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Leia os dois primeiros capítulos do livro O Homem-concha, de Johnny Virgil

12 de abril de 2011 2


Capa do livro O Homem-concha - A Casa do Penhasco, de Johnny Virgil


O livro O Homem-concha – A Casa do Penhasco (160 pág., R$ 20), obra do escritor blumenauense Johnny Virgil,  será lançado nesta qiunta-feira, às 19h30min, na Livrarias Catarinense do Shopping Neumarkt (Rua 7 de Setembro, 1213, Centro), em noite de autógrafos.

A reportagem completa sobre a obra você confere no Jornal de Santa Catarina nesta terça-feira, no caderno de Lazer.
Leia abaixo os dois primeiros capítulos do livro (ou clique aqui)

I
Ele nasceu no mar.
Quando a tempestade se acalmou e o oceano refreou a sua fúria, ele veio rastejando em direção à praia, com sua concha colada às costas. Ainda era noite, e ninguém percebeu a sua aproximação, o seu caminhar vagaroso, a forma que se projetou subitamente para fora da água. Dava passos lentos, que, pouco a pouco, expunham o seu corpo ao contato do vento.
Ao chegar à praia, parou. O céu estava negro, e a brisa era fria. Olhou à sua volta com nenhuma mostra de interesse. Ou com um interesse cheio de dúvidas e medo, frente a um mundo desconhecido e repleto de sombras. Os minutos passaram, e a sua pesada concha o forçou a sentar-se. Procurou um lugar onde pudesse descansar a salvo das ondas,
que insistiam para que voltasse para o fundo do mar, lançando-se com fúria sobre a areia.
Mas o homem-concha havia tomado uma decisão. O mar continuaria a ser a sua mãe, mas deixava para sempre de
ser a sua prisão. Resoluto, ele rompeu um pequeno pedaço da sua concha com as mãos trêmulas e o entregou ao mar como prova do seu amor.

A sua concha ficaria, assim, marcada eternamente pela cicatriz dessa separação.
Mas o homem-concha não estava triste.
Deitou-se, por fim, sobre a areia, cansado. Recolheu-se em sua concha, em seu refúgio, e aguardou o raiar do dia, adormecendo.

II
Acordou sobressaltado. Alguém havia posto as mãos na sua concha e fazia força para movê-la. Por um instante, o homem-concha não soube o que fazer; o mundo era algo novo, desconhecia a terra seca. Sentiu medo. Guardou-se dentro da concha, procurou não emitir quaisquer ruídos ou se movimentar. A concha o protegeria contra o assédio de estranhos, de cuja existência tinha conhecimento por meio do instinto.
Eram apenas crianças, intrigadas pelo objeto imenso e insólito, arredondado, que aparecera após uma noite de tempestade sobre as areias da praia. Mas ele não sabia o que eram crianças. No seu entender, eram inimigos porque o amedrontavam, porque o tocavam. Talvez apenas tivesse a secreta noção de que crianças podem também ser capazes de crueldade. O toque era uma forma de contato íntima demais, com a qual nunca se acostumou por completo e para a qual abriu muito poucas exceções ao longo da sua vida. No mar, ele se sentia envolvido; na terra, ele se sentia solitário e vulnerável.
As crianças, então, partiram, insatisfeitas na sua curiosidade. O homem-concha tinha o peso de um adulto somado ao da sua concha, e o brinquedo havia perdido a graça.
O homem-concha permaneceu escondido ainda por um longo tempo após a partida das crianças, receoso de que voltassem. No entanto, a praia estava deserta. Ainda temeroso, pôs as pernas para fora da concha apenas ao meio-dia. Ficou de pé, mas mantinha a sua cabeça dentro da concha. Andou até a arrebentação. Sentindo-se mais seguro, pôs a cabeça lentamente para fora. Os raios de sol cegaram-no momentaneamente — era a primeira vez que os olhos encontravam a irradiação dessa estrela, de forma tão direta e inescapável, e o seu calor que entorpecia. Logo se adaptou, contudo, e contemplou o mar de frente.
Turvaram-lhe os olhos sentimentos confusos e dor, que ele não pôde explicar a si mesmo. A necessidade de partir e a vontade de retornar.
Virou-se para trás e viu que a praia era estreita, cercada por altas paredes de pedra escura. Havia altos rochedos espalhados ao longo da sua extensão. A areia era grossa, quase um cascalho, tons de cinza pontilhados de negro. Algumas plantas sobreviviam nas frinchas das pedras e balouçavam em consonância com o vento. O homem-concha observou tudo com a paciência de um estudioso, ou de um aluno no primeiro dia de aula. Mas buscava algo. Ainda não estava preparado para um meio tão opressor. Nascera há muito pouco tempo, o seu fardo era pesado demais. Não suportaria um outro encontro com estranhos, seres viventes de uma realidade que ainda o assustava. De certa maneira, estava acuado e precisava buscar a proteção de um refúgio maior que o que a sua concha lhe propiciava.
Deparou-se com o esconderijo por acaso, enquanto deslizava sobre a areia, esquadrinhando todos os espaços à sua procura. Entre duas pedras enormes, um vão se havia formado, deixando que o homem-concha ali se aninhasse, duplamente protegido contra o perigoso encontro com estranhos.

Comentários (2)

  • Simone diz: 12 de abril de 2011

    Que história intrigante. Adorei. Quero ler o livro. Vou com certeza no lançamento.

  • Maxmilian Hering diz: 1 de dezembro de 2011

    Impressionante como o Brasil estar pobre de boas obras literárias. Quem dera renascesse Graciliano Ramos, Jorge de Lima e Jorge Amado, nordestinos que em suas gerações souberam como ninguém fazer de suas histórias lindas poesias. Que dure Paulo Coelho, pois se depender de livros como esses, os filhos de nossos filhos terão de ler histórias antigas ou histórias estrangeiras.

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