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Posts de março 2011

Pobres animais (2)

31 de março de 2011 6

Ontem gastei o espaço da coluna relembrando a Guerra do Golfo, estranho conflito militar em que, segundo a cobertura da CNN, faltavam os cadáveres sobre os quais a classe média mundial — ingênua e influenciável — poderia derramar suas lágrimas e fortalecer seu senso de humanidade.

Felizmente, para a salvação da audiência e do nosso desejo de apontar o dedo para a ignorância humana, jornalistas impedidos de visitar o front filmaram a agonia das aves marítimas que morriam por causa dos vazamentos de petróleo. Se há vítimas na guerra, então recuperamos o nosso direito à indignação. Pronto, resolvido.

É óbvio que as sociedades protetoras de animais já atuavam antes da Guerra do Golfo, mas o episódio das aves marítimas, oriundo de um contexto visceralmente político, pode ser considerado um divisor de águas. A partir de então, sob o pretexto de proteger uma fauna ameaçada por nossos costumes antropocêntricos, os defensores dos animais perderam os últimos pudores de relegar os seres humanos a segundo plano.

E tanto melhor se esses seres humanos forem colonos que põem à prova o vigor dos seus animais (animais que, diga-se já, são cotidianamente usados para puxar arados ou arrastar toras por terrenos inacessíveis aos tratores). Não estou necessariamente defendendo as puxadas, mas só lembrando que, antes de condenar seus promotores, poderíamos tentar conhecê-los e entendê-los melhor. Se, porém, estamos em busca de vilões, essa tarefa será impossível.

Quanto aos que protestam contra as puxadas, seja por passeatas ou cartinhas enviadas ao Santa, reconheço que, herdeiros dessa classe ingênua e influenciável que chorou pelas aves marítimas, formam um grupo caracterizado pela melhor das intenções.

Justamente por isso, são também propensos ao radicalismo e ao autoritarismo. Quando protestam e tentam se diferenciar dos “maus”, estão em busca da própria salvação, isto é, procuram ressignificar um mundo que lhes parece carente de sentido. Para tanto, de novo sob o pretexto de “praticar o bem”, exigem que todos se comportem conforme as suas regras, suprimindo a individualidade das comunidades periféricas e vociferando para que a vida se padronize cada vez mais.

De resto, assim que as leis suprimirem sua utilidade, os cavalos serão destinados aos frigoríficos.

Pobres animais (1)

30 de março de 2011 2

No princípio dos anos 1990, quando uma coalização de países ocidentais comandada pelos Estados Unidos expulsou as tropas de Saddam Russein do Kuwait, mais de 100 mil soldados iraquianos perderam a vida (ainda que controversas, as baixas civis também foram numerosas).

Obviamente motivada pela disputa dos poços de petróleo da região, essa movimentação carniceira ficou conhecida como Guerra do Golfo, ou, para os cínicos, Guerra do Vídeo Game, já que, ao contrário do que ocorreu no Vietnã, não pudemos assistir ao sofrimento das vítimas, fossem dos inimigos iraquianos ou dos aliados americanos.

O máximo que chegava aos nossos olhos eram imagens captadas por câmeras instaladas nos mísseis “inteligentes”. Teleguiados por computador, era como se fossem capazes de acertar apenas os alvos militares, nunca as escolas, os hospitais e os bairros residenciais das cidades iraquianas.

Diante das reportagens produzidas pela CNN, a classe média mundial ficou à beira do desespero: havia uma guerra, que coisa horrível, mas faltavam os cadáveres que completariam a indignação do mundo civilizado contra os nefastos interesses do capitalismo petrolífero.

Essa carência, entretanto, foi rapidamente suprida pelos jornalistas que, impedidos de transitar no front e acompanhar a guerra real, resolveram filmar a agonia das aves marítimas que morriam por causa das manchas de óleo espalhadas sobre o oceano. Foi um alívio planetário. Os telespectadores tiveram por quem chorar, e isso representou a salvação da guerra.

