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Posts de agosto 2011

Certinhos e malandros

31 de agosto de 2011 1

Considerando que ontem falei de educação – ou da falta de, no caso de quem usa plagiar trabalhos de aula – aproveito o embalo para seguir num tema similar.

Dizem por aí que existe uma espécie de maldição que costuma recair sobre os estudantes certinhos e organizados. De tanto caprichar nos deveres escolares e prestar atenção nas explicações do professor, cedo esse pessoal sente o peso da responsabilidade, ainda mais se houver aquela cobrança básica da família, que muitas vezes consiste em deixar claro que não há cobrança nenhuma.

Imaginem a cena: a mamãe abraça a cria estudiosa e, com grande convicção, diz o seguinte: “faça o que puder, filho, não precisa provar nada a ninguém, muito menos a nós aqui de casa”. Parece que é tiro e queda. Diante de um exame vestibular ou de qualquer outra prova mais decisiva, é provável que esse tipo ideal de estudante, mesmo conhecendo a matéria, seja tomado pelo pânico da brancura e – que lástima! – fracasse na conquista de uma boa nota.

Dizem também que, em compensação, o aluno relapso ou simplesmente malandro, de quem ninguém espera muita coisa mesmo, acaba reunindo condições mais propícias para testes tenebrosos, mesmo que tenha passado por cima de quase todo o currículo escolar. Para completar o paradoxo, faz alguns anos que certos especialistas em RH começaram a alardear que os maus alunos, em muitos casos, acabam se tornando os melhores profissionais. Bom relacionamento com o grupo e capacidade de liderança seriam os motivos desse sucesso inesperado.

Como eu disse antes, dizem que é assim, mas, como digo agora, são poucos os que se cansam de dizer asneiras por aí.

Já relatei aqui que leciono Língua Portuguesa desde 1995. De uns tempos para cá, graças também a esta coluna, passei a encontrar uma quantidade enorme de ex-alunos pelos e-mails da vida. Por isso, posso garantir que essa história de que os malandros sobressaem está mais para o mito do que para a realidade. O fato até pode se confirmar em certos casos isolados, mas nunca como a regra geral da história.

Volta e meia vejo um ex-aluno de terno e gravata dirigindo um carro importado do tipo que, se eu começar a economizar agora, poderei comprar na próxima encarnação. Era estudioso. Também já topei com muitos ex-alunos que, mesmo formados em Direito ou Administração, na verdade estavam ganhando a vida como auxiliares de escritório. Eram malandros. Será que isso é coincidência? Quem se propõe a estudar só tem uma alternativa real: estudar pra valer. O resto é conversa para consolar os preguiçosos.

O plágio não compensa

30 de agosto de 2011 2

Ah, o plágio de trabalhos escolares e acadêmicos!

Ele provavelmente existe desde a invenção da escrita, mas tudo indica que tenha aumentado com o avanço dos meios digitais. Antigamente, o estudante era obrigado a visitar uma biblioteca, escolher um verbete na Enciclopédia Barsa e, de punho próprio, copiar o texto de cabo a rabo, inclusive com as desatualizações gráficas, para só depois colocar o seu lindo nomezinho abaixo do título. Agora as coisas acontecem com mais velocidade. Basta escolher um site qualquer na internet (quanta preguiça: poucos passam da primeira página do Google!), dar um control C + control V bem rapidinho e deixar o resto do serviço para a impressora.

Uma vez, lembro bem, quando era professor do Ensino Médio, pedi algumas impressões sobre três ou quatro poemas do Fernando Pessoa. Na semana seguinte, um aluno me trouxe um tratado de 300 páginas a respeito de toda a Literatura Portuguesa, incluindo os trovadores medievais e uma exaustiva análise d’Os Lusíadas. O pior é que o aluno, assim como os pais que estavam “pagaaaaando” pelo ensino, ficaram indignados quando recusei o calhamaço e solicitei um novo trabalho, um pouco mais simples, que podia ser escrito com vocabulário ao alcance de um estudante de 15 ou 16 anos.

