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Entidades teatrais questionam Maratona Cultural

21 de março de 2013 2

A Maratona Cultural dá a largada na sexta-feira a sua terceira edição em crise com um dos seus principais pilares, o teatro. Causa e consequência do cancelamento da peça Kassandra, impedida de ser encenada em seu local de origem, uma casa de lazer adulta da cidade. O caso levou à desistência de outros três espetáculos da programação _ por solidariedade. Entidades como a Federação Catarinense de Teatro (Fecate), o Centro de Artes da Udesc e o Fórum Setorial Permanente de Artes Cênicas de Florianópolis manifestaram publicamente seus repúdios ao episódio considerado um ato de censura, além de questionarem o atual modelo de financiamento de projetos pelo Funcultural praticado pelo governo do Estado.
Do Fórum Setorial Permanente do Teatro partiram as iniciativas mais contundentes ao sugerir a retirada dos grupos que participam da Maratona; ou que façam a leitura da carta de repúdio da entidade antes de cada espetáculo, além de convidar artistas, produtores e público a aderir ao movimento de protesto comparecendo aos eventos utilizando uma máscara de coelho (uma metáfora à personagem Kassandra).

Do Centro de Artes da Udesc (Ceart)

MOÇÃO DE REPÚDIO
À CENSURA DO ESPETÁCULO KASSANDRA

O Centro de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina e o Departamento de Artes Cênicas da mesma instituição apresentam seu repúdio em relação à decisão dos organizadores da 3a Maratona Cultural de censurar o espetáculo teatral “Kassandra” na programação do evento que se realiza em Florianópolis.
“Kassandra”, protagonizado pela atriz Milena Moraes, desde sua estreia, cumpriu temporada regular na boate Bokarra Club. Nos dias de apresentação, a boate se encontra fechada e sem atividades regulares, funcionando apenas para receber o espetáculo. Tal ambiente é utilizado para dar credibilidade e enfatizar conteúdos críticos intrinsecamente associados à realização artística. Esta é uma exigência do próprio autor da peça, o franco uruguaio Sergio Blanco, que somente autoriza sua encenação em tais contextos e espaços. Por sua originalidade e relevância o projeto do espetáculo foi premiado pela FUNARTE no Edital Miriam Muniz.
Expressamos assim, aos organizadores da Maratona Cultual, o repúdio à censura moral e a discriminação a temas tidos por controversos na extensa gama das manifestações culturais de nossa cidade.
Florianópolis, 20 de março de 2013

Do Fórum Setorial Permanente de Teatro

CARTA DE REPÚDIO

O Fórum Setorial Permanente de Artes Cênicas, da cidade de Florianópolis, vem por meio desta carta manifestar o seu repúdio aos acontecimentos que envolvem a realização da 3a Maratona Cultural de Florianópolis, neste ano de 2013.
O Fórum, que é uma instância de discussão sobre políticas públicas culturais que envolvem as áreas do Teatro, Circo e Contadores de Histórias, repudia o episódio de censura que culminou com a retirada do espetáculo Kassandra da programação do referido evento por ter como espaço de apresentação o Bokarra Club. Segundo o jornalista Rafael Martini (da Coluna “Visor” /Diário Catarinense) a decisão teria vindo do governador, Sr. Raimundo Colombo, que determinou que o espaço de apresentação fosse retirado da programação por se tratar de casa de diversão adulta. Esse fato demonstra uma séria intervenção do poder público no que concerne à liberdade de expressão artística dos grupos e artistas teatrais da cidade e sinaliza que critérios
questionáveis de moralidade foram norteadores dessa decisão, que culminou em um claro ato de censura por parte do Governo do Estado.
Outro motivo de crítica deste Fórum ao evento 3a Maratona Cultural de Florianópolis, produzido pela Harmônica Arte e Entretenimento, são as modalidades de financiamento recebido pelos produtores para a realização do mesmo. No ano de 2012 este Fórum já havia entrado em contato com a Harmônica e seus representantes para uma conversa sobre as modalidades de financiamento público cultural que possibilitaram a realização das duas maratonas anteriores, deixando claro o seu repúdio ao recebimento de verba direta do Governo do Estado de Santa Catarina que foi efetivado mediante fortes indícios de ilegalidade, como por exemplo, a não submissão do projeto à avaliação do Conselho Estadual de Cultura, literalmente passando por cima de diversos projetos de todo o Estado que estavam normalmente tramitando naquela instância, além de indícios de apadrinhamento
político.
Este Fórum compreende que as práticas ilegais e antiéticas que o Governo do Estado de Santa Catarina propaga em sua gestão cultural devem ser combatidas por artistas e produtores do Estado interessados em estabelecer uma Política de Estado para a gestão ética e igualitária dos recursos da cultura. Entendemos que o projeto Maratona Cultural, em dois anos, recebeu no mínimo dois milhões de reais de dinheiro público, vindo dos contribuintes de todo o Estado de Santa Catarina, enquanto projetos como o Prêmio Cruz e Souza, o Salão Victor Meirelles, o Prêmio Cinemateca Catarinense e o Festival Catarinense de Teatro – todos
projetos aprovados pelo Funcultural – não foram pagos pelo Governo do Estado no ano de 2012. O que se questiona é o por quê certos projetos tramitam normalmente e são pagos pelo Funcultural, enquanto a grande maioria, de igual importância e que distribuem as ações culturais pelo Estado inteiro, sequer recebem uma justificativa sobre o não recebimento de verba.
É importante frisar que o projeto Maratona Cultural não é o único projeto a ter recebido verbas de forma questionável por parte do Estado, não foi o primeiro e tampouco será o último se não for iniciado um movimento sério que apure as irregularidades que envolvem a gestão cultural do Estado de Santa Catarina.
Este Fórum não concorda que um evento artístico tenha de ser refém das deliberações do Governo do Estado, por correr riscos de sua não viabilização. Seja por moralismo ou por qualquer outro motivo, entendemos que não é direito do poder público decidir que tipo de arte pode ou não ser vista, e principalmente que tipo de projetos devem ou não ser pagos. Entendemos isto como um desrespeito aos processos legais instituídos para a seleção de projetos culturais a serem beneficiados com a rescisão de impostos destinada à cultura catarinense. Este Fórum muito além de questionar o posicionamento ético da produtora cultural Harmônica Arte e Entretenimento, tem como objetivo, com esta carta, que o público da cidade conheça estes fatos e possa se informar sobre a atual situação da gestão cultural catarinense, que interessa a todos os cidadãos por se tratar de quantias significativas de dinheiro público. Todos os cidadãos têm o direito de saber que a quantidade e qualidade dos eventos culturais de livre acesso à população catarinense seria muito superior se não fossem as práticas adotadas pelos políticos que administram o atual Governo do Estado de Santa Catarina.
Atenciosamente,
FÓRUM SETORIAL PERMANENTE DE ARTES CÊNICAS DE FLORIANÓPOLIS
Florianópolis, 20 de março de 2013
.”

