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Posts de abril 2011

Pobre Kate

29 de abril de 2011 1

Começo a temer pela sanidade mental dessa moça bonita que está prestes a virar princesa. Não que eu queira implicar com uma coisa que nada tem a ver comigo (nem com vocês que estão me lendo), mas a verdade é que a pobrezinha se deixou enredar numa farsa que não tem fundo nem cabimento.

Pra começo de conversa, a Coroa Britânica anunciou que é a primeira vez que um príncipe na linha de sucessão vai se casar com uma plebeia de verdade (a Lady Di, como se sabe, era uma plebeia falsificada). Não sei quanto a vocês, mas quando ouço a palavra “plebeia” dita assim, de modo comparativo, penso logo numa camponesa medieval que não concorda com o hábito do banho diário e possui cáries em todos os dentes que lhe restaram na boca.

Ao reavaliar as fotos de Kate, porém, que agradável conclusão: é bela como uma flor de laranjeira, muito mais apetrechada que qualquer duquesa ou condessa que costume desfilar nos salões de Buckingham. Ainda que seja uma princesa da vida real, passou a ser tratada como alguém de sangue “inferior” — como se ainda estivéssemos no tempo do Absolutismo — apenas para satisfazer as necessidades da Coroa de bajular o populacho.

E o que dizer da forma vergonhosa com que os futuros súditos usam o sorriso dessa moça? Sempre ao lado do noivo, o rostinho de Kate está sendo reproduzido sobre toda e qualquer superfície que suporte uma estampa, de bolos de aniversário a assentos sanitários, de embalagens de absorventes a sacos de vômito. Um encanador de Bristol se deu ao luxo de desembolsar mil libras esterlinas para tatuar William e Kate nos dentes.

— Eu amo a família real — disse ele à imprensa. — Esta é a minha forma de apoiá-los no dia do casamento.

(Graças a declarações como essa, é fácil compreender por que a Rainha Elizabeth aceita e incentiva o circo dos casamentos reais).

Mas o que assusta na história de Kate, da bela e cativante Kate, é que ela está repetindo o destino de Diana. Todos dizem que isso é mentira — inclusive ela, coitada —, mas desconfio que a nova princesa tropeçará nos mesmos obstáculos e cairá nas mesmas armadilhas. As leitoras provavelmente dirão que tamanho esforço protocolar será recompensado pelo privilégio de viver ao lado de William.

Nada digo a esse respeito. Só sei que, hoje em dia, não seria surpresa se mais esse príncipe se transformasse em sapo.

Leituras sensuais

28 de abril de 2011 0

Salvo engano, creio que Roland Barthes foi o primeiro grande teórico a defender o caráter puramente hedonista da leitura, donde o leitor, uma espécie de libertino sem culpa e sem preconceito, estaria autorizado a satisfazer todos os seus desejos e fantasias.

Apesar dessa “novidade” que Barthes nos trouxe nos anos 1960, é antiga a relação que os eruditos estabelecem entre sexo e leitura. Ou vocês acham que é por acaso que a Sherazade d’As Mil e Uma Noites conta suas histórias na cama, antes, depois e, presumo, DURANTE os momentos em que transava com o rei Xeriar?

O próprio ato da leitura, pelo menos em seu formato tradicional de papel, pressupõe uma lubricidade que vai da língua ao dedo e do dedo à página, que se deixa virar lânguida e sensual, sempre pronta a revelar os sabores e as delícias da próxima rima ou da próxima guinada na narrativa.

Deve ser por isso que, como ocorreu com o sexo, a leitura também teve sua Idade Média de masmorras e intolerância, também foi considerada perigosa, também foi censurada e execrada pelas comunidades mais puritanas.

Até hoje, de certa forma, isso continua acontecendo. Cada vez que consideramos um livro inadequado “para a juventude” ou desqualificamos um determinado tipo de literatura – por ser permissiva ou superficial, tanto faz – estamos professando o nosso medo da palavra escrita e, em nome dele, exercendo o nosso poder de censura.

Seja como for, apesar da ação dos hipócritas que povoaram os séculos, hoje estamos aí, sãos e salvos, diante de uma mídia que nos incentiva a ler e fornicar adoidado. Lúbrica e sensual, a leitura certamente funciona como uma metáfora do prazer solitário da masturbação. Quem lê viaja, diz o slogan governamental. É verdade, mas, de vez em quando, quem lê também acaba revirando os olhinhos (do cérebro).