— Agora as coisas ficaram claras — pudemos dizer a nós mesmos. — Somos do bem. E eles, que matam os pobres animaizinhos, são do mal.

De lá para cá, lutar pela salvação dos bichinhos — e não dos seres humanos, que não têm jeito mesmo — tornou-se a primeira regra das cartilhas politicamente corretas. Como mostrou a Guerra do Vídeo Game, é muito mais cômodo mobilizar nossos sentimentos em prol dos animais e não dos seres humanos.

Acertou quem imagina que estou tentando pular do Golfo Pérsico para as Puxadas de Pomerode, o que só farei amanhã. Por quê? Além de ser um salto grande e complexo, meu espaço acaba de chegar ao fim.

O Pedante Extraordinário

29 de março de 2011 1

Não é fácil encontrar palavras para definir o Pedante Extraordinário. Para começar, não devemos confundi-lo com o simples Pedante Ordinário, que é menos nocivo porque pensa que de fato sabe o que está falando. O Pedante Extraordinário sabe que não sabe tudo mas não sabe que os outros sabem que ele não sabe nada. Bem, é mais ou menos por aí.

Todo mundo conhece pelo menos um Pedante Extraordinário. Duvida? Então pense um pouco e veja como é fácil identificá-lo. Apesar de sua discrição planejada, o Pedante Extraordinário (PE daqui pra frente) costuma exibir um nada discreto ar de superioridade. Vive citando, mas suas citações não têm propósito e fazem pouco sentido porque o PE está com o ego ocupado demais para se preocupar com propósitos e sentidos. A ele basta que as palavras tenham aquele impacto dramático comum às grandes sentenças — “O inferno são os outros”, “Deus está morto”, “A religião é o ópio do povo” — e pouco importa se essas sentenças estiverem desgastadas pelas bocas de outros PEs.

Além disso, o PE é fissurado por nomes esquisitos. Afora Sartre, Nietzsche e Marx, adora citar filósofos com nomes espetaculosos que por si já impõem respeito. Sugiro aos PEs que deem uma olhada na onomástica dos pré-socráticos. Começar uma sentença invocando Filolau de Crotona ou Anaxágoras de Clazômenas fará qualquer um acreditar em todas as bobagens que virão a seguir.

Como se livrar de um PE? Isso não é fácil, e vale lembrar que uma estratégia mal elaborada pode piorar o quadro do desastre. Muitas pessoas já tentaram sabotar o papo cabeça do PE confessando que preferiam Caras a Caros Amigos, Paulo Coelho a José Saramago, James Cameron a Jean Luc-Godard. E, ansiosos pelo tiro de misericórdia, completavam com um entusiasmado comentário sobre a nova turnê do Restart no Brasil.

Que lástima! Apenas um falso PE ficaria abalado com esse chega-pra-lá mundano. O verdadeiro PE se alimentará de sua confissão, e o papo cabeça prosseguirá por várias e intermináveis horas, repleto de citações e frases de efeito duvidoso.

Um PE só pode ser derrotado por outro PE. Seja você o justiceiro. Quando a conversa dele estiver insuportável, interrompa sem muita cerimônia e diga a palavra mortal:

— Discordo.

Você sentirá uma certa tensão ao redor da mesa. A turma sabe que o PE fica louco quando é interrompido e mais louco ainda quando encontra uma voz discordante. Como já vimos, entretanto, o PE, frio e calculista, não costuma descer das tamancas tão facilmente. Levantará as sobrancelhas e fará um muxoxo de superioridade:

— Com base em QUEM você discorda de mim?

— Ora em quem! Em Genaro Metastásio, quem mais?

Você perceberá um certo desconcerto nos olhos do PE. Não hesite. É a deixa que você precisava para entrar de sola:

— Genaro Metastásio, pô! Vai me dizer que nunca leu Genaro Metastásio.

— Claro que li, como não? Tem um texto mais ou menos, mas o conteúdo é um pouco superficial para o meu gosto.

— Tem certeza de que leu?

