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Posts de outubro 2010

Meu amor pela Suécia

29 de outubro de 2010 1

(Republicando em homenagem ao grupo de suecos que, através de um intercâmbio promovido pela Furb, está visitando Blumenau e região).

 Sempre que alguém se queixa das mazelas do Brasil — “Ah, se aqui fosse assim! Ah, se aqui fosse assado!” —, costumo cortar os lamentos com a seguinte pergunta: “Tá pensando o que, pô? Que estamos na Suécia?”

Não sei de onde tirei o bordão — deve ter sido do tempo em que descobri que a Volvo, a Scania, a Tetra Pak e a Ericsson são empresas suecas —, mas é óbvio que, carregado de preconceito, ele contrapõe o progresso nórdico ao atraso tropical.

Ah, dane-se o preconceito! A verdade é que a Suécia está mais presente nas nossas vidas do que somos capazes de imaginar. Quando tinha 15 ou 16 anos, colecionei fitas k7 do Ace of Base e do Roxette, mas isso não é tudo: minha mãe jura que fui concebido ao som do ABBA.

Além do mais, todos que buscam alternativas ao esquematismo do cinema hollywoodiano acabam chegando à Svensk Filmindustri, quer dizer, a Ingmar Bergman, o que é mais ou menos a mesma coisa. Nessa etapa, acabamos concluindo que os suecos devem ser ótimos consumidores de antidepressivos.

Como esse povo sofre, meu Deus, principalmente as mulheres, todas emancipadas e neuróticas. E o pior é que, num típico casamento bergmaniano, as pessoas não conseguem pular a cerca sem depois confessar ao cônjuge e discutir a relação durante o resto do filme.

Engana-se quem pensa que o conflito se acende por causa de ciúmes vulgares. A dor dos suecos é mais sofisticada e existencial. Se uma sueca pega o marido na cama com a melhor amiga, sua tendência é pedir desculpas e dizer que deveria ter batido antes de entrar. Isso sim é que é civilização!

Bem, escrevi tudo isso apenas para dizer que estou quase acabando de ler o best seller do sueco Stieg Larsson, Os Homens Que Não Amavam As Mulheres. Numa determinada altura, o protagonista é obrigado a passar dois meses na prisão. Ora, se existe um item capaz de determinar o progresso de um país, sem dúvida é o funcionamento do sistema carcerário. Dê uma comparada com o nosso:

“O centro de detenção abrigava quarenta e duas pessoas, quando o número máximo de vagas era trinta e um (…) As rotinas diárias lembravam o funcionamento de um albergue da juventude”. Quando o personagem principal foi solto, “tinha a impressão de estar voltando de férias”.

Não gostou da crônica? Pois sugiro que se contente com o que tem. Ou está pensando que isso foi escrito na Suécia?

Civilização

28 de outubro de 2010 1

Outro dia fui pagar as contas de água e luz numa casa lotérica. Era fim de tarde, havia um certo movimento no local, dez ou doze pessoas na fila.

De repente olho para a porta e vejo estacionar um carro-forte.

Dele saiu um sujeito com coturnos e colete à prova de balas, a cabeça sumida por baixo do boné, os dedos envoltos no cabo do revólver. Depois de “averiguar o recinto”, tocou o microfone em sua lapela e resmungou:

— Área limpa!

Então apareceram mais dois, um magro e outro gordo-balofo, também com coletes à prova de balas e, nas mãos, com os indicadores próximos dos gatilhos, duas espingardas boito calibre 12, modelo “punheteira”.

Vi que formaram uma espécie de corredor para proteger o quarto segurança, o que carregaria os sacos de dinheiro.

— Eis a civilização — ri comigo, mas ri para controlar o nervosismo e uma estranha moleza que se apoderou das minhas pernas.

Confesso que comecei a suar. Tive certeza de que a qualquer momento um grupo de bandidos mascarados invadiria a lotérica com gritos — todo mundo no chão! — e rajadas de metralhadoras. Sobraria uma bala para mim, que dúvida?

Olhei para meus colegas de fila e notei que eu era o único apavorado por ali. Lógico: muitos deles provavelmente eram comparsas dos bandidos, estavam só esperando a passagem do dinheiro para sacar suas pistolas e iniciar o tiroteio. Tinha uma velhinha de óculos e guarda-chuva que me pareceu suspeitíssima.

