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Posts de novembro 2010

Crônica de verão

30 de novembro de 2010 0

Enquanto a Matilde e as crianças buscavam os refrigerantes e as guloseimas no mercadinho da esquina, o Laudelino correu até a areia, abriu o guarda-sol e demarcou o território da família. Ao ajeitar as cadeiras e a caixa térmica, sem querer lembrou-se das palavras que a esposa lhe dirigira na véspera:

— Já roncando, Laudelino? Assim vamos ficar que nem o casal DVD.

— Casal DVD?

— É. Deita, Vira e Dorme…

Era mesmo engraçadinha, a Matilde. Mas ela não perdia por esperar. Logo mais, à noite, e isso já era uma promessa, o incrível exército de Brancaleone marcharia triunfante sobre sua alcova matrimonial de verão…

Bebericava a primeira geladinha quando viu, ao longe, a Matilde, o Dudu e uma outra mulher chegando na praia. A pele branca da Matilde era inconfundível. O Dudu, com seus quatro anos, também. Mas a outra mulher, que maravilha, um brotinho — brotinho, não! —, um avião… quem era?

— Nossa, pai, como você trabalhou rápido!

Ele quase teve um enfarte. A outra mulher era… a Jaqueline?! A sua filha? “Virgem puríssima!”, pensou ele. “Onde estive o ano inteiro que não percebi essa menina crescer?”

— Matilde – disse à mulher -, você não acha que o biquíni dessa guria tá muito miudinho?

— Deixa de ser grosso, Laudelino. A nossa filha já é uma moça, só não vê quem não quer.

Esse era o problema, todo mundo queria ver. E o pior é que, em vez de convidar o pai para construir um gigantesco castelo de areia, maior que o do ano passado, a Jaqueline preferiu pegar um bronze e “dar um rolé pela orla.”

— Rolé pela orla? Ouviu isso, Matilde? Daqui a pouco ela vem me falar em baladas, em luais! Mas comigo não, imponho limites, sou dureza. Não é mesmo, querida? Sou dureza ou não sou?

Construiu o castelo para o Dudu, sozinho. Castelinho feio, logo foi levado pelas ondas da desilusão. Laudelino sentou-se na cadeira de praia e passou o dia abrindo, esvaziando e amassando latinhas de cerveja. Desnecessário dizer que o exército de Brancaleone, à noite, não marchou sobre nenhuma alcova matrimonial. Somente depois que a Jaqueline se despediu dos novos amigos da praia é que o Laudelino conseguiu relaxar e ir para a cama. Deu um beijinho no rosto da Matilde, que fingiu não acordar.

Então deitou. Virou-se. E dormiu.

A realidade e a ficção

29 de novembro de 2010 0

No romance-ensaio Doutor Passavento, o escritor espanhol Enrique Vila-Matas faz uma irônica reflexão sobre como a realidade se intromete na ficção e vice-versa. A conclusão a que chega não é exatamente original, mas sem dúvida certeira no que concerne a muitos fatos que hoje ocorrem no Brasil e no mundo: é óbvio que a ficção se alimenta da realidade, mas a realidade, quando se apropria da ficção, age com muito mais energia e impudor.

Comecei com essa conversa sobre realidade e ficção porque, na semana passada, quando a polícia e as forças armadas atacaram redutos do tráfico no Rio de Janeiro, o primeiro pensamento que me ocorreu — e que deve ter ocorrido a muitos dos que agora me leem — foi o seguinte:

— Já vi esse filme!

Ou melhor, já vi esses filmes, e eles se chamam Tropa de Elite 1 e 2. Talvez com certo exagero, sou levado a crer que, não fosse o sucesso e a repercussão das obras cinematográficas, não existiria esse clima propício a uma ação militar de tamanha envergadura, com o apoio das populações locais e dos meios de comunicação.

O primeiro filme serviu para mostrar que os filhinhos de papai que estudam Foucault nas faculdades públicas e privadas do país são os mesmos que fumam e cheiram para sustentar o tráfico e a violência. O segundo foi claro ao denunciar a corrupção política e policial, mas também contundente ao mostrar que os defensores dos direitos humanos são oportunistas e lucram ao mediar um inexistente diálogo entre favela e sociedade.

