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Posts de julho 2011

Os três caolhos

29 de julho de 2011 0

Já escrevi em alguma parte que sou cego do olho esquerdo. Devido a um acidente de bicicleta que sofri aos treze anos, tive o nervo ótico atingido e, por isso, perdi a ligação entre o cérebro e o globo ocular. Como resultado, só consigo enxergar, ainda que mal e porcamente, com o olho direito (esse, segundo meus detratores, deve ser a causa de minhas análises míopes e “meio ceguetas”).

Nada extraordinário nisso. O tempo me apresentou a uma quantidade enorme de caolhos – ou ciclopes, denominação mais erudita e congratulatória – de todas as idades, etnias e procedências. Para provar mais uma das teses controversas que costumo divulgar nesta página – a saber: escolhemos os heróis com os quais temos identificação – gostaria de listar três dos meus favoritos, todos oriundos do cinema e, evidentemente, cheios de mala com seus tapa-olhos estilosos.

O primeiro e mais raçudo é o personagem de Tom Cruise em Operação Valquíria. Baseado numa figura real, o Coronel Claus Philipp Graf Von Stauffenberg planejou e perpetrou um dos mais conhecidos atentados contra a vida de Adolf Hitler. Como se sabe, Hitler era um gato preto de 77 vidas. O plano pifou e Stauffenberg, que havia colocado a própria família em risco pela honra da Madre Alemanha, foi condenado por alta traição e fuzilado com todos os seus comparsas. Para um país que ainda se envergonha de seu passado nazista, a memória do caolho Stauffenberg funciona como uma espécie de compensação patriótica.

O segundo, totalmente fictício, nasceu num romance do americano Charles Portis e teve duas passagens grandiloquentes pelo cinema, uma na pele de John Wayne e outra na de Jeff Bridges. Trata-se do pistoleiro Reuben “Rooster” Cogburn, agente federal contratado por uma menina de doze anos que pretende vingar a morte do pai. A princípio, Cogburn parece ser apenas um bêbado falastrão e pouco higiênico, mas, com o avanço da trama, acaba se mostrando depositário da verdadeira coragem (True Grit, no título original) ou de uma Bravura Indômita, conforme a tradução para o português.

E o terceiro, ou a terceira, brilhou nas cenas de um obscuro sexplotation produzido durante os fantásticos anos 1970 na… Suécia! Isso mesmo, na terra de Bergman também se cultiva o bom cinema B. O filme se chama They Call Her One Eye (Eles a Chamam de Caolha!), e a jovem heroína, interpretada pela inesquecível Christina Lindberg, promove um verdadeiro banho de sangue para se vingar de todos os homens sujos, porcos e malditos que a prostituíram, sodomizaram e arrancaram um de seus olhos!

Recomendo todos os filmes, especialmente o último, difícil de encontrar em qualquer lugar longe da internet.

15 X 23

28 de julho de 2011 2

Dessa vez, os blumenauenses fundamentais não me decepcionaram. Entre suas inúmeras idiossincrasias, está o irreprochável hábito de recorrer aos meios de comunicação — ao Santa, por exemplo — para impedir que o vilarejo do Dr. Otto opte por destinos pouco produtivos.

Que história era essa de aumentar o número de vereadores? Já não bastam os cargos comissionados e inoperantes que grassam na prefeitura? Já não temos malandros o suficiente mamando nas opulentas tetas do poder público? Olhem o preço do passe de ônibus, a terceirização da merenda escolar, a vergonheira dispendiosa que é a ponte do Badeco! Se 15 vereadores não conseguem — ou não querem — botar ordem na casa, 23 é que não resolveriam o problema, de jeito nenhum.

Eu, Maicon Tenfen, crítico irresponsável deste povo e desta cidade, dou a mão à palmatória (dessa vez). Pra ser sincero, gosto do jeitão grandiloquente dos BFs. Gosto também dos meios de comunicação que, se não servem para nada mais edificante, pelo menos dão voz aos anseios de uma comunidade que está com o saco cheio de tanta conversa fiada parlamentar.

