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Posts de janeiro 2011

O fiasco das bikes

31 de janeiro de 2011 8

Olha aí, moçada, eu nem pretendia tocar no assunto para depois não me acusarem de que adoro dizer “ahá, eu não avisei?”, mas a indignação dos leitores do Santa é tão onipresente nas cartas da página 2 que, movido por sentimentos humanitários (e por uma pontinha de sarcasmo, confesso), vejo-me na obrigação de discutir o fracasso do aluguel de bicicletas em Blumenau.

Segundo boa parte dos leitores que se manifestaram, as bikes foram retiradas devido à ausência de infraestrutura adequada para o tráfego de ciclistas, isto é, devido à ausência de ciclovias de verdade, repito, de verdade, diferentes desses riscos fajutos que pintaram nas calçadas. Mas tem um detalhe importante: na época em que improvisaram as tais ciclofaixas, lá por setembro e outubro de 2009, muitos habitantes da cidade e, pior, inúmeros especialistas em desenvolvimento urbano bateram palmas para a preguiça da prefeitura.

Lembro bem disso porque, em 13 de outubro de 2009, com base em matérias publicadas no próprio Santa, utilizei esta coluna para fazer o seguinte comentário:

“Os especialistas aprovam (as ciclofaixas) e, segundo enquetes realizadas entre os blumenauenses, tanto pedestres quanto ciclistas não veem problema na iniciativa, acreditam que há espaço para todos e que as faixas são sinônimo de segurança (…) Ora, a ideia das ciclofaixas sobre as calçadas é bastante estranha para um matuto como eu. Na época em que me locomovia de bicicleta, aprendi uma regra de ouro que procurei manter até hoje: se estiver pedalando, JAMAIS trafegue sobre as calçadas, pois elas são o habitat natural dos pedestres.” Terminei o texto perguntado se o “golpe” das ciclofaixas, em vez de resolver um problema e representar o progresso da cidade, não estaria criando um transtorno para todos nós.

Como sempre, optou-se por acreditar que eu – e outros críticos da impostura das ciclofaixas – sou excêntrico e gosto de nadar contra a corrente. É que Blumenau possui um conceito muito peculiar de civilidade e desenvolvimento. Preferimos a comodidade da aparência à trabalhosa mão-de-obra da essência. Se um problema PARECE resolvido, se PARECE aos olhos dos turistas de outubro que possuímos “ciclovias” e bicicletas de aluguel, então tudo está muito bem, obrigado.

Mas sejamos otimistas. Quem sabe, depois desse fiasco inicial, alguém da prefeitura resolva investir com responsabilidade no transporte ciclístico. Caso contrário, se for para remediar em vez de resolver, será melhor que, apesar da nossa notória mania de grandeza, admitamos a nossa condição de cidade incrustrada numa triste e desamparada republiqueta de terceiro mundo.

BBB, unha encravada

28 de janeiro de 2011 3

Outro dia me perguntaram onde estou com a cabeça que não “meto o pau” na nova temporada do Big Brother Brasil.

Que diabos aconteceu ao Maicon velho de guerra? Desligou-se do mundo? Virou a casaca e ficou com vergonha de admitir que agora é fã do programa? Ou — quem duvida? — levou um puxão de orelha dos patrões? Ora, o BBB é retransmitido pela RBS; o Santa pertence à RBS; logo, um colunista do Santa não deve denegrir a imagem do BBB. (Sempre me sinto importante com essas teorias da conspiração. Elas transformam os editores em vilões de histórias em quadrinhos e supervalorizam a influência de uma coluna que possui 6 leitores em Blumenau, 2 em Rio do Sul e 1 em Ituporanga — minha mãe).