— Mas ele ficou a tarde inteira na internet — choramingou a mãe. — Para imprimir, gastamos três pacotes de Chamequinho!

Em outra ocasião, já como professor da Universidade, pedi uma resenha sobre o filme Memórias Póstumas, baseado na obra do Machado. Dos 30 estudantes da turma, 16 fizeram um trabalho do tipo Frankenstein, que consiste em pegar um pedaço daqui, outro de lá e outra de acolá. Ao recompensar os malandros com a nota zero, ouvi uma jura de vingança. Organizaram um abaixo-assinado e tentaram me queimar numa fogueira pública. A pendenga terminou diante do diretor de centro, onde demonstrei a origem de cada frase e de cada parágrafo “chupado” da internet. E teve gente que ainda ficou zangada com o meu sorriso de triunfo!

Mas ó: contei essas duas histórias como uma espécie de alerta. Graças ao mesmo Google usado nos plágios, é cada vez mais corriqueiro que dissertações de mestrado e teses de doutorado sejam desmascaradas anos depois de defendidas. É constrangedor ver as lágrimas de um vigarista devolvendo o diploma. Se você é estudante, meu amigo, então estude. Se está copiando, pare enquanto é tempo. Mais cedo ou mais tarde, o vexame recairá sobre a sua cabeça oca.

As grandes adúlteras do século 19

29 de agosto de 2011 0

Se fizesse uma lista das minhas personagens preferidas, colocaria as grandes adúlteras do séculos 19 em primeiro lugar. Sei que a minha escolha é um tanto confusa, já que, no referendado século áureo do romance, adultério é que não faltava para preencher as tramas e chocar a sociedade. Mas também não preciso ser tão abrangente e explicativo. No bem da verdade, houve apenas quatro grandes adúlteras na literatura oitocentista. O resto foi imitação. Ou, para ser mais sintético, as quatro grandes não passam de derivações ou complementações umas das outras. São elas: Ana Karenina, de Tolstoi; Ema Bovary, de Flaubert; a Luísa prima do Basílio, de Eça de Queirós; e a misteriosa Capitu, do nosso Machado. Originárias de culturas ou idiomas tão diferentes, são incrivelmente semelhantes, ainda que, é claro, mantenham suas características individuais.

Pra começo de conversa, devemos considerar que todas eram infelizes no casamento. De suas famílias modestas e subalternas, foram repassadas aos cuidados de homens mais velhos que ostentavam posses ou diplomas capazes de garantir um espaço de destaque na sociedade. Como era corrente na época, esses homens, embora com inegável sutileza, tratavam suas mulheres como mais um bem ou mais um certificado a ser exibido nos passeios e nos salões de baile.

Num primeiro momento, nossas futuras adúlteras se entregam alegremente ao papel de rainhas domésticas, lidando com os servos da casa, tocando piano durante os saraus e desejando educar (de longe e com certo recato) os filhos que surgiriam para consolidar o empreendimento matrimonial. Cedo, porém, encontram-se com o tédio, com as inclementes rotinas que se acometiam sobre as mulheres da época, com a descoberta de que não passavam de bonecas decorativas e de que seus maridos, nem sempre canalhas ou desonestos, não passavam de… pois é…. maridos, homens comuns, fracos, demasiado humanos, tão diferentes dos príncipes e cavaleiros que povoavam as páginas dos romances que elas liam na juventude.