Em nenhum dos dois filmes aparecem traficantes bonzinhos ou vítimas da realidade social, robin hoods do morro ou quaisquer dos mitos celebrados por outras correntes do cinema nacional. Os traficantes são cancros da humanidade, feras incontroláveis que precisam ser eliminadas para que a ordem se reinstale. Bandido bom é bandido morto. Ponto final.

Pois bem, agora só falta a conclusão do segundo filme. Assim que os traficantes são expulsos das favelas, elas são imediatamente dominadas por milicianos que exploram o comércio e cobram proteção. É por isso que toda essa pirotecnia de blindados e helicópteros no telenoticiário me soa um pouco como espetáculo circense. Estou curioso para ver o que acontece depois que os créditos sobem.

Como sugere Vila-Matas, a realidade empresta à ficção, mas cobra com juros extorsivos.

Literatura clandestina

26 de novembro de 2010 0

Por causa da falta de espaço, mas também por questões políticas, ideológicas e falsamente morais, os escritores sempre são apresentados de forma incompleta nos livros didáticos. Datas de nascimento e morte intercaladas por breve histórico biográfico, características genéricas da obra (como se um livro fosse necessariamente igual a outro pelo simples fato de pertencer ao mesmo autor), estudo de um fragmento de texto previamente selecionado e… só! Salvo certos manuais que trazem ilustrações coloridas, a impressão final é a da pasmaceira, da chatice e da coisa mofada. Que o digam os autores do século XIX. De Joaquim Manuel de Macedo os estudantes descobrem apenas o burguesíssimo namorico entre o Sr. Augusto e a D. Carolina, pitorescamente registrado sob o título de A Moreninha. Esse presumido primeiro romance da nossa literatura é tão bobinho e água-com-açúcar que, não fosse a linguagem desatualizada, hoje poderia ser guardado na estante dos infantis. No bem da verdade, porém, Macedo é um autor riquíssimo, muito maior que A Moreninha, haja vista seus comentários afiados em, por exemplo, Memórias da Rua do Ouvidor e Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Isso pra nem falar de suas sarcásticas peças de teatro. Mas o caso mais emblemático talvez seja o do escritor mineiro Bernardo Guimarães, muito conhecido por livros mais ou menos convencionais como A Escrava Isaura e O Seminarista. O que quase ninguém sabe, e isso é uma pena, é que, pândego irrefreável, Bernardo se tornou o maior poeta popular (alguns diriam pornográfico) de sua época. Lendárias ficaram pelo menos duas de suas “composições clandestinas”, a tal ponto que, na virada do século XX, dizem, não havia ninguém em Minas que não soubesse de cor os versos de A Origem do Mênstruo, explicação pseudomitológica “daqueles tais dias” femininos, e O Elixir do Pajé, paródia rítmica do sagrado I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, que ao mesmo tempo prenunciava “milagres” como o Viagra e o Pramil. Em tempo: não estou exatamente sugerindo que A Origem do Mênstruo e O Elixir do Pajé apareçam em livros didáticos, mas apenas que, como aqui fiz e reiterei, sejam citados os títulos dessas duas pequenas obras-primas. O resto fica por conta do Google.

Continho de quinta-feira

25 de novembro de 2010 0

Num sábado à tarde, sem nada melhor para fazer, resolvi criar um deus. Mas pensei comigo: será um deus diferente de tudo o que andam vendendo por aí, não representará nem o amor nem a guerra, nem o perdão nem a vingança, e — o mais importante — não ficará à mercê das interpretações que os homens costumam fazer de suas palavras divinas.

Com esses parênteses, criei um deus jovem e impetuoso chamado Meenaul, que teria como parceira uma cotovia cósmica capaz de tomar a forma de uma sílfide diáfana e que responderia pelo nome de Casimira, ou, para os leigos, a Alegria dos Comuns.

Não que fosse meu objetivo, mas logo a minha criação recebeu seguidores e, em poucos anos, os templos se multiplicaram pelo país e pelo mundo. Como as doações chegavam de todos os lados, eu e meia-dúzia de colegas ficamos milionários, sem falar nos mestres e nas sacerdotisas que presidiam as filiais e passavam o dia contando o dinheiro.