Para responder a pergunta com sinceridade — onde ando com a cabeça? — devo dizer que simplesmente fui vencido pelas circunstâncias. Sou humano, sou fraco. Nadar contra a corrente, ainda mais uma corrente sobrecarregada de adeptos como a dos reality shows, pode ser divertido e estimulante durante um tempo. Depois — que jeito? — você dá de ombros e se dedica a afazeres mais produtivos do que vociferar contra a inutilidade e a alienação. Cortar a unha encravada do meu mindinho, por exemplo.

Ninguém conseguiu explicar o Big Brother a contento. Filósofos, sociólogos, especialistas em mídia e comunicação, todo mundo deu pitaco, alguns tentaram encontrar algo positivo na atração, outros se limitaram a críticas corrosivas, mas a verdade é que não chegamos a um parecer satisfatório sobre o sucesso do programa. Ao difamar a “casa mais vigiada do Brasil”, o cronista, o articulista, o professor, os pais, todos os que não comungam do festival de banalidades correm o risco de passar por reles moralistas mal-humorados.

Sou humano, repito, sou fraco. Também não cheguei a nenhuma conclusão sobre o programa. Quanto ao público pagante, tenho medo de me aproximar de qualquer pensamento que beire uma conclusão. Esse público me instiga a reconhecer que o gênero humano realmente se deleita com o cabresto e a lavagem, não porque são coagidos, mas porque fazem suas próprias escolhas. Não quero acreditar numa coisa dessas. Quando isso acontecer, serei obrigado a desistir da escrita. Assim, além de deixar minha mãe e meus 8 leitores na mão, farei com que as teorias da conspiração cresçam em insistência e criatividade.

Mais produtivo é cuidar de uma unha encravada.

Mistureba gramatical

27 de janeiro de 2011 0

Na semana passada, gastei o tempo do leitor com uma crônica sobre o uso dos pronomes “tu” e “você”. Relutei, relutei, mas não resisti e voltei ao assunto. Primeiro porque muitos professores de português (pertenço à classe) consideram o tema pertinente aos habitantes do Vale — que usam preferencialmente o “tu” —, e segundo, admito, porque a verdadeira razão da minha existência é gastar o tempo do leitor.

Mas eu dizia, na tal crônica da semana passada, que normalmente, depois do pronome da segunda pessoa do singular, o “tu”, flexionamos o verbo na terceira pessoa. Assim, em vez de dizer “tu vais”, “tu foste” e “tu vieste”, acabamos dizendo “tu vai”, “tu foi” e “tu veio”. Para não ser simplista, devo acrescentar que às vezes acertamos um “tu vais”. Em compensação, somos campeões em trucidar a gramática ao tomar formas subjuntivas por indicativas. Exemplos: “tu fosse”, “tu viesse”, “tu errasse”.

(Olha, moçada, não estou aqui para corrigir ninguém, apenas para descrever um fato linguístico familiar aos nossos ouvidos. Lembro, inclusive, a ocasião em que, na sala de aula, fui interpelado sobre a correta utilização do futuro subjuntivo. “Qual é o certo, professor, ‘se eu trazer’ ou ‘se eu trouxer’?” Do alto da minha sapiência, respondi que é “se eu trouxer”, claro. Entretanto, querendo girar a chave de ouro, encerrei com uma perguntinha de ênfase: “entendesse?”)

Vai daí, duas perguntas se fazem necessárias sobre o assunto. A primeira diz respeito à variedade regional do nosso idioma. Seria mais bonito deixarmos de lado essa mistureba de modos verbais e falarmos de acordo com a Dona Gramática da Língua Portuguesa? Pra ser sincero, minha resposta é não. Na crônica da semana passada, lembrei que, do ponto de vista sintático, nossa fala é um desplante. Do ponto de vista cultural, todavia, é doce e melodiosa.

Por outro lado, e aqui chegamos à segunda pergunta, quanto mais próximo do português gramatical, mais próximo você estará de um bom emprego (pelo menos na maioria das áreas). Como resolver esse nosso problema de confundir a segunda pessoa com a terceira? Há duas soluções simples: ou você aprende a flexionar os verbos conforme as regras (tu viajaste, tu contribuíste, tu economizaste), ou deixa de usar o “tu” e começa a usar o “você” (você viajou, você contribuiu, você economizou).