É aqui que chegamos à grande e quase imperceptível semelhança que as quatro mantinham entre si. Todas elas eram ou foram leitoras vorazes de histórias românticas. E é isso que nos leva a duas intrigantes conclusões: 1) tornaram-se adúlteras porque primeiro foram leitoras e se deixaram envenenar pelo inconformismo típico da literatura; 2) não pularam a cerca por simples esporte sexual. Elas queriam mais do que isso, muito mais, mais até do que afirmar suas identidades femininas (como querem as feministas de linha mais radical). Elas queriam ser amadas de verdade. Como se fosse uma menina de 15 anos, Ema Bovary suplica ao amante Rodolfo que pense nela quando o carrilhão toca à meia-noite. Como não se apaixonar por essa mulher que, amante astuta, era ao mesmo tempo escravizada por sentimentos tão pouco amadurecidos?

Por fim, resta a parte chata das histórias. Todas elas morreram no final, e algumas de forma violenta, suicidando-se com veneno ou se atirando debaixo de trens fumacentos. Seria um sinal de conservadorismo dos seus criadores, uma espécie de advertência subliminar que enviavam às leitoras da época, algo do gênero “estão vendo o que acontece com quem acredita nas bobagens que lê e depois sai traindo o marido por aí”? Talvez seja o contrário: o protesto contra a hipocrisia de uma sociedade que jamais perdoou os sonhadores e os que tiveram coragem de sair do conforto e perseguir o louco desejo de amar sem convenções.

Essas quatro senhoras atrevidas, tão fictícias e tão reais… Elas povoam a nossa imaginação

Almas de vira-latas

24 de agosto de 2011 4

Faz quase quatro anos que ocupo este espaço com minhas idiossincrasias. Admito que gastei a maior parte desse tempo apontando o dedo para os blumenauenses, fundamentais ou não, e acusando-os de salto-altismo excessivo. Na minha modesta opinião – eu que, por ser forasteiro, aprendi a observar a cidade “de fora” – a nossa arrogância e a nossa expectativa de autossuficiência nos tornaram campeões em, primeiramente, erigir nossos próprios castelos (alguns de areia) e, segundamente, perder oportunidades de crescimento cultural, social e até mesmo econômico.

Pois bem. Sou obrigado a admitir que errei, pelo menos em parte. Detesto fazer isso, mas, aqui ó, dou a mão à palmatória. Não vamos generalizar, mas é mentira que o blumenauense seja soberbo. Na verdade, é justamente o contrário. Não anda com os olhos postados no céu, como era de se esperar, mas caídos e quicando na calçada, na sarjeta, na retaguarda dos sonhos e da autêntica ambição. Os blumenauenses, ou boa parte deles, possuem almas de vira-latas.

Como tenho coragem de afirmar uma coisa dessas? Os fatos recentes! Graças a eles, chego a conclusões tão derrisórias. Diante da possibilidade de termos uma universidade federal na região, não faltou quem aparecesse para gritar: prefiro a duplicação da BR-470! Ou: se for para “salvar” a Furb, então é melhor federalizar o Hospital Santa Isabel! Ou ainda: que mané federal! Pega essa grana e cria mais bolsas do Pró-Uni, assim os estudantes podem pagar as mensalidades das particulares com bolsas do governo!

Naturalmente, existem duas formas de interpretar as opiniões acima. A primeira deve levar em conta o ceticismo da população em relação à Brasília. A segunda, que se encontra com o que quero dizer, nos faz pensar que a mentalidade reinante é a seguinte: Dilma já fez muito em estender seus olhos para cá, pois nós, coitadinhos, só merecemos uma obra. Ou a Federal, ou a 470. Não temos o direito de esperar as duas coisas ao mesmo tempo.

Por isso é melhor cruzar os braços e desistir de lutar. De quebra, só por distração, pode-se zombar um pouco dos crédulos que continuam levantando a voz e as esperanças da localidade. Que bobocas!

No final, porém, graças aos bobocas, aos crédulos, aos utopistas, é possível que tenhamos mais presença do governo federal na região. Será o momento de vermos os zombeteiros descruzando os braços e reivindicando as conquistas para si, como típicas almas de vira-lata. Mas tudo bem. Desde que o mundo é mundo, parece que as coisas são assim.

Dilma... "dobrada"?

