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Posts de setembro 2010

A TV deseduca?

30 de setembro de 2010 3

Volta e meia ouço conversas sobre a “decência” dos conteúdos veiculados na televisão. Acho que a preocupação procede. Não é de hoje que pais e professores têm motivos para espanto e até mesmo alarme diante do que passa em certos programas da chamada TV aberta. Não me refiro apenas à exploração abusiva da sexualidade e à explicitação operística da violência, mas sobretudo à difusão de valores necessários ao crescimento e à perpetuação da economia de mercado. Falo do individualismo, é claro, sempre acompanhado das eternas promessas de realização através de objetos glorificados pela publicidade.

Particularmente, não creio que um indivíduo fique violento apenas por assistir a cenas de tiroteio, mas ele pode, isso sim, partir para o crime se acreditar que o tênis “de marca” que viu na propaganda seja mais valioso que, por exemplo, uma conquista abstrata como a amizade. Ou pior: se ele acreditar que terá amigos e fará parte da “galera” graças ao tal tênis. Seja como for, a hiperexposição dos jovens a essa “ideologia do consumo” possui consequências nefastas, basta olhar ao redor. São tão graves que, de vez em quando, por obra de alguma ONG ou deputado dispostos a salvar o mundo, conseguem despertar a nossa sanha autoritária. Poucos não foram os abaixo-assinados e os projetos de lei – alguns aprovados – que buscaram regular a programação das emissoras e a ousadia dos marqueteiros.

Embora reconheça a legitimidade da causa, costumo sentir medo dessas manifestações. O motivo é simples: se hoje aprovamos um dispositivo legal para censurar um soco, uma bunda ou um pacote de salgadinhos, é provável que esse mesmo dispositivo, amanhã, seja usado para censurar uma palavra, uma ideia, uma crítica. Suspeito que somos propensos a apoiar esse tipo de medida porque, afinal de contas, a democracia brasileira ainda é uma criança que precisa trocar as fraldas.

Então devemos ficar de braços cruzados diante da deseducação televisiva? Lógico que não, só acho que poderíamos agir com mais cidadania. Em vez de clamar por leis coercitivas e autoritárias, pais e professores poderiam se mobilizar através da internet e anunciar que NÃO CONSUMIRÃO os produtos que patrocinam tais e tais programas. Mas tem uma: enquanto as pessoas derem audiência a esses “shows”, nenhum movimento anticonsumo fará sentido.

Se você é daqueles que reclamam da pouca vergonha na TV mas não tiram os olhos da telinha, o melhor que tem a fazer é ficar quieto. Assim não dará corda às ONGs e aos deputados que querem dominar, quer dizer, salvar o mundo.

O País dos Policarpos

28 de setembro de 2010 2

Sempre que surge oportunidade, recomendo aos hóspedes aqui da coluna que leiam um livro chamado Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, grande mestre do romance brasileiro. Entre outras coisas, conta a história de um funcionário público que, no auge da ingenuidade, passa a acreditar que o país precisa de um herói, um símbolo, um “homem forte” capaz de nos tirar do atoleiro.

Como resultado desse pensamento, tivemos a ascensão, no romance e na vida real, de Floriano Peixoto, o “marechal de ferro”, o “corta-cabeças”, o maníaco que virou presidente desrespeitando a própria constituição que ajudou a promulgar. Nos últimos capítulos do livro, o tom de sátira é substituído por uma toada melancólica: Policarpo Quaresma é fuzilado a mando do homem e dos ideais que tanto defendeu.

Publicado em 1915, o romance fazia referência à República da Espada, mas serve como um espelho do cenário populista da Era Vargas e — por que não? — também do que está acontecendo no Brasil de Lula. Nos últimos 100 anos, embora o Brasil tenha mudado muito na superfície, parece que continua o mesmo por baixo dos panos. Continuamos praticando todo tipo de disparate em nome do poder, e isso vale para qualquer ideologia, qualquer credo, qualquer partido político.

Interessante observar que Policarpo Quaresma é um cidadão correto, talvez o único personagem verdadeiramente honesto de todo o romance. O problema se encontra no seu patriotismo literal, no seu desejo de ver realizado um “milagre econômico”, na sua crença de que surgiria um salvador da pátria maior do que as leis e a própria liberdade de expressão. “Democracia demais atrapalha” seria um bordão perfeito para o personagem.

