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Posts de agosto 2010

Verdinho esmaecido 2

31 de agosto de 2010 44

E eu pensando que havia despertado os instintos mais primitivos do leitor blumenauense! Que nada, faltava falar de futebol. Até ontem, eu que tenho interesse em contar uma outra história da cidade, não me lembrei de tratar do símbolo máximo da nossa decadência: o Metropolitano. Bastou que fizesse isso para que meu blog fosse invadido por dezenas de comentários irados e irracionais. Em respeito à minha pobre e inocente mãe, só pude publicar a menor parte.

Nos comentários sem palavrões, acusam-me de ser desinformado, irresponsável e mentiroso, mas nenhum deles, até o momento, explicou onde está a mentira, a irresponsabilidade e a desinformação. Eu disse e repito: a torcida do Metrô é infiel porque o clube ainda não tem identidade. Um dos leitores me contesta e diz que, seja em Brusque ou na Conchinchina, o clube nunca joga sozinho. Outro, porém, mesmo esbravejando, confirma as minhas palavras: “se o Metropolitano TEM DIFICULDADE de ganhar a simpatia da massa em Blumenau, muito é pelos comentários maldosos de pessoas como você”.

Ok, admito, eu sou o culpado pelas dificuldades do time, mas qual dos dois depoimentos acima está correto? Desconfio que o segundo, pois chamar alguém de filho da puta pela internet não me basta como prova de fidelidade. Como interlocutor, prefiro o Blumenauense Fundamental (este, muito mais irônico e elegante nas respostas, não frequenta estádios e, se frequentasse, jamais torceria para o Metrô). O máximo que os torcedores do Verdão, quer dizer, do Verdinho Esmaecido, conseguem é me xingar e me chamar de desinformado.

Mas em duas coisas eu concordo com esse pessoal que está exercitando a sua fúria sobre o meu nome. Em primeiro lugar, perguntam como o Santa me mantém no seu quadro de colunistas. É o que me pergunto todos os dias. Em segundo lugar, a partir de comentários que começam com frases do tipo “após aguardar cerca de 15 minutos até meus nervos voltarem a seu estado normal” (ui, que medo!), concluí que, se é difícil dialogar com torcedores fiéis, é pior ainda com os infiéis.

Na coluna de ontem, sequer fiz críticas, apenas apontamentos sobre o apelido do time e o real envolvimento da torcida. Quem não é capaz de ouvir sem partir para a ignorância não é capaz de refletir. E quem não é capaz de refletir nunca deixará de ser uma torcida que vai e volta ao sabor do vento, atrás de um time sem identidade.

Verdinho esmaecido

30 de agosto de 2010 64

Dia desses, conversando com meu amigo Jorge Gustavo Barbosa, chegamos ao tema futebol. Ainda que uma coisa pouco tenha a ver com outra, do futebol ao Metropolitano foi um chute.

— Chamam o time de Verdão, mas não bate.

— Por quê?

— Ora por quê! Cadê o Verdão? Onde está o Verdão?

— Não tô entendendo.

— Aquilo é mais um verdinho esmaecido. Quase sempre usam camisa branca com umas listrinhas toscas que nem dá pra ver da arquibancada.

— E isso importa?

— Claro que importa! A única coisa que a gente vê são as logomarcas dos patrocinadores. Não são jogadores de futebol. São banners ambulantes.

Faz sentido. Se é verdade que qualquer partida de futebol se transformou num desfile brega de marcas e patentes, não é menos verdadeiro que o jogo de camisas do Metropolitano, vítima da mesma tendência, rapidamente chegou ao cúmulo e ao paroxismo.

Mas isso não é revelante, e sim o que seguiu na conversa:

— O torcedor do Metrô é infiel.

— Ah, isso é verdade.

— Às vezes aparece, às vezes não aparece.

— É de lua.

— E sabe por que isso acontece?

— Não.

— Porque o time não tem identidade. É um time de empresários, artificial, feito na caneta, à revelia da vontade popular.