Tenho que dar o fora, concluí, mas se eu sair correndo de repente, se fizer um movimento abrupto, tomarei um tiro nas costas — paiaumm!!! — como no cinema, em câmera lenta. Restou-me a resignação. Abaixei a cabeça e esperei que se cumprissem os desígnios do destino.

Quando os seguranças voltaram para o carro-forte e saíram às pressas, ficou claro que não estavam ali para proteger seres humanos. Santa ingenuidade, Maicon: o que importa é a bufunfa, né?! Afinal de contas, essa é a diferença entre a civilização e a barbárie.

 

***

 

Apesar do meu exagero paranoico, situações como a que acabei de descrever, cada vez mais comuns nas pequenas, médias e grandes cidades catarinenses, são um convite à tragédia. Sei que é um tanto complicado, mas, cá entre nós, já não passou da hora de colocar aquelas portas com detectores de metais nas casas lotéricas?

Memoráveis Rejeições

28 de outubro de 2010 0

Tenho uma pasta com algumas dezenas de cartinhas que recebi de editores recusando os meus originais. É a vida. Excetuando dois ou três abençoados, esse é o calvário de persistência que os escritores devem enfrentar antes de ver o seu livro publicado. Em momentos de desânimo, gosto de reler as cartinhas e despeitosamente lembrar que os editores são seres carentes de inteligência. Além disso, parte considerável das obras-primas que hoje se encontram nas bibliotecas — ahá! — também foram rejeitadas numa primeira leitura.

A mais famosa das rejeições, creio, seja a que um parecerista do editor Ollendorf escreveu a respeito do clássico Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust: “Não consigo entender como um senhor pode gastar trinta páginas para descrever como se mexe e se remexe na cama antes de pegar no sono.” Para a diversão do usuário desta coluna — e para meu consolo! — segue uma lista de rejeições — algumas engraçadas, outras irônicas, todas memoráveis — de livros que mais cedo ou mais tarde se tornaram emblemas da cultura ocidental:

— Não achamos que possa funcionar no mercado da literatura para jovens. É longo, de estilo antiquado, e cremos que não merece a reputação de que parece gozar. (Sobre a edição inglesa de Moby Dick, de Herman Melville).

— Cavalheiro, o senhor sepultou seu romance num cúmulo de detalhes que são bem desenhados mas totalmente supérfluos. (Sobre Madame Bovary, de Gustave Flaubert).

— As rimas estão todas erradas. (Sobre o primeiro manuscrito de poemas de Emily Dickinson.

— Impossível vender histórias de animais nos EUA. (Sobre A revolução dos bichos, de George Orwell).

— Não faz sentido pensar numa publicação: o mau gosto do público americano não coincide com o mau gosto da vanguarda francesa. (Sobre Molloy, de Becket).

— Deveria ser contado a um psicanalista, o que provavelmente se fez, e foi transformado num romance que contém alguns passos de bela escritura, mas é excessivamente nauseante, até para o mais iluminado dos freudianos. Recomendo sepultá-lo por mil anos. (Sobre Lolita, de Vladimir Nabokov).

— Pouco interessante para o leitor comum e não suficientemente aprofundado para o leitor científico. (Sobre A máquina do tempo, de H. G. Wells).

— Convém dar-lhe o bilhete azul. O autor não tem futuro. (Sobre O espião que veio do frio, de John Le Carré).

— Meu Deus, meu Deus, não podemos publicá-lo. Acabaremos todos na prisão. (Sobre Santuário, de William Faulkner).

Gênios existem?

27 de outubro de 2010 0

Georg Bernard Shaw começa um de seus artigos mais ou menos assim:

— Gênios não existem! Sei disso porque sou genial!

O paradoxo se encaixa direitinho na tese que pretendo aqui defender: essa história de “ser gênio” é uma das maiores furadas da nossa história educacional. Vejamos o caso de Machado de Assis. Faz décadas que o nome dele passou a ser acompanhado pelo adjetivo “gênio”. Ouvimos isso na TV, na boca dos professores, nos eventos literários, na imprensa e numa série quase infinita de livros acadêmicos. É o que se pode conferir, por exemplo, na capa de Machado de Assis – Um Gênio Brasileiro, do jornalista e escritor Daniel Piza.

