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Posts de dezembro 2010

O Velho se explica

31 de dezembro de 2010 0

Encontrei o Velho deitado numa cama de hospital. Estava nas últimas, decrépito, falando e respirando com dificuldade. Tentou levantar a mão para me cumprimentar, mas o máximo que pôde foi mexer um pouco os dedos.

— Obrigado por ter vindo — disse. — Talvez haja tempo de provar que não fui tão mau quanto meus antecessores.

— Talvez — respondi.

Ele parecia piorar a cada minuto, por isso me arrependi um pouco do tom ríspido do meu “talvez”. De qualquer forma — pensei em seguida — o Velho não passa dos fogos de hoje à noite. Mais útil que me intimidar num ataque de condescendência é fazer corretamente o meu trabalho. Peguei o bloco de notas:

— Seca, enchentes, terremotos, furacões, guerra, fome, miséria… Não vejo novidade no cardápio que o senhor nos ofereceu.

— Mas tudo isso aconteceu longe do Brasil. Não nego que enfrentamos os problemas de sempre, inclusive no que diz respeito à violência e às tragédias naturais, mas ninguém pode negar que fui generoso com vocês.

— Generoso? O senhor por acaso ligou a TV para assistir aos jogos da Copa do Mundo?

— Oh sim, o futebol, sempre o maldito futebol, o mais precioso tesouro debaixo da parte verde e amarela dos céus! Console-se, meu jovem, era a vez da Espanha, que remédio?, e o Brasil já venceu Copas suficientes. Além do mais, veja o lado positivo: vocês perderam um Hexa, mas ganharam uma Dilma.

— Pelo menos o senhor tem senso de humor. E é ágil no pensamento. Usou apenas uma frase para pular do futebol para a política.

— Mas não são a mesma coisa? Não é por acaso que o Presidente Lula usa tantas metáforas futebolísticas. Talvez isso explique a popularidade de 80%.

— E também o caos da nossa educação, a falta de incentivo para o pessoal do magistério, os escorregões do Enem…

Conversamos por algum tempo, mas o Velho não me convenceu. Anotei tudo que pude e prometi que transcreveria a nossa conversa com a maior fidelidade possível. Quando saí do quarto, ele começou a tossir de forma incontrolável. Desci as escadas e passei na ala da maternidade. Quase fui atropelado por médicos que corriam para fazer um parto urgente. É o Novo, concluí, que se prepara para nascer.

Ano Bom

30 de dezembro de 2010 0

Conheço muita gente que não combina bem com esta época do ano. Eu, por exemplo, especialmente se levar em conta os festejos de réveillon, os fogos de artifício e os espumantes de segunda categoria que costumamos estourar em comemoração a… o que mesmo?!… ah, sim, ao próspero e formidável Ano Novo, com muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender etc.

Para não faltar com sinceridade ao leitor, devo dizer que esta época de virada me deixa com uma sensação de armadilha, de ratoeira, de beco sem saída. Quem, como é o meu caso, mora em Blumenau, ou Indaial, ou qualquer lugar do Vale do Itajaí, sabe, ou melhor, SENTE que o mormaço do período está nos cozinhando em fogo lento. “Pede pra sair”, diria um famoso capitão, e então você sai, mas sai correndo, já que andando vai suar do mesmo jeito.

O problema… pois é… é saber para onde correr. Para o litoral? Boa, é provável que nos encontremos com uma lufada do mais puro e refrescante vento marítimo. Até atingir essa dádiva, entretanto, torço que você tenha ar-condicionado no carro, além do destemor e da paciência dos grandes monges, pois os engarrafamentos são inevitáveis, a água há de faltar nos principais balneários do Estado e, com tanta gente aglomerada nas mesmas regiões, não é de duvidar que a balneabilidade das nossas praias seja, no mínimo, duvidosa.

Por isso, há muitos que resolvem fugir para a serra, para as áreas mais altas e  afeitas a um estado de maturidade existencial. Para os novos, a praia; para os velhos, a montanha. Mesmo assim teremos um terrível incômodo à vista, com picadas de mosquitos, brisas menos frescas que o esperado e gastos além do necessário ou do possível. Ficar em casa e ver os fogos pela TV parece ser uma alternativa lastimável, quero dizer, razoável.