 

***

 

Na última terça-feira, estive em escolas de Laurentino e Rio do Sul para conversar com estudantes do Ensino Médio sobre leitura. Lá pelas tantas, alguém perguntou por que o “discurso erótico” é tão presente nos meus livros. Fiquei pasmo, seja pela qualidade da pergunta ou pela minha falta de percepção sobre o que coloco no papel. Com trejeitos de injustiçado, gastei a paciência dos ouvintes para explicar que não escrevo sobre sexo, nunca fiz isso e, dada a minha ignorância no assunto, provavelmente nunca o farei. Quando concluí que havia convencido a plateia, passei para o próximo tópico e a eles mostrei a capa do meu último livro de contos. Todo mundo começou a rir. Seria por causa do título, algo a ver com night clubs?!

Arca das Letras

27 de abril de 2011 0

Outro dia, ao atender o telefone da editora onde trabalho, ouvi um pedido de doação de livros no mínimo inusitado.

— É para a Arca das Letras — disse a voz no outro lado da linha. — Precisamos de livros para os públicos jovem, adulto e infantil.

Peraí, deixem-me ser mais claro: o pedido de doação não era exatamente inusitado, mas a procedência dele, sim. Como a voz anunciou que representava o governo de Santa Catarina, imediatamente perguntei se se tratava de algum funcionário da Secretaria de Educação.

— Não, não — foi a resposta. — É da Secretaria da Agricultura.

Agricultura? Será que ouvi direito? Sim, ouvi. As campanhas para a difusão do livro e da leitura alcançaram tanta abrangência que já não se restringem às pastas tradicionalmente ligadas à cultura. Essa Arca das Letras, projeto do Governo Federal implementado com o apoio dos estados e dos municípios, tem por objetivo tornar o livro mais acessível às populações agrícolas.

Atualmente, cerca de 1000 pequenas bibliotecas — as tais arcas — encontram-se espalhadas por toda a zona rural de Santa Catarina. Todas começam com um acervo mínimo de 200 títulos, que sempre podem crescer com a ajuda de doações oriundas de editoras, ONGs, Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público, sindicatos e federações de trabalhadores rurais, movimentos sociais e profissionais de inúmeras áreas.

As Arcas são geridas e desenvolvidas com a participação dos moradores de cada localidade. Com o auxílio de agentes de leitura capacitados pelo poder público, as comunidades definem como será a biblioteca, qual o seu local e horários de funcionamento e quais são as áreas temáticas mais pertinentes às necessidades da população local. Quem tiver livros para doar pode entrar em contato com a Delegacia Federal do Ministério do Desenvolvimento Agrário no Estado de Santa Catarina: (48) 3322-3051 ou dfda-sc@mda.gov.br.

Quando eu era criança e estudava numa escolinha multisseriada no interior de Santa Catarina, tinha uma excelente professora, uma sala de aula com poucas goteiras e uma pastagem que servia bem como campinho de futebol. Nada de biblioteca, contudo. Com exceção da cartilha de português e de uma velha Enciclopédia Barsa que ficava trancada no armário, não havia nenhum outro livro pelas redondezas.

Por isso, junto aos títulos da editora em que trabalho, fiz questão de doar também os meus livros. Os bons projetos devem ser apoiados sempre. No dia em que todas as pessoas tiverem acesso aos livros, certamente viveremos num país melhor.

Dúvidas de Páscoa

22 de abril de 2011 2

Quando eu era criança, foi fácil compreender o significado do Natal. Minha vó me explicou que se tratava do aniversário de Jesus e isso foi mais que suficiente. Com o significado da Páscoa, porém, não tive a mesma facilidade.

— Se o Natal é o nascimento, a Páscoa é a morte — dizia ela. — Ou melhor, a ressurreição.

— Ressurreição? O que é isso?

— Jesus morreu e depois voltou do mundo dos mortos.

Há poucos dias passara na TV um filminho infame chamado O Despertar dos Mortos Vivos. É claro que não me deixaram ver a película, mas bastou a chamada na hora da novela para que minha cabeça se enchesse de dúvidas e de minhocas: seria Jesus algum tipo de zumbi que, numa determinada época do ano, deixava o túmulo para atacar os romanos e se empanturrar de cérebros frescos e gordinhos?

— Seu bobo! — afligia-se minha vó. — Jesus morreu (e ressuscitou) para nos salvar.

