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O Jornalismo e a Literatura

29 de setembro de 2011 2

Faz tempo que venho servindo a dois senhores.

Ou melhor, a um senhor e a uma senhora. O primeiro, que responde pelo nome de Jornalismo, usa monóculo e bigodes, é um sujeito sisudo que costuma controlar o meu horário, me obriga a bater ponto e lhe dedicar atenção nos momentos mais impróprios e menos inspirados do dia.

A segunda se chama Literatura. É bela e airosa, cheia de lascívia e criatividade, e sempre que pode me entretém com suas palavras canoras, com sua conversa doce, com seu ar de mulher vivida e cosmopolita.

Todos os dias o Jornalismo olha por sobre o meu ombro e, soltando um bafo incômodo no meu pescoço, pergunta sobre as 36 malditas linhas diárias que devo entregar até o fim da tarde.

— Que é isso, Maicon?! Ainda não acabou?

— Calma, que tô quase lá. Só preciso de mais uns minutos…

— Não é possível esperar um segundo sequer!

— Mas… mas…

— Não tem “mas”! Ou conclui o texto agora, ou admite que é um fracassado e joga a toalha de uma vez!

À noite, chego em casa cansado e me esparramo no sofá. Aquela bela dama, a Literatura, me chama lá do quarto, me convida para o seu leito de sabores e delícias, mas, infelizmente, nem tudo sai como o sonhado.

Às vezes entro em pânico, perco o sono imaginando que algum dia ela possa me abandonar. É uma mulher capaz de oferecer os mais indizíveis prazeres, mas é também exigente, não raro brande o dedo diante do meu nariz e sentencia:

— Ou o Jornalismo, ou eu!

— Não é isso, querida, eu te adoro, eu quero sempre ficar ao seu lado, mas é preciso ganhar a vida.

— Ganhar a vida! Quando nos conhecemos, você me prometeu que viveríamos apenas de amor!

Ontem encontrei a coitadinha encolhida no canto do quarto. Estava abraçada aos próprios joelhos e soluçava com uma ternura que de pronto me deixou comovido:

— Você não… me ama… mais?…

Quase morri de remorsos. Mas entendi que na vida é preciso tomar decisões. Amanhã mesmo vou conversar com o Jornalismo, vou lhe dizer umas verdades, botar os pingos nos is, resolver essa história de uma vez por todas. Sei que será difícil viver apenas de amor. Mas pelo menos poderei me dedicar, por inteiro, a essa bela dama, a Literatura.

Comentários (2)

  • FABIO RAMOS diz: 29 de setembro de 2011

    PARABÉNS PELO TEU TEXTO MAICON.
    EU SOU ESCRITOR, E BRINCO DE ESCREVER MATERIAS AI PARA JORNAIS E REVISTAS, E BLOGS.

    SEJA BEM VINDO, ABRAÇO E PARABÉNS.

  • giovanna diz: 3 de outubro de 2011

    Caramba, que texto mais bonito…
    Lindo ver como você é apaixonado mesmo por literatura.
    E ela gosta também de você né…

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