Com a pulga atrás da orelha, abri um dicionário em busca do significado de “gênio”: pessoa que possui aptidão natural para algo; dom. Torci o nariz. É que essa história de “dom” e “aptidão natural” difunde a ideia de que Machado e outros ícones da arte nacional já nasceram prontos. “Quem é bom vem do ovo”, diz a sabedoria popular, e no entanto não encontramos nada mais falso e desestimulante.

Comparados ao que se escrevia na época, os textos iniciais de Machado eram bem simplórios e ruinzinhos. A Palmeira, um dos primeiros poemas que publicou, é de uma trivialidade que beira o constrangimento.

— “Como é linda e verdejante/ Esta palmeira gigante/ Que se eleva sobre o monte!”

Ninguém teria coragem de apostar que aquele garoto que plagiava Gonçalves Dias para se inserir no clima patrioteiro do nosso Romantismo seria capaz, anos mais tarde, de escrever obras-primas como Quincas Borba e Dom Casmurro. Ao contrário do que supõem os que acreditam em genialidades e afins, a literatura de Machado amadureceu aos poucos, com tempo, estudo e paciência. É por isso que, em vez de gênio, prefiro chamá-lo de mestre ou algo que o valha. É o que faz Roberto Schwarz no seu livro Machado de Assis – Um Mestre na Periferia do Capitalismo.

Se é verdade que possuía uma inclinação para a palavra escrita, não é menos verdadeiro que, com muito esforço, fez essa inclinação evoluir a níveis até então inatingíveis. Vejo esse como um dos maiores legados de Machado aos estudantes brasileiros. Sua arte e sua história nos mostraram que tudo é possível, apesar das adversidades pessoais e do clima cultural pouco frutífero em que vivia/vive nosso país.

Ambientalistas safados

26 de outubro de 2010 2

Não sei quanto a você, mas eu tenho o péssimo hábito de desconfiar das pessoas que vivem propagando o bem por aí. Não que eu seja a favor do mal, pelo contrário, mas existem certos indivíduos que enchem o saco de qualquer um. Abrem os braços ao menor pretexto, falam sobre a necessidade de preservar os nossos valores e, sempre com a retórica rasteira do politicamente correto, atribuem todos os nossos males aos “sacanas” que plantam o sofrimento para colher lucros e sucesso.

Nunca fica exatamente claro quem são os tais “sacanas” – a menos que o ouvinte aceite aberrações genéricas como o Império Americano ou, no outro extremo, o tirano Chávez -, mas isso não tem importância. O que vale é ser do bem, embarcar num desses discursinhos que fazem a alegria dos inocentes e, quando possível, ganhar alguma grana com o “esquema”.

Acho que estou sendo abstrato, né?! Tentarei me explicar. Quando o discurso hegemônico prevê, por exemplo, a valorização da Pátria, nunca faltarão idiotas para bater continência e assobiar o Hino à Bandeira (por trás dos idiotas, ahá!, sempre haverá meia-dúzia de espertalhões contando dinheiro). O comércio de Deus é outra atrocidade semelhante. Deus perdoa, Deus salva, Deus vai fazer você ganhar milhões, mas quem fatura são os ladinos que abusam do Seu santo e rentável nome em vão.

Exemplos temos para enumerar até o fim da coluna. Por isso, vamos logo ao que interessa, à bola da vez, aos vivaldinos que se aproveitam do mais poderoso discurso da atualidade para ganhar dinheiro à custa dos trouxas: as causas ambientais.

Zelar pelo meio ambiente é fundamental, ponto, isso não se discute, e quem lê a coluna do Lauro Bacca encontrará argumentos sérios sobre a questão. Agora, se você ficar atento, perceberá os magotes de promotores de eventos que mobilizam verbas da iniciativa pública e privada para realizar jantares de socialites com carne de gado no cardápio e o sorteio de um automóvel no fim da noite. Tudo, claro, em nome da Mãe Natureza.

Mesmo que a contradição seja a matriz do ser humano, há situações que extrapolam todos os limites. Por que a Floresta Amazônica está sendo desmatada com tanta ânsia? Para abrir áreas destinadas à criação de bois. Qual o meio de transporte mais poluidor do planeta? O automóvel particular. Portanto, peço ao pessoal das causas ambientais que deixe o churrasco e os rifões de carros zero quilômetro para a Festa de Barretos.