De qualquer forma, não desejo que o meu mau humor estrague o seu ritual de passagem para um “novo tempo, que já começou”. Apesar dos pesares, o que seria de nós se não pudéssemos jogar as pernas para o alto e sonhar com as promessas e possibilidades do ano que se aproxima? Diz o ditado que o pecador só precisa de duas semanas para se acostumar com o fogo dos infernos.

Podemos seguir nesse passo, então, até nos reencontrarmos logo ali, na esquina, escorados em alguma “coluna” de 2011.

O Governo Lula

30 de dezembro de 2010 1

Em sua maioria, os editoriais dos grandes jornais brasileiros estão apresentando balanços positivos dos 8 anos do Governo Lula. Há, porém, espaço para críticas. O problema é que boa parte da oposição perde tempo com maledicências desnecessárias sobre as falhas gramaticais do presidente, sobre como ele lamenta deixar o cargo ou sobre sua influência na administração de Dilma Rousseff. Tudo isso é irrelevante, ótimo material para chargistas e humoristas, mas uma nulidade em se tratando dos reais problemas do país. Abaixo faço 5 perguntas aos simpatizantes incondicionais do Governo Lula:

1)      Hoje os brasileiros têm acesso a bens de consumo através de longas e suaves prestações. Isso é bom, claro, mas é preciso perguntar por que os mesmos brasileiros ainda não têm acesso à saúde, segurança e educação de qualidade. O sucesso do governo Lula não seria apenas o sucesso dos mercados? Será que o governo não se limitou ao papel de distribuidor de “vale-compras” para aquecer a economia?

2)      O PAC é celebrado como um dos maiores projetos de infraestrutura de toda a história do Brasil, uma espécie de prova concreta de que agora possuímos um país forte graças à ação de um Estado forte.  Se é assim, pergunto por que a duplicação de rodovias como a BR-470 não sai do papel. Ou, por outra, por que sou obrigado a pagar pedágio quando transito na BR-101?

3)      Antes mesmo da descoberta do pré-sal (que sepultou toda e qualquer discussão sobre os biocombustíveis), Lula comemorou a autossuficiência petrolífera do Brasil. Se é assim, então por que temos que pagar preços tão absurdos pela gasolina e pelo diesel? Por que os trabalhadores e os estudantes precisam pagar tão caro por um passe de ônibus?

4)      Graças à insistência de agentes do Governo Lula junto aos comitês esportivos internacionais, breve sediaremos as Olimpíadas e a Copa do Mundo. Bravo! Mas, já que perguntar não ofende, lá vai: começando pelos aeroportos, daremos conta do recado?

5)      Lula chega ao fim do segundo mandato com 80% de popularidade. Isso é inédito e louvável, mas nos leva a uma pergunta crucial: por que o presidente e seu partido não aproveitaram tamanha popularidade para implementar as reformas política e tributária?

Essa eu mesmo respondo: preferiram curtir os ventos da bonança a encarar a máquina de corporativismo que é o congresso. Dificilmente teremos uma oportunidade como essa que escapou.

Como começar?

29 de dezembro de 2010 0

Escrever um romance não é fácil, como fácil não deve ser encontrar um começo interessante para ele. É que o bom romance mostra a que veio logo na primeira linha:

“Você sabe como é. E ela se sentou na minha frente e cruzou as pernas.”

É desse jeito que o Oswaldo França Júnior dá início às aventuras de Jorge, um brasileiro. Antevemos, através dessas palavras, o tom de todas as peripécias que o caminhoneiro viverá pelas estradas (esburacadas) do Brasil.

Outro que conhecia o seu ofício – que redundância! – era o mestre Machado de Assis. O Bruxo do Cosme Velho sabia tudo de romance, inclusive como começar um. Em certos casos, aliás, ele nem precisava começar. Exemplo? Memórias Póstumas de Brás Cubas. Para entrarmos no clima do livro, basta a leitura da dedicatória:

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.”

Gabriel Garcia Márquez é outro que possui uma invejável noção de início. Duvida? Então abra na primeira página de Crônica de uma morte anunciada:

“No dia em que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h 30m da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo.”