Meenaul e Casimira, que agora já estavam acompanhados por Luran, Kenuck, Naincall e 45 outros semideuses, foram se tornando mais complexos e elaborados. Suas palavras, finalmente escritas no Livro dos Preceitos Universais, chegaram a nós como um verdadeiro milagre.

Um dia cansei de tudo isso, peguei meu jatinho e meus dólares e me mandei para o outro lado do mundo. Lá, porém, já havia um templo dedicado a Meenaul. Fugi de novo, mas, não importando para onde fosse, sempre encontrava os fiéis e suas exigências em relação à minha responsabilidade como o pilar da nossa igreja.

Como passei a andar disfarçado, tive paz durante um tempo. Até que ontem, num susto, acordei no meio da noite e percebi que havia alguém no meu quarto.

 — Você pode se esconder de todos — disse a voz na escuridão. — Menos de mim.

Sim, era Meenaul. Consegui vê-lo porque Casimira, a cotovia, passou a voar e fosforescer ao seu redor.

 — Isso é absurdo — protestei. — Você não existe, a não ser na minha imaginação, na minha e na daquele bando de alienados, porque fui eu que te criei…

 — Pareço imaginação agora? Como você não tem mais controle sobre mim, agora podemos inverter os fatores. Portanto, eu é que te criei.

 — Meenaul… Casimira… O que querem de mim?

 — Ora o quê! Submissão e obediência cegas.

Como não havia jeito de voltar atrás e descriar o que fora tão irresponsavelmente criado, deixei minha cama, às lágrimas, e, com as mãos postas, ajoelhei-me aos pés da verdade, quer dizer, da Verdade…

A Igreja e a camisinha

25 de novembro de 2010 30

Bento XVI admitiu a utilidade da camisinha — mas só em “certos casos especiais” — para reduzir os riscos de contaminação do vírus da AIDS. A declaração aparece no livro A Luz do Mundo, uma grande entrevista concedida ao jornalista alemão Peter Seewald, lançado na última terça-feira em diversos países da Europa. Eis as palavras do papa divulgadas na internet:

— Pode haver casos pontuais, justificados, como por exemplo a utilização do preservativo por um prostituto, em que o uso da camisinha possa ser um primeiro passo para a moralização, uma primeira parcela de responsabilidade para voltar a desenvolver a consciência de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer tudo o que se quer. Não é, contudo, a forma apropriada para controlar o mal causado pela infecção por HIV. Essa tem, realmente, de residir na humanização da sexualidade.

A declaração está sendo considerada um avanço sem precedentes na história do Vaticano. A Organização Mundial de Saúde e milhares de voluntários que combatem a pandemia de AIDS na África comemoraram as palavras de Bento XVI, ainda que, para muita gente, elas tenham chegado tarde demais.

De minha parte, só posso expressar o meu espanto e a minha confusão. Não consigo entender como é possível que, às portas de 2011, ainda estamos preocupados com o que a Igreja tem a dizer sobre a “humanização da sexualidade”. O que isso significa? Imagino que para uma boa parcela dos próprios católicos, a expressão possua um significado oposto ao que pensa Bento XVI. Quando o assunto é AIDS, camisinha ou sexualidade em geral, o melhor que a Igreja tem a fazer é se calar.

É uma instituição que não possui bom senso, competência ou mesmo moral para tratar do assunto. O Vaticano é contra o aborto (o que acho louvável), mas ao mesmo tempo condena os anticoncepionais e a camisinha (agora, ao que parece, liberada para os “prostitutos”!). Os padres gostam de dar palpite na vida dos casais, mas nada sabem sobre os relacionamentos entre homens e mulheres (a não ser os clandestinos). Por fim, Bento XVI fala de moralização e responsabilidade, mas ainda não tomou providências efetivas contra a pedofilia existente nas sacristias.

O papa tropeçou na própria língua. Por isso é bobagem bater palmas. Ele merecerá aplausos quanto tiver coragem de escrever uma encíclica dizendo o seguinte:

— Cultivem o celibato. Mas, se caírem em tentação, tenham um preservativo por perto.