Bolinha vai, bolinha vem, a grande verdade é que, depois de uns dias de autopoliciamento, voltaremos a falar o português “errado” e gostoso da nossa infância. Numa coisa, porém, você poderia caprichar: é feio usar formas subjuntivas no lugar das indicativas. Entendesse?

Marx novelista

26 de janeiro de 2011 0

“… e Escorpião, estimulado pelas histórias do amigo Félix, arrebatado pela melodia inflamada e subjugado pelos sentimentos juvenis do companheiro, enamorou-se de Margarida, a cozinheira, supondo que ela fosse uma fada. Presumo a partir desse fato que as fadas têm barba, pois Madalena Margarida — não se trata da Madalena arrependida — ostentava barba e bigode, como um glorioso guerreiro.”

O fragmento acima pertence a uma noveleta meio descontínua e muito nonsense chamada Escorpião e Félix. Foi escrita por um jovem alemão de 18 ou talvez 19 anos que respondia pelo nome de Karl Heinrich Marx, o mesmo que mais tarde redigiria um manifesto (em parceria com o amigão do peito Engels) incitando os trabalhadores do mundo à união e, ainda mais tarde, então em carreira solo, publicaria uma obra em vários volumes chamada O Capital, que, mesmo lida por poucos e entendida por ninguém, modificaria a face política do planeta.

Para o bem da literatura alemã e da sua própria imagem como estudante de filosofia, Marx nunca publicou seus escritos ficcionais, tampouco seus versos eivados de romantismo juvenil, todos sofríveis segundo os críticos que tiveram o dever ou a curiosidade de lê-los. Como, então, o fragmento acima e o texto integral da novela chegaram a nós? A resposta tem a ver com um certo Herschel Marx, pai do malfadado ficcionista. (Estou exagerando ao denegrir o talento do jovem Karl? Cá entre nós, até que o fragmento acima é bem engraçadinho).

Não é justo afirmar que Marx odiasse o pai, mas é possível deduzir que o desprezasse com toda a petulância de sua juventude. Ao receber a notícia da morte do seu velho, Marx deu de ombros e disse que tinha mais o que fazer em Berlim antes de locomover até um enterro piegas e sem sentido. Mesmo assim, em anos anteriores, talvez por deboche, talvez por consideração, confiou ao pai o caderno com os manuscritos dos seus poemas e da sua novela. Especialistas conhecem Escorpião e Félix desde sempre, mas a primeira tradução para o português só foi publicada no último domingo, na Ilustríssima da Folha de S. Paulo.

Para marxistas ou antimarxistas, a leitura da novela vale como curiosidade, até porque o texto é curto e não consumirá muito tempo do leitor, mas vale, sobretudo, como reflexão hipotética: o que teria acontecido ao mundo se Marx houvesse se tornado um ficcionista de sucesso? É possível que a sua outra ficção — a igualdade entre os homens assegurada por um estado centralizador — ainda estivesse por ser escrita…

A Rede Social

25 de janeiro de 2011 0

Dos filmes indicados ao prêmio principal do Oscar 2011, tive oportunidade de ver apenas dois: A Origem, sobre o qual já escrevi aqui, e A Rede Social, a grande zebra da última safra. A propósito, não fosse a indicação ao Oscar e A Rede Social passaria despercebido pelos cinemas, não seria mais que um cult obscuro ou uma curiosidade do gênero “a true story”.