A ficção nasce da realidade, e é aqui que as coisas se complicam. Olho ao redor e vejo multidões de policarpos, pessoas honestas e bem intencionadas, mas portadoras de uma ingenuidade que chega a dar medo. Outro dia alguém me disse que “o mensalão foi invencionice da mídia”, bem como o caso Erenice e todas as investidas do governo contra a imprensa. Bem, cada um que acredite no que quiser.

Cá do meu canto, tenho a obrigação de lembrar que Policarpo Quaresma não foi fuzilado pelos inimigos, mas pelos próprios colegas de partido.

Shakespeare-Bacon Controversy

27 de setembro de 2010 0

O italiano Umberto Eco é mais conhecido como autor do best seller O Nome da Rosa, cujo subtítulo explicativo poderia ser As Aventuras de Frei Sherlock Holmes num Sádico e Libertino Mosteiro Medieval, mas Eco, também professor e semiólogo, é muito mais do que um rearranjador de enredos detetivescos. Particularmente, gosto dele porque, em seus estudos, costuma pôr pontos finais em questões que ficaram sem resposta durante décadas ou mesmo séculos. É o caso do ensaio que escreveu sobre os Protocolos dos Sábios do Sião, talvez assunto para uma próxima crônica, já que hoje pretendo falar de um ponto final mais contundente, a saber, o que ele acaba de pôr na Shakespeare-Bacon Controversy.

Em A Memória Vegetal e Outros Escritos Sobre Bibliofilia, o novo livro de Eco lançado no Brasil, ele resgata o eterno problema da autoria das obras atribuídas a Shakespeare. “Resumindo, o debate nascia da convicção de que um homem de escassa cultura e ínfima extração social como Shakespeare (…) não era capaz de elaborar textos de tal valor artístico e tal profundidade de pensamento. Parecia mais aceitável a ideia de que Shakespeare era (…) no máximo aquele que encenava e representava as obras atribuídas a ele, mas devidas na verdade a um personagem de grande engenho e sensibilidade. Naquela época, ninguém podia exibir tais qualidades, exceto Francis Bacon, filósofo (…) e profundo conhecedor da alma humana”.

Com humor e muito sarcasmo, e criando referências biográficas fictícias como Fuck Shakespeare – and Bacon too! (London, 1890), Eco reinventa a história da controvérsia e explica que, se se pode afirmar que somente um conhecedor das Letras como Bacon seria capaz de escrever peças do calibre de um Hamlet ou um Rei Lear, então também se pode crer que somente um conhecedor da vida mundana como Shakespeare seria capaz de escrever obras do calibre de uma Nova Atlântida, tradicionalmente atribuída a Bacon. Mas o imbróglio prossegue. Para escrever as obras de Shakespeare, Bacon “não teria podido concebê-las sem uma frequentação cotidiana do mundo do teatro (…) e, em sentido inverso, se Shakespeare era o autor da obra de Bacon, não poderia tê-la concebido sem uma frequentação cotidiana (…) da própria corte”.

Conclusão: ou os dois trocaram de identidade até o fim de suas vidas, o que nos parece impossível, ou a obra de Shakespeare era verdadeiramente de Shakespeare e a de Bacon, verdadeiramente de Bacon. Ponto final.

A Ordem e a Arte

24 de setembro de 2010 2

A Ordem dos Advogados do Brasil é uma instituição curiosíssima. Foi concebida em 1843 e oficialmente criada em 1930, por Getúlio Vargas, um mês depois do golpe que o levou ao poder. A palavra Ordem, e isso não é piada, refere-se a um conceito de irmandade medieval, considerando o membro um paladino da justiça, uma espécie de cavaleiro jedi defensor da lei. Ainda que seja uma instituição de advogados — ótimos personagens de anedotas sobre mentiras —, a OAB participou de lutas importantes contra o autoritarismo. Na época da ditadura militar, por exemplo.