Pronto. Está posta a situação. Sabemos que Santiago Nasar vai morrer, mas não sabemos como nem por quê. Poucas linhas depois, ao descobrirmos que o personagem, ao acordar, “sentiu-se completamente salpicado de cagada de pássaros”, pressentimos todos os mistérios e palpitações que nos serão revelados, aos poucos, lá na frente. Não dá para não ler!

Apesar dos bons romances até aqui citados, é difícil que algum ganhe, em se tratando de começo, da obra-prima do Vladimir Nabokov:

“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.”

O perigo e as armadilhas da falsa inocência, bem como a sensualidade e a melancolia da trama, já nos atingem com a sonoridade desse parágrafo inicial. Confira lendo o trecho em voz alta.

Bem. Agora que já indiquei leituras para as férias e estão demonstradas algumas formas criativas de se iniciar um romance, só me resta encontrar um jeito menos batido de finalizar esta crônica.

O cronista renasce

27 de dezembro de 2010 0

Quase não havia movimento na rodovia, de modo que eu dirigia numa velocidade além da necessária. Ouvia música no rádio e pensava em formas menos mecânicas de terminar minhas crônicas. Reconheço que ultimamente venho escrevendo no piloto automático, mais ou menos do mesmo modo como estava dirigindo na tarde da última quinta-feira.

Ao entrar numa curva levemente inclinada — e aqui se faz necessária a quadrinhesca expressão DE REPENTE — dei de cara com um carro vermelho que vinha podando dois outros automóveis na contramão. Não tive tempo de pensar em xingá-lo ou meter a mão na buzina, tampouco me passou pela cabeça enterrar o pé no freio.

A única coisa que fiz foi girar o volante para a direita e escapar da colisão frontal, o que acarretaria um longo transtorno com a recomposição da minha face para que o caixão pudesse ficar aberto durante o velório, mas justamente nesse instante, ao trocar o asfalto por um acostamento coberto de areia e pedrinhas soltas, é que meus problemas começaram.

Quando o carro vermelho passou por mim e desapareceu no anonimato dos motoristas imprudentes, o meu querido cavalinho a motor, companheiro de tantas viagens e passeios desta vida, pôs-se a rebolar entremeio a pista e uma bem cuidada plantação de tabaco.

— Essa merda vai tombar — pensei, ou falei para mim mesmo, não lembro, enquanto as sílabas e o fedor da frase respingavam nos meus olhos de incompreensão.

Ao tentar voltar para o asfalto, quase me enfiei debaixo de um caminhão, pois era como se os veículos resolvessem aparecer todos ao mesmo tempo. O jeito foi voltar ao acostamento, e acho que agora em duas rodas, já que seria mais fácil parar o carro com o dedo mindinho do que com o pedal do freio.

A confusão terminou na beira da roça, com as quatro patas do cavalo voltadas para o céu, uma dor nos meus braços empedrados (que demoraram a largar o volante) e um galo se emplumando no meu couro cabeludo. Primeiro senti cheiro de terra e fumo verde, depois pensei que o mundo havia virado de cabeça para baixo, depois lembrei que ainda não havia escrito a crônica do dia e, por fim, com o impacto do silêncio que se seguiu ao acidente, o pensamento me atingiu como um raio:

— Por que não passei mais tempo com a minha filha?

O ferro velho ficou com a carcaça do meu carro, e eu fiquei com a vida, o que me pareceu uma troca vantajosa. Pra muita gente mundo afora, a começar pelo sortudo que aqui se enuncia, o ano novo vai ser novo no seu sentido mais completo. Agora só me falta uma coisa: arranjar formas menos mecânicas de terminar minhas crônicas.

Loja de Brinquedos

23 de dezembro de 2010 1

Nesta época de Natal, convido o leitor a passear comigo por uma loja de brinquedos. Antes, porém, vamos nos preparar um pouco para o périplo.

Quando eu frequentava a faculdade, aprendi com minhas professoras feministas que a “opressão de gênero” começa nos primeiros anos da infância. As meninas aprender a brincar com bonecas, a trocá-las, amamentá-las, fazê-las dormir, tudo ficcionalmente, mas tudo muito verdadeiro no que concerne ao adestramento de uma mãe ou uma dona de casa.