— Tenho, sim, faz alguns anos.

— Pois eu nunca li. Genaro Metastásio nunca escreveu nada. É o caseiro da minha mãe.

Devo dizer que um PE desmascarado e diante de gargalhadas de escárnio é capaz de tudo. Sim, sim, ele pulará no seu pescoço. Corra. A menos que queira detê-lo citando Gandhi…

Achismo

28 de março de 2011 0

Por e-mails ou palavras diretas, por insinuações ou olhares enviesados, muita gente – que “se acha”, rebato de entrada a acusação – dá a entender que eu, pobre Maicon, pobre e mal remunerado cronista desta página, pobre filho e neto de camponeses do Vale, sou um sujeito que sofre de achismo.

Está claro que não me refiro ao achismo bobo-alegre da imperícia científica, de quem diz “acho que o céu é azul” ou “acho que devemos lutar pelo futuro do Brasil”, mas ao achismo da vaidade e da jactância, mais ou menos o mesmo tipo de achismo que possuem as pessoas que me acusam desse mal.

Agora, se me acho achista ou não, bem, acho que não me acho, não. Só quem se acha é capaz de achar o achismo dos outros. Eita! Como não resisti a essa última frase, espécie de dedo que aponto para mim mesmo, fico encurralado e obrigado a admitir que, assim como meus acusadores, eu, que hoje comecei pela divertida prática da acusação, provavelmente me acho, e me acho muito.

Tá bom, tá bom, vai aqui uma última tentativa de defesa: como sempre são os outros que primeiro acham que me acho, só depois disso achei que seria bom achar o achismo desses outros, já que, pelo jeito, todo mundo se acha mesmo, especialmente os que fingem não se achar. (Não sei se alguém entendeu o raciocínio, mas é mais ou menos por aí).

De qualquer maneira, tudo que você leu até agora é apenas o preâmbulo da “tese” que hoje pretendo explanar. Lá vai: as pessoas nunca se acharam tanto quanto nos dias de hoje. Homens, mulheres, ricos, pobres, todos de repente passaram a se achar a quintessência deífica do universo, o umbigo do planeta, o centro de todas as atenções, ou, como costuma dizer o vulgo, a última bolacha do pacote ou a última coca-cola do deserto.

Se os homens se acham porque esta é uma característica típica do gênero, as mulheres se acham porque se acham autorizadas a se achar diante do achismo dos homens. Já os ricos, estes se acham porque acham que possuem algo com que se achar. Quanto aos pobres, coitados, insistem em se achar justamente por acharem – e com razão – que o único achismo de que podem usufruir é a própria capacidade de se achar.

Sendo assim, se todos se acham, pergunto por que me acusam de me achar como se isso fosse o pior dos crimes humanos. Minha mensagem não segue aos detratores por e-mail, nem por insinuações, muito menos por olhares enviesados. É simples e direta: os achões aí que deem um jeito de se achar antes das acusações. Acho que é isso, sei lá.

Bentinho era Gay

25 de março de 2011 0

Quem sabe um dia, quando largar esta maldita coluna e tiver mais tempo para me dedicar à leitura dos clássicos, poderei realizar um estudo sobre um dos enigmas mais repisados de toda a literatura brasileira, presente em Dom Casmurro, romance que Machado de Assis publicou em 1899: Capitu realmente traiu Bentinho com Escobar? Segue uma prévia de certas suposições que merecem aprofundamento.

Em primeiro lugar, não podemos esquecer o importante fato de que a narrativa se dá na primeira pessoa (eu). Já que o velho Bentinho (o tal Dom Casmurro do título, narrador memorialista) demora-se em demonstrar suas propensões ao delírio e ao exagero, as certezas do adultério não se sustentam até a última página.

Ainda que as primeiras interpretações do livro – conservadoras como a época que as gerou – insistam em ver Bentinho como o marido-lacaio de uma Capitu malvada e sem escrúpulos, Dom Casmurro exige que seus leitores quebrem a cabeça para atar os fios soltos da trama. Eis uma obra aberta por excelência.