Tirem a grana dos trouxas, mas, por favor, com um mínimo de coerência.

Lauro Junkes

22 de outubro de 2010 0

É triste, mas necessário, escrever sobre pessoas que se foram. Hoje escrevo sobre o professor e crítico Lauro Junkes, que faleceu na última quarta-feira, um dos maiores estudiosos e incentivadores daquilo que, graças à publicação de obras como O Mito e o Rito e à organização de dezenas de antologias de autores locais, passamos a conhecer como “literatura catarinense”.

Às vezes acusado de provincianismo — por se dedicar de corpo e alma à arte dos barrigas-verdes —, e às vezes olhado com reservas dentro da UFSC, onde lecionou por mais de 30 anos, a verdade é que Lauro Junkes foi o principal expoente de um movimento de autoafirmação cultural que se preocupou em “inventar” e organizar as letras da nossa terra.

Teve outros interesses acadêmicos, mas o seu legado, sem sombra de dúvida, encontra-se no estudo e no resgate da literatura de catarinenses esquecidos. Depois da aposentadoria, trabalhou com afinco na organização dos Contos Completos de Virgílio Várzea e na Poesia Completa de Luís Delfino, entre outros. Se você é estudante e se interessa por leitura, agradeça ao professor pela redescoberta de todo esse material.

Em meados de 2008, quando o recebi em minha casa, espantei-me ao descobrir seu interesse em meditação e filosofia oriental — acabara de voltar de uma espécie de viagem espiritual que fez à Índia! —, e a serenidade com que tratava o câncer que o acompanhava há anos.

Falava da doença sem nenhuma espécie de ressentimento ou autolamentação, sem fatalismos, sem indagações — “por que logo eu?” — que subentendessem a injustiça do Universo contra a fragilidade de um ser pacífico e solitário. Não tinha medo de pronunciar a palavra “câncer”, fazia isso de boca cheia, sorrindo, e brincava — ou falava sério? — sobre as consequências do problema em sua vida.

— O câncer é meu amigo. Foi a melhor coisa que me aconteceu. Ele me ensinou a olhar o mundo com pureza.

Trabalhou até o último dos seus dias. Mesmo no leito do hospital, continuou escrevendo resenhas e, através da internet, viabilizando projetos para o aprimoramento e a divulgação da literatura catarinense. Uma vida que merece aplausos e admiração.

Nomenclaturas pessoais

21 de outubro de 2010 3

Nome é um troço engraçado. Ninguém tem o direito de escolhê-lo, mas todo mundo é obrigado a carregá-lo até o fim da vida. Claro: tem os que resolvem trocá-lo no meio do caminho. Um problema! Ou o sujeito muda também de trabalho, de amigos e de cidade, ou será eternamente chamado da mesma forma, não importa o que digam os documentos.

Existem famílias obcecadas por esses nomes bíblicos que vão de Amós a Baruc, de Abdias a Oséias, de Naum a Habacuc. Já outras, provavelmente mais acadêmicas, não abrem mão de referências a cidades e personalidades da Antiguidade Clássica, chamando seus filhos de Xerxes, Termópilo, Efialto e Hélade.

Nada contra. Mas é um pouco triste quando o papai e a mamãe se inspiram em fontes menos ortodoxas. Exemplo? A Novíssima Gramática da Língua Portuguesa. Uma amiga professora registrou suas gêmeas com os nomes de duas figuras de linguagem: Elipse e Zeugma.

Outra moda é a dos nomes importados. Kelly, Edward, Jonathan e, pois é, Michael. Por causa dessa marca da “besta estadunidense” estampada na minha assinatura, tem gente que me considera um traidor da pátria em potencial. Radicalismo. Eu lá tenho culpa que minha mãe passou a gravidez ouvindo os vinis dos Jackson Five?

Ainda bem que no cartório, em vez de Michael, aportuguesaram, meio nas coxas, e escreveram Maicon. Anos depois, ao conhecer um sujeito que trazia na Carteira de Identidade o cúmulo do inglês adaptado, entendi que meu caso não era dos piores. Embora os pais dele sejam separados há anos, seu nome é o reboar de uma doce e canora declaração de amor: Ailoviú dos Santos!

