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Dignidade conquistada com as próprias mãos

06 de abril de 2014 0

Matheus Beck

As mãos de Luciana Santos da Silva existem para transformar. Com elas, é capaz de converter calotas de automóveis em telas, metamorfosear resíduos obsoletos em objetos de arte. Com elas, reconstruiu sua história de vida, exposta em forma de quadros no Canoas Shopping. E, com elas, converteu sua realidade para uma vida mais digna.

Crédito: Matheus Beck

A artista plástica nasceu em Torres há 40 anos. Filha de um pequeno agricultor, foi criada em Capão da Canoa pelos ganhos do pai com o cultivo de abacaxi. Á época um negócio rentável, pôde cursar Direito em Caxias do Sul por quatro anos. A convivência com estudantes e intelectuais de todas as áreas despertou em si o apreço pela arte, embora não praticasse nada do tipo ainda.

Há 15 anos, porém, uma enorme ruptura fez com que sua vida mudasse totalmente. Luciana mudou-se para Sapucaia do Sul, se separou do marido e teve de cuidar das três filhas _ com idades de zero a cinco anos _ sozinha. A solução imediata foi se tornar recicladora, e passou a catar lixo pelas ruas.

_ Não tinha o que comer, passava o dia na rua. Não tive oportunidades. As empresas me julgavam pela aparência. Então optei por trabalhar com reciclagem _ recorda-se.

O ambiente inóspito, no entanto, não arrefeceu sua força de vontade. Ao encontrar materiais que poderiam ser reaproveitados, levava para casa e construía suas pequenas obras-primas. Ela lia as instruções em latas de tinta para saber qual a superfície ideal para pintar, buscava inspiração em revistas e jornais e vendia de porta em porta suas peças.

A boa recepção do público só aumentou sua motivação. Hoje, Luciana até já define seu estilo:

_ Eu gosto do abstrato. As paisagens são cópias. Identifico-me mais com as formas porque cada peça fica única _ diz a artista.

Reconhecidamente autodidata, Luciana divide seus quadros pela técnica e pelo valor combinado a eles. As peças de pintura acrílica e com textura geralmente são mais baratas que as telas a óleo, feitas apenas sob encomenda. Com a exposição no espaço Ray Kroc (prorrogada por mais 15 dias), no Canoas Shopping, vendeu 15 quadros, além de outros 40 feitos após requisição de clientes que visitaram a mostra e entraram em contato depois.

A forma de comercializar suas obras, aliás, é parte de seu sucesso. Todos os fins de semana ela deixa Sapucaia em direção a Canoas em uma Kombi carrega de quadros. Aos sábados, ela fica em um posto de gasolina no Mato Grande das 9h até o sol se por, e, aos domingos, estaciona o estande móvel na Avenida Boqueirão, no bairro Igara.

_ Canoas foi o único lugar que me permitiram expor. Hoje tenho uma vida muito mais digna. Só faltam as oportunidades de exposição _ relata.

Além dos quadros, Luciana ainda aventura-se com objetos e móveis de decoração. O atual marido é marceneiro e auxilia nas obras em MDF. E ela também não precisa mais buscar a matéria-prima no lixo. Conta agora com um fornecedor próprio de tintas e peças de madeira.

 

Crédito: Matheus Beck

 

 

Crédito: Matheus Beck

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