A proposta do filme é simples porém ousada, quase um tiro no escuro devido à rapidez com que resolveram realizar o projeto: contar a saga heroico-picaresca de Mark Zuckerberg, criador do Facebook, um dos sites mais populares de toda a história da internet. Dirigido pelo polêmico e poético David Fincher (O Clube da Luta, Benjamin Button), A Rede Social representa o máximo do pensamento e das possibilidades do pós-industrialismo. Em vez de fazer comentários do tipo “é bom” ou “é ruim”, preferi anotar alguns conceitos que norteiam o filme:

A verdadeira vingança dos nerds – a ideia de que o conhecimento é mais importante que o dinheiro, a beleza e o status já chegou com força também à televisão. Em A Rede Social, ela é representada pela vitória de Zuckerberg sobre os gêmeos wasps de Harvard que o processam por plágio. O Facebook chegou a pagar uma indenização de 65 milhões de dólares, mas, como lembrado no filme, foi como quitar uma multa de trânsito.

Fausto e Mefistófeles – é possível chegar ao sucesso instantâneo sem antes trair os amigos e vender a alma ao demônio? Ao recontar a tragédia de Fausto (já tematizada por Goethe e Thomas Mann), A Rede Social responde que não. Zuckerberg é Fausto, seus amigos são os primeiros sócios do site (que ficaram para trás) e o demônio é Sean Parker, um oportunista que se torna conselheiro do Facebook. Mais cedo ou mais tarde, porém, quem negocia com Mefistófeles é obrigado a pagar o preço.

Velocidade – o próprio lançamento do filme, em 2010, é a prova de que hoje as coisas acontecem com frenesi ininterrupto. Embora a saga possua equivalências à criação da linha de montagem ou à invenção do computador pessoal, o megassucesso do Facebook se fez em poucos meses. O site foi criado no finzinho de 2003!

Babaquice – uma das maiores fortunas da atualidade pertence a alguém que se esforça para ser babaca. Ou seria o contrário? Todos somos babacas, menos o criador do Facebook?

Pessoalmente, eu daria o Oscar para A Origem, por ser mais cinema, ter mais adrenalina, mais emoção; no entanto, pelo menos em termos sociológicos, é provável que A Rede Social tenha mais a dizer sobre o nosso tempo.

O fracasso dos casamentos

24 de janeiro de 2011 1

Essas pesquisas divulgadas em revistas femininas normalmente têm um quê de idiotice e inutilidade, mas também não deixam de ser didáticas, divertidas e instigantes.

A última, por exemplo, realizada na Inglaterra, afirma que os casais brigam, em média, 312 vezes por ano! Considerando que o ano possui apenas 365 dias, podemos concluir que marido e mulher só deixam de brigar nos períodos em que não se veem.

Como se pode imaginar, os motivos das brigas são sempre gravíssimos: se ela não suporta a toalha molhada sobre a cama, ele não consegue se calar diante de uma pia cheia de cabelos; se ela dá o piti ao encontrar a tampa do vaso levantada, ele perde a cabeça ao ouvir, pela milésima vez, a frase “só mais um minutinho, querido, estou quase pronta!”

A pesquisa também informa que quinta-feira — sabe Deus por quê! — é o dia mais problemático na rotina dos casais. Embora elas reclamem mais do desleixo dos maridos, eles é que lideram o número de pedidos de divórcio por causa dos “hábitos irritantes das mulheres”.

 

***

 

Sempre que ouço alguma história ou estatística sobre o fracasso dos casamentos modernos, lembro-me da vida do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986). Já maduro, decidido a usar aliança, convidou uma certa Estela Canto para subir com ele ao altar.

— Eu aceito — disse ela, uma mulher bastante avançada para a época —, mas só depois de passarmos uma noite juntos.

Borges ficou apavorado e desapareceu por vários dias.

Anos mais tarde, finalmente recuperado do susto, casou-se com Elsa Astete, uma amiga de infância. O casamento durou três longos e tortuosos anos, ao fim dos quais Borges fugiu de casa. Interpelado sobre a infantilidade do gesto, explicou-se de forma lacônica:

— Também não consegui compreender as mulheres.