— Que legal! Nos salvar de quem?

— E eu lá vou saber? Agora deixe de besteira e me ajude a pintar esses ovos.

Quanta complicação. Além dessa história da ressurreição de Jesus, a Páscoa ainda tem esse negócio do coelhinho que traz ovos enfeitados e cheios de amendoins para meninos e meninas que obedecem aos pais e vão bem na escola.

— Ei, Oma, o coelho era amigo de Jesus?

— Claro que não, ora essa.

— Mas por que então ele só aparece na Páscoa? Talvez tenha algo a ver com…

— Talvez, guri, talvez… Vamos voltar ao trabalho.

No dia seguinte, ao ouvir a missa de Páscoa, acho que descobri parte do mistério. Ao descer da cruz, Jesus foi sepultado numa caverna rochosa, que imaginei com a aparência de uma gigantesca toca de coelho, um coelho que provavelmente se chamava José de Arimatheia. Mas a história dos ovos enfeitados… até hoje continua uma incógnita.

Quem sabe, Oma, esteja você onde estiver, eu devesse ter levantado esse tema numa das muitas conversas que tivemos nos anos que se seguiram, inclusive na última, durante um breve almoço no domingo de Páscoa…

O Gaúcho

21 de abril de 2011 0

José de Alencar – refiro-me ao escritor, não ao político que acabou de falecer – foi um dos maiores contadores de histórias que o Brasil conheceu. Morreu em 1877, com apenas 48 anos, depois de publicar 20 romances, 7 peças de teatro, uma antologia de crônicas, uma autobiografia intelectual e centenas – talvez milhares – de artigos na imprensa do seu tempo.

Ainda hoje, seus melhores romances costumam ser indicados para o vestibular. É o caso de Iracema, O Guarani e Senhora. Em contraposição, aqueles que são considerados seus piores romances continuam recebendo apenas uma ou duas linhas de atenção nos manuais. É o caso de O Gaúcho, de 1870, uma saga de vingança ambientada no pampa bravio. (Em 1957, o livro foi filmado por Walter George Durst. Teve o título modificado para Paixão de Gaúcho, mas, sem perder a piada, devo dizer que o filme é fiel ao livro e não possui conotações homoeróticas).

Desde seu lançamento, o livro foi esculhambado pela crítica, injustiça cometida contra o autor e, a meu ver, contra todos os leitores que acabaram se encontrando com a prosa de Alencar. No meu caso, demorei até criar o ânimo necessário para folhear O Gaúcho. “Primeiro os bons”, eu pensava. “Depois dou uma espiada nas obras periféricas”. Perdi um tempo precioso, confesso.

O Gaúcho conta a história de Manuel Canho, menino de 9 anos que jura vingança depois de assistir ao assassinato do pai. Adulto, parte para seu destino, mas antes pede a “bênção” do padrinho Bento Gonçalves e se envolve numa série de rebaldarias durante a Guerra dos Farrapos. Nada mais revelo do entrecho e do final, que não são previsíveis, como se pode depreender da sinopse, mas cheios de “verdade ficcional”. Se é desse jeito, e nesse caso vocês podem acreditar em mim, então por que O Gaúcho foi e é considerado um romance tão ruim?

Como Alencar nunca pôs os pés no Rio Grande, muitos dos críticos de sua época, que eram gaúchos, começaram a dizer que o pampa descrito no livro nada tinha a ver com o pampa da vida real. Os demais críticos, que também não conheciam o sul, fizeram o que todo crítico sem argumentos costuma fazer, que é imitar a opinião dos outros, e assim as virtudes do romance foram ofuscadas por suas imperícias geográficas. Mas O Gaúcho é um grande livro, sim, e vale a pena ser lido.

Quanto à parcialidade dos críticos, ela muda a cada geração. Há alguns anos, quando Chico Buarque publicou Budapeste, foi chamado de gênio – mais uma vez – porque nunca esteve na Hungria!

Celularidades

20 de abril de 2011 2

Lembro que em 2007 o Santa realizou uma série de reportagens ironicamente batizadas de Reality Show do Celular. Meia-dúzia de leitores de ambos os sexos e várias faixas etárias foram convidados a viver uma semana sem o aparelho. Houve comédia, mas também houve drama. Teve uma guria que chegou a chorar ao receber o celular de volta. E a conclusão da série era óbvia: ficamos tão dependentes da tecnologia que, seja no trabalho ou na vida social, nada somos sem essa recém-criada necessidade de comunicação instantânea com o mundo.

