretamente para a tela que transcenderam os filmes originais e se transformaram em símbolos de gêneros cinematográficos. Cito dois ícones do cinema de ação: os temas principais de Operação Dragão (Enter the Dragon, 1973) e Três Homens em Conflito (The Good, the Bad and the Ugly, 1966). Sempre que ouvimos os acordes da primeira música, lembramos os filmes de artes marciais. No caso da segunda, visualizamos os animados tiroteios dos spaghetti westerns.

Mas nem tudo são flores na conjugação de som e imagem. Aliás, tenho uma pequena teoria para a questão: quando o uso da música é artístico, beleza; quando, porém, é publicitário ou político, danou-se. Duvido que você não se lembre do Love Theme de O Caçador de Androides (Blade Runner, 1982), mas também duvido que você consiga desvencilhá-lo das propagandas de motéis. Alguém ainda consegue ouvir New Sensation, do INXS, sem se lembrar do “novo Corolla da Toyota” ou, pior, do Brad Pitt? E As Quatro Estações, de Vivaldi? Vai um sabonete aí?

Mas a pior aconteceu com o compositor alemão Richard Wagner (1813-1883). Desde que Hitler adotou sua obra como símbolo da supremacia ariana, ficou impossível ouvir a Cavalgada das Valquírias sem visualizar a suástica. É o melhor exemplo de como destruir uma canção.

Historinha Sagrada

22 de julho de 2010 1

De onde estava, pude ver quando a mulher foi agarrada e, ainda em trajes íntimos, atirada no meio do povo. Os homens, por isso, não hesitaram em chutá-la e espancá-la — mesmo assim adivinhei a lubricidade de certos olhares, especialmente dos mais jovens, diante daquele corpo à beira da nudez.

A ira deles, no entanto, não se comparava aos urros febricitantes das outras mulheres. Armadas com paus e pedras, e algumas com o despeito vivo nas faces, tentavam entrar na roda para exigir morte à meretriz. Queriam apedrejá-la.

A mulher, porém, ágil, esquivou-se e correu para o outro lado da praça. Antes de ser novamente alcançada pela multidão, esbarrou num sujeito barbudo que passava acompanhado por uma escória de mendigos, vagabundos, vândalos e prostitutas.

Quando a mulher se amparou nos braços dele, uma muralha humana e injuriada já estava formada ao seu redor.

— Afaste-se — disse um dos anciães. — Essa mulher foi pega em adultério. A lei determina que ela seja apedrejada.

Acho que o barbudo exercia algum tipo de poder sobre as pessoas, não há outra explicação. Sob o repentino silêncio, agachou-se e ficou um tempo riscando o chão. Todo mundo ali, naquela sanha assassina, e o camarada controla a situação de cócoras? Nunca vi igual. Ainda mais quando se levantou, com o peito cheio, e deu de dedo no povaréu:

— Atire a primeira pedra quem nunca pecou.

Um burburinho cresceu entre os justiceiros, que ficaram sem ação. Devagar, então, como num ritual, os paus e as pedras começaram a cair. Os velhos foram os primeiros a deixar o local. Ternamente grata, a mulher abraçou o barbudo. Não ouvi direito o que ele disse, mas creio que foi algo do gênero “se ninguém te condenou, eu também não te condeno”.

Mais tarde descobri que o barbudo era um nazareno dado a subversões a quem chamavam Jesus. A mulher, que me lançou um olhar rancoroso ao partir, era ninguém menos que a popular Mariazinha de Magdala.

E eu? — você deve estar se perguntando. Quem sou eu? Bem, eu sou o sujeito que estava na cama com ela. Como ninguém pensou em me apedrejar, abanei as calças — no caso a túnica — e graças a Deus não entrei na história.

Lei anarquista?

22 de julho de 2010 4

Há cerca de doze anos, durante a gestação da minha primeira e única filha, eu vivia dizendo que devemos educar as crianças com exemplos, nunca com cascudos ou puxões de orelha. E olhe que meus discursos eram proferidos com uma empáfia de psicopedagogo experimentado, ou pelo menos de um curioso que havia assistido a programas na TV sobre a primeira infância… Santa ingenuidade, Batman! Em minha defesa, digo que eu também compreenderia esse tipo de romantismo em quem não conhece o cotidiano real dos papais e das mamães.