Já no fim da vida, cego e alquebrado, casou-se com Maria Kodama, ex-aluna e secretária, 38 anos mais jovem, que ficou com os direitos autorais de todos os seus livros.

Turismo em Blumenau

21 de janeiro de 2011 2

Pra começo de conversa, gostaria de me desculpar se, por ventura, ao longo da crônica de hoje, eu me exceder e assumir um tom demasiado professoral. É que quero propor um exercício de reflexão crítica a partir de dois artigos recentemente publicados no Santa. Essa, a propósito, é a grande vantagem da leitura de jornais, a chance que temos de confrontar opiniões divergentes sobre um determinado tema e assim chegarmos às nossas próprias conclusões.

Para isso, basta seguirmos alguns passos essenciais: 1) ler e interpretar cada opinião isoladamente; 2) contextualizar a opinião (ajuda muito saber quem é o autor e de onde ele fala); 3) ler e interpretar as opiniões em conjunto, comparando-as; 4) formular questões a partir da leitura; 5) responder essas questões, quando possível.

A primeira opinião a que me refiro foi publicada ontem, na página 2 do Santa, e assinada por José Eduardo Bahls de Almeida, secretário do turismo de Blumenau (contextualização mais que suficiente). Sob o autoexplicativo título “O Sucesso da Sommerfest”, o texto destaca ações da Secretaria de Turismo e seus parceiros da iniciativa pública e privada para a realização e o êxito da nossa Festa de Verão.

— Blumenau — diz ele — oferece opções de lazer para todas as idades, gostos e com os mais variados custos. Somos um povo hospitaleiro, cativamos cada visitante que passa por aqui.

A segunda opinião saiu na última terça-feira, também na página 2 do Santa, com a assinatura de Eunice Rink, turismóloga que veio visitar o “tão divulgado Centro Histórico de Blumenau”. Com a palavra “descaso” no título, o texto não se contenta em lamentar o estado de abandono da nossa própria memória, mas ensina que “existem verbas federais destinadas à (…) preservação do patrimônio histórico” — basta correr atrás! — e sugere o amparo dos empresários da cidade.

— Como turismóloga — diz ela —, apresento meus pêsames aos órgãos e setores ligados à cultura, ao meio ambiente, à segurança, ao empreendedorismo e ao TURISMO desta cidade tão encantadora.

Alguém poderá dizer que cada opinião trata de um assunto diferente, mas isso não é verdade, o assunto é turismo durante o verão, seus impasses e suas prioridades. Por isso, termino com duas questões que deixarei para o leitor responder (se possível): 1) por que Blumenau se gaba de ser tão culta se é incapaz de preservar os seus bens históricos? 2) existe alguma explicação sociológica para o fato de sermos tão bons para vender chope e tão ruins para valorizar nossa cultura?

2666

20 de janeiro de 2011 0

Esperei até meados de janeiro para responder uma pergunta que, lá por novembro, começou a se repetir nos cadernos de cultura de todo o país: 2666, romance do chileno Roberto Bolaño lançado pela Companhia das Letras, foi o grande livro de 2010?

Quando o romance apareceu em português, houve uma verdadeira celebração – eu diria até canonização – promovida pela nossa imprensa, e isso é compreensível. Falecido precocemente aos 50 anos de idade, em 2003, Bolaño tornou-se, praticamente da noite para o dia, a voz mais original e entusiasmada da literatura hispano-americano.

Antes traduzido para o inglês, 2666 conquistou os leitores da Europa e dos Estados Unidos. Na ocasião, foi aclamado livro do ano pelas revistas Time, Village Voice e Publishers Weekly. Quase imediatamente, a obra de Bolaño, até então um escritor desconhecido e meio marginal, foi comparada às de James Joyce, Robert Musil e Thomas Pynchon. Tanta exaltação, evidentemente, era motivo de suspeita.