Vamos dar uma espiada nas cidades ao derredor? Só estão aumentando o número de cadeiras onde a população não consegue se manifestar. Onde há outdoors de protesto ou líderes comunitários botando a boca no trombone através das rádios locais, os vereadores amarelam e, sob o pretexto de atender à vontade de povo, desistem de aumentar o número de colegas. Bravo!

Resta perguntar por que as populações não se mobilizam com a mesma energia para defender as demais causas da comunidade, mas essa é uma outra história.

Por enquanto, acho que ganharemos mais se refletirmos um instante sobre o que acaba de acontecer. Repito o que já disse em outra ocasião. Para o bem da democracia, pelo menos do ponto de vista teórico, seria ótimo se aumentássemos o número de representantes dos cidadãos frente ao poder legislativo.

Mas por que os eleitores não engolem esse “do ponto de vista teórico”? Simples e estarrecedor: está claro que os vereadores, salvo exceções, não estão fazendo um bom trabalho. No mais das vezes, ainda se comportam como se fossem coroneizinhos que falam grosso para defender ruas, bairros ou agremiações. Esse tempo já passou, minha gente.

Como sugeriu o Evandro de Assis na sua coluna de ontem, chegou a hora de legislar por atacado, de considerar as causas que dizem respeito a todos, não apenas ao gueto eleitoral. Para isso, 15 vereadores são mais que suficientes.

Marshall McLuhan

27 de julho de 2011 0

Nova York, anos 1970. Numa fila de cinema, um sujeito de óculos e gravata enche os ouvidos da namorada com um papo pseudointelectual em que cita escritores e filósofos cults. Lá pelas tantas, entra na conversa o nome de Marshall McLuhan. O sujeito acaba enumerando uma série de clichês oriundos do pensamento do teórico canadense. “Aldeia global”, por exemplo.

Então outro indivíduo que estava na fila, um baixinho patético, chama a atenção do primeiro e diz que ele não sabe nada sobre Marshall McLuhan.

— Ah, não? Para seu governo, sou professor de uma disciplina chamada TV, Mídia e Cultura na Universidade de Columbia. Sou íntimo das ideias de Mr. McLuhan.

— Mesmo? Então por que não diz isso ao próprio?

O baixinho se afasta um pouco para a direita e se encontra com um senhor de paletó cinza. É McLuhan, em carne e osso, que se aproxima do professor da Columbia e sentencia:

— Você não sabe nada sobre o meu trabalho. Como tem coragem de ensinar coisas que não entende?

A cena faz parte do filme Annie Hall (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, 1977), de Woody Allen, o tal baixinho patético, que olha para a câmera e conclui:

— Ah, se a vida fosse tão simples assim!

 

***

 

Se estivesse vivo, Marshall McLuhan teria completado 100 anos no último dia 21. Woody Allen escolheu o teórico certo para homenagear. Poucos pensadores compreenderam com tanta antecedência a revolução proporcionada pelo desenvolvimento dos meios de comunicação.

— Em um ambiente de informação eletrônica — escreve ele em O Meio é a Massagem —, as minorias não podem mais ser contidas – nem ignoradas. Pessoas demais sabem coisas demais umas das outras. Nosso novo ambiente nos complete ao engajamento e à participação. Tornamo-nos inapelavelmente envolvidos, e responsáveis, uns pelos outros.

Trocando em miúdos, o sujeito chegou a prever, há mais de 40 anos, fenômenos como as redes sociais! Deve ser por isso que seus livros ficaram meio esquecidos nos anos 1980, época em que a TV parecia eterna, e recuperaram o prestígio na década seguinte, com a crescente popularização da internet.

Em tempo: uma de suas principais obras deveria se chamar The Midium Is The Message (O Meio é a Mensagem), mas o livro saiu da gráfica com um erro tipográfico, The Midium Is The Massage (O Meio é a Massagem). Grato ao acaso, McLuhan manteve o trocadilho.

