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Posts de fevereiro 2011

Moacyr Scliar

28 de fevereiro de 2011 0

Lá nos primórdios deste blog, publiquei uma pequena entrevista com Moacyr Scliar. Segue abaixo o replay

 

***

 

Gaúcho de Porto Alegre, Moacyr Scliar publicou o primeiro livro enquanto cursava a faculdade de medicina. Daí em diante, e sempre conciliando as carreiras de escritor e médico sanitarista, construiu uma obra e uma reputação dignas de aplauso. Entre contos, romances, novelas, ensaios e literatura infanto-juvenil, foram mais de 80 títulos até o momento. Sucesso de público e crítica, traduzido para inúmeros idiomas e colaborador dos principais órgãos da imprensa brasileira, Scliar costuma ser estudado em universidades europeias e norte-americanas. Confira abaixo a entrevista que concedeu ao blog.

 

Dos grandes escritores brasileiros em atividade, você deve ser o de maior capacidade produtiva. Como se dá o seu processo de criação? Como mediar uma relação saudável entre quantidade e qualidade?

Realmente, se há uma coisa da qual não posso me queixar, como escritor, é de falta de inspiração. Ideias surgem-me constantemente, da evocação do passado, de conversas com pessoas, de notícias de jornais, de textos que vão da Bíblia aos livros de história. E também não tenho dificuldade em transformar ideias em textos. Por outro lado, gosto de trabalhar. Acredito firmemente que escritor tem mais é que escrever. A chamada vida literária pode ser até agradável, mas a nossa hora da verdade surge quando estamos na frente do computador. Claro, nem tudo que escrevo me satisfaz, e aí recorro àquela tecla que é a grande amiga da literatura, a tecla de deletar. É preciso selecionar; só assim se transforma quantidade em qualidade.

 

Desde seus primeiros contos, a Bíblia tem servido de matéria-prima e inspiração. Fale um pouco do seu relacionamento com os textos sagrados.

Sou um leitor da Bíblia, até por minhas origens judaicas, mas não um leitor religioso, e sim um leitor literário: o que me surpreende, e me encanta, na Bíblia, é a capacidade de síntese que têm os escritores bíblicos; em poucas linhas narram histórias que representam um fundo mergulho na condição humana. É por isso que tantos escritores são influenciados pela Bíblia; Franz Kafka, por exemplo, criou suas próprias, e maravilhosas parábolas.

 

Ao mesmo tempo em que publica romances “adultos”, você publica uma bela quantidade de livros infanto-juvenis. Há diferenças entre escrever para um público e outro?

Há algumas diferenças. Quando se escreve para jovens é melhor trabalhar com personagens jovens, num cenário familiar aos jovens (a escola, por exemplo) e numa linguagem que, sem deixar de ser literária, sem recorrer à babaquice, seja acessível ao jovem leitor.

 

De todos os livros que escreveu, qual o seu preferido? (Você só tem direito a citar um título, eh, eh).

Pergunta difícil. É o mesmo que perguntar a um pai de que filho ele gosta mais. A mim, esta pergunta não perturba, porque só tenho um filho, o fotógrafo Roberto Scliar, mas livros, são mais de 80… Contudo, não deixarei de citar um: “O Centauro no Jardim”, uma obra fantasiosa, que tem como personagem um centauro, e que me deu um enorme prazer, além de ter sido traduzida em vários idiomas.

 

Você escreve crônicas para o Zero Hora há quase 40 anos. Isso não cansa?

De maneira alguma. Cada crônica é um desafio, é uma possibilidade de realização, é uma oportunidade de estabelecer vínculos com os leitores.

 

Algum projeto em andamento? Ou melhor, deixe-me refazer a pergunta: quantos projetos em andamento?

Vários: uma coletânea de ensaios sobre medicina (medicina e poder, medicina e imaginação, etc.), uma coletânea de contos…

 

Para terminar, uma palavrinha aos leitores do blog.

Pessoal, o blog é o grande veículo de comunicação da atualidade. Não deixem de frequentá-lo!



Dois meses de jejum

25 de fevereiro de 2011 0

Não sei se essa coluna possui leitores contumazes, mas, se os possui, devem ter percebido que, durante quase toda a semana, dediquei o espaço a alguns dos filmes indicados ao Oscar do próximo domingo.

Tamanho apego ao cinema – apego que, suponho, deve ter contentado alguns e aborrecido outros – deve-se a duas razões elementares. A primeira delas: ao contrário do que costuma acontecer em Hollywood, a lista dos indicados ao Oscar está realmente boa neste ano. Variedade, pelo menos, é o que não falta.