Meditação sobre Blumenau

23 de novembro de 2010 1

Saio do cinema, cabisbaixo. É domingo, quase meia-noite, o shopping está deserto e o estacionamento parece habitado por fantasmas. O filme era ruim, mas esse não é o problema, sei que ainda assistirei a milhares de filmes ruins até que as luzes se apaguem.

Ao levantar os olhos, e esse é o problema, percebo que continuo num mundo de faz-de-conta. Deixei a realidade para trás, no cinema, e adentrei a mais completa e delirante fantasia já criada pelo homem. Aquilo que poderíamos chamar de “vida real”.

Ligo o carro, mas antes pago o que devo — sempre estamos devendo alguma coisa, não é mesmo? Saio devagar pela 7, passo ao lado da Igreja Matriz, pego a XV e venço os semáforos dormentes, que já piscam suas luzes amarelas. Em frente ao Carlos Gomes, vejo a ação de trabalhadores que, também cabisbaixos, varrem as ruas da cidade.

Mais adiante, indivíduos uniformizados têm pressa de levar os baldes de lixo até o caminhão. Estranho como correm e pulam de uma calçada para outra. É como se não pudessem ficar muito tempo ali, como se estivessem cumprindo uma missão secreta. Na manhã de segunda-feira, o centro de Blumenau apareceria limpo como num passe de mágica.

— Que lugar é esse? — pergunto a mim mesmo, atônito. E de repente me vejo diante de Blumenau com a estupefação de um Édipo diante da Esfinge: decifra-me ou devoro-te.

Quando cheguei aqui, há 16 anos, saltei na rodoviária com a certeza de que precisava recitar loas de júbilo e gratidão à cidade. É o mínimo que essa boa madrasta exige de seus “filhos adotivos”. Bem lembro que nos meus primeiros rascunhos chamei a aldeia de jardim, de recanto fabril, de paradoxal paraíso da produtividade.

Por pouco não fiz como o finado Bell, que cantou a Blumenalva das “ruas bem varridas”. Felizmente, rasguei os versos da juventude. Naufragado na lógica do amor bobo e incondicional à cidade, jamais me lembraria de seguir o exemplo de um Brecht e perguntar:

— Mas, afinal de contas, QUEM é que deixa as nossas ruas tão limpas?

Até chegar em casa, passo por mais dois caminhões de lixo, por mais dois batalhões de indivíduos uniformizados que correm de um lado para outro. Deito-me e penso no filme ruim, tento voltar para a realidade perdida, mas é inútil. Uma ficção chamada Blumenau não sai da minha cabeça.

ESCULTURA (republicando)

22 de novembro de 2010 0

Ainda não sei o que dizer da nova escultura metálica do Guido Heuer, Transformação, recentemente instalada no terreno da antiga fábrica de gaitas Hering. Descartando as interpretações oferecidas de antemão pelo artista e pelos patrocinadores — estas normalmente problemáticas, pois sem querer condicionam ou reduzem os outros olhares sobre o objeto —, desconfio que vou precisar de uns dez anos até reunir condições suficientes para emitir uma opinião.

Assim digo porque este foi o processo pelo qual passei em relação à outra grande ESCULTURA que o artista produziu e instalou em Blumenau, aquela da cabeceira da Ponte do Tamarindo, nas proximidades da rodoviária. Depois de oito anos de contemplação mais ou menos periódica, chegou o momento de propor uma “leitura” pessoal da obra, sempre lembrando que, múltipla, a arte oferece possibilidades ilimitadas de interpretação.

O círculo, como se sabe, é um símbolo que nos remete à ideia de perfeição e infinito, características que por sua vez invocam o divino e, portanto, o paradisíaco. Por esse viés, a roda laranja da ESCULTURA poderia significar os valores mais simétricos e tradicionais da cidade: a aventura da colonização, a prosperidade, o amor às raízes e ao passado, a solidão auto-suficiente de uma etnia empreendedora, as ruas “limpas” de mendigos e pedintes.

