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Posts de junho 2011

Meia-Noite em Paris

30 de junho de 2011 0

Os poucos amigos que me restam insistem que eu escreva algumas palavras sobre Meia-Noite em Paris, mas — respondo aparvalhado — escrever o quê? Os jornais e os blogs já disseram tudo que havia para ser dito sobre o filme. A insistência, porém, continua, talvez porque se trate de uma obra de Woody Allen, ou talvez porque na trama apareçam escritores como Hemingway, cineastas como Buñuel e pintores como Salvador Dalí. Deve ser por esse conjunto de fatores — o velho Woody referendando artistas fundamentais do século 20 — que Meia-Noite em Paris fala ao agrado de quem é cult.

É o tipo de filme que se pode comentar à vontade. Nele é possível buscar sacadinhas estéticas e fartura de significados ocultos, até lições de vida costumam ser pescadas nas piadinhas e caricaturas da tela. Com efeito, haveria algo a discutir sobre as fitas de ação do Van Damme ou do Stalone? Poderíamos achar algo proveitoso num bangue-bangue ou numa saga de vingança sangrenta? Bem, para falar a verdade, acho que sim. Tomemos como exemplo a série de longas-metragens de Lady Snowblood, personagem adaptada dos quadrinhos de Kazuo Koike (o legendário criador de Lone Wolf, espadachim que também nasceu nos gibis e brilhou nas telas do cinema nipônico).

A história de Lady Snowblood não é muito original — seus pais foram gratuitamente assassinados por bandidos inescrupulosos —, mas cada golpe de sua espada possui transcendência e metafísica. Ela é baixinha, magrinha, miudinha e um pouco anêmica. Japonesa com os cabelos negros e a pele branquíssima, carrega uma lâmina escondida na haste da sombrinha e se vale de sua delicadeza para seduzir os vilões antes de castrá-los em banhos de sangue fenomenais. Às vezes, quando está lutando contra adversários muito poderosos, Lady Snowblood (como quem não quer nada) deixa o quimono se abrir e exibe os pequenos seios, pêssegos pálidos que se transformam na distração e na ruína do inimigo.

Ver os olhos e ouvir os gemidos dos bandidos que serão decapitados pela katana da heroína equivale a um tratado de filosofia kantiana. Como quem diz “você me ludibriou, sua cadela ardilosa!”, os olhares suplicam clemência, mas Lady Snowblood é inclemente e não descansará enquanto o último dos algozes de sua família não estiver desmembrado e rastejando para a morte. Um criminoso se esvaindo em sangue devido à astúcia de uma pobre japinha de aldeia — alguém precisa de cena mais sublime? Os filmes de Lady Snowblood não são apenas proveitosos, mas sobretudo edificantes.

Mas, queridos e insistentes amigos, eu dizia que Meia-Noite em Paris fala ao agrado de quem é cult porque…

Dilma surpreendeu

29 de junho de 2011 2

Sem rodeios: estou gostando da postura da Dilma. Com rodeios: falo apenas da postura, da conduta, do perfil. Isso nada tem a ver com os planos de governo ou com o tipo de política representada pela presidenta. Alguns leitores mais atentos podem perguntar como fica o meu hábito de não elogiar pessoas vivas. Não fica. O que segue não é um elogio, mas um reconhecimento.

Em seis meses de mandato, Dilma teve algumas oportunidades de mostrar que é diferente de Lula. E mostrou. Não me refiro apenas ao detalhe de que evita bravatas e metáforas futebolísticas, mas aos acentos de personalidade que transpareceram em momentos de decisão. Deve ser por isso que seu ibope, embora bom para a média dos presidentes iniciantes, esteja aquém da escandalosa popularidade do antecessor.

No princípio de junho, às vésperas do desfecho do caso Palocci, Dilma havia anunciado que esperaria o parecer da Procuradoria Geral da República antes de se pronunciar quanto ao destino do Ministro. Em 7 de junho, neste espaço, perguntei se a presidenta protegeria o suspeito, como praxe durante o reinado de Lula, ou trataria de afastá-lo até que a situação se esclarecesse. Terminei assim: “diante dessa primeira crise política, finalmente poderemos ver a que veio essa senhora”.