— Acha mesmo?

— Acho. Bem diferente do antigo BEC. O BEC pelo menos nasceu da iniciativa popular, lá no comecinho do século 20, de gente que gostava de uma pelada no fim de semana, não desse pessoal que quer transformar tudo em outdoor.

Daí a conversa se alongou por mais meia hora. Em dado instante, houve o entendimento de que se pode dizer tudo do Metrô, menos que ele não cumpre a função para a qual foi criado. Vantagem ou não, tornou-se um símbolo de Blumenau. Por isso podemos concluir com dois bordões, à escolha do leitor: 1) pelo menos a cidade tem um time, ou 2) cada cidade tem o time que merece.

No café da esquina

27 de agosto de 2010 3

— Vivemos numa época careta.

— Desculpe, está falando comigo?

— Estou. Disse que vivemos numa época careta.

— Engraçado, parece que conheço você de algum lugar…

— Hoje em dia, ninguém pode dizer ou escrever mais nada. Parece que tudo ofende, tudo transgride, tudo é motivo para processos e retaliação.

— É… pois é… mas, perdão, não estou entendendo aonde você quer chegar.

— Tudo começou com essa história do politicamente correto. O politicamente correto, não tem?

— Sim, sim, sei o que é.

— A tendência nasceu nos Estados Unidos para reparar certas injustiças históricas cometidas contra as minorias, mas rapidamente se tornou uma espécie de novo moralismo.

— Novo… moralismo?

— É. Já que a classe média não pode mais apedrejar os negros, os gays e as prostitutas, resolveu direcionar o seu ódio contra quem faz piadinhas machistas escrotas, contra quem fuma e joga lixo no chão.

— Essas ideias… A sua fisionomia me parece tão familiar… Como é mesmo o seu nome?

— Os arautos das pequenas e das grandes causas se transformaram em radicais xiitas. Sabe por quê?

— Você não é o…

— Temos medo da liberdade, medo de pensar com a própria cabeça. Por isso, secretamente, odiamos os que são livres e se atrevem a morder a própria língua.

— Parece interessante. Mas, francamente, eu não odeio ninguém. Ei, acho que já sei quem você é.

— Dizem que vivemos numa democracia. Que nada, cara, é uma ditadura do cão. Veja essa lei eleitoral tirânica! Dilma, Serra, Ângela, Ideli, Colombo… são piadas prontas, mas não posso escrever uma maldita linha no jornal. Está na minha hora. Tenha um bom dia, amigo.

— Peraí, peraí. Você não é o… aquele do Santa… como é que se chama mesmo?…

Feministas Furibundas

26 de agosto de 2010 1

Não raro me deleito com o papo-aranha das feministas furibundas, principalmente das que se criam dentro de universidades e institutos de pesquisa. Tendem a uma divertida intolerância e a um caricato radicalismo, não apenas contra nós, homens, os grandes culpados da decadência ocidental, mas também contra as próprias mulheres, com predileção às bem-vestidas e às abençoadas pela natureza.

Minto. Feminista que é feminista detesta o gênero feminino em geral, nisso incluindo as feias, as gordas e as desleixadas. Se a mulher se pinta e se produz, a feminista dá de dedo e acusa a “objetificação do feminino”. Se a mulher não se importa com a aparência, a feminista também dá de dedo e acusa a “marginalização estética do feminino”.

Em resumo, não dá para entender o que elas querem, o que nos remete ao bordão machista sobre os mistérios que habitam a cabeça de uma mulher. Minto de novo. Dá para entender, sim. Moralistas da pós-modernidade, pretendem criar um Código de Hamurabi para a conduta dos pecadores, pretendem legislar sobre o pensamento alheio e determinar o que pode e o que não pode ser feito.