23 de agosto de 2011 0

Precisamos falar um pouco mais sério, e com os pés mais fincados no chão, a respeito do andamento do projeto Furb Federal. Digo isso porque vejo duas descaracterizações opostas na interpretação dos fatos. A primeira, típica de Blumenau e região, já começou a jogar confetes e contar vitória antes da hora. A segunda, sabe Deus por quê, procura depreciar a legitimidade do movimento por uma universidade federal na região.

Quanto ao primeiro item, eu honestamente não consegui entender por que o Jornal de Santa Catarina afirmou, na capa do fim de semana, que o Vale “dobrou” Dilma pela Federal. Que eu saiba, o Vale não dobrou ninguém. Até agora, o que recebemos de Dilma foi uma esmolinha para eleger um prefeito e, quem sabe, uma futura governadora. Ou temos dificuldade de ler nas entrelinhas, ou a nossa velha e famigerada pretensão falou mais alto.

Em vez de criar uma universidade autônoma no Vale – que poderia funcionar com ou sem a Furb – Dilma ordenou ao MEC que por sua vez ordenasse à UFSC que, a exemplo do que anda ocorrendo em Araranguá, Joinville e Curitibanos, iniciasse a problemática e lenta instalação de um campus em Blumenau. É claro que isso não chega a ser um ponto negativo, mas não é, definitivamente, a vitória alardeada pelo PT local. A luta, por isso, não está no fim. Ela deve continuar por uma universidade de verdade, com pesquisa e extensão, com envolvimento na comunidade (algo que, dentro das suas limitações, a Furb faz há 47 anos), e não apenas a implantação de mais um punhado de cursos de terceiro grau.

Em relação ao segundo item, é uma pena que, como professor da Furb, eu seja obrigado a voltar ao debate. No entender de algumas vozes que se manifestam na imprensa e nas redes sociais, os funcionários da Furb não passam de um bando de malandros tentando entrar sem concurso na esfera federal. Não se trata disso. Caso a Furb seja incorporada pela UFSC, o futuro mais incerto cabe justamente aos funcionários e professores. Ninguém está saindo às ruas para salvar os empregos ou coisa que o valha. O que queremos é uma universidade federal de verdade na região, e não um prêmio de consolação ofertado pelo MEC.

A passeata de hoje à noite, por esses motivos, possui importância incontestável. Vamos gritar para que a Furb seja incorporada em sua totalidade. Ou então, vamos mais longe, vamos continuar gritando pela CRIAÇÃO da Universidade Federal do Vale do Itajaí. Queremos mais do que uma extensão da UFSC. Se Brasília não nos ouvir, que ouçam os políticos que pretendem lucrar com a história.

Prolíficos e perfeccionistas

22 de agosto de 2011 0

Quando leio as breves biografias de escritores nos livros didáticos, procuro observar o quão longevo foi o sujeito, ou seja, com quantos anos morreu, e o quão produtiva foi sua obra, ou seja, quantos livros publicou. É assim que descubro a existência dos prolíficos e dos perfeccionistas.

Os primeiros escrevem com frenesi, publicam um livro atrás do outro, cultivam todos os gênero, da poesia ao romance, do conto ao ensaio literário, e normalmente possuem um renque de obras “menores” como manuais escolares ou antologias de discursos cívicos. Já os perfeccionistas, conforme a própria denominação, são terrivelmente cautelosos na hora de publicar, passam anos revisando o mesmo livro e não raro se mordem por uma vírgula fora de lugar ou uma palavrinha que ficou sobrando numa fala de personagem.

No caso da nossa literatura, não há dúvidas de que o protótipo do escritor prolífico seja Coelho Neto (1864-1934). É possível que o leitor nunca tenha ouvido falar dele. É que Coelho Neto, hoje, está esquecidíssimo (prova de que a quantidade nunca resolveu nada mesmo), mas foi, em sua época, um dos prosadores mais festejados do Brasil. Amigo de Machado de Assis e membro fundador da Academia Brasileira de Letras, publicou nada menos que 102 livros. Houve ocasião em que chegou a publicar 10 volumes num único ano. Outra de suas façanhas foi ter escrito um caudaloso romance em apenas 15 dias.