Da turbamulta de personagens de A Origem à solidão do protagonista de 127 Horas, dos conflitos jurídico-digitais de A Rede Social aos dolorosos ringues de O Vencedor, há filmes para todos os públicos e interesses, alguns funcionando como subversões de gênero. Assim como há um drama de balé sem que o coreógrafo seja gay ou exageradamente afetado, há uma aventura de bangue-bangue com pistoleiros barrigudos e ruins de mira.

Não quero exagerar, mas também não dá para negar que a safra foi mesmo prolífica, capaz de resgatar a nossa velha paixão pela sala escura, uma paixão que vinha definhando sob a avalanche de blockbusters poluídos com efeitos especiais.

Para tratar da segunda razão que me levou a sucessivas crônicas sobre cinema, devemos esquecer Hollywood, e neste caso esquecer de fato, para afundarmos numa triste e lodosa realidade. A partir de hoje, Blumenau ficará dois intermináveis meses sem nenhuma sala de projeção, coisa que, salvo engano, nunca antes aconteceu na história desta cidade.

Desse modo, sabendo que passarei as próximas oito semanas sem “gancho” para escrever sobre a sétima arte, o jeito foi sobrecarregar a coluna nos últimos dias. Atitude meio inútil, reconheço, já que de nada adianta instigar a tal paixão por salas escuras se não há salas escuras a frequentar. Alguém já disse que essas coisas só acontecem em Blumenau, uma cidade que nunca alcançará a pretensão de ser moderna e cosmopolita se contar com apenas um cinema, caríssimo aliás, e administrado a partir de Porto Alegre.

Se houvesse concorrência, aposto que o GNC teria encontrado outra solução para a reforma. Falar em concorrência, parece que ela está chegando pelas redondezas. Tenho certeza de que os dois meses de jejum não serão esquecidos com facilidade.

Bravura Indômita - o livro

24 de fevereiro de 2011 1

Quando era criança, vi Bravura Indômita no Supercine. Claro que me refiro à versão antiga, com John Wayne, que recebeu o Oscar de melhor ator pelo papel de Rooster Cogburn, o pistoleiro bêbado que ajuda uma menina de 14 anos a vingar a morte do pai. Com ou sem Oscar, porém, o filme é de uma vulgaridade desconcertante, digno de uma noite de sábado sem pipoca e sem outra opção de lazer. Digo isso porque, apesar do meu respeito pelo esforço dos mortos e dos mais velhos, John Wayne nunca convenceu como Rooster Cogburn.

Suspeito que os Irmãos Coen tenham a mesma opinião. Em dezembro último, quando lançaram a sua versão de Bravura Indômita, apressaram-se em divulgar que não se tratava de uma refilmagem, mas de uma releitura do romance que deu origem ao primeiro filme. Romance? Eles disseram romance? Nunca suspeitei que aquela ideia de segurar as rédeas do cavalo com os dentes nasceu na literatura. Se o primeiro Bravura obscureceu o livro de Charles Portis, a versão dos Irmãos Coen deu um jeito de reapresentá-lo aos leitores.

A tradução para o português foi lançada no Brasil pela Alfaguara e já se encontra nas livrarias. Uma das primeiras características do texto a chamar atenção é que, diferentemente dos filmes, a história é contada pelo ponto de vista de Mattie Ross, a tal menina de 14 anos que empreende uma vendetta em memória do pai. Por si só, o recurso preenche o texto de ironia e comicidade, uma comicidade que surge do conflito entre o que é certo aos olhos da menina e o que realmente acontece à sua volta.

Nos dias de hoje, poucos leitores se interessariam por um western (a menos que o nome de Cormac McCarthy estivesse na capa), mas a verdade é que, apesar de todos os personagens andarem armados, inclusive a menina, com o colt que pertencera ao pai, Bravura Indômita é muito mais que uma simples aventura de cavalgadas e tiroteios. Na verdade, trata-se de uma crítica mordaz a uma nação que se firmava, não apenas com laços e enxadas, mas principalmente com disparos de winchesters. Nesse sentido, a cena dos enforcamentos, no primeiro capítulo, é uma peça de antologia.

Mas a melhor passagem, a mais forte e significativa, se dá quando a heroína fica presa no fundo de uma caverna. Há ali um cadáver em cujo peito se descobre um ninho de cascavéis. Antes de ser picada, a pequena Mattie pôde enxergar a maldade dos nossos corações. É, por isso, a melhor das contadoras de história.