E vimos. Ela foi discreta e diplomática, mas sobretudo contundente. A Procuradoria Geral deu pra trás e disse que não havia provas suficientes sobre o enriquecimento de Palocci. Isso queria dizer que Lula, trabalhando nos bastidores, conseguira salvar o cargo do violador de sigilos bancários? Negativo. Quando todos pensavam que Palocci não cairia, ele apareceu em público para renunciar à Casa Civil. Sou capaz de dar um rim se Dilma não assoprou no ouvidinho dele para desocupar a moita.

Sem escândalo, sem estardalhaço e – o mais importante – sem causar crises institucionais, Dilma não perdeu a chance de se livrar de um protegido histórico de Lula para passar a Casa Civil a uma aliada de confiança. E agora, para completar o quadro de surpresas, mandou aquela cartinha elogiosa ao Fernando Henrique Cardoso. Vejo no gesto um sinal de maturidade.

Até agora, o debate se restringiu à pobreza argumentativa dos tucanos salto-alto – “Que horror ter um presidente analfabeto!” – e dos petistas ensimesmados – “Lula inventou o Real, Lula inventou a roda!” A atitude de Dilma confirma o que analistas internacionais cansaram de escrever sobre nós. Se alguma coisa deu certo no Brasil, isso se deve à continuidade da política econômica. Quanto aos problemas do país… bem, essa é uma outra história.

Reescrever a História

28 de junho de 2011 0

Quem acompanha a coluna sabe que saí em defesa daquele livro de português que, segundo um dos mais recentes e evidentes erros da imprensa nacional, estaria ensinando os estudantes a “escrever errado”. Não vou repetir aqui os argumentos utilizados na tentativa de desfazer um equívoco que trouxe mais dúvidas e descrença para o ensino brasileiro. Estão todos no meu blog, incluindo as crônicas a respeito do tema que também publiquei neste espaço. Tais ideias, evidentemente, não são de minha autoria. Linguistas de nomeada como Marcos Bagno, José Luiz Fiorin e Ataliba Castilho fornecem as diretrizes teóricas do debate. Por fim, devo acrescentar que essa discussão sempre teve um fundo político, de modo que defender o livro significa defender a atuação do MEC e do Governo Dilma.
Mas isso não significa que este humilde cronista seja cego a certas pataquadas que o Ministério da Educação cometeu nos últimos tempos. No caso do livro de português, a gestão do Ministro Fernando Haddad acertou ao apostar numa proposta moderna e coerente do ensino de Língua Portuguesa. No caso, porém, de uma série de livros de História do Brasil também distribuídos pelo Programa Nacional do Livro Didático, o MEC não poderia ter naufragado em infelicidade maior. Num processo velado de stalinismo, alguns desses manuais estão reescrevendo nossa história recente ao tratar os governos de Lula e FHC com uma parcialidade típica das propagandas eleitorais.
O manual História e Vida Integrada, por exemplo, ao se referir aos mandatos de FHC (1995-2002), fala de apagões e crises cambiais, critica as privatizações e denuncia a compra de votos no Congresso para a aprovação da emenda que permitiu a reeleição tucana. Ou seja, não houve nada positivo. Por outro lado, quando trata dos mandatos de Lula (2003-2010), o mesmo livro enfatiza a “festa popular” da posse e quase se esquece de mencionar o mensalão. Ou seja, não houve nada negativo. Claudino Piletti, um dos autores, chegou a admitir que sua obra é mais favorável ao governo Lula.
Não estou aqui para defender os tucanos, mas sim a criticidade no ensino de História. Qualquer observador mediano percebe que, principalmente no plano econômico, houve continuidade entre os dois governos. Para contradizer os próprios livros didáticos, Dilma acaba de se referir a FHC como “o presidente que contribuiu decisivamente para a consolidação da estabilidade econômica”. Bem, acho que já estou entrando no assunto de amanhã.

O cinema consagra

27 de junho de 2011 1

Dia desses, sem nada melhor para fazer, passei numa videolocadora e peguei um filme chamado Onde os Fracos Não Têm Vez, dos Irmãos Coen, o grande vencedor do Oscar de 2008. É baseado no romance quase homônimo de Cormac McCarthy. Há mais de 20 anos, o crítico Harold Bloom declarou que McCarthy é o maior escritor americano desde Faulkner e Melville. Não foi ouvido por seus pares.