Por volta de 1950 começaram a surgir leituras mais criativas do romance. Agora Capitu era uma vítima dos ciúmes doentios de Bentinho, cujo nome completo, Bento de Albuquerque SantIAGO, fazia referência direta ao personagem de Shakespeare que soprou no ouvido de Otelo a infidelidade da pobre Desdêmona (que morreu inocente, coitada).

Depois vieram os críticos do “deixa-disso”. Dom Casmurro não é a Revista Caras, diziam. Estudar e entender a estrutura ambígua sobre a qual o romance se compõe é mais importante que listar argumentos a favor ou contra o adultério de Capitu. Ou seja, propunham uma leitura asséptica, acadêmica e sem graça.

Felizmente, fomos salvos desse marasmo por sujeitos como Millôr Fernandes. Em polêmico artigo publicado há – sei lá, quatro, cinco anos -, o humorista prova por a mais bê que o problema não era entre Bentinho e Capitu, mas entre Bentinho e Escobar. Sim, sim, é possível que Dom Casmurro seja um dos primeiros romances gay da literatura brasileira!

Senão, vejamos:

“A alma da gente, como sabes, é uma casa com janelas para todos os lados (…) Não sei o que era a minha. Mas como as portas não tinham chaves nem fechaduras, bastava empurrá-las e Escobar empurrou-as e entrou. Cá o achei dentro, cá ficou…”

Uma leitura atenta encontrará outra centena de fragmentos como o que acabei de citar. Como nos ensina Ítalo Calvino, um verdadeiro clássico nunca esgota as suas possibilidades de interpretação.

Zangief Kid

24 de março de 2011 3

Espero que todos tenham visto o vídeo do Zangief Kid, o novo herói da garotada. São imagens incrivelmente educativas.

Nos corredores do Chifley College, uma escola pública de Sidney, Austrália, um garoto chamado Richard Gale, de 12 anos, começa a bancar o valentão para cima de Casey Heynes (15 ou 16 anos, dependendo da fonte). No princípio da cena, somos confrontados com uma pergunta inevitável: como é que um merdinha como Richard, frágil em sua magreza anêmica, teve coragem de provocar um gigante monstruoso como Casey?

A resposta vale por todo um tratado de obviedade: é que Casey não reage. Alvo fácil para a avacalhação dos colegas, sente medo porque está sozinho e sabe que ninguém levantará um dedo para ajudá-lo. Tanto isso é verdade que, mesmo depois de Richard acertar um soco na sua cara, Casey continua parado, dando tempo para que o “bullie” prossiga com o espetáculo de ignorância.

Mas eis que, de repente, com a fúria de mil tornados, Casey se atira sobre o pobre Richard, aprisiona-o com suas manoplas de rinoceronte, levanta-o até as estrelas e, com um giro de quadril digno de um antigo lutador de telecath, faz o oponente se esborrachar contra o piso de concreto. JUSTIÇA é a palavra invisível que paira sobre a cena.

Como se sabe, o vídeo foi parar na internet, Casey Heynes tornou-se o notório Zangief Kid e todo mundo reiniciou as discussões sobre a antiga e nefasta prática do bullying. É perigoso afirmar que às vezes a violência é necessária, mas no caso de Casey ela foi. Não falo do simples prazer da desforra, mas da situação em que o moleque vivia antes de se decidir – ou de ser decidido pelas circunstâncias – a se guiar pela máxima do “olho por olho, dente por dente”.

Achincalhado desde os 8 anos por ser gordinho e solitário, houve momentos em que Casey cogitou a possibilidade de se suicidar. As amizades, os professores, as leis, a civilização, ninguém poderia ajudá-lo a sair do inferno em que vivia. Nem mesmo seus pais, já que as vítimas de bullying dificilmente têm coragem de relatar as humilhações em casa.

Portanto, o “balãozinho” que Casey aplicou no valentão foi um santo remédio, e para ambos, já que o outro moleque, depois do cagaço, vai pensar dez vezes antes de bancar o bom pra cima dos colegas. Mexe com quem tá quieto, mexe!