Dito isto, agora posso relatar a recente barbeiragem de uma amiga. Calma, minhas amadas leitoras, calma… Nada a ver com o machismo que muitas de vocês estão identificando nesta crônica, mas com a ilustração de um caso em que as feministas, as mesmas radicais ali de cima, encontram-se cobertas e recobertas de razão.

A minha amiga é barbeira de carteirinha, não por ser mulher, claro, mas simplesmente por dirigir com a sensibilidade e a delicadeza de um mamute. Ela bateu num carro parado. Nada anormal no fato, todos os dias dezenas de veículos em movimento colidem com outras dezenas bem ou mal estacionadas nas esquinas da vida.

Anormal é o que ocorreu no desenlace do episódio. O automóvel atingido tinha por dona uma outra senhora, muito distinta e tal, que botou as mãos na cabeça e gritou com uma sinceridade à toda prova:

— Ai, meu Deus, só podia ser mulher!!!

Quando relataram a cena, pensei que fosse alguma piada. Comprovado o “só podia ser mulher” proferido por uma mulher em pleno ataque de nervos, confesso que não entendi a lógica da situação. Foi aí que me lembrei das feministas, de uma coisa que elas não cansam de falar e, pelo visto, possui uma profunda razão de ser:

— O preconceito que as mulheres sofrem na atualidade não provém da opressão e da ignorância dos homens. Provém das próprias mulheres.

Mal-comido, mal-comida

26 de agosto de 2010 4

Você conhece a história do mal-comido e da mal-comida? Duvido que não. É um papo que rola nos escritórios, nas empresas, no trânsito, nas salas de aula, em toda parte. Quando o patrão demonstra impaciência ou mau humor, os subordinados começam a trocar olhares e cochichar:

— Tanta brabeza só pode significar uma coisa: ele não “ganhou” na noite passada!

Durante anos imaginei que esse tipo de comentário não passasse de um mecanismo de defesa contra a autoridade instituída. Denegrir a vida sexual daqueles que estão acima de nós — chefes, encarregados, professores, policiais — é uma excelente estratégia de consolo.

Entretanto, existem coisas que a experiência e a observação nos ensinam melhor que a teoria. Uma delas é a história do mal-comido e da mal-comida, que não se resume à anedota e faz todo sentido nos ambientes coletivos. Freud acreditava que tudo estava ligado ao sexo, inclusive o humor das pessoas. Acho que nessa o velhinho estava certo.

Alguns indivíduos, que parecem irritadiços por natureza, ficam ainda mais irritados diante da alegria dos outros. E perguntam, entredentes:

— Por que esses imbecis vivem rindo e se divertindo? Cambada! Não têm nada “mais produtivo” para fazer?

Só existe uma resposta possível:

— Sexo, meus adoráveis ranzinzas, vocês precisam de um bocadinho mais de sexo, se bem que recomendar sexo é sempre um problema, mesmo num país promíscuo como o Brasil.

Por outro lado, bancar o moralista às avessas, como estou fazendo agora, é uma estratégia fácil e covarde. Discutir a pitoquice alheia é divertido, mas pode causar cegueira sobre a nossa própria condição. Portanto, proponho um teste para saber se eu e você estamos de bem com a vida.

No trânsito, durante um engarrafamento, você está atrás de um veículo ocupado por um casal de pombinhos. A fila para e os dois começam a conversar, tão entretidos que nem percebem quando a fila volta a seguir. Esqueceram o mundo, perderam-se em todas aquelas frescurinhas comuns aos enamorados.

Se você achar graça da situação, significa que está numa boa, tranquilo, realizado, feliz. Agora, se você enfiar a mão na buzina… Meu amigo, minha amiga, você precisa dar uma trepada urgente.

Crime Organizado

24 de agosto de 2010 4

Não gaste tempo e dinheiro para ver 400 contra 1. É um dos piores filmes brasileiros da história, e isso não significa pouco, já que nosso cinema é famoso pela ruindade e amadorismo.