O mesmo acontece com os meninos, com a evidente diferença de que aprendem a lidar com automóveis a pilha, grandes obras de engenharia e, claro, armas de mentirinha que parecem saídas de um arsenal atômico.

Felizmente, segundo as minhas mesmas professoras feministas, essa realidade estaria mudando. Os discursos e conceitos sobre gênero, ou seja, sobre o que seriam os papéis do homem e da mulher na sociedade contemporânea, estariam evoluindo gradualmente para um entendimento mais democrático do ser humano.

Bem, aí é que está o xis da questão, o equívoco comum a todos os otimistas, o erro que será deslindado com o nosso pequeno passeio pela loja de brinquedos. Ainda hoje, os produtos destinados aos meninos – e aqui não importa a idade – continuam com o mesmo objetivo de criar mentalidades aptas ao mundo cinzento e poucos criativo dos homens: carros, armas, robôs de combate e toda a sorte de criaturas de plástico capturadas de filmes e desenhos animados repletos de correria, morte e explosões.

Às meninas, também sobrou o de sempre: bonecas de todos os preços e tamanhos, casinhas para montar e desmontar, pulseiras coloridas que brilham no escuro e milhares de outras bugigangas que evocam as delicadezas do universo feminino.

Tudo é mais bonito, mais sofisticado, mais interessante, mais “lincado” com o que hoje acontece no mundo dos espetáculos e do chamado entretenimento familiar, mas tudo igual há 20 ou 30 anos, uma eterna repetição do mesmo, a inocente celebração de estruturas sociais que avançaram apenas na superfície, e não na profundidade.

Se alguém duvida do que digo, por favor, passeie por uma loja de brinquedos de verdade, existe uma em cada esquina. O mais importante, entretanto, é perguntarmos quem coloca os brinquedos na vitrine. Os empresários? O nefasto e impudente capitalismo? O Papai Noel? Não, nenhum deles. Somos nós mesmos, que os compramos e damos para nossos filhos. No fundo, apesar de todo o palavrório sobre um mundo melhor , nunca tivemos vontade de evoluir, de avançar…

As fêmeas são competitivas

22 de dezembro de 2010 0

Segundo matéria publicada no Classisanta do último fim-de-semana, os aspirantes a um novo emprego estão se candidatando através de videocurrículos postados na internet. Comum no exterior, o método começa a ganhar fôlego entre nós. Só o YouTube já hospeda mais de 4 mil pequenos filmes do gênero, onde os profissionais, sem a menor modéstia, gabam-se de suas qualidades e do seu caráter. Mas a matéria termina com uma advertência:

— É preciso cuidado. Se o vídeo for mal produzido, pode afastar o candidato da contratação.

Ora, ora. No cumprimento de minhas funções humanitárias de bom amigo e conselheiro, gostaria de acrescentar uma nova ressalva a essa história dos videocurrículos: se você é uma mulher bonita, não cometa a bobagem de entrar na onda, pois correrá o risco de ser chamada para uma entrevista apenas no dia de São Nunca. Minha afirmação é grave, mas não gratuita. Ela parte de uma pesquisa estatística divulgada no princípio de dezembro.

Mais de cinco mil currículos tradicionais — uma parte sem fotos, uma parte com fotos de pessoas de aparência comum e uma terceira parte com fotos de pessoas bonitas — foram enviados para 25 grandes empresas de Israel. Enquanto os currículos com fotos de homens atraentes receberam um alto índice de resposta, vencendo de lavada os feios e os sem fotos, o oposto aconteceu com as mulheres.

As sem fotos tiveram a maior quantidade de respostas, 22% a mais que as comuns e 30% a mais que as bonitas! Contrariando o senso comum, dessa vez foram as belas que sofreram preconceito. Intrigados com o resultado, os pesquisadores visitaram as empresas e descobriram que a imensa maioria dos profissionais de Recursos Humanos, ou seja, o pessoal que avalia os currículos, são mulheres solteiras entre os 23 e os 34 anos de idade.

Entenderam, né? Como as fêmeas são ferozmente competitivas no processo de seleção natural, as mulheres do RH reconheceram as candidatas bonitas como futuras rivais na disputa pela atenção dos homens da empresa. Essa é a vida — fazer o quê? — com todas as suas belezas e crueldades. Mas, para aliviar a gravidade dos fatos, acrescento que a exclusão das bonitas deve ter ocorrido, digamos assim, “inconscientemente”.