Alguns chamaram Bloom de exagerado, outros o mandaram arreganhar seus dentes para feministas e efemérides como Harry Potter (o que ele de fato fez) e outros simplesmente se perguntaram o que poderia haver de profundo ou interessante num “autor de westerns”.

Bloom respondeu o seguinte: ao contrário do que se pode pensar num primeiro momento, McCarthy não propõe a reciclagem de mitos e heróis faroestinos. Só sabe e só pode falar sobre criaturas que se debatem em meio à decadência, ao desconforto e à desilusão.

Mesmo assim, a moda não pegou.

Parece que, entretanto, os Irmãos Coen entenderam o mote, e essa é a grande virtude do filme, uma adaptação que acertou na mosca em termos de tom e fidelidade. Agora só falta filmar Meridiano de Sangue, eleito por Bloom o livro máximo de McCarthy. Com efeito, é um romance que todos deveriam ler.

Depois de edições brasileiras esporádicas e mal divulgadas (a própria Companhia das Letras fracassou ao publicar o romancista no Brasil), temos acesso a todas as suas obras em português. A Estrada, romance com o qual McCarthy venceu o Pulitzer 2007 e que também já virou filme com Viggo Mortensen, aí está para provar o que digo.

Desde 2008, portanto, quando enumeramos Philip Roth, Paul Auster, John Updike, Norman Mailer, Gore Vidal, Thomas Pynchon e outros romancistas ianques de nomeada, haverá um lugarzinho para Comarc McCarthy antes do etc. Graças ao filme dos Irmãos Coen, é claro.


Para terminar: na época do lançamento de Onde os Fracos Não Têm Vez, alguns cinéfilos andaram escrevendo que a cena em que Chigurh atira no pássaro negro é uma referência à Arizona: Nunca Mais, também dos Irmãos Coen, onde um assassino louco e estereotipado saca uma escopeta e detona coelhinhos à beira da estrada. Besteira. Por incrível que pareça, a cena foi feita tal qual aparece no livro. Está na página 86 da edição Alfaguara. Confira quem quiser.

Fiorin esclarece

25 de junho de 2011 0

Peço desculpas por insistir no assunto do tal livro de português que estaria ensinando a “escrever errado”. Faço isso porque acredito que o debate ainda não se esgotou. Muita gente de renome continua criticando o manual sem compreender as suas reais premissas pedagógicas. Na entrevista abaixo, o linguista José Luiz Fiorin esclarece inúmeros pormenores da questão. Vale a pena assistir até o fim.


http://youtu.be/o7OlNhxLrOg



A velha e os gatos

23 de junho de 2011 1

Duas semanas atrás, vi na TV uma notícia que me deixou com as orelhas em pé. Pra falar a verdade, a notícia nada tinha de espetaculoso ou extraordinário, era pouco mais que corriqueira, mas a forma como foi apresentada, a frieza com que reverteu os termos da equação humana, diz muito sobre o estágio atual da civilização.

Devido a denúncias dos vizinhos e à ação da polícia, uma mulher que mantinha dezenas de gatos em cativeiro acabou internada numa clínica psiquiátrica. Só isso. Nada mais que um aperitivo tragicômico para o telejornal da noite. Então por que o alarde, Sr. Maicon? Por que essa história das orelhas em pé?

Explico. Na sequência da reportagem, o público ficou sabendo de tudo que aconteceu e acontecerá com os gatos. A maneira como estavam encarcerados, o pouco espaço de que dispunham para se locomover, a quantidade e a qualidade do alimento que recebiam, a “creche” em que estavam repousando depois do salvamento, o prazo e as regras de adoção para quem estivesse interessado em levá-los para um lar de verdade.