Cruel, mas necessário?

26 de julho de 2011 1

No primeiro semestre de 2007, o historiador e político norueguês Berge Furre esteve em Blumenau, na Furb, para lançar a edição brasileira do livro História da Noruega no Século XX e palestrar sobre as características atuais do seu país. Além de professor de História e Teologia na Universidade de Oslo, Furre foi Deputado do Parlamento Norueguês e membro do Comitê responsável pela indicação anual do Prêmio Nobel da Paz. Ao longo de toda a sua carreira, manteve-se afiliado a partidos políticos de esquerda.

Com um indiscutível jeitão de papai Noel, Furre falou durante 45 minutos para uma plateia atenta e cheia de questionamentos a fazer. O palestrante respondeu as perguntas com calma e cordialidade. Lá pelas tantas, quando disse que “o meu país também enfrenta um grande problema”, o público suspirou aliviado e levantou-se para aplaudir. Até então, parecia que aquele bom velhinho estivesse descrevendo o paraíso.

Mas que “grande problema” era esse? A iminência de uma crise econômica, com inflação, desemprego e índices elevados de violência?Que nada! Segundo as palavras de Furre, era o avanço, na mente dos jovens, de uma nova ideia de capitalismo, de modelo americano, que valorizava mais a apropriação dos bens de consumo do que a manutenção do famoso estado de bem-estar social, com instituições democráticas sólidas, ampla distribuição de renda e qualidade de serviços públicos como saúde, moradia e educação.

Fui obrigado a rir. Então era esse o problema da Noruega? Um conceito, uma abstração? Ah, não. Com ou sem essa nova ideia de capitalismo, eu gostaria de viver na Noruega. Eu e muitos dos meus irmãos terceiromundistas da América Latina, da África e do Oriente Médio. Mas aí, lembro bem, uma luz vermelha se acendeu na minha cabeça: se a coisa é tão boa assim, não deve ser fácil ir para lá. Por que os noruegueses – e o resto dos europeus – abririam os portões do Éden para os maltratados fugitivos do inferno?

Isso explica, em parte, os massacres de Oslo. Há muito tempo, a Europa está dividida em dois grupos que jamais se entenderão: os multiculturalistas, que pretendem enfrentar de forma humana o problema da imigração, e os tradicionalistas, que não se importam de levantar bandeiras fascistas para manter o continente “limpo”. Fico imaginando a quantidade de europeus que, por baixo do pano, está aplaudindo a loucura sanguinária de Breivik. Será que ele conseguiu o que queria? Eu adoraria assistir a uma nova palestra do Prof. Berge Furre.