Se quisermos encontrar o oposto de Coelho Neto, basta prestar atenção na parcimônia mineira. Lá nasceu Murilo Rubião (1916-1991), uma espécie de Kafka tupiniquim que gastou muito mais noites reescrevendo do que propriamente escrevendo sua literatura. “Sete anos levei para escrever meu primeiro livro O Ex-Mágico”, informou num depoimento. “Nem por isso ele saiu melhor”. Detalhe inquietante: o Ex-Mágico era um livrinho magro com menos de 100 páginas! Era um perfeccionista até a medula! Em toda a sua carreira, Murilo Rubião publicou apenas 34 contos. Sua obra completa cabe num volume menos do que qualquer volume da saga Harry Potter.

Seja como for, existe uma “verdade” corrente a respeito dos escritores em geral: dizem que passam a vida reescrevendo o mesmo livro, isto é, tratando dos mesmos assuntos e com os mesmos recursos de linguagem. Os prolíficos fazem isso em vários volumes, tentativa após tentativa. Já os perfeccionistas, mais ciosos e comedidos, resolvem o problema em poucas páginas. Mas que elas devem dar mais trabalho, ah, isso devem!

O Grande Irmão Google

19 de agosto de 2011 1

Eu estaria exagerando se dissesse que é fácil entender como o Google, um dos maiores fenômenos econômicos e culturais da contemporaneidade, conseguiu crescer a ponto de dominar o mundo (sim, dominar, e creio que não exagero na escolha do verbo). Por outro lado, é muito fácil entender por que o hoje megalômano empreendimento de Larry Page e Sergey Brin continuará senhor de todos os terráqueos que porventura tenham uma conexão à internet.

É que as pessoas gostam de cabresto, ponto final. Na realidade, sentem-se confortáveis quando alguém puxa as rédeas e indica o caminho a seguir. O açoite nas ancas e o ferro na boca podem doer um pouco, mas isso vale a pena se considerarmos que nenhuma dor será mais incisiva que a de pensar com a própria cabeça. Quando temos um mestre do universo para aplaudir e idolatrar, tudo se realizará sem que precisemos gastar massa cinzenta. Viva, viva!

Quem usa o Gmail – ou mesmo outros produtos Google como o YouTube e o site de buscas – sabe que a internet é uma maravilha devido à sua velocidade e praticidade. Mais do que isso, a rede é capaz de operar milagres. Por exemplo: se faço uma pesquisa sobre automóveis ou envio um e-mail a um amigo que queira vender um carro, imediatamente recebo mensagens com links de dezenas de concessionárias prontas a me oferecer o melhor negócio. Quer dizer: mais do que mapear os nossos hábitos internáuticos, o Google tem a capacidade de fazer uma varredura no texto dos nossos e-mails e identificar palavras-chave para compor perfis de consumidor.

Enquanto o assunto se restringir ao comércio de bens materiais, vá lá. Mas como ficam as esferas pessoais, políticas e religiosas? A propósito, esse tipo de procedimento possui legalidade jurídica? Não digo que o Google seja a única empresa a fazer isso, mas o seu tamanho e a sua abrangência ao redor do planeta transformam-no em protagonista da mutreta. Mas o pior vem agora: quando alguém resolve falar alguma coisa, não faltam googlemaníacos encabrestados para defender os seus senhores. É por isso que o Grande Irmão que tudo pode e tudo vê ficará mais e mais poderoso.

Antigamente, os soldados invadiam as casas e obrigavam as pessoas a revelar os seus dados. Hoje entramos na internet e fazemos todo o trabalho por conta própria.

Federal, nossa?