O enterro da prostituta

23 de março de 2011 0

Volto a expor os fatos e as diatribes que envolveram o tão discutido enterro de Jacintinha Gaúcha. Claro que estou falando de Freijó — a bela e distante, salve-salve! — e de uma época em que só havia TV na casa da vizinha (com apenas dois canais, diga-se já, sendo que um deles só chiava e chuviscava).

Mal tomei sabência do óbito, convoquei Jacozinho Mamica e o cego Jack’s Cabeleira (que tocava gaita como o diabo toca fogo no inferno) e enfiamos pela Mata do Mingauzinho até chegarmos ao bem escondido e hospitaleiro OTÉU DAS MININA AÇANHADA. Na época não tínhamos mais do que 17 anos cada.

Lá estava a Jacintinha, num caixão, no meio da sala, morta da silva. Alguém se lembrou de desenroscar a lâmpada vermelha, de modo que o ambiente ficou às claras, menos libertino e mais mortuário. Em vez de xote e rancheira, só pude ouvir o terço bem puxado pelas outras quatro da casa — Michelle, Ariana, Azaleia e Jaciara — todas equipadas de véu e rosário. Do resto do povo masculino que frequentava os colchões do estabelecimento, não vi mais ninguém.

Depois do sinal da cruz e de torcer a boca num muxoxo triste, passamos a noite bebendo à defunta. E o problema, a grande razão de ser desta história, nos atingiu com o primeiro raio de sol: quem carregaria o caixão até a igreja?

— Nós, né? — disse o valente Jacozinho. — Quem mais?

— Sai fora! — estremeci. — A minha mãe vai me matar.

— E a minha também — emendou o Cabeleira.

Mas o Mamica bateu o pé, usou e abusou da palavra “covardes”, parecia decidido a transformar o enterro da prostituta num desabrido ato de protesto.

— Protesto contra o quê, pô?!

— Ora, contra o quê! — Ele pensou um pouco: — Contra a ingratidão, né? A ingratidão de Freijó em relação a tão nobre profissional, uma mulher que seguramente cumpriu seu papel na formação da cidadania local…

Por fim aceitamos o abacaxi, cada qual com sua alça, e conduzimos o esquife pela única rua do vilarejo. Desnecessário descrever o escândalo.

O pior, no entanto, aconteceu quando chegamos ao pátio da igreja. Uma certa Dona Iolina, armada de Bíblia e guarda-chuva, resolveu barrar a entrada da meretriz (que foi como ela chamou a Jacintinha) na Morada do Pai.

— Para trás, pecadores! — gritou a viborosa senhora. — Se persistirdes em profanar o tabernáculo do Senhor, castigarei todos vós com a fúria da minha sombrinha, a clava da justiça, o cajado de Deus!

Foi nesse instante que Jaciara, a menos “açanhada” das “minina”, deu um passo à frente e peitou a apoplética Dona Iolina. Não me atreverei a escrever onde a moça mandou a velha enfiar a sombrinha, ou cajado, ou seja lá o que fosse aquela clava de justiça. Como se tudo fosse nada, Jaciara ainda deu de dedo na plateia, que a essa altura aglomerava toda a população local, e elencou os solteiros e especialmente os casados que costumavam deixar seus tostões no “otéu”. Tabefes espocaram aqui e acolá. De repente me vi em meio a uma batalha campal que só terminou com a chegada e o bom senso de Frei Abel.

Para a tragédia de Iolina e das outras beatas, o velho sacerdote ordenou que as portas da igreja fossem abertas à pobre — prostituta? Não, à pobre “filha de Deus”.

Das consequências do episódio, tratarei em momento mais propício. Por ora sugiro um romance chamado O Filho do Feliciano, que leva a mesma assinatura desta página, publicado pela EdUFSC no ano 2000. Lá a totalidade da trama, em todos os seus sucessos e percalços, e com as mesmas garantias aqui firmadas: tudo aconteceu de verdade verdadeira, sem censuras ou exageros. Como ator e testemunha dos fatos, aqui empenho minha palavra. E dou fé.