A Bienal Internacional de Arte de São Paulo também é uma instituição curiosíssima. Foi criada em 1951 graças aos esforços do casal Ciccillo Matarazzo e Yolanda Penteado (alguém ainda se lembra do Edson Celulari e da Ana Paula Arósio na minissérie Um Só Coração?). Depois de momentos de legítima glória como a exposição da Guernica de Picasso, a Bienal tornou-se tão insípida quanto às instalações maluquetes que costuma exibir no Ibirapuera. Chegou ao fundo do poço há dois anos, numa edição conhecida como Bienal do Vazio, quando todo um andar ficou… pois é… vazio, enquanto os curadores insistiam que o Nada também é arte.

Mas o que essas duas instituições curiosíssimas, a Ordem e a Bienal de Arte, têm em comum? Até essa semana, nada. Acontece que a seção paulista da OAB lançou uma nota pública pedindo a exclusão de certas obras selecionadas para a Bienal deste ano. As obras em questão fazem parte da série “Inimigos”, de um certo Gil Vicente, que retrata, em desenhos enormes (2m por 1,5m), o próprio artista assassinando o presidente Lula, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a rainha da Inglaterra e o Papa Bento XVI.

O presidente da OAB-SP, que assina a nota, explica que “uma obra de arte, embora livremente e sem limites expresse a criatividade do seu autor, deve ter determinados limites para sua exposição pública”. Dentro de sua contradição — a obra é sem limites, mas DEVE ter limites? — o nosso paladino da justiça está pedindo censura, nem mais nem menos. Desnecessário acrescentar que a OAB está equivocada. Uma coisa é não apreciar o sentido estético de uma obra de arte, outra bem diferente é impedir que ela seja exibida.

Para terminar com algum otimismo, devo dizer que a série dos “Inimigos” fez bem à Bienal. Com seu tom grosseiro de mistério — por que Gil Vicente escolheu matar FHC com uma pistola e Lula com uma faca? —, está tentando preencher o Vazio.

O paraíso das mulheres?

23 de setembro de 2010 0

Há cerca de duas semanas, graças à Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, do IBGE, ficamos sabendo que Santa Catarina é uma espécie de paraíso das mulheres. Aqui, segundo a pesquisa, para cada 100 solteiras existem 122 solteiros dando sopa. A notícia causou furor, especialmente entre elas, que não tiveram pudores de dedurar a contradição. “Se isso é verdade, então por que essa carência de homens no mercado?”

A resposta costuma vir na forma dessas sentenças que, imagino, nascem e se fortalecem nos salões de beleza. “Que nada, minha filha, homem tem de monte mesmo, o que falta é homem de verdade, que chega junto. Tirando os grudes e os feinhos, ou os muito ‘facinhos e sem graça’, os poucos que interessam já estão comprometidos, ou são gays, que horror!”

Aí vem o IBGE e diz que as mulheres estão chorando de barriga cheia. E estão. Não me refiro à relutância delas com os grudes e feinhos, que ninguém é de ferro, tampouco com os gays, mas essencialmente com os “facinhos e sem graça”, o xis da questão. Alguém já disse que toda mulher, a partir dos 18 anos, não, dos 12, só pensa em se casar. Sonha com o dia em que um príncipe encantado chegará para levá-la na garupa de um cavalo branco.

Pois bem. Num belo dia, nossa heroína conhece um sujeito com características similares, que ainda por cima gosta dela, manda flores, telefona, abre a porta do carro. Claro que ela fica feliz, mas, sei lá, parece que falta algo, é tudo tão “fácil”, tão “sem graça”. A coitadinha não entende o que está acontecendo, mesmo assim o namoro termina. É que, realmente, falta algo fundamental, mas o quê?

Se me permitirem bancar o antropólogo, explico o problema pelo mito, ou seja, uma história que se repete ao longo dos tempos e acaba determinando padrões de comportamento. Toda história de amor deve terminar com um final feliz, mas até lá é preciso renúncia, dúvida, sacrifício. Por causa de romances, filmes e telenovelas, as mulheres costumam desanimar quando — que estranho! — não precisam “LUTAR por um grande amor”.

Se o mito não se realiza em plenitude, isto é, se alguma etapa da história é pulada, mesmo sendo os obstáculos, o resultado é a frustração. Sobre essa conclusão, nada tenho a acrescentar às mulheres, que devem estar me chamando de machista. Nem aos homens, especialmente aos “facinhos e sem graça”.