18 de agosto de 2011 8

Juro que não entendi o título de uma das principais matérias do Santa, ontem, anunciando que “a universidade federal é nossa”. Nossa, como? Não desejo jogar um balde de água fria em ninguém, o movimento pela Furb Federal deve prosseguir com entusiasmo redobrado, mas a grande verdade é que por enquanto ficamos no esquecimento, chupando o dedo e sentindo-se no dever de comemorar as migalhas que caíram da mesa.

O Vale queria e quer a CRIAÇÃO da sua própria federal, com ou sem a Furb no processo, e não uma extensão paliativa da UFSC. A propósito, a presença da UFSC na região, com cursos semipresenciais de licenciatura, é uma ideia antiga e pouco pertinente para o desenvolvimento local. Portanto, não há nada de muito novo no front. E isso significa que, até agora, continuamos de mãos abanando, e alguns bem felizes, abanando para o alto na crença de que Dilma realmente fez algo por nós.

— Pra que reclamar? — dizem os otimistas. — Pelo menos vai ter ensino gratuito na região.

Mas aí eu pergunto: qual será o tamanho desse ensino? Quantos estudantes vai contemplar e em quanto tempo ficará pronto? Haverá também pesquisa e extensão, ou seja, um campus participativo e atuante na comunidade? A triste verdade é que, até o momento, Dilma nada mais fez que nos atirar as moedinhas que sobraram na carteira. Quando o MEC quis saber o que Blumenau poderia fazer para auxiliar na instalação do campus da UFSC, a resposta foi clara e incisiva:

— Temos uma universidade pronta, sem passivos sérios, com centenas de salas de aula e uma biblioteca que vale 45 milhões de reais, basta fazer a incorporação e começar a trabalhar.

Então, minha gente, pensando pelo óbvio, por que não criar de uma vez a tal Universidade Federal do Vale do Itajaí? Respostas: porque não temos força política, porque nossos deputados foram relapsos no princípio do processo (ninguém acreditava na Furb Federal) e porque Brasília, infelizmente, está cagando e andando para Santa Catarina. Como prêmio de consolo, ganhamos um braço de federal, e um braço fraquinho, já que a UFSC mal está conseguindo implantar os campi de Joinville, Curitibanos e Araranguá. Seremos o quarto núcleo, mais nada.

Mas ainda resta uma esperança, que a Furb seja incorporada pela UFSC e que o nosso campus seja aproveitado em sua totalidade. Assim poderíamos continuar aspirando às sonhadas 20 mil vagas gratuitas no ensino superior da região. Esse processo vai se efetivar de fato? Se sim, como? São perguntas que, por enquanto, ninguém é capaz de responder.

Máquina de fazer loucos

17 de agosto de 2011 2

De umas semanas para cá, tenho dedicado um tempo maior que o necessário à chamada TV aberta. É que meu controle remoto está quebrado. No princípio, por isso, comecei a assistir a certos programas da telinha por pura preguiça de me levantar e mudar de canal (mas também, confesso, por uma atração demasiadamente humana aos espetáculos degradantes e vis). Depois, posando para mim mesmo como “cientista da comunicação”, parti para uma espécie de análise comparativa das atrações televisivas.

No bem da verdade, podemos jogar tudo no mesmo balaio: programas de auditório, telejornais, telenovelas, talk shows, todos os formatos perseguem o único e obsessivo objetivo da audiência, o trunfo de qualquer emissora, o produto abstrato que, concretizado em números de ibope, pode se transformar em contratos e dividendos junto aos anunciantes.

Ao contrário do que se costuma dizer, os programas mais sérios – ou que se comportam como tal – são os mais perigosos. As baboseiras despropositadas de atrações do gênero Ratinho são tão despropositadas, e tão baboseiras, que é simplesmente impossível lhes atribuir alguma importância. Por outro lado, telejornais que se arrogam a premissa da verdade, com repórteres franzindo as sobrancelhas enquanto despejam o seu português asseado e gramatical (nem tanto, mas esse é outro papo) nos microfones, podem surtir um efeito verdadeiramente deletério nas mentes dos telespectadores. Passou no jornal, não passou? Então deve ser verdade.