A educação de uma criança é um processo longo e imprevisível. Por mais que você fale, ensine e explique, é provável que também precise do argumento final, ou seja, de umas boas palmadas, que não servem para machucar, mas para esclarecer quem está no comando. (Se alguém se escandalizou com o que acabei de escrever, de duas uma: ou não tem filhos, ou é hipócrita). Um pouco de firmeza com as crianças pode evitar que mais tarde você seja chamado no colégio do seu filho e – que vexame! – comece a chorar porque não sabe o que fazer para controlar o anjinho que cresceu embaixo do seu nariz.

 Bem, acho que deixei clara a minha opinião sobre esse projeto de lei que proíbe os corretivos paternos. Trata-se de mais uma perfumaria do legislativo brasileiro, ponto final. Mas eu gostaria de acrescentar um dado à discussão. Por incrível que pareça, a lei contra os puxões de orelha possui uma lógica oriunda da Anarquia. Um dos sonhos dos anarquistas do século 19 é que todas as formas de autoridade entrassem em colapso, inclusive a dos pais, um primeiro passo para a destruição do Estado como o conhecemos.

Mas, se os pais não pudessem mais agir como pais, quem seria responsável pelas crianças? Todo mundo, oras, a sociedade de modo geral (alguém já parou para pensar que, da creche à universidade, quem educa nossos filhos são os outros?). A autoridade do Estado, como se sabe, continua firme e cobrando impostos, mas, paradoxalmente, é por meio do Estado, com a ajuda de leis que se intrometem na esfera familiar, que a autoridade dos pais está indo para o beleléu. E esse mesmo Estado, além de não deixar que cuidemos dos nossos filhos, ainda aparece para nos punir pelo fracasso das novas gerações.

Eu até que sou simpatizante de certas premissas da Anarquia como sistema político, mas não desse jeito. Sugiro o caminho inverso: primeiro acabamos com o autoritarismo do Estado e dos impostos abusivos, e depois pensamos em leis para dinamitar a autoridade dos pais.

Em defesa das loiras

20 de julho de 2010 3

Não sei dizer se o preconceito contra as mulheres de cabelos oxigenados começou com aquele hit do Gabriel o Pensador, Lôraburra, ou se isso já vinha acontecendo em datas anteriores. O que sei, e esse é o motivo da minha indignação, é que todas essas piadinhas de loiras são infames, ridículas e sem graça.

Vamos a um exemplo:

Um policial rodoviário pegou uma loira dirigindo na contramão.

— A senhorita não viu para onde estava indo?

— Vi, seu guarda. Mas lá deve ser ruim, né? Tá todo mundo voltando!

Pode uma piada ser mais tosca e sem sentido? Vamos a outro exemplo. Quero que minha dissertação em defesa das loiras fique bem clara e ilustrada:

O Papai Noel, o Saci Pererê, uma loira burra e uma loira inteligente estão andando na rua quando de repente encontram uma nota de cem reais. Qual deles fica com a nota? A loira burra, é claro. Todos sabem que papais noéis, sacis pererês e loiras inteligentes não existem!

É uma injustiça, uma calamidade, um acinte! Quero registrar aqui os meus mais irados protestos contra essas manifestações espúrias que o povo insiste em taxar de humor. O que dizer das piadinhas do tipo pergunta e resposta? Exemplifico:

— O que você ganha quando oferece a uma loira um centavo pelos pensamentos dela?

— Troco.

Ou:

— Por que a loira toma Yacult com o chinelo na mão?

— Para matar os lactobacilos vivos.

É o cúmulo da generalização. E o pior é que a maioria dessas anedotas não tratam as loiras apenas como desmioladas. Tratam-nas também como despudoradas, desencaminhadas e messalinas. Duvida?

— O que a loira diz depois de fazer um amorzinho gostoso?

— “Valeu, rapazes. Até a próxima”.

Que infâmia, meu Deus do céu, que vergonha! Para aprofundar a injustiça, muitas vezes as loiras são comparadas com as morenas:

— Se uma loira e uma morena caem de um prédio, qual delas chegará primeiro ao chão?

— A morena, lógico. A loira vai parar para perguntar a direção!

Mas às vezes também sobra para as morenas:

— Por que as piadas de loiras são tão curtas?

— Para as morenas poderem se lembrar.

Sinto uma hiperbólica indignação quando ouço anedotas desse naipe. Sugiro punição severa aos desocupados que encontram tempo para espalhar essas calamidades pelo mundo. Em especial àqueles que se justificam dizendo que as loiras não se importam com essas gracinhas porque… Ora, porquê!… porque só entenderão os exemplos aqui citados na semana que vem!