Continho

23 de março de 2011 0

Ontem, no obituário de um jornal do interior, li sobre a boa passagem de Dona Iraceminha do Perimbó, a quem tive a oportunidade de conhecer na minha terra natal, além, muito além daquelas grotas onde canta o quero-quero nas reboleiras de mata-pasto.

Dona Iraceminha era a simplicidade em forma de gente. Muito tempo trabalhou com minha avó, lavava roupa e cozinhava para o pessoal do eito. Todo dia isso fazia, gostava, desde mal em sua mocidade.

Teve três maridos. O primeiro morreu de velhice antes dos trinta. O segundo, de emboscada antes dos vinte. E o terceiro, que não quis morrer de fome um pouco por dia, abriu o pala (pessoa sarada!) e azulou para o sertão.

Mas Dona Iraceminha era, antes de tudo, uma forte. Nos pequenos, dava de prancha; nos grandes, de talho! Na época do segundo esposo, quando engravidou pela décima segunda vez, foi chamada num particular com minha avó:

— Deus esteja, Iraceminha! Você precisa tomar comprimidos.

— Comprimidos?

— Leva essa cartelinha pra casa e tome um a cada dia. Isso vai lhe fazer um bem danado.

Porém, porém. Nem mal parira a dúzia, Dona Iraceminha engravidou do décimo terceiro.

— Mas quê! — exclamou minha avó. — Eu não disse pra você tomar os comprimidos?

— Tomei, Dona Maia, e foram tão bons que comecei a dar eles pro meu Colebra também. Depois dei pros meninos e pro pessoal lá em roda de casa. Tá todo mundo com uma saúde, Dona Maia… Dá até gosto de ver.

O problema não foi resolvido nem quando Colebra, o segundo marido, morreu, e nem quando Riômulo Raiub, o terceiro, abanou o balandrau. Dona Iraceminha só parou de ter filhos com a chegada do anticoncepcional mais eficiente de todos os tempos: a televisão. Ela nunca perdia o Jornal Nacional e um dia me deu uns cascudos quando não respondi ao “boa noite” do Cid Moreira.

— Menino levado! — disse ela. — Por que não cumprimenta as pessoas? Assim o homem da TV vai pensar que você é arrogante.

Desde que meu pai me disse a frase mais profunda da minha vida (“Cai fora!”), não voltei a ver Dona Iraceminha do Perimbó. Só li o seu nome, ontem, no obituário do jornal.

O quero-quero, que ainda pia na entranha do mata-pasto, logo esquecerá o belo nome daquela senhora. Tudo passa sobre a terra.

O poder da nudez

22 de março de 2011 0

Mas então falaram — falamos — daquele pobre policial que, no meio de uma estafa psicológica, desfez-se da arma e da farda diante de uma câmera de TV. Muitos leitores concordarão que a cena em si não foi exatamente extraordinária — o que mais existe por aí é gente perdendo o controle —, mas o fato de ter sido filmada conferiu-lhe dimensões de escândalo circense.

Também não devemos esquecer, é claro, a nudez pouco amistosa do oficial, um dado a chamar atenção sobre seu estado de espírito e suas deploráveis condições de trabalho. Se ele tivesse mantido as vestes e apenas xingado o interlocutor — não recebo esse salário de m… para ouvir desaforo de f… da p… — é possível que não estaríamos falando do caso quase uma semana depois.

É que a nudez tem poder. Não pretendo justificar as atitudes do policial, principalmente a de oferecer a arma a um menor de idade, mas quando ele tirou a roupa e mandou que filmassem o desacato, estava dizendo mais ou menos o seguinte:

— Se sou um homem como outro qualquer, por que preciso manter o equilíbrio num mundo de desequilibrados? Por que preciso ser responsável no reino da irresponsabilidade, a começar pela dos meus superiores, que conhecem a minha loucura e mesmo assim me deixam nas ruas?