Aos poucos, entretanto, esse paraíso de 150 anos é conspurcado e penetrado, ou, num sentido mais positivo, “fecundado” pela farpa recurva e ferruginosa, pelo ferrão dos nossos dias, pelo gume que aponta um futuro incerto e ao mesmo tempo esperançoso. O espinho que perfura (mas também embeleza) a perfeição do círculo funciona como metáfora das novas marcas e contribuições que se espalham na cidade: as recentes ondas migratórias, os sonhos e delírios futuristas, a multiplicidade de etnias e linguagens, os problemas sociais já visíveis no centro e nas ruas congestionadas.

 Interessante é que as peças da obra formam um conjunto harmônico e sutil, não destoam nem se excluem, representam a conjugação de forças na construção de verdades possíveis para uma cidade e um mundo doentes de globalização. É por isso que não deve ser ignorada a simbologia sexual que permite a coexistência do redondo e do recurvo, do férreo e do laranja, do fálico e do frutífero.

Existe ali um elemento abrupto, porém, uma “ponta aguda”, a farpa, o espinho, o esporão, lembrete de que ainda há muito a ser feito pela convivência dessas duas (três, cinco, dez) energias que, antes de opostas, são e se afirmam diferentes.

Uma obra-prima, nem mais nem menos.

As botas de Fritz Müller (republicando)

19 de novembro de 2010 0

Segundo uma parte dos historiadores locais, Fritz Müller era um sujeito excêntrico. Alguns dos seus contemporâneos o olhavam com desconfiança e até mesmo desprezo, especialmente porque ele se dizia ateu e gostava de andar descalço por aí.

Certa vez, em plena vila de Blumenau, foi zoado por um bando de moças que, rindo e batendo palmas, incentivavam-no a comprar sapatos. Sabe-se disso porque uma resposta às gracinhas foi publicada no jornal Der Immigrant por alguém que tomou as dores do naturalista:

— Mais vale andar-se descalço e honrado que desonesto e de botinas!

O episódio é corriqueiro, mas representa o conflito que a cidade enfrenta desde os primórdios de sua história: de um lado, a empáfia e o riso fácil da Aparência; de outro, a indiferença silenciosa (ou nem tanto) da Essência. Daí se pode perceber que a colônia do Dr. Otto sempre foi uma antítese em função: o mesmo vapor que levava cartas para Charles Darwin trazia os colares de (falsas) pérolas que seriam ostentados no meio do mato.

Falar em mato, vale lembrar que Fritz Müller era uma constante dor de cabeça para o Dr. Blumenau — também por causa dos “pés no chão” — mas essa é uma história para outro dia. A pergunta que faço hoje é a seguinte: se o cientista passou a vida andando descalço, o que aquele grotesco par de botas faz na sua estátua da Rua São Paulo?

A resposta está no livro Grafias da Luz, da historiadora Carla Fernanda da Silva, lançado na semana passada. Na estátua, que é de 1936, “Müller está vestido à moda europeia e devidamente calçado”, uma imagem bastante diferente do bicho-grilo amante das ciências, “com pés descalços, observador da natureza, ateu e polemista em relação a uma possível democracia”.

Quer dizer: os homens que construíram os mitos fundadores da cidade, exemplos a serem seguidos pelas futuras gerações, acharam por bem excluir o que não soaria interessante a seus propósitos civilizadores. Fosse qual fosse a envergadura intelectual do velho Fritz, não seria bom negócio exibir ao mundo um cientista descalço e meio maltrapilho.

Além de ser uma evidente traição à memória de uma das figuras mais interessantes da Colônia, a ideia de darem um “banho de loja” na estátua é uma mentira pregada às tais futuras gerações, ou seja, a nós. Eu particularmente não me importo com mentiras, algumas são até divertidas. O problema da estátua, a meu ver, está nas suas consequências práticas. Tudo fizemos para calçar as botas, mas, no fim das contas, o que nos restou foram os colares.

Dilemas morais

18 de novembro de 2010 3

O leitor mais maduro certamente há de lembrar um filme chamado Proposta Indecente, estrelado por Demi Moore e Robert Redford, que causou furor no princípio dos anos 1990. Mal o filme começa e um empresário cheio da grana chega para um arquiteto pé-rapado e diz o seguinte:

— Pago um milhão de dólares para passar a noite com a sua mulher.