O tema é interessante, o elenco é interessante, a trilha sonora é interessante, mas nada vai além da promessa. Ainda que o conceito da obra seja legal — misturar a tradição latino-americana do thriller político com a recente febre do “favela movie”, tudo temperado com a estética do blackexploitation estadunidense —, o resultado é frustrante, o roteiro é capenga e os saltos no tempo, desnecessários, embrulham a história e estragam as surpresas da trama. Como muitos dos filmes que surgiram depois de Cidade de Deus, 400 contra 1 tenta trazer inovações narrativas, mas o máximo que consegue é confundir o público.

Dito isto, vamos falar de algo mais produtivo, que tem a ver com o filme, mas que pode e deve ser debatido a quilômetros dos cinemas. O fato histórico resgatado por 400 contra 1 — e também explorado por outros filmes nacionais, menos piores, como Quase Dois Irmãos — é de importância capital para compreendermos o atual fenômeno da violência urbana. No Brasil, o crime organizado nasceu durante a ditadura militar, na Penitenciária de Ilha Grande (RJ), graças ao contato de presos políticos e criminosos comuns.

Apesar das divergências e dos frequentes confrontos, ambos os grupos trocaram experiências, ensinaram e aprenderam o que sabiam sobre assaltos a bancos, estratégias de guerrilha urbana e organização de comando hierárquico. Não por acaso, assim como certos guerrilheiros se tornaram mercenários sem qualquer verniz político, muito bandido do morro acabou pendurado nos paus-de-arara do DOI-CODI. Quando a ditadura acabou, os presos políticos voltaram para as universidades e para os cargos de confiança no serviço público.

Já os criminosos comuns desistiram dos bancos e passaram a se dedicar ao tráfico de drogas. Meus queridos leitores de direita dirão que a esquerda só serve para isso mesmo: formar bandidos. De minha parte, direi apenas que violência gera violência. As heranças de um regime opressor sempre são maiores que o esperado. Portanto, deixo uma sugestão para as aulas de História: o que os 20 anos de ditadura têm a ver com o que hoje ocorre nas grandes e médias cidades brasileiras?

BF moderado, BF radical

23 de agosto de 2010 4

É preciso que se fale mais, muito mais, do Blumenauense Fundamental — ou BF, para simplificarmos numa sigla.

— Pô, Maicon, pra que insistir no assunto?

Ora, pra quê! Por uma questão de princípios. Quanto mais me mandam e-mails maldosos, quanto mais me param na rua para sugerir que estou enchendo o saco, mais me sinto no dever de aporrinhar com essa história de blumenauíces e fundamentalismos. Para alguma coisa a coluna deve servir. Se não for para alegrar o leitor, então que seja para alegrar o colunista.

— Mas pra você é fácil — disse um dos poucos amigos que me restam na cidade.

— Fácil por quê?

— Quer alguém mais alemão que você?

— Como assim?

— Olha essa sua cara de bolacha, Maicon. Olha esse seu penteado teutônico. Olha o jeito como você se veste, rapaz. Parece um pastor luterano!

— Quéque foi, mano? Tá revoltadinho hoje? Está agindo como…

— …como você, naquele jornal de gaúchos, comprando briga com todo mundo.

— Tá, mas o que isso tem a ver com ser alemão?

— Tudo. Pra ser mais alemão que aquela sua foto na coluna, só se você usasse um chapeuzinho de feltro com uma pluminha vermelha. Você só critica os BFs e sai impune porque não existe ninguém mais BF do que você!

Fiquei pensando nas palavras do meu amigo — ex-amigo, aliás — e concluí que, de fato, cansei de bancar o BF por aí, principalmente quando estou fora da cidade. Em minha defesa, digo apenas que, se sou BF, devo ser um BF moderado, mais à esquerda, cheio daquele papo democrático e multicultural.

Exemplifico: outro dia, em viagem ao Rio de Janeiro, entrei num restaurante e, com a maior naturalidade do mundo, pedi que o garçom me trouxesse um Chopp Eisenbahn. Antes de responder, ele me olhou com certo desconcerto:

— Desculpe, senhor, conheço a marca, mas infelizmente não a possuímos na casa.