TV

25 de julho de 2011 1

No semestre passado, por motivos puramente circunstanciais, fiquei um longo tempo sem assistir à televisão, em especial aos chamados canais abertos. Aquilo sim é que era vida. Uma modesta conexão à internet, alguns livros na estante e o cotidiano livre dos caminhões de banalidade que as emissoras de TV despejam nos olhos e nos ouvidos do espectador.
Não quero dizer com isso que a TV não seja importante. Ela é, e muito. Suspeito que ainda ocupe o posto de meio de comunicação mais revolucionário e influente de todos os tempos. O problema é que só a TV não basta para termos uma visão mais abrangente da realidade. Suas armadilhas se encontram justamente na sua eficiência em conjugar som e imagem. Na TV vemos um mundo pronto e irrefutável, que não é, de maneira alguma, o mundo real, mas apenas um fragmento dele, potencializado de tal forma que acaba se tornando, sem que o percebamos, o nosso próprio mundo.
Tive a prova dessa “máxima” na semana passada. Também por razões circunstanciais, fiquei um bom tempo exposto à programação de algumas emissoras de sinal aberto. Numa delas, descobri, meio apavorado, que de fato vivemos numa zona de guerra, onde os bandidos abundam e a polícia, corrupta e inoperante, pouco pode fazer para proteger o cidadão comum. Os assaltos, os sequestros, o tráfico de drogas, a pedofilia e a desonestidade estão em toda parte.
Vai daí, mudei o canal – ou mudaram, já que não sou dono da televisão em questão. O que vi na outra face da moeda? Culinária, saúde, moda, bem estar, enfim, agora o universo se resumia a uma extensa lista de cuidados que devo ter com meu corpo, minha mente e minha alimentação para ser um sujeito mais realizado e feliz. Ali não havia policiais corruptos, tampouco bandidos ou tiroteios, mas, ao contrário, médicos, psicólogos e terapeutas holísticos empenhados em converter a realidade num cenário tranquilo, asséptico e higienizado.
De repente, quando me ri de uma piada idiota da apresentadora do programa, entendi que a situação era grave de verdade. Mudei de canal, mesmo que a televisão não fosse minha, e voltei para os banhos de sangue que, dosados na medida certa, impedem que o público sinta medo ou ojeriza em excesso. Não foi o meu caso. À noite, quando olhei para trás e verifiquei se estava sendo seguido, percebi que não sou a exceção de uma sociedade repleta de indivíduos sugestionáveis.
Por um bom tempo, não quero mais saber de televisão. Se o paraíso existe sobre a terra, equivale a uma modesta conexão à internet, alguns livros na estante e o cotidiano livre dos caminhões de banalidade etc., etc…

Carros, caos

22 de julho de 2011 2

Longe vai o tempo em que adquirir um carro era coisa do outro mundo. Graças à disponibilidade de crédito na praça (uma disponibilidade perigosa, já que os juros costumam ser sutilmente extorsivos) é fácil para o consumidor se engajar num financiamento e comprar um veículo em 36, 48 ou 60 “suaves prestações”. Como resultado, temos as zonas urbanas tomadas por uma superpopulação automobilística que não para de crescer.
Antigamente havia aquilo que chamávamos de “carro da família”, grandalhão, espaçoso, feito para as necessidades do cotidiano e também para os passeios do fim de semana. Hoje esse gênero praticamente desapareceu. Em vez do carro, no singular, somos obrigados a dizer OS CARROS da família, um plural que já não se contenta com o dobro, só com o triplo, o quádruplo e às vezes até o quíntuplo.
O papai tem um carro, a mamãe tem um carro, o filho mais velho tem um carro. Quanto à caçula, prestes a tirar a carteira de motorista, é lógico que também vai ter o seu carrinho próprio. E quando digo próprio, não o faço apenas no sentido de posse, mas sobretudo de individualismo. Fique o leitor parado numa esquina com semáforo e conte a quantidade de ocupantes por carro em movimento.
Às vezes, dependendo do horário, você verá duas pessoas. Normalmente, porém, um veículo de 5 lugares é utilizado somente pelo motorista. Não há estrada que dê conta.
Detalhe importante da minha peroração: não estou querendo dizer que o acesso aos automóveis como bens de consumo seja em si um fenômeno negativo. Atire a primeira pedra o hipócrita que nunca sonhou com um carrinho para dar umas bandas por aí. Só quero dizer que, ou remodelamos os nossos modelos de condução, ou em poucos anos iremos todos para o hospício.
Por que, por exemplo, o poder público não investe de verdade no transporte coletivo? Os corredores de ônibus são apenas paliativos contra uma doença infraestrutural maior. Quem fizer as contas perceberá que, em Blumenau, usar os circulares pode ser mais caro do que sustentar a sede de combustível do carro próprio.
Não há como culpar os usuários de veículos individuais pelo que está acontecendo na hora do rush. Se é verdade que precisamos nos organizar para a correta utilização do transporte público, não é menos verdadeiro que esse transporte deve existir em abundância e a preços acessíveis. Enquanto isso não acontecer, as ruas ficarão cada vez mais cheias de carros, bem como nossas vidas, cada vez mais cheias de caos.