Por isso abri 2666 com toda a cautela do mundo. O calhamaço de 900 páginas contém cinco romances distintos, mas que têm em comum a cidade fictícia de Santa Teresa, na fronteira do México com os Estados Unidos, onde terríveis e abundantes assassinatos de mulheres ocorrem há anos, sem solução.

A proposta de Bolaño, que chega a evocar os velhos romances policiais da Grande Depressão, não é necessariamente desvendar os crimes, mas tratar da vida das pessoas que, de alguma maneira, acabam chegando a esse cenário de violência.

É assim que conhecemos um grupo de críticos obcecados pela obra de um escritor alemão que nunca dá entrevistas, um professor espanhol subtraído de suas faculdades mentais e um jornalista americano que vem a Santa Teresa cobrir uma luta de boxe. A grande emoção dessas histórias está na sua falsa simplicidade, na sua capacidade de revelar o incrível que se esconde por trás do banal.

O que dá vida a tudo isso, claro, é o estilo irônico e enigmaticamente aparvalhado de Bolaño, um estilo repleto de trocadilhos (alguns infames), referências à cultura pop, intertextualidades inesperadas, piadas eruditas porém autoexplicativas e grandes sacadas sobre a vida literária, seja dos catedráticos de grandes centros europeus, de arrivistas culturais do terceiro mundo ou de poetas inéditos que se alimentam apenas de drogas e desilusão.

2666 é o grande romance de 2010? Sim, sem dúvida. Quem está à procura de uma leitura diferente e estimulante há de concordar com essa opinião.

Somos felizes?

19 de janeiro de 2011 3

Detesto contrariar uma pesquisa realizada pelos estudantes de Publicidade e Propaganda da FURB, pessoas que estimo de todo coração, mas essa história de que 90% dos blumenauenses são felizes ou completamente felizes, publicada ontem no Santa, não cola, não. Se isso fosse verdade, não teríamos tanta gente emburrada nas ruas, nem tantas brigas e discussões no trânsito, tampouco essa nossa mania de ingerir pílulas de fluoxetina como se fossem pastilhas de hortelã.

Quero dizer com isso que a pesquisa está errada? Não, pelo contrário, está certíssima, pelo menos em sua elaboração, salvaguardando, é claro, aquilo que o nosso querido Edgar Gonçalves Jr. destacou na sua opinião sobre a matéria: “cadê o amor?” Como é possível que as pessoas entendam a felicidade a partir dos amigos, da família, da saúde, da paz, e não do AMOR? Lembrei-me de uma velha canção d’Os Atuais: “quem nessa vida não ama/ não sabe o que é viver/ quem nessa vida não ama/ feliz não pode ser”.

(Edgar ilustrou seu texto com versos de Carlos Drummond de Andrade. A minha citação, por isso, possui dois propósitos essenciais: mostrar que cada articulista recorre ao poeta que merece e, mais importante, deixar claro que o protagonismo do amor na busca da felicidade é uma ave que bate asas entre o erudito e o popular, entre os grandes poemas do idioma e as mais simplórias modinhas de baile).

Mas eu dizia que a pesquisa da FURB está certa, certíssima. Tenho certeza de que os dados foram coletados e processados com a maior honestidade possível. Mais de 90% dos entrevistados realmente se DECLARARAM (atenção no verbo) felizes ou completamente felizes. Menos de 9% se declararam poucos felizes e menos de 1% nada felizes. Também, Maicon, você queria o quê? Existe pecado maior do que viver numa cidade limpa e próspera como Blumenau e mesmo assim ser infeliz?

O consumismo, que se fortaleceu no Brasil a partir de 1970, foi competente em nos vender um conceito de felicidade associado à presença de bens materiais ou de condições propícias a adquiri-los (um diploma, um casamento, uma boa aparência). Desse momento em diante, admitir-se infeliz passou a ser o mesmo que admitir-se fracassado. Não me admira, portanto, que as pesquisas sobre índices de felicidade normalmente tenham resultados tão animadores.