Nada errado nisso. É justo e bom que os animais recebam um tratamento digno. O problema é que, quanto à sorte da tal mulher (imagino uma velhinha solitária), recebemos informações menores que o necessário. Fora sabermos que mantinha os bichanos em gaiolas, questões humanitárias que envolvem o caso ficaram sem resposta: por que a mulher fazia o que fazia? Pelo simples prazer de praticar o mal? Ou será que possuía problemas mais graves do que pudemos imaginar através da reportagem? Era uma torturadora de animais, ou uma mulher que tentava acolhê-lhos incondicionalmente, mesmo sem ter condições materiais e psicológicas para isso?

Os vizinhos, a polícia, a clínica, a imprensa… não estou sugerindo que alguma dessas instituições agiu com má vontade. Quero apenas dizer que, na lógica maluca em que a humanidade se encontra, estamos muito mais preocupados com os bichos do que com as pessoas. E essa tendência transpareceu com estardalhaço na historia que acabei de contar.

Para não me chamarem de falso polemico ou desalmado, reafirmo que o direito dos animais é uma inestimável conquista do século 20. Mas isso não significa que, como pregam as ideologias da desforra, o ser humano mereça as sombras do abandono. Notem que, nesses casos, são sempre os velhos, os loucos, os pobres e os indefesos que ficam no esquecimento.

Ontem escrevi que daqui a pouco o poste vai mijar no cachorro. Acho que isso já está acontecendo.

Existe vida depois da morte?

21 de junho de 2011 11

Quando Stanley Kubrick convidou Jack Nicholson para fazer o papel principal de O Iluminado, Nicholson imediatamente quis saber do que tratava o filme.

— Ao contrário do que fiz até agora — respondeu Stanley — é uma história bastante otimista.

— Otimista?

— Sim. É sobre um hotel mal-assombrado.

— Você quer dizer… mal-assombrado por… fantasmas?

— É, fantasmas.

— Mas, Stan, o que tem isso de otimista?

— Não percebe? Qualquer filme sobre fantasmas pressupõe a existência de vida após a morte. E isso, meu caro, é o ápice do otimismo.

 

***

 

A razão de existir das religiões é inventar teorias para explicar um dos maiores enigmas da nossa cultura: o que acontecerá depois que fecharmos os olhos pela última vez? Tudo escurecerá, como a lâmpada que de repente se apaga para jamais voltar a acender?

— Nada disso! — dizem os padres, os pastores, os monges e os rabinos. — Todos iremos para o céu, onde encontraremos o Pai. Ou então: reencarnaremos quantas vezes forem necessárias até atingirmos a Luz. Ou ainda: jamais morreremos porque, como parte do Cosmos, estamos condenados a viver eternamente.

São formas piedosas de atenuar o medo que sentimos do desconhecido, mas sua engenhosidade alimenta o mais poderoso dos mecanismos de controle. Mesmo as religiões mais “prafrentex” não descartam o preço que precisa ser pago por quem busca a eternidade. Se você não usar esta vida para se preparar adequadamente, corre o risco de perder o último bonde para as estrelas.

Mas como, ó Mestre, devo me preparar? Simples: seja reto, cordato, manso e puro de coração. Respeitar as autoridades é tão importante quanto respeitar os seus semelhantes. E, é claro, nunca se esqueça de pagar o dízimo.

 

***

 

Ainda que seja fácil desconfiar do consolo oferecido pelas religiões, é muito difícil botar essa desconfiança em prática. Filósofos que construíram catedrais de pensamento tão perfeitas quanto o cristianismo, o budismo e o islamismo fracassaram em seu intuito de abrir os olhos da humanidade. “A religião é o ópio do povo”, disse Marx, e no entanto os templos se fortalecem a cada dia. “Deus está morto”, disse Nietzsche, e no entanto queremos que Ele viva em nossas mentes e corações. “O inferno são os outros”, disse Sartre, e no entanto acalentamos a utopia de amar o próximo como a nós mesmos. Conclusão: pode até ser racional, mas é muito chato duvidar da existência de uma vida — qualquer tipo de vida — depois da morte.