— Então traz aí uma água mineral. Sem gás.

Viram como sou um BF moderado? O BF moderado prefere água a qualquer outra bebida que não seja o chopp mais famoso da terrinha. O BF radical, por sua vez, nega-se, não só a beber, mas também a pronunciar a palavra Eisenbahn desde que a marca foi comprada pela PAULISTA Schincariol.

Punhais na FURB

20 de agosto de 2010 0

Quanto mais próximo você está dos candidatos, mais divertido é o processo eleitoral. Quero dizer com isso que a emoção de uma campanha a presidente e a governador nunca estará à altura de uma campanha a prefeito e a vereador. Nessa lógica, é possível afirmar que, pelo menos em termos de interesses e paixões, nada se compara a uma eleição para reitor.

Por maior que seja uma universidade, ela sempre se tornará minúscula nas épocas de eleição. Mesmo contando com a presença de mestres, doutores e afins, uma universidade não é diferente de uma vila de lavadeiras. Todo mundo conhece todo mundo — e conhece bem! Por isso, além dos sorrisos de compadre, os pleitos universitários exigem um absurdo jogo de cintura, não dos candidatos, cujas intenções estão na mesa, mas dos eleitores, que costumam esconder o jogo, já que ninguém quer ficar do lado do perdedor.

Em momentos de assédio à reitoria e ao poder, os mal humorados contam piadas, os sisudos mostram os dentes, as máfias distribuem beijos e tapinhas nas costas. Vejamos o caso da Furb, onde trabalho. Basta passear pelos corredores da instituição para perceber o nível de infantilização a que chegamos. Com alegria e molecagem, dizem à boca pequena:

— Se acreditas em lero-lero, vote no Romero!

— Se acreditas em Papai Noel, vote no Natel!

— Se acreditas em rancor, vote no Valmor!

É mesmo uma barbaridade, mas que não deixa de ser instrutiva. Como o voto dos estudantes vale menos de 30%, lamento que meus alunos de literatura não possam se atolar nas sutilezas da eleição. Diante do que ocorre nas salas mais sombrias da universidade, mil aulas seriam insuficientes para demonstrar as motivações que levaram Fausto a negociar a alma com o demônio. Não se trata de uma simples puxada de tapete, como acontece nas empresas. Aqui, meus queridos leitores, é costume brandir o punhal da traição, no escuro, como Brutus, que sempre golpeia em estratégia de retaguarda.

Resta dizer que essa pequena lição de literatura não pode prescindir da Divina Comédia. Dante tinha tanta ojeriza aos traidores que os considerava indignos do próprio inferno. Deixou-os num limbo fervente em que eram picados por nuvens de pernilongos, mutucas e muçuranas. Seu castigo: seguir uma bandeira branca, ad eternum.

Escritores duelistas

19 de agosto de 2010 4

Superprotetora que é, minha mãe sempre me aconselhou a nunca brigar por causa de mulheres. Não será tão grave levar uns cascudos e sair com o rabo entre as pernas se você brigar por futebol, política, ignorância ou religião. Se for por mulher, porém, o buraco é mais embaixo. Quem briga por mulher não tem direito de guardar desaforo no bolso. É preciso passar do grito ao soco, do soco ao tiro, do tiro ao canhonaço e do canhonaço ao atentado nuclear. E principalmente — ai, ai, ai! — se a mulher estiver na plateia. Aí danou-se! Para quem adentra a lavanderia da honra, é preferível morrer a voltar pra casa com o nariz quebrado e sangrando.

Acho que foi por isso que os antigos inventaram o duelo. Uma disputa mortal entre cavalheiros armados com lâminas ou paus-de-fogo devia ser o melhor remédio para os males da honra.