Ao contrário desse, há nomes que nunca são lidos corretamente. Até pouco tempo, o sobrenome do cineasta Francis Ford Coppola era pronunciado como se fosse paroxítono, com o “pó” forte, para que não fizéssemos nenhuma relação com “cópula”, pronúncia correta apesar de um pouco obscena.

Conheço uma moça que, para não ser simplesmente chamada de Jane, assina-se Djeine. Bela saída. E quem ainda duvida das molecagens do destino? Recentemente, Djeine encontrou sua cara-metade. Está prestes a noivar com um certo Djou.

Nome é coisa séria. Quando, se, ou da próxima vez que você for papai ou mamãe, não esqueça que seu filho terá que enfrentar uma lista de chamada na escola, um dos ambientes mais hostis do universo. Um nome pode ser o limite entre o céu e o inferno, a sanidade e a loucura. Escolha bem o do seu rebento.

Oktober, livros, mulheres

21 de outubro de 2010 0

Mesmo no meio da Oktoberfest, há quem encontre tempo para os livros. Motivado pela crônica de ontem, um leitor pergunta como pude discorrer sobre bibliofilia sem citar o finado José Mindlin (1914-2010), o maior bibliófilo que o nosso país conheceu. Desculpo-me pelo lapso. Eu poderia colocar a culpa no pouco espaço que tenho, muleta usada para escorar nove entre dez problemas da coluna, mas a verdade é que cheguei ao fim do texto sem criar uma oportunidade apropriada de referendar o homem. Corrijo-me, portanto: sócio-fundador da Metal Leve, parece que Mindlin dedicou todas as horas vagas da sua vida aos livros. Pouco antes de morrer, doou sua biblioteca de 40 mil volumes (contendo edições, manuscritos e provas tipográficas raríssimas) à Universidade de São Paulo. Sou indiferente a esse negócio de canonização, mas, no Brasil, se existe alguém que deveria virar santo, esse alguém é o Mindlin.

 

***

O filósofo alemão Walter Benjamin costumava dizer que devemos levar para a cama os livros e as putas. Ainda que sensivelmente mais romântico, o italiano Umberto Eco também acredita que o nosso sentimento pelos livros é semelhante ao que cultivamos nas relações humanas: “jogar fora um livro depois de lê-lo é como não desejar rever a pessoa com a qual acabamos de ter uma relação sexual”. Isso me faz lembrar de certos amores, ou melhor, de certas leituras que tive desde a adolescência. Madame Bovary, por exemplo, é a mulher da minha vida, o livro com quem me uni até que a morte nos separe. O Código Da Vinci? Romancinho passageiro e sem entusiasmo, uma promessa de felicidade que nunca se realizou. As obras de Paulo Coelho? Bem, essas devem ser as putas a que se refere o Benjamin.

 

***

Jurei a mim mesmo que deixaria de comentar as cartas dos leitores, mas a de ontem, interessantíssima, me obriga a quebrar a promessa. Um leitor afirmou que sou marxista porque defendo as microssaias na Oktoberfest. Consultei os especialistas em dialética da Furb e ouvi fantásticas teorias sobre a possível relação entre um vestidinho curto e os quatro volumes de O Capital. Mas o mais curioso vem agora. Segundo o leitor, a “Oktober-Carnaval” faz os turistas virem atrás das “blumenauenses fáceis”. Ora, ora, e o ingênuo aqui pensando que na aldeia predominavam as sérias! Quem serão essas “fáceis”, pergunto estarrecido, e o que será que isso significa!?

Oktober: álibi e liberdade

19 de outubro de 2010 1

No fundo, para quem olha de dentro, a Oktober até que tem um lado bacana, e digo isso apesar — ou a expressão correta seria “por causa”? — dos bandos de bêbados que marcham pelas calçadas ou da baderna que se instala em certos pontos da cidade; do clima de vale-tudo que, a partir de determinada altura, toma conta dos pavilhões mais movimentados da Vila Germânica; do preço do chope, sempre abusivo, das filas para fazer xixi (mais calminhas neste ano) e desse horrendo simulacro da cultura germânica, seja lá o que isso possa significar nos dias de hoje.

