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Posts de maio 2011

Férias!

03 de maio de 2011 1

Eis que o amigo de vocês entra em férias. Não me procurem até primeiro de junho. Nesse dia, se os deuses permitirem, voltarei a postar aqui no blog. Fui.

Continho de amor às cegas

03 de maio de 2011 0

O caso que segue aconteceu no tempo em que a iluminação doméstica se fazia com o favor de lamparinas a querosene. Possui como protagonista um certo Guilhermino Saraiva que, feio e sem jeito com as mulheres, estava sinceramente apaixonado pela viúva Jacobina Cantarelli de Aguiar, sua vizinha. Todas as noites, de sua varanda, ele observava a bela Jacobina numa lida gestual com Genoveva, a empregada caolha e manca da perna esquerda. Lida gestual porque a vizinha era surda-muda. O detalhe, contudo, e especialmente aos olhos de Guilhermino, apenas realçava os encantos e os mistérios de Jacobina.

Um dia Guilhermino criou coragem e se declarou à viúva. Deu três tapinhas no peito, para mostrar que ali batia um coração, e suavemente tocou, com as pontas dos dedos, a face da mulher amada. Jacobina sorriu, mas em seguida gesticulou com o indicador, negando, e voltou a seus afazeres domésticos. Genoveva, a empregada, assistiu a tudo em silêncio.

Mas a autoestima de Guilhermino desceu mesmo aos infernos quando recebeu a visita de Juvêncio, o primo boa pinta que lhe devia dez contos de réis e — oh destino! — atraiu os olhares da viúva. Agora, sob a luz bruxuleante da lamparina, Guilhermino se viu forçado a aturar o namorico de janela entre o primo Juvêncio e a mulher dos seus sonhos. Nosso herói chegou a pensar em suicídio. Sorte que era obstinado. E engenhoso.

 

***

 

— Esse seu plano nunca vai dar certo — disse Juvêncio.

— Você não vai me ajudar? Então é só pagar o que me deve.

— Tá bom, primo, tá bom. Vou fazer o que você pediu. Mas depois não diga que não avisei…

Numa noite sem lua, quando o namorico de janela já estava por demais avançado, o primo boa pinta esperou que Genoveva fosse embora e caminhou até a porta da viúva. Como era previsto, foi alegremente recebido. Minutos depois, as lamparinas se apagaram e tudo ficou na mais completa escuridão. Fingindo que precisava urinar, Juvêncio saiu da casa e se encontrou com Guilhermino.

— Você não ficou passando a mão na Jacobina, ficou?

— Que é isso, primo?! Ela já está no quarto e tudo. É só chegar de mansinho.

Com as mesmas roupas e o mesmo perfume de Juvêncio, Guilhermino finalmente entrou na casa da viúva. Conforme a promessa do primo, ela o esperava de braços — de braços! — abertos…

 

***

 

Nas sete semanas que se seguiram, o truque foi aplicado quatorze vezes. Claro que Guilhermino adorou dormir na cama de Jacobina, mas logo passou a sentir remorsos. Não era justo que agisse dessa forma com uma viúva tão honesta. Resolveu confessar tudo a ela.

— Endoidou? — disse Juvêncio. — Quer que a Jacobina odeie você para o resto da vida? Pense bem, primo, não vá estragar as coisas agora…

Para o Juvêncio é fácil, pensou Guilhermino. Além de quitar os dez contos de réis, agora já possuía outros quatro a receber. Uma atitude se fazia necessária.

Na noite da décima quinta vez, tudo aconteceu como sempre. O namoro de janela, o afastamento de Genoveva, a aproximação de Juvêncio, as lamparinas apagadas, a substituição dos primos e o cego encontro entre o feio e sua vizinha. Amaram-se com fervor e desespero.

— Eu não sou o Juvêncio — disse Guilhermino, por fim.

— Eu sei — respondeu ela. — E te adoro por isso.

Guilhermino saltou da cama, assustado. Foi o milagre do seu amor que fez aquela pobre mulher voltar a ouvir e a falar? Quando acendeu a lamparina, finalmente entendeu que Jacobina continuava mais muda do que nunca. Deveria estar em algum lugar com o primo Juvêncio, o tratante. Quem apareceu sob a luz da lamparina foi a também apaixonada, teimosa e engenhosa Genoveva, a empregada caolha e manca da perna esquerda…

Somos vários

02 de maio de 2011 0

Um antigo escritor francês, acho que Chateaubriand, costumava dizer que as duas pontas de uma mesma vida não são unidas por apenas um indivíduo, mas por vários – e esse seria o maior dos nossos dramas. Ainda que haja controvérsias, acredito que estivesse se referindo ao incontestável fato de que, durante a nossa trajetória existencial, assumimos muitas personalidades distintas, que variam conforme o tempo e o espaço.

Os psicólogos e os pedagogos é que sabem: as crianças – e os adultos, logo todo mundo – não agem da mesma forma em casa, no parque e na escola. Para cada ambiente, um comportamento; para cada convivência, uma maneira própria de dialogar. Isso porque não somos sozinhos no mundo. Somos o conjunto das nossas experiências somadas ao que pensamos que o próximo pensa de nós. Complicado? Nem tanto. Para trocar em miúdos, basta dizer que sempre consideramos a opinião dos outros quando avaliamos o nosso caráter.

Do mesmo modo, ao longo dos anos, mudamos a nossa forma de ver o mundo e de se comportar, de encarar as outras pessoas e de resolver os nossos problemas. Há uma idade para tudo. Há a idade do idealismo, normalmente na adolescência ou no princípio da vida universitária, assim como há a idade do progresso a qualquer preço, do “casar-se para adquirir”, de matar um leão por dia e de fazer das tripas coração para atingirmos um objetivo externo a nós mesmos: uma promoção no trabalho, um diploma de pós-graduação, uma aquisição materialista.

Mas também há, quero crer, a idade da estabilidade e da política, quando surgem os confrontos mais coletivos e o desejo de não mais adequar a sociedade aos nossos sonhos, mas de tornar essa sociedade mais humana e menos hipócrita. Claro que nesse mesmo ponto podemos deparar com a idade do conformismo e da resignação, sem dúvida necessário para que seja depurado e possamos chegar àquele momento de serenidade que convencionou-se chamar “maturidade”.

E há um último instante, que pode durar muito nos dias de hoje, a idade da sabedoria, coroamento de um périplo que funciona com a ordem natural das coisas, uma ordem que devemos aceitar sem maiores problemas. Só devemos temer a admoestação que o bobo da corte criado por Shakespeare faz ao seu amo Rei Lear: “Por que tanta gente atinge a velhice sem nunca ter atingido a sabedoria?”

Para terminar esta crônica, acessei a internet e confirmei que foi mesmo Chateaubriand quem disse que não somos um, mas vários ao longo da vida. Ele está coberto de razão, menos no exagero com que classifica essa variedade comportamental como o maior dos nossos dramas.