Se uma coisa dessas acontecesse em, sei lá, Ituporanga, por exemplo, é provável que o empresário tivesse que procurar os dentes em algum canto do salão, mas o problema é que a cena ocorre na suíte presidencial de um hotel-cassino de Las Vegas, ambiente muito propício à ação do demônio e de todos aqueles que algum dia pensaram em hipotecar as próprias almas.

Como o nosso arquiteto era rico de sonhos e pobre de recursos — e como sua bela esposa já havia esticado o rabo dos olhos para o empresário —, o casal acaba embarcando numa jornada de autoprovação que, ao fim e ao cabo, revelar-se-á uma jornada de automutilação. O filme trata das consequências de uma escolha insensata, mas a pergunta que fica, ao subir dos créditos, é se os espectadores teriam coragem de fazer a mesma coisa diante de uma pilha similar de verdinhas (atenção, leitores: tem que responder rápido, não vale ficar pensando demais!).

Gosto muito desse tipo de obra, de livros e filmes que, pelos meandros da ficção, criam dilemas morais para atirá-los no colo do público. Nesse sentido, existe na nossa literatura um romance extraordinário, O Prisioneiro, de Erico Verissimo, publicado em 1967 e ambientado na Guerra do Vietnã. Depois que uma explosão mata dezenas de inocentes, um prisioneiro vietcongue deve ser interrogado para dar a localização de uma suposta segunda bomba. Ele se recusa a falar, e cabe a um oficial prestes a concluir seu tempo de serviço usar a tortura, se preciso, para arrancar a informação do terrorista. Seria ético maltratar um homem para hipoteticamente salvar a vida de outros?

Mesmo que as obras se encarreguem de dar a resposta — “não, não seria um bom negócio aceitar o milhão de dólares” ou “nada justifica a tortura” —, os espectadores e os leitores são convidados a discutir o assunto e a analisar as implicações éticas da situação. Para quem procura uma “função” para o cinema e a literatura, aqui temos uma resposta razoável: mais do que mero entretenimento, são instrumentos importantes para a compreensão de nós mesmos.

O tal sistema

18 de novembro de 2010 0

Eu gostaria de conhecer de perto esse tal Sistema. Diria umas boas verdades ao tipinho. Como pode ser tão relapso, irresponsável e autoritário? O cara tem culpa de quase tudo que acontece errado na minha rotina — e também na sua, eu suponho.

Ou vai dizer que nunca deu com o nariz no vidro enquanto tentava fazer um débito na lotérica da esquina?

— Sinto muito, moço, mas o Sistema está fora.

— Fora?! Então quer dizer que enfrentei toda essa fila pra nada?

— Infelizmente, sim.

— E essa agora! Por que não me avisaram antes?

— É que tudo estava bem até o último minuto. O Sistema resolveu sair de repente.

— Não dá pra resolver de outro jeito, talvez fazer uma cobrança manual?

— Infelizmente, não.

— Mas por quê?

— O Sistema não permite esse tipo de procedimento.

Viu? Além de sair do trabalho quando bem entende, o tal Sistema ainda inventa uma porção de regras e frescurinhas para enrolar a nossa vida.

Dia desses, um amigo me contou que desapareceram alguns reais da sua conta bancária. Foi verificar e não deu outra.

— Falha do Sistema — disse o gerente.

— Isso não me interessa. Quero meu dinheiro de volta.

— É justo, mas temo que não seja tão simples. Primeiro é preciso corrigir todo o Sistema.

— Mas esse Sistema é… é… um sacana!

— Concordo. Vivo dizendo que devemos dar um jeito no maldito há anos, mas eles não se mexem.

E é aqui que as coisas começam a ficar verdadeiramente graves. Se o Sistema em si já é um pé-de-encrenca, o que dizer desse ELES indeterminado que nunca faz nada para resolver o problema?

Ontem dei uma passada no banco e quase caí de costas ao ver a fila do caixa. Uma mulher se descabelava no meio do tumulto e pedia explicações a um sujeito de crachá.

— Desculpe, minha senhora, mas o Sistema, a senhora sabe, o Sistema…

Por mais que tenha raiva do tal Sistema, fiquei feliz por ele não dar as caras no meio da multidão. O coitado seria linchado.