P.S.: o tapa-olho de Rooster Cogburn é invenção do cinema. No livro ele também é caolho, mas em nenhum momento o acessório é mencionado.

O Discurso do Rei

24 de fevereiro de 2011 0

De todos os filmes indicados ao Oscar 2011, O Discurso do Rei parece ser o mais “certinho” em termos cinematográficos. Isso não significa demérito, apenas a reiteração de que uma boa história cabe em todos os formatos, inclusive os tradicionais. Com linearidade, mas também com excelente humor, o filme trata de um momento decisivo na vida do Príncipe Albert (Colin Firth), o segundo na sucessão do trono britânico. Apesar de certos erros e omissões históricas, O Discurso do Rei é plenamente baseado em fatos e personagens da vida real.

Com a renúncia do irmão mais velho, que desistiu da coroa para casar-se com a amante americana, o tímido e inseguro Albert, ou Bertie, como era chamado entre os familiares, vê-se repentinamente alçado à condição de rei. Some-se a isso dois agravantes: a Europa estava às portas da Segunda Guerra Mundial e Bertie… bem… ele era terrivelmente gago. O filme mostra sua luta contra a gagueira, suas hilárias sessões com um terapeuta australiano (Geoffrey Rush) e o emocionado discurso em que consola uma nação em guerra.

Não deixa de ser compreensível que a gagueira de um rei fosse motivo de apreensão. Os documentários sobre a Segunda Grande Guerra provam que aquele não foi um conflito de exércitos e bombardeios, mas essencialmente de shows de oratória. Nos anos 30 e 40 do século passado, época em que se comprava demagogia por hombridade, os oradores não se envergonhavam de falar em nome de entidades vagas, porém poderosas, como Deus e a Mãe Pátria. Quanto mais o político gritava e gesticulava, mais o público aplaudia e piscava os olhinhos marejados de orgulho divino ou patriótico.

Hitler era um canalha genocida, mas ninguém pode negar que o sujeito sabia como convencer uma plateia a se atirar no abismo. Algo semelhante pode ser dito de Mussolini. A propósito, Mussolini era superior a Hitler em muitas coisas, especialmente na canastrice e nas habilidades de orador. Além de tudo, contava com a vantagem de discursar em italiano, uma língua mais macia e tonitruante que a alemã. Os ingleses, em compensação, eram liderados por um rei que abominava as maiores paixões dos inimigos nazi-fascistas: os microfones e as multidões.

Mesmo assim — que ironia! — os ingleses venceram a guerra e, ao lado dos EUA, continuam a mandar no mundo. O Discurso do Rei sugere que isso aconteceu porque o pobre Bertie enfrentou sua gagueira.

Cisne Negro

22 de fevereiro de 2011 3

Percebi que muitas pessoas saíram intrigadas da sessão de Cisne Negro a que assisti no domingo, mas isso é mais do que compreensível, já que a obra suscita uma série de dúvidas e suposições.

É um filme de balé? É de terror? De suspense? É uma parábola sobre o preço das nossas ambições? Um drama psicológico que trata da solidão dos perfeccionistas?

Seria uma espécie de Édipo-Rei feminino em que o conflito velado entre uma mãe frustrada e uma filha esquizofrênica explode com a necessidade das tragédias?  (A propósito, já repararam como, nos últimos dez ou quinze anos, a esquizofrenia tornou-se tema preferencial do cinema “pós-moderno”?).

Seria sobre a descoberta de uma sexualidade agressiva e autodestrutiva, reiterando a crença puritana de que onde há sexo há também dor e danação, talvez até a morte? Não, não é nada disso, mas também é tudo isso ao mesmo tempo. Cisne Negro é um filme ótimo de assistir e impossível de classificar.

Logo de saída, com as inúmeras cenas de dança, percebemos que os ensaios e a montagem de O Lago dos Cisnes ali se encontram como metáfora do que acontece à vida de Nina, a bailarina interpretada por Natalie Portman.

Ela finalmente conseguiu um papel de destaque – dois, aliás, dos cisnes branco e negro -, trabalhará duro e fará o impossível para não decepcionar a mãe, uma ex-bailarina que lança um manto de superproteção sobre  a filha e as próprias desilusões. Com o stress dos ensaios, porém, a mania de perseguição de Nina atinge dimensões capazes de levá-la à loucura.