No intuito de negar essas duras verdades sobre o universo feminino, alguém poderá dizer que a pesquisa não foi realizada no Brasil, mas no outro lado do mundo, e que ela só serve para ratificar o nosso machismo torpe e vulgar. De minha parte, limito-me a repetir: se você é uma mulher bonita, não seja boba de exibir seu rostinho num videocurrículo.

Desprevenidos

21 de dezembro de 2010 1

Tentando variar o meu cardápio de leituras, comecei a ler um livrinho que por acaso chegou às minhas mãos. Chama-se Aplicações do Sistema Vetiver e é um “manual técnico de referência” publicado pelos membros de uma certa Vetiver Network Internacional. Para quem acha que endoidei, acrescento que insisti em leitura tão bizarra pelo simples fato de viver numa região que há dois anos foi assolada por uma série de deslizamentos e soterramentos incontroláveis. É que o tal manual descreve um sistema “ambientalmente amigável” de estabilização de encostas e barrancos.

Cito um fragmento da obra: “O Sistema Vetiver se baseia numa planta tropical única. A grama Vetiver (Chrysopogon Zizanioides), que comprovadamente está sendo usada em 100 países na conservação do solo e da água, na estabilização de taludes, recuperação de terras, controle da poluição, melhoria da qualidade da água e muitas aplicações ambientais que podem mitigar o impacto do aquecimento global (…) O Sistema Vetiver é fácil de usar, de baixo custo, e funciona se aplicado corretamente.”

Conforme descrito nos textos e nas fotografias do manual, a grama Vetiver cria raízes tão longas e poderosas que, aprofundadas no solo, impedem que a terra se mova sob a ação das chuvas. “É disso que estamos precisando”, pensei como o leigo que sou no assunto. “Ainda temos muitos morros pelados para cobrir com essa tal grama das raízes compridas”. Quase imediatamente, porém, veio-me de estalo o caráter intrigante da questão:

— Mas peralá um pouquinho! Se o sistema é tão eficiente, barato e comprovado em tantas partes do mundo, se é defendido por engenheiros e geólogos da região, por que diabos ele ainda não foi empregado ou ao menos testado?

Será que falta dinheiro ou mão-de-obra qualificada para a tarefa? Será que falta iniciativa do poder público? Ou será que falta sincronia entre gestores, ambientalistas e políticos? Não tenho preparo técnico para defender ou refutar a aplicação de um sistema como o Vetiver na nossa região, mas uma coisa está mais do que clara: as soluções existem e não podem mais esperar.

Não só a recuperação de áreas degradadas, mas a estabilização das encostas e a correta ocupação do solo devem ser implementadas o mais rápido possível. Caso contrário, a próxima tromba d’água vai nos pegar como nos pegou a de 2008: desprevenidos!

30 anos sem Nelson

20 de dezembro de 2010 0

De uns tempos pra cá, os jornais, as revistas, toda a mídia escrita foi higienizada com o beabá da correção política. Longe vai o tempo das grandes polêmicas, dos debates acalorados, das ofensas tonitruantes. Agora a regra — ou a lei, melhor dizendo — é não transgredir, não correr o risco de ofender, não cultivar as verdades da frase sincera, direta, audaciosa e, por isso mesmo, eivada de preconceito e parcialidade. Não digo isso por ser amigo de desídias e picuinhas. Digo porque conheço muitos cidadãos que, sempre bonzinhos no que falam ou escrevem, não conseguem esconder as garras diante dos dilemas da vida real.

Mas essa é uma guerra perdida, não vou chorar as pitangas sobre o quanto estamos nos tornando babacas e decadentes. Afinal de contas, criticar aqueles que consideramos hipócritas — isto é, os afetadinhos do politicamente correto — deve ser a mais tola e ataviada forma de hipocrisia. Dessa água é inútil beber. Quando fico desacorçoado com as baboseiras certinhas que publicamos hoje nos jornais, recorro aos livros, no caso às antologias de crônicas de sujeitos como Nelson Rodrigues. Mesmo em tempos de ditadura, esses caras possuíam mais liberdade para escrever sobre a relapsa e misteriosa fauna humanitária.

