
Robusto, pelo negro e com apenas cinco anos, o labrador Claus foi a atração especial da palestra promovida pela Organização Nacional dos Cegos do Brasil durante o Fórum Social Mundial. Nessa sexta-feira, no Unilasalle, ele também cumpriu com louvor sua importante missão: ser o cão guia do brasiliense Justino Bastos, 38, pelos corredores da instituição.
E esta história de fidelidade e, porque não dizer, amizade, nasceu há quatro anos quando Claus era apenas um filhote e Justino se inscreveu na Escola de cães-guias de Brasília. Enquanto o brasiliense desempenhava suas funções como presidente da Associação de Deficientes Visuais do Estado, Claus era treinado para acompanhar um dos cegos inscritos na instituição. Justino sabia que o tempo para conseguir um cão seria longo, uma vez que os animais são entregues ao dono quando ambos têm características de personalidade semelhantes.
Destino a favor da dupla
Em 2006, os instrutores da escola encontraram um deficiente para Claus, mas que não era Justino, que tem grau de cegueira de 95%. Mas quando o destino está a favor, não tem jeito: o outro deficiente ficou apenas alguns meses com o cachorro e acabou devolvendo o animal, alegando que ele era muito "agitado". Assim, Justino entrou na história, indo buscar o labrador que em muito se parecia com ele. A afinidade foi instantânea.
Claus se adaptou a uma rotina cheia de compromissos rapidamente, às vezes ficando até mais acelerado que o dono. E a relação que já dura quatro anos de vez em quando provoca em Claus um certo ciúme do dono.
_ Tem dias em que ele está bem nervoso e tenho que agir com o pulso firme. Quando alguém chega perto e quer me abraçar, ele já se coloca no meio querendo separar a outra pessoa. Ele é bem ciumento mesmo _ brinca.
Durante todo este tempo, o brasiliense tem boas histórias para contar. Em uma ocasião, estava tão quente em Brasília que Claus não suportou o calor do asfalto.
_ Ele saiu como que sapateando, foi bem engraçado. Nesta hora eu fui o dono-guia, porque tinha que arranjar um jeito de tirá-lo dali o mais rápido possível. Já em uma outra ocasião, Claus derrubou com uma das patas o extintor de incêndio de uma agência bancária.
Mas foi em um ônibus de Brasília para Goiânia que ambos viveram o fato mais pitoresco: o motorista não queria permitir que o labrador viajasse no coletivo e sugeriu colocar o animal no bagageiro.
_ Não aceitei a decisão e tanto fiz que o Claus viajou comigo, deitado no assoalho, bem à vontade _ gaba-se.
Ainda assim, algumas histórias semelhantes de preconceito ainda ocorrem como a proibição de entrar em um supermercado. Atualmente, a lei 11.126 prevê que o cão guia tem acesso livre a qualquer espaço público. Hoje Claus divide a atenção de Justino com outros dois cães labradores, um deles sendo treinado para ser cão-guia, que o brasiliense pretender doar a um cego. Se os três mascotes se dão bem?
_ Eles ficam um pouco enciumados, mas são só aquelas brigas de família, sabe? Depois todo mundo se acerta.
Por todo este carinho e serviços prestados, naturalmente Claus não recebe um centavo. A recompensa é o carinho do dono, que com certeza vale mais do que qualquer outro pagamento.
Texto enviado pela jornalista Cris Weber