O melhor do filme não está no enredo, mas na sinceridade com que sinaliza o que é realidade e o que é alucinação na vida de Nina. Talvez por isso, consegue fugir do maniqueísmo – sempre um perigo – ao recontar uma das mais antigas histórias sobre a luta que diariamente travamos contra nós mesmos.

Ainda que não haja referências explícitas, Cisne Negro possui similaridades com O Médico e o Monstro, de Stevenson, e mais ainda com William Wilson, o conto gótico de Edgar Allan Poe. Em ambos os casos, o que existe de pior no íntimo dos protagonistas sobe à tona e transforma suas vidas por completo.

Tudo isso simbolizado pela plasticidade da dança e pela música vociferante de Tchaikovsky. Se é verdade que o cinema é a reunião de todas as artes, Cisne Negro conseguiu fazer essa reunião com simetria e harmonia exemplares. Vale a pena assistir.

Protesto, coerência, esnobismo

21 de fevereiro de 2011 0

Recusar prêmios oferecidos por alguma academia ou comendas inventadas por alguma câmara legislativa pode ser um ato de protesto e coerência, mas também pode ser entendido como o mais puro esnobismo.

Em 1964, por exemplo, Jean Paul-Sartre recusou o maior galardão que poderia ser concedido a um escritor, o Prêmio Nobel de Literatura. Adepto da escrita engajada e do autor como agente político, justificou o ato com uma frase lacônica: “Nenhum escritor pode ser transformado em instituição”.

Todos os muitos discípulos de Sartre que grassavam mundo afora, especialmente numa América Latina subjugada por ditaduras sanguinárias, aplaudiram o mestre com efusão. Certos colegas de ofício, entretanto, torceram o nariz para um ato que lhes pareceu hipócrita e autopromocional.

Falar em autopromoção, também Woody Allen não estava presente à cerimônia que concedeu os primeiros dois Oscars de sua carreira, um pelo roteiro e outro pela direção de Annie Hall (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, 1977). Parece que preferiu tocar clarinete num bar de Nova York, deixando os habitantes de Hollywood com cara de caipiras deslumbrados. Esnobismo classe A.

No Brasil a coisa foi mais séria. No princípio dos anos 1970, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul ofereceu um título de doutor honoris causa a Erico Verissimo. Além de não comparecer à cerimônia, o autor de O Tempo e o Vento redigiu um comunicado informando que jamais aceitaria honrarias de uma universidade cuja reitoria delatara professores e alunos a forças paramilitares que tinham por hábito a tortura e o homicídio.

E agora, na semana passada, para fechar com chave de ouro, o bispo de Limoeiro do Norte (CE), Dom Manuel Edmilson da Cruz, recusou a Comenda dos Direitos Humanos Dom Helder Câmara. Motivo mais do que justificado: a rapidez com que os parlamentares aumentam os próprios salários e a lentidão com que agem na defesa do povo.

— A comenda hoje outorgada — disse o bispo — não representa a pessoa do cearense maior que foi Dom Helder Câmara. Não representa. Desfigura-a, porém. Sem ressentimentos e agindo por amor e por respeito a todos os senhores e senhoras, pelos quais oro todos os dias, só me resta uma atitude: recusá-la.

Eu jamais imaginei que um dia elogiaria um bispo, mas dou a mão à palmatória. No gesto não há esnobismo, apenas protesto e coerência. Dom Manuel é autor do maior e melhor puxão de orelha de toda a história do Senado.

Palavras = Mulheres

18 de fevereiro de 2011 1

Ninguém se torna um escritor de verdade sem antes se apaixonar pelas palavras… Ok, tudo bem, concordo que “apaixonar” seja um verbo meio fresco e banalizado, mas este é o termo exato para expressar o que pretendo com a crônica de hoje. Que é: as palavras são como as mulheres. Existem as bonitas, as feias, as gordas, as magras, as ciumentas, as delicadas, as estúpidas e as assustadoras, respectivamente exemplificadas por babilônia, amígdalas, abalroar, tchau, navalha, cambraia, bofetada e câncer.

Todas, porém, são misteriosas e sedutoras. Ainda que haja muitos escritores com corações de gelo, não é difícil se apaixonar pelas palavras. Para mergulhar de cabeça, basta olhar um pouco mais fundo no abismo, digo, no dicionário. Este, aliás, foi um procedimento adotado por muitos jovens autores, que dedicaram seus melhores anos ao estudo da gramática. Na verdade, estavam apenas seguindo uma ideia óbvia sobre a natureza das paixões: quero conhecer porque gosto, e gosto porque quero conhecer.