De minha parte, acho que seria mais feliz se vivesse num mundo em que não precisasse sentir vergonha de declarar a minha infelicidade.

Aquele abraço ao Fabrício Cardoso

18 de janeiro de 2011 0

É de conhecimento notório que o nosso estimado Fabrício Cardoso deixou a redação do Santa, onde exercia as funções de Editor Executivo (ainda não descobri o que é isso), para trabalhar num certo Diário de São Paulo. Republico o texto abaixo em homenagem ao colega. Duas contextualizações, porém, são necessárias: 1) ao longo do texto, fiquei pegando no pé dos meus colegas jornalistas por conta da então recente decisão do Gilmar Mendes sobre o diploma para exercer a profissão; 2) termino falando em mostarda porque, dias antes de redigir a crônica abaixo, sob o pretexto de tecer um elogio a Blumenau, saí pela tangente ao exaltar a maravilhosa mostarda holandesa que pode ser encontrada em cada dos seus botecos de esquina. Ao Fabrício e sua família, por fim, todo o sucesso na nova cidade e no novo trabalho.

 

 

Chimarrão

 

Esperei um ano e meio para contar a historinha que segue. Primeiro porque precisei de todo esse tempo para depurar o verdadeiro sentido do caso; e segundo porque seria interessante comentar os fatos durante a ausência do seu protagonista, um sujeito que responde pelo nome de Fabrício Cardoso e que, segundo dados blogosféricos, encontra-se em São Paulo para cursar um certo master (?!) para editores. (Não quero desanimar ninguém, mas parece que o diploma desse master é o próximo na listinha do Gilmar Mendes).

Pois então. Li em algum lugar que o Fabrício Cardoso é editor executivo do Santa. Com o perdão da minha ignorância, não faço a menor ideia do que isso signifique (bem, talvez me falte um DIPLOMA de jornalista para compreender as nuances hierárquicas de uma redação), mas suspeito que, pela nomenclatura enigmática, seja algum tipo de cargo decorativo. Digo isso porque, numa antiga coluna do Fabrício, fui informado de que, todas as tardes, ali pelas 17h, ele costuma descer até a cozinha e esquentar a água para o chimarrão.

Duvidei da informação porque, ao contrário do que muitos imaginam, não escrevo na sede da Rua Bahia, preferindo preencher esta coluna aqui de casa, sempre trajando o meu uniforme de escritor: óculos, pijamas de bolinhas vermelhas e uma velha pantufa do Mickey. Eis que um dia me vejo na incumbência de ir até a redação. Ligo para o Fabrício e ele sugere que eu faça a visita no finzinho da tarde. “Assim tu chegas na hora do chimarrão, tchê!”

— Hora do chimarrão? — espantei-me. — Então é verdade? Eles de fato cultivam o hábito sagrado dos pampas?

Minha felicidade não pôde ser maior. Embora aprecie o mate desde mal entrado em minha mocidade, não fui agraciado com o talento de preparar a erva na cuia, uma arte reservada apenas aos gaúchos mais empedernidos. Mas agora, com o convite do Fabrício, eu teria a chance de tomar um chimarrão macanudo, cevado com a perícia e a paciência de um filho legítimo do Rio Grande. Cheguei às 17h em ponto, e a cuia realmente estava lá, esperando.

Mas qual não foi meu susto ao perceber que — crime dos crimes para os chimarreiros — a água estava morna e a bomba, entupida? Embora a conversa estivesse boa, que é o que importa, nunca provei um chimarrão tão fuleiro em toda a minha vida! Pensei em fazer um comentário, mas fiquei meio sem jeito. Daqui a uns tempos escrevo uma crônica, decidi.

Naquele dia, para compensar a decepção, parei num boteco e comi um bolinho com mostarda.