 

***

 

Você precisa ser muito macho — ou muito fêmea, se for o caso — para cultivar o ceticismo total, principalmente se estiver no cenário de uma doença, de uma catástrofe climática ou do completo desamparo familiar. “Deus não existe, pronto, agora estou livre de cogitações inúteis sobre o futuro da minha alma”. Você é macho — ou fêmea — o suficiente? Ou, por outra, existe personalidade capaz de manter um comportamento ético sem a necessidade de cabrestinhos doutrinários? A crença certamente ingênua de todos os filósofos que criticam as religiões é a autonomia do ser humano. Somos capazes de fazer o que é certo pelo simples fato de que seja certo? Se sim, é desnecessário crer numa vida após a morte. Se não, precisamos continuar crédulos e obedientes a tudo, tudo mesmo.

 

***

 

É óbvio que não tenho condições de responder a pergunta oportunista que se encontra no título ali em cima. Confesso apenas que sou humano, portanto fraco e covarde. Sinto que não existe nada no outro lado, mesmo assim me nego a abandonar as esperanças. Agora, se for para me transformar num dos fantasminhas do Kubrick, então é preferível abaixar a cabeça e ser como a lâmpada que de repente se apaga.

Marlene, o escudo

21 de junho de 2011 4

A Dona Marlene Schlindwein não cansa de nos surpreender. Primeiro, ao assumir a presidência da Fundação Cultural de Blumenau, admitiu na cara-dura que sua indicação era fruto de um acordo oportunista entre o DEM e o PMDB. Depois, atestando sua incapacidade para o gerenciamento público, cometeu gafes e mais gafes perante a comunidade, inclusive “colando” da Wikipédia as respostas sobre gestão cultural que deu numa entrevista ao Santa.

E agora, para completar o quadro do desastre, abriu um processo judicial contra um membro do Conselho Municipal de Cultura que cometeu o “desacato” de cumprir sua tarefa e questionar certos procedimentos administrativos. Ou chegamos ao tempo em que perguntar ofende, ou o processo se tornou o único argumento contra críticas que tinham, sim, procedência.

Mas não pense o leitor que vou me limitar a “descer a lenha” na Dona Marlene e deixar a história terminar num descarregozinho de indignação, até porque, convenhamos, foi para isso mesmo, para levar pedradas, que ela foi empossada. Sem dinheiro, sem estrutura, sem ideias e sem competência para o cargo, restou a Dona Marlene a função de dublê, absorvendo para si as críticas endereçadas a um problema muito maior que os tropeços de uma gestão: A AUSÊNCIA DE POLÍTICAS CULTURAIS SÉRIAS EM BLUMENAU. Somada aos ataques que recebe de tempos em tempos, a pouca habilidade diplomática da Dona Marlene só consegue piorar as coisas, daí os tiques autoritários que findaram nessa história ridícula do processo judicial.

Por essas e outras (muitas outras), é difícil entender por que ela ainda não deixou o cargo. Alguns dirão que lhe falta visão, outros que lhe sobra masoquismo, mas a única resposta que me ocorre, e digo isso sem a menor ironia, é que ela aceitou o papel de mártir para salvar o governo e a reputação dos homens que a nomearam: o prefeito João Paulo Kleinübing e o vice-prefeito Rufinus Seibt. O primeiro é do DEM e o segundo é do PMDB, mas isso é dizer o óbvio sobre o acordão citado acima. Então vamos tentar de novo: o primeiro é historiador e o segundo é músico.

Com essa bagagem, como é possível que estejam tratando a pasta da cultura com tanto descaso e irresponsabilidade? Diante de tudo o que está acontecendo, solicito que o prefeito e o vice-prefeito – os verdadeiros responsáveis pela situação – tenham a hombridade de tomar uma atitude ou pelo menos se pronunciar sobre a PÉSSIMA política cultural do município. Por enquanto, estão se escondendo atrás de um escudo chamado Marlene.

Câmera balançando

20 de junho de 2011 0

Meia-noite em Paris foi uma excelente escolha para inaugurar o novo cinema de Blumenau. Não digo isso apenas por minha admiração à arte de Woody Allen (mesmo quando ele faz um filme às pressas e sem muita inspiração, acaba realizando uma obra-prima da década), mas pela percepção de que o cinema made in Hollywood vai de mal a pior.

Que diabos está acontecendo com os filmes? Por que as imagens são tão sujas e poluídas? Por que os roteiros são tão previsíveis e politicamente corretos? Por que os atores se tornaram tão canastrões? Por que as atrizes já começam mostrando tudo e, mesmo assim, chegam à última cena sem mostrar nada?