Infelizmente, apesar dos sabores e das delícias de toda e qualquer descoberta, essas cruzadas estão destinadas ao fracasso. Há muito tempo, os etimólogos descobriram que conhecer as palavras é uma tarefa tão inglória quanto entender o que se passa na cabeça de uma mulher. Diz o ditado que só o diabo é capaz de compreender a ambas, mas isso é mentira. Se o diabo, que é linguista, entendesse também de mulheres, não teria aquele par de chifres na cabeça.

O problema se torna ainda mais grave quando, iniciantes, os escritores agem como namorados possessivos, ciumentos e inseguros. Como contrapartida, são facilmente escravizados pelas palavras, jogam-se aos seus pés e fazem todas as suas vontades. Seduzidos por um adjetivo, são capazes de forçar sua entrada em todas as bobagens que escrevem. Ou, por outra, passam a repetir uma palavra com tanta insistência que, como acontece aos casados, não conseguem mais se distinguir um do outro. Se a palavra x aparece num artigo, pode saber que o nome do escritor y estará nos créditos.

Felizmente, todas as fogueiras se apagam um dia. Quando o escritor tiver a tranquilidade de deitar no sofá e permitir que as palavras se limitem ao trabalho doméstico, todos se sentirão mais felizes e recompensados, inclusive os leitores.

A peneira de Lula

17 de fevereiro de 2011 2

Ontem, assistindo ao Jornal do Almoço, senti certo alívio ao ver e ouvir populares reclamando da política do atual governo para o salário mínimo. Depois de desligar a TV, porém, fui devolvido ao mundo da incoerência e da incompreensão, um mundo, diga-se de passagem, chamado Brasil.

Dilma não foi eleita pelo fato “líquido e certo” de que Lula, o messias, operou uma série de milagres para salvar o país da bancarrota? Não estava tudo correndo às mil maravilhas? Não temos hoje uma sociedade mais justa e igualitária, com trabalhadores felizes e estudantes motivados? Não quitamos a dívida externa? Não é verdade que vamos sediar a Copa e as Olimpíadas?

Então, ora bolas, estamos reclamando do quê?!?

Até hoje, sinceramente, não consigo compreender como o discurso monocórdio do “Super-Lula Salvador da Pátria” se alastrou por toda a sociedade, gerando os tais 80% de aprovação e coroando Dilma com a faixa presidencial. A única resposta que me ocorre é que os eleitores, deslumbrados com um discurso sem fundo e sem responsabilidade, encararam os figurões da política como se estes fossem astros de cinema ou futebol.

Que fique clara a minha posição: cada um que vote em quem quiser. O problema a que me refiro é o oba-oba alienante que tomou conta do país, a exaltação desmedida de uma figura pessoal (em vez de uma instituição como a democracia), a crença infantilizada de que repentinamente, do dia para a noite, o Brasil pulou do terceiro para o primeiro mundo, e tudo graças a um mágico que passou a cartola à sua assistente.

Como se dizia lá na minha terra, “peido de égua não é foguete”. Mas a retranca no salário mínimo não é a prova mais próxima de que o Governo Lula se sustentou de bravatas e inatividade. A prova mais próxima é a irônica situação da BR-101. Um presidente do PT – logo do PT! – entregou a parte pronta da rodovia à iniciativa privada, que está livre, leve e solta para pintar e bordar com os aumentos sucessivos do pedágio.

A parte não pronta… pois é… continua não pronta. Ao redor, milhares de ingênuos pensando que o PAC existe fora do papel! Ou a coisa não está tão boa para o Brasil, ou o governo continua relapso com questões essenciais ao desenvolvimento. Ontem, o Jornal do Almoço me mostrou que está acontecendo o que eu NÃO temia: sem a figura carismática de Lula para tapar o sol com a peneira, começaremos a acordar para a nossa verdadeira realidade.

Conto de Escola

16 de fevereiro de 2011 1

Prefiro não dizer o nome da cidade onde tudo começou. Como em outras partes do mundo, ali alguns alunos desrespeitavam seus professores. Claro que não estou falando de um desrespeito simples, de uma tarefa esquecida, de um lampejo de indisciplina. Falo de coisas graves, de desrespeito maiúsculo, quando um “menor” com quase dois metros de altura e pesando o dobro do professor o manda para aquele lugar.