Homofobia

21 de julho de 2011 12

Certa tarde, ainda no século passado, enquanto esperava o ônibus num dos pontos da Beira-Rio, testemunhei uma cena digna de registro. Era horário de pico, ali pelas 18h, e havia muita gente amontoada no local. De repente, passa pela calçada um travesti, mas um travesti que provavelmente não possuía personal stylist, espetaculoso devido ao contraste entre suas características masculinas (barba mal feita, por exemplo) e a abundância de adereços femininos.
É claro que a passagem do travesti causou tumulto entre o pessoal que esperava o ônibus, mas nada foi violento ou verdadeiramente rancoroso. A não ser o descontrole de um rapaz bem jovem que, destacando-se entre os que tiravam sarro, empurrou o travesti e começou a ofendê-lo aos gritos:
– Não tem vergonha, não? Você é ridículo, cara. Ridículo!
Mas o travesti voltou e “peitou” o agressor. Colocou as mãos na cintura, fez pose de princesinha na passarela e retrucou:
– Alto lá, queridinho! Para falar comigo, use ridícula, com A, por gentileza!
– E ainda fica provocando! Por que não vira homem?
– Que interesse é esse, meu filho? Por que VOCÊ não vira?
Nesse ponto pensei que a discussão seguiria até as vias de fato. Isso só não aconteceu porque um amigo do rapaz apareceu para resgatá-lo do papelão.
– Deixa pra lá – dizia o amigo. – Deixa quieto!
– Mas eu tenho nojo desses caras… Nojo!
Estratégico, o travesti deu meia-volta e desapareceu na multidão de carros e pessoas que passavam apressados.

***

Não sei o que aconteceu ao rapaz que tinha nojo dos travestis, mas aposto que em algum momento ele deve ter experimentado os cosméticos da mãe ou as lingeries que comprou fazendo pose de pegador (“É pra minha gatinha!”). Pergunte a quaisquer dos meus inimigos psicólogos: atacamos no outro aquilo que tememos que floresça em nosso interior. Em palavras mais simples: quem chega ao ponto de agredir homossexuais faz isso porque se sente inseguro da própria masculinidade e teme as sugestões de um mundo em que os gays estão saindo do armário. Palavras mais simples ainda: todo homofóbico é uma bicha em potencial. Diante de tantas notícias sobre agressões a travestis e homossexuais como um todo, só podemos registrar duas novas necessidades da sociedade moderna: os gays precisam de proteção policial; já os homofóbicos, de tratamento psicológico… e carinho, é claro.