Graças ao “protesto”, uma série de especialistas teve oportunidade de, mais uma vez, puxar a orelha dos governantes sobre as barbaridades que ocorrem no âmbito da segurança pública. Se as coisas vão se resolver ou não, isso só Deus sabe, mas ninguém pode negar que agora a comunidade está mais “antenada” para a abrangência do problema.

Daí podemos depreender que o melhor protesto é tirar a roupa mesmo, de preferência com alguma organização. Assim as atenções da mídia serão canalizadas de tal modo que, por sua vez, poderão também canalizar a atenção dos governantes. Em vez de se esfalfarem em greves infrutíferas, por que os professores não manifestam suas insatisfações numa passeata nudista?

O mesmo se pode dizer aos médicos e demais profissionais que atendem pelo SUS. Aos motoristas de ônibus, recomendo expediente semelhante: pra que parar os carros e a vida de toda uma cidade quando seria mais falso parar de se vestir? Garanto que o escândalo atingiria proporções mundiais, e isso multiplicaria as chances de que as reivindicações fossem atendidas.

Para terminar, devo dizer que falo sério, não estou de brincadeira. Embora ninguém possa verificar a veracidade das minhas palavras, informo que, como estímulo a ideia revolucionária, hoje escrevi pelado.

Clônica

21 de março de 2011 0

Outlo dia a plofessola pediu pla gente fazer uma ledação soble os 100 anos da molte do Machado de Assis.

Na veldade eu já tô de saco cheio dessa histólia polque todo mundo já falou ou escleveu algo soble o…

Ei, tá lindo do que, hein?! Do meu jeito de falar? Pois saiba que eu falo bem dileitinho, duvida? Olha só: o lato loeu a loupa do lei de Loma, o lei de Loma se enlaivou e loeu o lesto.

Viu? Agola vê se limpa esse soliso bobo da cala e plesta atenção que, em vez de esclever soble os 100 anos do Machado, plefeli falar soble a nossa tulminha.

Muita gente pensa que o Maulício de Sousa, que cliou os pelsonagens mais famosos dos quadlinhos blasileilos, semple foi desenhista, mas ele começou mesmo como jolnalista policial.

Depois inventou dois pelsonagens bem legais, o Bidu e o Flanjinha, e lançou-os numa sélie de tilinhas publicadas no jolnal Folha da Manhã.

Palece inclível, mas foi do desenvolvimento dessas tilinhas que sulgilam, mais talde, todas as levistinhas da Tulma da Mônica.

Quem nunca leu uma que atile a plimeila pedla! O Maulício já foi apelidado de Walt Disney blasileilo, mas nem tudo foi moleza.

No começo, pla distlibuir suas tilinhas entle a nossa implensa, teve que competir com os podelosos sindicatos estlangeilos, inclusive o King “Featules” Syndicate, distlibuidor de pelsonagens tão intelessantes quanto o Hagar ali embaixo desta página.

A plimeila levistinha mensal saiu em 1970, já com a tilagem de 200 mil exemplales.

O Maulício e a sua tulma não palalam mais, clialam novas levistas, desenhos pala o cinema e pala a TV, joguinhos, palques temáticos, uma página bem legal na intelnet e agola, alematando um sucesso nunca visto na indústlia cultulal blasileila, a fase abolescente da Tulminha.

Sulgilam também novos pelsonagens, muitos, a exemplo da Mônica, baseados em filhos do plóplio Maulício, como o Nimbus, a Malina e o Do Contla, ou então em ídolos do espolte, como o Pelezinho e o Lonaldinho Dentuço.

De qualquer folma, os calos-chefes das publicações ainda são a Mônica, semple ablaçada com aquele coelho lidículo, o polquinho do Cascão, que jamais tomalá banho, a Magali, que come come e nunca engolda, o Chico Bento, que fala tudo elado, e eu, natulalmente, que não pleciso de aplesentações.

Ou selá que pleciso?