Sujismundos

22 de setembro de 2010 10

Depois que o Santa publicou aquelas reportagens sobre as pontas de cigarro atiradas no centro de Blumenau, sobre a porquice nos banheiros públicos e sobre os móveis descartados nas valetas que passam perto dos condomínios, a sujeira da cidade cresceu e se instalou diante dos meus olhos.

Engraçado que antes eu não percebia essas coisas, ou percebia muito de leve, e acabava acreditando na história da cidade sempiternamente linda, limpa e higiênica (já que os detritos eram sistematicamente varridos para debaixo dos tapetes da periferia).

Alguns filósofos do século 18 esclarecem esse mistério ocular: para nós, povos urbanos, as coisas do mundo só passam a existir depois de nomeadas, citadas, apontadas, e em certos casos passam a existir com uma onipresença desconcertante.

Pois bem: graças ao Santa — ô jornalzinho maldito! — a sujeira de Blumenau tornou-se onipresente no meu cotidiano.

Alguns leitores podem acreditar que as notícias sobre a imundície serviram como uma luva nos meus dedos, o crítico gratuito da Blumenalva, mas isso não é verdade. Cada vez que piso numa xepa de cigarro, cada vez que preciso tapar o nariz para usar um banheiro público, sinto uma tristeza digna de uma Pietà.

É chato lidar com as desilusões da vida coletiva. Se quiserem, podem pensar que exagero, que banco o cínico, o hipócrita, mas às vezes tenho vontade de me sentar no meio fio, como um bêbado, e maldizer a decadência que se abate sobre o projeto do Dr. Otto.

Mas triste mesmo, muito mais, é o que passei a ouvir como repercussão das matérias do Santa.

— Quem faz toda essa sujeira — dizem nas calçadas da XV — são as pessoas que vêm “de fora”.

 Peraí, gente, vamos devagar. Atribuir os males da cidade aos forasteiros é uma premissa básica de xenofobia e racismo. Não acredito que a imundície seja causada exclusivamente pelo blumenauense fundamental — uma criatura tão organizada e limpinha —, mas daí a apontar o dedo para os “de fora” – seja lá o que isso signifique — é sinal de que ainda precisamos crescer como civilização.

Podemos varrer as guimbas das calçadas, desinfetar nossos banheiros e dar melhor destino aos móveis velhos, mas enquanto não nos livrarmos dessa história de que os outros é que fazem errado, ao contrário de nós, os certinhos, não passaremos de um bando de sujismundos.

O blablablá da BR-470

21 de setembro de 2010 1

O fim de semana foi negro na BR-470. Mais acidentes, mais mortes, mais medo e tristeza para o Vale. Infelizmente, nada disso é capaz de sensibilizar os responsáveis pela suposta duplicação da pista. Em 2006, os deputados federais eleitos pela região deixaram registrado no Santa que as obras sairiam do papel. Para dizer o mínimo, todos fracassaram. Agora, durante a atual campanha eleitoral, o blablablá da BR continua vago, demagógico e repetitivo.

Detesto ser pessimista, mas acho que ficaremos na mão mais uma vez. Apesar dos discursos amarrados com as candidaturas ao governo de Santa Catarina, nenhuma dos candidatos a presidente demonstra vontade de encarar o problema da 470. Se Dilma vencer, já tem compromissos demais com o Bolsa Família. Se Serra vencer, sobrará para nós, em forma de pedágio, o custo direto das obras. Se Marina vencer, lutará pelas árvores que precisaremos derrubar às margens da rodovia.

A pergunta que segue é básica: se o governo federal não teve interesse e competência para finalizar o trecho sul da BR-101, por que seria diferente com a 470? A propósito: do governo federal, no Vale, só podemos enxergar os impostos e a baioneta. Com exceção de um posto da Receita Federal e do 23º Batalhão de Infantaria (aqui instalado durante a Ditadura Vargas, que perseguia as comunidades germânicas), onde está o “braço auxiliador” da União? Temos, por exemplo, uma universidade federal? O IFSC está chegando para ficar? Vai funcionar?