Bad ass

20 de julho de 2011 0

Há dois anos, a MTV americana realizou uma enquete entre críticos e especialistas para descobrir quem era o maior “bad ass” do cinema em todos os tempos. (Em bom português, bad ass quer dizer “fodão”). Clint Eastwood tirou em primeiro lugar, folgado, na frente de nomes como Chuck Norris e John Wayne. Foi uma votação justa. É difícil imaginar uma face que encarne com mais propriedade o anti-herói solitário e silencioso, tão caro às mitologias do norte, que quase nunca sorri e não pensa duas vezes antes de sacar uma Magnum e atirar em todo mundo.
“No dia em que Clint Eastwood morrer”, disse o filósofo Luiz Felipe Pondé, “o cinema americano chegará ao fim”. Naturalmente, o exagero da declaração se refere a uma determinada vertente da cinematografia mais famosa do planeta, que prima por filmes mais “realistas”, cuja pretensão é contar uma boa história sem pagar tributos às mensagens edificantes da correção política. Em todas as fases de sua carreira, Clint Eastwood tornou-se a própria encarnação dessa vertente.
Nos anos 1960, ainda um ator meio obscuro em sua terra natal, passou uma temporada na Itália para filmar a desde sempre lendária Trilogia do Dólar. Ao lado do diretor Sergio Leone, ajudou a solidificar uma das mais curiosas e criativas ondas do cinema de gênero: os spaghetti westerns.
Nos anos 1970, de volta às Américas, Eastwood tornou-se um superstar com os filmes protagonizados por Dirty Harry, o policial de São Francisco que sempre atirava primeiro e perguntava depois. “Go ahead”, dizia o sujo Harry a um assaltante disposto a reagir. “Make my day!” É lógico que não faltaram acusações de fascismo (bem fundamentadas, aliás) que ajudaram a polemizar a série e consagrar o ator.
Depois disso, Eastwood passou por um período de estagnação. Estava começando a viver de passado quando, de repente, reinventou toda a poética dos westerns com Os Imperdoáveis. A partir daí, entrou na etapa mais fértil e surpreendente de toda a sua carreira, dirigindo e às vezes atuando em obras-primas como Menina de Ouro, Gran Torino e o recente Além da Vida.
Aos 81 anos, Eastwood se prepara para lançar seu 35º filme como diretor, a cinebiografia de J. Edgar Hoover, chefão do FBI (e um dos homens mais poderosos dos EUA) durante décadas. É uma das primeiras vezes que um ícone cavernoso da extrema direita recebe a atenção de um grande estúdio e de um grande diretor. Que fatores possibilitaram o acontecimento? Bem, parece que estamos invadindo o assunto de outra crônica. Por enquanto, o negócio é esperar o lançamento do filme e observar como vovô Clint vai tratar o tema.

Catilinária

19 de julho de 2011 8

Respeito dois sentimentos extremos: o amor sincero e o ódio sincero. Sobre o amor, nada a declarar. Sobre o ódio, devo dizer que poucas coisas são mais comoventes que o desacato e o xingamento (se forem feitos com certa elegância, como é o caso abaixo). Declarações de ódio costumam ser mais poderosas e duradouras que declarações de amor. Hoje em dia, como demonstra o e-mail abaixo, é fácil perceber como esse pessoal do bem que deseja salvar o planeta cultiva o ódio sincero. Como estou com preguiça de escrever, publico o texto que segue tal como o recebi. Tiro o chapéu porque, se o assunto é ódio sincero, estamos bem acompanhados.

Bom dia caro sr. Maicon!!

Hoje me acordei particularmente feliz, conquanto estivesse chovendo, o céu muito cinza e um friozinho que não me dava vontade de sair da cama. Ainda assim, me sentia leve, porque sonhei com sua figura. No meu sonho eu o vi em diversas situações, tais como: puxando uma carroça com peso de 2 toneladas, correndo de um bando de criminosos que lhe cortavam os chifres e seu rabo, pulando em cima de uma chapa quente para aprender a dançar, sendo escalpelado vivo para retirar sua delicada pele e com ela fazer casacos…. Ah, que sonho maravilhoso! Infelizmente não sonhei com uma coisa que me apeteceria muito: vê-lo arder numa fogueira da Inquisição, em praça pública, debaixo da chacota da plebe ignara.

Sempre fico intrigada com algumas coisas a seu respeito:

. Quem lhe cravou a alcunha de escritor, colunista, articulista, cronista ou qualquer outro título do gênero?

. Qual a razão do JSC mantê-lo em seu quadro de colaboradores? O senhor paga para aparecer no jornal? O veículo está falido, é isso??

. Qual patologia lhe acomete o cérebro que o torna esse quase psicopata? Aliás, recomendo, aí em Blumenau existem vários psiquiatras de muito bom calibre, como o Dr. Otmar Steiner, Dr. Hercílio, Dra. Vera….

. Não entendo como o senhor que se apregoa tão dotado de cultura ainda não tenha lido nada sobre maus tratos contra animais. O senhor nunca leu os estudos do FBI a respeito do assunto? Aconselho.

.Que prazer doentio o leva a pensar e externar suas ideias infames? Ver seu computador cheio de críticas de “cordeirinhos politicamente corretos” deve levá-lo a orgasmos múltiplos, não é?