Junto à última das reportagens, lembro também que escrevi uma crônica sobre o relacionamento da atual sociedade com os celulares. Cheio de uma empáfia exagerada e brincalhona, afirmei que não teria problema em participar do tal reality show promovido pelo Santa. O motivo é simples: nunca me acostumei a carregar porcarias no bolso. Por duas vezes, daquela época para cá, tentei me render às hordas da telefonia móvel, sendo que na primeira, se bem recordo, anunciei aqui a minha capitulação. Mesmo com isso, o fracasso foi retumbante. Numa das vezes, atirei o celular no rio. Na outra, dei um jeito de quebrá-lo contra a parede.

Acusam-me de que não quero ser encontrado – e sei que já perdi oportunidades profissionais por estar fora do alcance -, mas a verdade é que, com a força de todos os meus preconceitos, prefiro me repetir numa frase a ocupar o meu bolso com porcarias. A visão que tenho dos celulares ainda remonta ao princípio dos tempos, isto é, à época em que o FHC privatizou a telefonia brasileira (por isso é tão engraçado ver os petistas usando seus smart phones para xingar o capitalismo neoliberal).

Naquele período obscuro, por ser caro e espalhafatoso, o celular era coisa de gente entojada e metida à besta. Quem queria aparecer não precisava mais amarrar uma melancia no pescoço, bastava pendurar um tijolão daqueles na cintura. Talvez por isso, corria boca a boca uma série de historietas sobre blumenauenses querendo fazer média com o aparelho. Por exemplo: sujeito estava dirigindo e conversando ao celular ao mesmo tempo; barrado pela polícia, confessou que não era celular, mas o controle remoto da TV (foi multado do mesmo jeito, é claro).

Ainda que o status e o simbolismo dos celulares tenham evoluído com seus componentes tecnológicos, continuo na mesma, vendo tudo com olhos de 1990. O jeito é recorrer aos telefones públicos – a fim de ligar a cobrar para quem usa celular – mesmo assim é difícil porque quase todos os orelhões estão danificados. Às vezes me sinto num beco sem saída, mas sei que há outros da minha estirpe. Continuaremos resistindo. Não sei por quanto tempo, mas continuaremos.

Uma biblioteca

19 de abril de 2011 1

Subi as escadas devagar, cruzei a porta, troquei minha bolsa por uma senha no balcão do guarda-volumes, venci a inclinação de uma pequena rampa e dei de cara com uma moça que usava um par de grossíssimos óculos de grau. Parecia ser a responsável por orientar os perdidos e os ressabiados que, como eu, faziam seu primeiro passeio pelo templo. Templo de livros, antecipo e descomplico.

— Vocês têm um livro chamado A morte e a morte de Quincas Berro d’Água?

— É possível. Sabe o nome do autor?

— Jorge Amado.

— Venha comigo, por gentileza.

Ela se posicionou diante do primeiro dos inúmeros arquivos de ferro que havia no local. Abriu uma gaveta — não sem dificuldade, pois não me deu chance de ajudá-la — e começou a mexer nas pastas organizadas em ordem alfabética. De uma delas, tirou uma pequena ficha datilografada. Copiou as informações numa folhinha de rascunho e, antes de me conduzir pela segunda rampa e localizar o livro entre as estantes do acervo, tratou de devolver a ficha ao seu lugar de origem. Tudo ela fez com cuidado, correção e — eu diria — uma aura de religiosidade.

— Pronto — disse ela, mostrando-me uma antiga edição do Quincas. — Tem carteirinha?

— Ainda não.

— É fácil fazer. Com carteirinha, pode levar o livro pra casa. Sem carteirinha, pode lê-lo aqui mesmo.

Não sei quanto tempo fiquei ali, mas foram horas. Lembro que li todo o Quincas de uma sentada. O livro não é grosso e, ademais, eu não tinha nada melhor para fazer no momento. Quando desci a rampa, a moça dos grossíssimos óculos de grau ainda estava lá. Sorriu ao meu ver passar. Também sorri, meio tímido, meio desajeitado, em sinal de agradecimento.