É curioso observar como Ângela Amin, Ideli Salvatti e Raimundo Colombo se posicionam sobre a duplicação. Nos programas eleitorais, com auxílio do telepronter, todos dizem que basta estalar os dedos para o asfalto se alargar sobre a terra. Uma conta com a experiência do marido, outra tem amigos em Brasília, outro anuncia um plano mirabolante para que Santa Catarina assuma a responsabilidade da obra. Entretanto, numa conversa mais direta com eleitores ou jornalistas, a euforia se transforma em cautela.

— “Precisamos aprofundar a questão”.

— “Precisamos ter calma”.

— “Precisamos de mais planejamento”.

Não, minha gente, não precisamos de nada disso. Na verdade, precisamos de algo bem mais simples. Que os políticos parem de pensar que somos palhaços.

Comece pelos anúncios

20 de setembro de 2010 4

Se a gratidão estivesse entre as minhas escassas virtudes, agradeceria a oportunidade de viver num país em que, pelo menos constitucionalmente, não existe censura. Agradeceria a quem? A Deus, óbvio, porque a liberdade de expressão é um direito sagrado. Botar as mãos para o céu, porém, não é suficiente. É preciso ficar atento para que o nosso direito à escolha não se transforme em conversa para boi dormir.

Mas como fazer para “ficar atento”? Simples: devemos verificar a origem das informações. Frequentemente recebo e-mails difamando a campanha de Dilma e o governo Lula. Se a fonte é a Veja, deleto no ato. Quando o alvo é a campanha de Serra e a fonte é a Carta Capital, faço a mesma coisa.

Esses dois exemplos representam o lixo e o luxo da liberdade de expressão. O direito de opinar é tão amplo e necessário que um veículo de comunicação, se achar adequado, pode aderir a um ideal político, a um conceito, até mesmo a um partido. Esse é o luxo do processo. O lixo é que isso nem sempre acontece às claras, o que acarreta confusão para o leitor, que acredita estar lendo a Verdade, com maiúscula, e não uma verdade, uma versão, um ponto de vista dos fatos.

Entretanto, um veículo de comunicação é incapaz de esconder o leite por muito tempo. Basta que iniciemos a leitura pelos anúncios, e não pelas matérias, entrevistas e reportagens. Para continuar nos exemplos acima, pergunto: quem patrocina a Veja? Empresas da iniciativa privada, com predileção para as multinacionais. No caso da Carta Capital, quase a totalidade dos anúncios possui o selo do governo ou as logos de estatais como a Caixa e a Petrobrás.

Algo errado nisso? Não, mas não me peçam para acreditar numa revista que elogia o governo e ao mesmo tempo está cheia de propaganda governamental. Do mesmo modo, sou obrigado a suspeitar de uma revista que detona um governo que, sabe Deus por quê, é entendido como ameaça a certos interesses da iniciativa privada. Atrevo-me, portanto, a dar um conselho: evite as verdades dos que querem pensar por você e use a própria cabeça para escolher o seu candidato. Dá trabalho, mas compensa.

A gratidão, repito, não se encontra entre as minhas escassas virtudes. Mas eu agradeceria — de joelhos! — se parassem de encher a minha caixa de e-mails com Verdades que, na verdade, não passam de versões parciais dos fatos, seja de um lado ou de outro.

Lula e Bornhausen

17 de setembro de 2010 6

Nesta semana, em visita a Santa Catarina, o cabo eleitoral Lula da Silva, que nas horas vagas atende como Presidente da República, lamentou ter dado apoio, em 2002, à candidatura de Luiz Henrique da Silveira (PMDB).

— Eu pensava que era para mudar — disse o Filho do Brasil. — Mas ele trouxe de volta o DEM, que nós precisamos extirpar da política brasileira.

Anos atrás eu teria me espantado com as palavras de Lula. De uns tempos pra cá, porém, os achaques do nosso reizinho se tornaram tão frequentes que não conseguem nos arrancar mais do que um bocejo. Mesmo assim, vamos avaliar o discurso do nosso — como chamá-lo? — presidente? Ah, isso tem pouca importância perto das suas bravatas autoritárias.