E por que – por que, meu Deus do céu! – as câmeras ficam balançando e tremendo o tempo todo, sem a menor função dramática? Num conto, se você decide escrever “tarveiz” no lugar de “talvez”, isso se dá por alguma razão inerente à história. A mesma máxima pode ser aplicada ao cinema. Se querem balançar a câmera, fiquem à vontade, mas pelo menos providenciem um motivo para isso.

A sorte da indústria cinematográfica é que ainda existe gente boa filmando. Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, Brian de Palma, Quentin Tarantino, David Lynch e o próprio Allen – não fossem por esses caras, estaríamos completamente submersos no lodo da banalidade e das modinhas sem sentido (balançar a câmera, por exemplo). Alguém já disse que o cinema americano desaparecerá no dia em que Clint Eastwood morrer. Há exagero na afirmação, mas ela não deixa de fazer sentido.

Não digo que não haja coisa boa entre os cineastas moderninhos e viciados em efeitos especiais. Tirando King Kong e O Senhor dos Anéis, Peter Jackson dirigiu alguns dramas realmente imperdíveis. As animações da Pixar também não são de se jogar fora. No mais, o que restou? Apenas essa febre meio abilolada dos bruxos e dos vampirinhos, as franquias de super-heróis, as comédias românticas para mocinhas de todas as idades e os thrillers de ação e guerra. Estes últimos, sempre e impreterivelmente, com a câmera balançando.

Essa crise de criatividade e até mesmo de identidade do cinema hollywoodiano pode ter duas consequências. A primeira, negativa, é que o emburrecimento estético do público se generalize ainda mais. E a segunda, positiva, é que cinematografias periféricas como a brasileira, desde que não tentem imitar os americanos, conquistem um espaço maior no mercado internacional.

Quanto a nós, estamos numa cidade que acaba de receber 7 novas salas de exibição. Agora não tem mais desculpa. Entre um blockbuster e outro, há espaço, e muito, para o cinema de qualidade.

O Velho Safado

17 de junho de 2011 0

Sempre que tenho uma recaída como a de ontem e começo a tagarelar sobre a sabedoria dos longevos, passo a mão num dos livros do Bukowski e leio algumas páginas aleatórias. Geralmente publicados no formato de bolso, possuem os contos mais engraçados — e mais melancólicos — de toda a literatura moderna. Recomendo, mas só para quem não se importa de se sujar durante a leitura. Tirei as máximas abaixo das Notas de um Velho Safado, publicadas no Brasil pela L&PM Editores. Transfiro-as de graça para o usuário aqui da coluna. São um convite ao riso e à reflexão:

— Quase todo mundo nasce gênio e é enterrado imbecil.

— Não existe nada mais chato que a verdade.

— Se você quiser saber onde Deus está, pergunte a um bêbado.

— Quando o Amor se transforma num comando, o Ódio pode transformar-se num prazer.

— Se você não jogar, jamais irá vencer.

— Pensamentos bonitos e mulheres bonitas jamais perduram.

— Você pode enjaular um tigre, mas jamais terá certeza que ele está domado. Com os homens a coisa é mais fácil.

— Não existem anjos nas trincheiras.

— Nenhuma dor significa o fim da sensibilidade; cada uma de nossas alegrias é uma barganha com o diabo.

— A diferença entre a Arte e a Vida é que a Arte é mais suportável.

— Prefiro ouvir sobre um vagabundo americano vivo do que sobre um Deus grego morto.

— O indivíduo bem equilibrado é insano.

— Um homem corajoso carece de imaginação. A covardia é geralmente causada pela falta de dieta adequada.

— Quando os homens controlarem os governos, os homens não terão mais necessidade de governos; até lá nós estamos fodidos.

— Um intelectual é um homem que diz uma coisa simples de uma maneira difícil; um artista é um homem que diz uma coisa difícil de uma maneira simples.

— Toda vez que vou a um funeral me sinto como se tivesse comido germe de trigo estufado.

— Torneiras pingando, arroubos de paixão, pneus furados — todos são mais tristes que a morte.

— Se você quer saber quem são os seus amigos, arranje uma sentença de prisão.