Ao fim e ao cabo, porém, o programa dito sério é um cão que persegue o mesmo osso desejado pelos palhaços e fanfarrões dos quadros circenses. Deve ser por isso que tudo anda meio misturado na TV de hoje em dia. Enquanto os assuntos mais importantes – política, por exemplo – são destruídos pelas opiniões vulgares de celebridades bem apessoadas, os apresentadores de terno e gravata gastam o melhor do seu tempo com banalidades sem o menor interesse comunitário. No meio de todos eles, a logomarca do anunciante, elevada ao mesmo nível da notícia ou do entretenimento.

Meus antigos professores do Ensino Médio costumavam dizer que a televisão é uma máquina de fazer loucos, nem mais, nem menos. Deveria, por isso, ser destruída ou – não sejamos agressivos – pelo menos desligada. Depois que eu mesmo me tornei professor, resolvi tomar uma posição mais liberal. Nada de destruir ou desligar o móvel principal da casa. Precisamos entender a TV como fenômeno social.

Hoje, porém, exposto que fiquei a tantos programas de auditório “intelectualizados”, bem como a tantos telejornais convertidos em picadeiro, finalmente cheguei à conclusão de que os antigos é que estavam certos.

Precisamos estudar pra valer!

16 de agosto de 2011 1

Tanto falei sobre a transição sem precedentes históricos pela qual passa a humanidade que começo a duvidar das minhas próprias palavras. Mas não adianta relutar, o fato é verdadeiro, sem apelo e sem retorno. Nos últimos 30 anos, a ciência e a comunicação chegaram ao topo do interesse social. Isso não significa que conhecimento e informação foram irrelevantes em períodos anteriores. A diferença é que, se antes serviam de base para a criação de novos produtos e serviços, hoje são os produtos e os serviços em si.

A popularização da internet era o que faltava para concretizar essa realidade de uma vez.

Embora as sociedades sempre tenham comercializado palavras, imagens, ideias e conceitos, os canais de distribuição eram precários, e o público, quase todo analfabeto. A tal transição sem precedentes nada mais é que a solução tecnológica desses problemas. Do mesmo modo que as redes fluviais do século 18, as estradas de ferro do 19 e as rodovias do 20 possibilitaram um intenso comércio de mercadorias físicas, as conexões internáuticas estão possibilitando a troca acelerada de informações. Não é por acaso que, pelo menos nos países desenvolvidos, os programas de alfabetização acompanharam esse processo.

Eis um dado crucial: para o futuro de uma nação até então periférica como o Brasil, de nada adiantará a tecnologia digital e o acesso facilitado ao conhecimento se, no mesmo compasso, não tivermos um investimento maciço na formação intelectual dos cidadãos. Fala-se muito em educação, principalmente na época das eleições, mas só falar não basta. Temos a oportunidade de dar um grande e inesperado passo rumo ao desenvolvimento, mas primeiro precisamos ler mais, estudar mais, aprender mais.

Se muda o nosso relacionamento com a informação, mudam também as estruturas de poder e comportamento que nos guiaram até agora. Mudam os hábitos de consumo. Mudam as concepções de cidadania e participação política do eleitorado. Mudam os cuidados com a infraestrutura, com o saneamento básico, com a saúde das nossas crianças, com as expectativas de vida, cada vez mais longevas e produtivas. Muda tudo, tudo mesmo. Mas nada disso acontecerá de fato se a mudança não começar por nós.

Por isso, é preciso estudar de verdade, não adianta só fazer de conta. Precisamos estar preparados para não perder a “onda” da transição que citei ali em cima. Se isso acontecer, continuaremos reclamando que somos explorados pelos países ricos. Como consolo, até que vai. Mas será frustrante demais…