Em primeiro lugar, ele fala com a fleuma de uma criança mimada, dá e tira apoios ao seu bel-prazer, conforme as ondas da conveniência. Em segundo, e talvez mais grave, utiliza a retórica dos melhores stalinistas ao falar em EXTIRPAR um partido político da cena nacional. Quem tem boa memória imagina que Lula esteja respondendo às frases proferidas em 2005 por Jorge Bornhausen, então presidente do PFL (hoje DEM, o que deve ser extirpado):

— Não estou triste nem desencantado (com o escândalo do mensalão), pelo contrário. Estou encantado porque vamos nos ver livre dessa raça (o PT) durante pelo menos 30 anos.

Eis aí, meus queridos leitores, as duas faces de uma mesma moeda, os extremos que se atraem e se tocam em seu radicalismo. Mesmo os fãs de Lula deveriam lamentar que ele tenha aceitado o jogo irresponsável da oposição. Do ponto de vista político, só podemos lamentar a sanha antidemocrática do ex-sindicalista. Do ponto de vista pessoal, também.

Ter raiva de Jorge Bornhausen não é privilégio de poucos, mas a raiva de Lula, que surge da falta de acordos com o DEM, é falsa como uma promessa de campanha. Caso contrário ele jamais teria se abraçado com Collor num palanque. A propósito, não me admiraria se, no próximo pleito, o ex-presidente aparecesse de mãos dadas com algum integrante do clã Bornhausen.

É por essas e outras que desisti de entender a popularidade de Lula. Quanto mais ele fala besteiras, mais cresce a sua seta no ibope. Eu poderia encerrar com um clichê, “cada povo tem o governo que merece”, mas isso seria uma injustiça. Com Lula.

Lobista, lobinho, loba

16 de setembro de 2010 0

Certa vez, numa das bienais do livro a que compareci, tive a oportunidade de assistir à palestra de um assessor jurídico para livreiros do setor de vendas porta-a-porta. Lá pelas tantas, diante das reclamações sobre os impostos e as leis que regulam o mercado, o assessor deu de ombros e aconselhou:

— Se quiserem que as coisas mudem, vocês só têm uma alternativa: encontrar alguém próximo do poder e remunerá-lo para fazer lobby no Congresso.

Nenhum dos livreiros se sentiu ofendido. Pelo contrário: viraram-se uns para os outros, num zumzum que tomou conta do ambiente, e começaram a enumerar nomes capazes de representar seus interesses junto às máfias de Brasília.

Já que “sapo de fora não canta na lagoa”, fiquei quietinho na minha cadeira. Mesmo assim, tomei algumas notas mentais para assimilar a cena que acabara de presenciar: 1) faz tempo que o nosso empresariado aceitou a inutilidade das instituições brasileiras; 2) o pragmatismo dessa conclusão nos motiva a trabalhar do “jeito torto” e não a lutar pelo “endireitamento” do sistema; 3) alguém vai ganhar mais grana na Capital Federal.

Conto essa história, óbvio, para chegar ao novo escândalo do Planalto. Parece que um lobista, ou melhor, um lobinho chamado Israel Guerra conta com a ajuda da loba-mãe, Erenice, a ministra-chefe da Casa Civil, para “facilitar” contratos milionários entre o governo e a iniciativa privada.

Considerando o momento em que as denúncias vieram à tona, não é de admirar que o caso já tenha nascido como um petardo das campanhas eleitorais. Enquanto vemos o Lula, mais uma vez, estendendo sua blindagem à companheira Elenice, os partidos de oposição aproveitam a deixa para denegrir a imagem de Dilma, ela mesma ex-ministra da nossa assombrosa Casa Civil.

É pena que isso aconteça, pois o debate tende a se desviar foco. Por que os marechais de Brasília não botam o dedo na ferida que interessa, a saber, a atividade dos lobistas junto aos parlamentares? Por que ninguém propõe a oficialização da atividade, tal como acontece nos Estados Unidos? Lá o lobby é feito às claras, com crachá e tudo, para evitar que as decisões sejam tomadas debaixo dos panos.

Mas legalizar o lobby significaria tirar a caixinha de muita gente importante no Congresso. Por isso, quando penso num avanço legislativo dessa natureza, penso também no assessor jurídico que palestrou para os livreiros:

— Se quiserem legalizar o lobby — diria ele —, vocês só têm uma alternativa: encontrar alguém próximo do poder e remunerá-lo para fazer lobby no Congresso!