 

***

 

A cena acima — a primeira das muitas tardes que passei na Biblioteca da FURB — aconteceu em agosto de 1994. Muita coisa mudou desde então. Não há mais arquivos de ferro, muito menos fichinhas datilografadas. Faz tempo que podemos consultar o acervo pela internet. De lá para cá, a biblioteca também cresceu em tamanho. Hoje, aos 43 anos de idade, ocupa o dobro do espaço que ocupava até poucos anos atrás. Por comparação, é agora uma senhora madura, que já não usa óculos de grau, mas lentes de contato. Continua prestativa, cuidadosa, correta, com sua aura de religiosidade, sempre sorrindo aos amantes da leitura. Também continuo sorrindo, tímido, desajeitado, mas imensamente grato.

Exercício de picaretagem

18 de abril de 2011 0

Recentemente, no jornal literário Rascunho, li uma resenha do escritor e jornalista José Roberto Torero sobre o romance A Verdadeira Vida de Sebastian Knight, de Vladimir Nabokov (autor de Lolita). Interessei-me pela resenha porque, no ano passado, assim que a nova tradução da obra foi lançada no Brasil, fui até a livraria mais próxima e adquiri meu exemplar.

A resenha de Torero, como quase tudo que escreve, é dinâmica e criativa, clareando muitos aspectos da obra, da vida e do estilo do autor. Começa com a seguinte afirmação: “Há poucos mestres incontestáveis na literatura mundial, daqueles para os quais todos tirariam o chapéu no programa do Raul Gil, mas certamente um deles é Vladimir Nabokov etc., etc.”

Em dada altura, Torero cita um longo trecho do romance e, para concluir com chave de ouro (mas concluir como, se a resenha se encontra pela metade?), especula sobre o que é verdade e o que é mentira na biografia fictícia de Sebastian Knight. Você já está começando a suspeitar que existe alguma coisa estranha por trás da resenha quando, numa guinada típica de romance policial, Torero tira a máscara e ri na cara do leitor:

- A tênue linha que separa a verdade e a mentira é mesmo uma interessante questão, ainda mais no caso desta crítica, pois eu não li A Verdadeira Vida de Sebastian Knight (…) Apenas passei os olhos pelas sete primeiras páginas e pelas cinco últimas páginas do livro, assim como fazem muitos resenhistas da imprensa.

Na sequência, para continuar com as gargalhadas, mas também para dar um tom didático ao seu “exercício de picaretagem”, Torero lista sete conselhos para escrever uma resenha sem ler o livro, que na verdade são oito: 1) recorra ao São Google e conte várias curiosidades sobre o autor e a obra; 2) faça um resumo do livro com a ajuda do release enviado pela editora; 3) faça comparações com outros livros do autor; 4) coloque algo que pareça uma teoria profunda. Não precisa ser, basta parecer; 5) roube ideias de outras resenhas; 6) cite um trecho do livro; 7) repita o senso comum sobre o autor; 8) conte a biografia do autor, mesmo que ela não interesse ao livro em questão.

Pouco tempo, pouco espaço e pouco pagamento são as razões que Torero apresenta para a existência da prática entre nós. Seja como for, o usuário aqui da coluna sabe que de vez em quando escrevo sobre livros, especialmente romances. Agora, se realmente li todos os livros sobre os quais dissertei, ou se apenas enrolei como costumam fazer “os resenhistas da imprensa”, é uma questão que prefiro deixar em aberto.

Maiquinho-paz-e-amor

15 de abril de 2011 2

Mal toco a caneta no papel – sim, ainda escrevo a mão – e sinto que esta será mais uma daquelas crônicas do gênero “maiquinho-paz-e-amor”.

Quem acompanha a coluna deve estar se perguntando que diabos aconteceu ao cronista, especialmente nos dois dias anteriores. Onde o sarcasmo, as piadinhas de gosto duvidoso, as críticas furibundas à sociedade blumenauense e à mais emblemática das suas criaturas, o Blumenauense Fundamental?

Os hotéis explodem, o trânsito se derrama em desorganização, a nossa Câmara continua na insofismável lenga-lenga de sempre, e o Maicon nada, nem aí para o basquete, parece até que vive numa altiva e perfumada torre de marfim. Ontem e anteontem, pôs-se a tagarelar sobre “esperança”, vê se tem cabimento, já não temos padres e pastores o suficiente?, já não temos gurus da autoajuda saindo pelo ladrão?, não é para isso que o jornal paga salário àquele vagabundo.

