Erivaldo Júnior
Era início de ano letivo e eu estudava à noite. Estava estreando no Jussara Polidoro, escola próximo de casa, que, segundo se comentava, era "suspeita" - eufemisticamente, é claro. A turma na qual fui parar era uma balbúrdia, com 40 alunos (no mínimo), impossível de se ministrar as aulas. Eu, já com 21 anos e repetente, me sentia um tio em meio àquele povo. Do alto de minha arrogância, considerava meus colegas intragáveis.
A carruagem foi andando e recebemos a notícia de que, durante um período, as aulas de português (minha matéria predileta) seriam lecionadas por uma estagiária que cursava Letras no Unilassale, de nome Liliane. Na primeira aula, ela pediu que formássemos duplas para a seguinte tarefa: algumas dessas duplas teriam a incumbência de "inventar" a primeira metade de um texto, baseada na segunda metade da história original. Para outros - como eu e a menina que se reuniu comigo - foi entregue a primeira metade da história e, assim, teríamos de criar a segunda parte. Como sempre gostei de escrever - e o interesse subsequente pela faculdade de Jornalismo atesta isso -, assumi a bronca de compor sozinho o texto, tergiversando minha parceira. Rascunhei um terço do texto antes do recreio e o restante depois.
A estagiária fez um semicírculo para que nós lêssemos as redações, em uma sala já esvaziada pela metade por desertores contumazes. Então, pediu que fossem lidas somente as partes escritas pelos alunos. Não fui o primeiro a ler. Seguindo a ordem da esquerda para a direita, escolhida pela professora, e eu estava no meio do caminho. Chega a minha vez e o nervosismo bate - embora eu me sentisse confiante no que concerne à qualidade do texto, a título de comparação. Um dos meus sonhos é ser radialista - por essa trinca de motivos: interesse por música e informação; gosto pela palavra, em sentido amplo; e voz grave.
Dei tudo de mim para que - como estava ali mesmo (Ensino Médio), de onde já devia ter saído há um bom tempo -, minha performance fosse considerável. Ato contínuo, decidi lançar mão de minha influência radiofônica e fiz as vozes dos personagens (um homem conquistador e uma mulher, digamos, afetada), intercalando com minha voz aveludada na narração dos fatos. Ao fim do texto, fui simplesmente ovacionado pelos presentes, em uma atitude não esperada por mim. Eu, que julgava mal meus colegas - tachando-os de insensíveis, burros etc. - estava sendo aplaudido por eles, com direito a pedido de bis.
Foi um dos momentos mais marcantes da minha vida - e fazendo algo que é da minha vocação. A frase "não julgues para que não sejas julgado” caiu como uma luva naquele episódio. Gostaria muito de reencontrar Liliane, a simpática acadêmica que proporcionou este momento inesquecível pra mim.