Como não podia contar com as leis do seu país, que obrigavam a direção do colégio a proteger os “menores” oportunistas e mal intencionados, restou ao professor engolir o desaforo e rastejar para casa. Antes ele enfrentava essas situações extremas, mas sempre levava a pior porque, quando os pais e os assistentes sociais se inteiravam do caso, havia a sugestão implícita de que ele, um professor formado, era na verdade um incompetente que não sabia lidar com seus alunos. Cansado também de reclamar, tomou duas pílulas para dormir e sonhou com a aposentadoria.

Já o aluno malcriado saiu da escola e caminhou confiante pelas calçadas da cidade. Orgulhoso da própria ignorância, batia no peito para mostrar aos colegas quem é que mandava na sala de aula. Quando a coordenadora pedagógica tentava inquiri-lo, bastava fazer carinha de coitado para tudo terminar em “psicologia”. Naquela noite, porém, ao passar por uma rua mais escura, o estudante foi cercado por um grupo de mascarados que, sem nada dizer, encheram-no de porradas e cacetadas exemplares. O desrespeitoso moleque gritou, esperneou, chorou, fez cara de menor incompreendido, mas não adiantou.

Como era mais burro que o normal, não ligou uma coisa à outra e, no dia seguinte, mesmo quebrado e gemebundo, tornou a desrespeitar o professor. Então, como se fosse uma maldição, levou outra surra dos mascarados, essa mais longa e elaborada. Quando os fatos se repetiram pela terceira vez, nosso estudante teve um estalo mental e foi correndo para o colinho do diretor contar o que estava acontecendo. Rápido instalaram uma sindicância para acabar com a carreira do professor — “ele deve estar por trás disso” — mas não houve provas porque o professor realmente não sabia de nada.

Depois de mais uma surra por ter ousado falar nos mascarados, o aluno nunca mais incomodou ninguém. O mesmo aconteceu com outros “menores” indisciplinados da cidade, e de repente surgiram mascarados também nas cidades vizinhas, depois em todo o estado e por fim no resto do país. Quem eram? Poucos tinham coragem de citá-los, mas, à boca miúda, tornaram-se conhecidos como o Esquadrão Leviatã.

Internet e liberdade

15 de fevereiro de 2011 1

Dois acontecimentos políticos recentes e de grande envergadura nos levam a algumas reflexões sobre a função dos meios de comunicação na contemporaneidade. Primeiro: no fim do ano passado, um site chamado WikiLeaks divulgou informações restritas ao governo americano, ocasionando um mal-estar didático a inúmeros governos mundo afora. Segundo: semana passada, depois de dezoito dias de protestos organizados pelo Twitter e pelo Facebook, o ditador egípcio Hosni Mubarak viu-se forçado a entregar o cargo e deixar o país.

Em ambos os casos, vale frisar, o papel da internet e das redes sociais foi decisivo para o rumo dos fatos. Não fosse a velocidade de comunicação oferecida por todo um planeta conectado a uma única rede, é possível que os objetivos do WikiLeaks tivessem sido barrados por agentes “controladores de informações”. Com mais clareza e certeza, pode-se dizer o mesmo do Egito. A truculência de ditadores como Mubarak só encontrou um adversário à altura com o advento da internet.

Uma vez que o desenvolvimento tecnológico possibilita mais e mais acesso à informação, esse pode ser o grande mérito do capitalismo na época atual. A cada novo lançamento da Apple e a cada novo fenômeno da internet, fica mais difícil viabilizar a censura. A esse respeito, gosto de fazer cogitações sobre as ditaduras que assolaram a América Latina a partir dos anos 1960. Se naquela época houvesse internet, seria ridícula – porque inútil – a existência da censura sobre jornais ou produtos culturais como filmes, músicas e livros.

Por que essas mesmas ditaduras começaram a abrandar ou até mesmo desaparecer no princípio dos anos 1980? Por duas razões. Primeira: com o auxílio da tortura e da supressão das liberdades individuais, os movimentos socialistas – pacíficos ou guerrilheiros – já estavam todos aniquilados. Segundo e mais importante para o nosso tema: o excesso de informação comercial e alienante que chegava aos lares através da TV tornou desnecessário o empenho dos censores. Numa realidade em que todos podem falar à vontade, poucos se darão ao trabalho de ouvir a barafunda de ideias – sempre confusas e embaralhadas – destinadas a construir um “mundo melhor”.

A princípio temida pelos puristas, a internet deu um jeito de mudar a situação de conformismo acima descrita. Na web somos consumidores de informação, mas também produtores, e essa é a grande diferença. Julian Assange, do WikiLeaks, foi canonizado por isso, e também por isso, Hosni Mubarak acaba de descer aos infernos.