E olhe que isso não era coisa da ralé, não. Alexander Pushkin, por exemplo, considerado por muitos o maior poeta russo de todos os tempos, foi alvejado num duelo por causa de… claro!… sua mulher, a bela e aristocrática Natália Goncharova. Em janeiro de 1837, Pushkin atirou suas luvas de pelica nas faces de um oficial francês chamado Georges d’Anthès. O motivo? Na frente de toda a corte de Nicolau I, o galinhão d’Anthès corria freneticamente atrás de Natália e, ofensa das ofensas, chegou a puxá-la pelo braço! Como profetizado numa de suas obras, Pushkin levou um tiro na barriga e passou dois dias gemendo e vomitando sangue antes de morrer.

Eça de Queiroz ridicularizou esse tipo de duelo em seu romance Alves & Cia. Infelizmente, isso não impediu que o colega Euclides da Cunha, autor d’Os Sertões, sucumbisse à tentação de comprar uma pistola e procurar Dilermando de Assis, o jovem amante de sua esposa, com o firme propósito de matar ou morrer. Corria o dia 15 de agosto de 1909, um domingo de chuva. Euclides só não contava que seu rival fosse campeão de tiro do colégio militar e ainda por cima tivesse o corpo fechado. É que Dilermando não mandou somente Euclides para o panteão dos imortais. Atirou também no filho mais moço do escritor, Quidinho, que anos depois tentou vingar o pai.

Um par de tragédias literárias! Pushkin morreu com 37 e Euclides da Cunha com 43. Às vezes fico imaginando as obras que escreveriam se tivessem chegado à velhice. Mas não pensem que colocarei a culpa em suas esposas. Apenas direi que faltaram aos dois — e à literatura — mães que dessem conselhos como a minha!

O Maicon se masturba?

18 de agosto de 2010 3

Em plena tarde de domingo, sou surpreendido por um telefonema do Evandro de Assis.

— Até que enfim, Maicon.

— Até que enfim, o quê?

— Você se rendeu ao Twitter.

— Como assim?

— O Twitter, rapaz. Acabei de me tornar seguidor do seu nome no Twitter.

Diz nos créditos do Santa que o Evandro é editor de política e economia, mas, conforme demonstra o diálogo acima, parece que ele passa todo o expediente navegando na internet. Assim que perguntei o que é esse tal de Twitter, ele compreendeu que a minha conversão digital era uma fraude.

Algum desocupado — a quem agradeço, e já explico por quê — resolveu utilizar o meu nome e a minha foto para criar um microblog cujo tema — único! — é a masturbação. Tudo bem, meus amigos, sei que o meu rosto não inspira confiança, tampouco nego a travessia por uma adolescência cheia de olheiras e tonturas inesperadas, mas daí a me gabar do meu suposto onanismo… é um pouco demais.

Os twitts são meia boca, alguns engraçadinhos, mas totalmente apócrifos e desautorizados. Exemplo: “Se presto atenção na Dilma, perco a inspiração para ir ao banheiro.” Ou ainda: “Agora peço licença que vou com as fotos da Cleo Pires para o banheiro”. Do alto da modéstia que me caracteriza, digo que esse sujeito ainda precisa comer muita polenta até imitar o meu jeito torto de escrever. Mas o pior é a insistência na palavra banheiro. Eu jamais recomendaria esse local para o vício solitário.

Bem, eu dizia que devo gratidão ao desocupado. Ele acaba de me oferecer uma forma de ganhar a grana que está faltando no meu orçamento. Já que a assessoria jurídica da RBS entrou em contato com os administradores do Twitter, que responderam prontamente, é apenas uma questão de tempo até termos o IP do computador do meu benfeitor. Terei a oportunidade de fazer algo inédito na minha vida: processar alguém, eh, eh, e duas vezes, uma pelo uso indevido do nome, outra pelo da foto.

Ah sim, e o Evandro de Assis vai me ajudar a criar uma conta de verdade no Twitter. O tema, claro, não será como e quanto me masturbo. Será como e quanto dinheiro eu tiro de um otário.