Esse, a propósito, é um paradoxo que merece discussão. De 64 a 85, mas mais acirradamente a partir do AI-5 de 68, ficou difícil escrever sobre política no Brasil. Se você ultrapassasse os limites do permitido pelos militares, teria o texto censurado. Em caso de insistência, poderia ser preso e pendurado num pau-de-arara, poderia levar choques através de agulhas enfiadas debaixo das unhas, poderia levar um chá de sumiço eterno. Em compensação, sabia-se onde estavam os censores — gente quase sempre iletrada e retrógrada — e não havia essa quantidade exorbitante de patrulhas ideológicas que vivem de vigiar e punir os que destoam do seu “dicionário do bem”.

Aos que duvidam do que digo, peço que leiam A Cabra Vadia, ou O Óbvio Ululante, ou O Reacionário, tanto faz. São todos do Anjo Pornográfico, e todos são capazes de exemplificar o que era o jornalismo de opinião até algumas décadas atrás. A morte de Nelson Rodrigues, há exatos 30 anos, significou também a morte de uma escrita mais honesta e destemida. Ele dificilmente se criaria nas redações da atualidade. Como resultado, estamos mais intolerantes, mais silenciosos, mais burros. Felizmente, sobraram as antologias. Mas sugiro aos interessados que não demorem para lê-las.

Como está ocorrendo com certas obras de Monteiro Lobato, é possível que os livros de Nelson Rodrigues sejam descobertos pelos soldadinhos da correção política. Não é de duvidar que farão uma fogueira.

Cinema 2010

17 de dezembro de 2010 2

Este foi um ano bom para os amantes da sétima arte. No meio das costumeiras mediocridades, tivemos grandes lançamentos na tela grande, ótimos lançamentos em DVD e uma excelente atuação do cinema nacional, não só em se tratando de ingressos vendidos, mas também em termos de qualidade e amadurecimento estético. Sem considerar os favoritos ao Oscar, elenco abaixo os três grandes filmes de 2010. Obviamente, trata-se de uma lista pessoal, baseada nos meus gostos e interesses, mas tenho certeza de que ninguém se arrependerá de ver ou rever os filmes em vídeo.

A Ilha do Medo – dobradinha feliz entre Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio, ambos subestimados ou superestimados em diferentes períodos de suas carreiras. Baseado num romance de Dennis Lehane, o filme se passa nos anos 1950 e conta a história de um agente do FBI que chega a uma estranhíssima ilha-manicômio para investigar o desaparecimento de uma paciente. É um falso conto policial que de repente, mas sem perder o clima de suspense, transforma-se num drama psicológico. Um dos poucos casos em que os marqueteiros do filme, sem mentir para o público, poderiam encerrar o trailer com aquelas velhas e desgastadas palavras: “A Ilha do Medo, um lugar onde ninguém é o que parece ser!”

A Origem – Cobb, ou “O Extrator” (de novo o Leonardo DiCaprio!), é um sujeito capaz de invadir os sonhos das pessoas e de lá roubar toda a sorte de informações, inclusive segredos industriais. Para que a operação funcione com eficácia, é preciso que sua equipe de espiões simule, na mente da vítima, um sonho dentro do primeiro sonho, e talvez até um terceiro dentro do segundo. Quanto mais fundo no subconsciente do alvo, mais precisa será a extração – ou até mesmo a implantação – de um conceito, uma ideia, um “vírus” capaz de modificar a estrutura mental do indivíduo. É um filme complicado, do tipo “para pensar”, mas a direção de Christopher Nolan é um exemplo de sobriedade.

Tropa de Elite 2 – o grande trunfo do cinema brasileiro, o filme nacional mais visto desde Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976). Possui um roteiro que mistura dramas humanos e sociais com um profissionalismo dificilmente visto em narrativas contemporâneas. É cinema, mas é também um tratado de Sociologia, inclusive derrubando algumas ingenuidades sobre o tráfico e as favelas. Por exemplo: a legalização das drogas resolveria o problema da violência. Não há muito a acrescentar sobre os milhões de comentários que o filme tem recebido nos últimos meses, apenas que ele, sem sombra de dúvida, valeu o preço do ingresso.