Diante disso, eu, Maicon Tenfen, humilde servo de todos vocês, só posso dizer em minha defesa que, pelo menos nos últimos dias, o meu reservatório de bílis negra secou. Depois de três anos e meio escrevendo com as tintas do fígado, já era tempo de verificar se possuía alguma coisa no coração.

Portanto, meus queridos leitores, deixem de lado esse espanto abobalhado – a mais transversa das implicâncias – e permitam que eu exercite o pouco que me resta de parcimônia e tranquilidade. Mas também tem outra: quem não quiser ler a coluna até o fim pode largar o jornal e ir direto para o quinto dos infernos (digo isso, claro, só para não perder o costume).

Pois muito bem. Depois de toda essa conversa fiada que os manuais de jornalismo chamam de “nariz de cera” e os professores de português chamam de “encher linguiça”, está na hora de dizer de uma vez a que vim no dia de hoje. Lá vai: pretendo falar sobre a importância da rotina na vida das pessoas. Sim, da rotina, nem mais nem menos.

O que seria de nós sem a rotina? O que seria de nós sem a possibilidade de chegarmos ao restaurante ou ao cafezinho da esquina e ouvir do garçom, “o de sempre, senhor?”, para simplesmente respondermos, com o sorriso paisagístico dos bem-vindos e enraizados, “sim, sim, meu velho, o de sempre!”?

Tem muita gente à-toa dizendo por aí que a rotina é o veneno do nosso dia a dia e, por isso, devemos nos livrar dela. Nada mais equivocado. A não ser, é claro, quando a gente apenas finge que se livra da rotina. Por exemplo, fazendo de conta que está escrevendo um texto diferente quando, na verdade, está apenas cumprindo a exigência de preencher 36 linhas e mandá-las para o jornal.

As palavras do Maiquinho-paz-e-amor, portanto, não passam de uma farsa. A todos e todas, um ótimo fim de semana.

A velhinha das revistas

14 de abril de 2011 2

Há muitos anos, caminhando pelo centro da cidade, fui abordado por uma velhinha que me mostrou uma série daquelas revistas com conteúdo religioso.

— Bom dia — disse ela. — Posso tomar um minuto do seu tempo?

Não sei se ela viu a careta que se desenhou no meu rosto, mas lembro bem que, por uma questão de respeito, tentei disfarçar o melhor que pude. Se ela não estivesse em idade avançada, acho que eu teria agido como sempre agi com os vendedores oportunistas. “Desculpe”, diria sem interromper o passo. “Estou atrasado para um compromisso de trabalho”.

Naquele dia, porém, e isso verificaria a seguir, acabei me comportando de uma forma muito diferente da usual.

— Olha só, meu filho, olha só que bonito — e ela me mostrou o material de divulgação. — Pode manusear, pode folhear. É bom saber que o Pai está olhando por nós.

Sem jeito, apanhei algumas das revistas.

— A senhora me desculpe — respondi depois de um tempo. — Tudo isso é realmente bonito, mas hoje estou sem nada no bolso.

E era verdade. Naquela época, eu vivia os piores dias do meu franciscanato estudantil. Estava literalmente caminhando para a fila da sopa, no caso para o refeitório da empresa em que trabalhara até o mês anterior. Como ainda possuísse uma cartela de vales-alimentação, o pessoal da cozinha dava um jeito de me deixar entrar para gastá-los até o fim. Mas nada disso tinha importância porque a velhinha, com seu sorriso de dentes tortos e verdadeiros, conseguiu me surpreender mais uma vez:

— Não, moço, não quero seu dinheiro. As revistas são um presente. Eu mesma comprei para distribuir de graça.

Quem seria o safado oportunista que, em nome de Deus, estava explorando a coitada da mulher? Peguei uma das revistas — que nunca li — e tentei convencer a velhinha a aceitar um dos meus passes de ônibus. “Vá para casa”, tentei dizer. “Hoje é sábado, a senhora merece descansar”.

— Meu lugar é aqui — ela continuou, sorrindo, sempre sorrindo, e sempre me chamando de “meu filho”. — Quero que todas as pessoas saibam que Deus proporcionará um lindo futuro para a humanidade.

Segui meu caminho, cabisbaixo. O mundo é mesmo um lugar estúpido, cheio de mentiras, covardia e exploração. Mas até hoje, sempre que me lembro do sorriso da velhinha, a única palavra que consigo mentalizar é ESPERANÇA. E foi por isso, por me lembrar daquele sorriso, que escrevi a crônica de ontem.