A chatice da Oktober — sim, ela também tem um lado insuportável — se encontra no comportamento bobo e higienista dos blumenauenses fundamentais (a propósito, são os que mais reclamam e menos frequentam a festa). Se você duvida do que digo, então dê uma olhada no rosário de queixas que se tornou a página 2 do Santa. Parece que tudo é ruim na Oktober, falta organização, falta estacionamento, falta originalidade, falta caixa eletrônico, falta vergonha na cara, falta limpeza, falta tecido para os vestidos de Frida.

É típico do blumenauense fundamental calçar tamancos para atravessar a charneca, esquecendo-se de que, plantada no meio do nosso inferno industrial (nosso “vale de máquinas”, como disse o poeta), a dionisíaca celebração do chope serve justamente para evitar que morramos por overdose de fluoxetina. O carnaval de outubro não faz o menor sentido como resgate histórico ou cultural — de novo: que diabos isso significa? —, mas ganha relevância como um palco de subversões, como um ritual catártico, como um álibi europeizado para a descoberta temporária da irresponsável felicidade dos trópicos.

Não fosse assim e não veríamos tanta gente careta se medicando com chope para perder a timidez no meio da multidão. Apesar disso, como já aconteceu em anos anteriores, surgem os puristas — ou as invejosas — para censurar essas pobrezinhas que gostam de usar shorts e minissaias durante a festa. Assim não dá, minha gente. Carnaval sem pernas de fora? Folia sem exagero e desregramento? Não funciona. Quem não quiser saber de “pegação” que fique fora da muvuca. E, para os fiscais espontâneos da Oktober, o melhor refúgio é o próprio lar, na frente da TV, assistindo aos enlatados do Supercine.

Tanto que apreciamos encontrar a utilidade das coisas! A “segunda maior festa do chope do mundo” não serve para nada, absolutamente nada, a não ser para nos libertamos da nossa própria  chatice. Ein Prosit!

Saco Cheio

18 de outubro de 2010 2

Sabe aquele dia em que você fica com o saco cheio de tudo e de todos? Pois é. Na última sexta-feira, passei por um dia desses. Até que acordei numa boa, tranquilão, mas de repente, sem quê nem por quê, decidi — decidi uma vírgula, foi o destino que decidiu por mim — distribuir o “tomate cru” e a “fruta que partiu” a quem cruzasse meu caminho.

Começou quando fui à cantina tomar um cafezinho e encontrei um bando de estudantes jogando truco. Responda aí: existe coisa mais irritante do que esses alunos que matam aula para ficar batendo na mesa e gritando palavras incompreensíveis enquanto jogam cartas como se estivessem brandindo um chicote? Não tive dúvidas, dei um chute na mesa e acabei com a festa dos vagabundos:

— Não sabem jogar sem gritar, porra? Por que não vão estudar?

Ficaram todos atônitos, pegos de surpresa, mais escandalizados do que o escândalo que proporcionavam com o jogo. De minha parte, limitei-me a seguir para o balcão da cantina. Mas lá encontrei um sujeito de terno e gravata que ficava empatando a fila enquanto falava alto no celular. Falava como se fosse o próprio príncipe das alemanhas, como se o trabalho dele interessasse a mim e ao resto do planeta.

— Marque a segunda região — dizia. — Podemos faturar vinte por cento.

— Com licença — retorqui. Então arranquei o celular das mãos dele, caminhei até a lixeira mais próxima e deixei o aparelho cair pelo próprio peso.

— O que é isso? — disse o da gravata, todo afetadinho, mas o máximo que pôde foi procurar o telefone entre as cascas de banana, pois todos os que estavam empatados na fila aplaudiram a atitude deste humilde que ora se enuncia.

Para fechar com chave de ouro, voltei ao computador e comecei a responder os e-mails dos leitores, mas no mesmo tom e linguagem com que alguns de vocês costumam se referir à minha pobre mãezinha. Lamento se alguém saiu ofendido dessa história. Se servir de consolo, informo que passei um excelente fim de semana, aliviado, tranquilo e feliz…

***

É óbvio que tudo que relatei acima não passa de ficção. Se tivesse feito a metade do que contei, a essa altura estaria procurando um advogado para me ajudar com os processos. Mas às vezes, querido leitor, confesse aí, não dá vontade de transformar esse sonho em realidade?