Ah, senhor Maicon, vá procurar ajuda psiquiátrica, é um favor que faz a si mesmo e aos outros. O senhor é tão ridículo quanto o seu nome americanizado. Ainda há tempo, o senhor é moço, bonitinho até, tirando esse cabelo de capacete. Aliás, talvez seja o seu penteado que prejudique o funcionamento de seus neurônios.

Eu, de minha parte, não busco a perfeição ou a santidade, busco apenas evoluir como ser humano e respeitar todas as formas de vida. Claro que faço algumas exceções. Para o senhor, por exemplo. Saio do salto, rodo minha baiana e não lhe mostro a língua não, mas mostro-lhe aquele dedo, sabe qual é, não? E não será o meu, visto que minha mão é pequenina, mas um DEDÃO tipo um tresoitão….

Agora sim, mesmo com o tempo ainda fechado, posso dizer que estou feliz!!!

Tenha uma boa semana, mas não esqueça, cuidado ao se sentar. E lembre-se o Ministério da Saúde adverte: dedadas no ………. doem muito!

Atenciosamente,

Ana Luiza Burger

Enfermeira

Outra coisinha, antes que eu me esqueça: abominável é a mãe!!!

Teatro, tapas: Blumenau

18 de julho de 2011 2

O Vigésimo Quarto Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau chegou ao fim com registros de bons e maus acontecimentos.
Os bons: a sempiternamente necessária celebração da arte, que por si só justifica o evento, e o nível satisfatório que marcou quase todas as peças apresentadas. Das dez a que assisti, destaco Vida, o espetáculo de abertura; A Porca Faz Anos, inspirada na tradição tão brasileira do teatro de revista; Trajetória X, semitragédia sobre a prostituição infantil em Brasília; e Números, que dialoga diretamente com as atrações dos pequenos circos que circulam pelo interior do país. (Ah, que saudade do Circo Panamericano e suas touradas com o hábil palhaço Mandioca, capaz de dominar os animais sem nunca maltratá-los. Atenção, cordeirinhos do politicamente correto: olhem para a foto ali em cima e me imaginem mostrando a língua).
Também não devo esquecer os grandes momentos proporcionados pela Mostra Ibero-Americana, com grupos da Argentina, Chile e Colômbia, e, last but not least, a Mostra Blumenauense de Teatro, que ocorreu nas dependências da Fundação Cultural, com 5 peças de excelente qualidade, sendo 4 escritas por Gregory Haertel, nome que se estabelece na dramaturgia catarinense. É claro que também houve peças muito ruins, mas isso faz parte do show. Cito Trânsito Livre, em que os atores decepcionaram ao tentar improvisar sobre perguntas feitas pelo público, e Ponto de Partida, espécie de alegoria da morte do jornalista Wladimir Herzog. Mesmo com texto de Gianfrancesco Guarnieri, o espetáculo saiu chato e artificial. Na apresentação a que assisti, contei seis pessoas dormindo (literalmente).
Agora os maus acontecimentos: os tapas, claro, os tabefes que soldados da PM aplicaram em Alexandre de Sena, um ator NEGRO que cometeu o desacato de ficar parado num posto de gasolina. À primeira vista, tivemos “apenas” mais um ato de racismo escancarado, mas me atrevo a dizer que foi algo pior, mais complexo e profundo. Foi a resposta de Blumenau, pelo menos de sua parte mais conservadora, à atmosfera dionisíaca que se instalou na cidade com o Festival de Teatro. Se postos ocupados por “galeras” durante a noite são comuns entre nós, pergunto por que a polícia não age com a mesma severidade contra os loirinhos e as loirinhas que se encostam em seus carros importados para beber e zoar.
A resposta é óbvia, não? Além de celebrar a arte, o Fitub, infelizmente, também serve para dizer que está na hora de acordar, Blumenau!