Da Federação Catarinense de Teatro

A Federação Catarinense de Teatro – Fecate vem por meio desta manifestar apoio à Cia. Experimentus (Itajaí) e a Trip Teatro de Animação (Rio do Sul), que cancelaram suas participações na 3ª. Maratona Cultural de Florianópolis, justificando discordância com o fato do evento ser parcialmente financiado pelo Funcultural. Apoiamos também o Fórum Setorial Permanente de Artes Cênicas de Florianópolis, que se pronunciou ontem (20/03) manifestando sua contrariedade à realização do evento dentro deste tipo de subvenção. Portanto, faz-se necessário à Fecate esclarecer a postura de sua diretoria em relação a estas manifestações e à 3ª Maratona Cultural.
A terceira edição da Maratona Cultural, projeto realizado pela Harmônica Arte e Entretenimento, conta com recursos do Funcultural (FCC), da Prefeitura Municipal de Florianópolis, da Lei Rouanet e ainda de apoiadores locais. No que diz respeito especificamente ao Funcultural, que destinou ao evento um montante de aproximadamente novecentos mil reais neste ano, é importante informar que este valor foi aprovado pelo Conselho Estadual de Cultura (CEC), junto a outros projetos culturais como: Festival de Dança de Joinville, FITA – Floripa e Mostra de Cinema Infantil. Esse processo se deu antes do término do prazo para inscrições neste fundo, previsto para encerrar-se no final deste mês. Além disso, os referidos projetos chegaram à avaliação do conselho por indicação do Secretário de Turismo, Cultura e Esporte, Sr. Beto Martins, no intuito de acelerar o processo de seleção, tendo em vista a urgência destes eventos em receberem seus recursos, um procedimento cuja arbitrariedade foi um dos temas das manifestações ocorridas em 2012, tais como o Fórum Catarina e o Ocupa CIC. Entretanto, recentemente esta alternativa foi legalizada a partir de um novo decreto, que permite aos projetos de interesse do Governo, uma avaliação mais rápida. Entendemos esse decreto como a legalização de algo moralmente questionável, e informamos também que desde o início desse processo, o conselheiro que ocupa a cadeira cedida a Fecate no CEC, Luciano Cavichiolli, foi contra esta legalização, e durante a análise destes “projetos especiais” foi contra suas aprovações junto a outros membros desta instância e que tiveram seus votos vencidos pela maioria.
A Cia. Experimentus alega durante o processo de inscrições ter a informação de que o evento seria custeado pela Lei Rouanet, e que quando a divulgação do evento começou a circular ficou exposto que o Governo do Estado novamente apoiou o evento, conforme cita em sua nota de cancelamento (publicada ontem 19/03) nas redes sociais:
“O descaso e a arbitrariedade com a qual a cultura catarinense vem sendo tratada pelo Governo do Estado tem desencadeado diversas manifestações de repúdio que (…) no ano passado deram ampla visibilidade a diversas irregularidades ocorridas, tais como a aprovação de projetos que sequer passaram pelo Conselho Estadual de Cultura, este que legalmente deveria ser o responsável por tal processo, enquanto outros projetos, tais como o Prêmio Cruz e Souza, o Salão Victor Meirelles, o Prêmio Cinemateca Catarinense, e o Festival Catarinense de Teatro, projetos aprovados pelo Funcultural, não foram pagos pelo Governo do Estado” (Cia. Experimentus)
Em reunião da Setorial de Teatro de Florianópolis, realizada ontem (19/03) o coletivo elaborou uma carta de repúdio publicada hoje nas redes virtuais, na qual comentam que: “No ano de 2012 este Fórum já havia entrado em contato com a Harmônica e seus representantes para uma conversa sobre as modalidades de financiamento público cultural que possibilitaram a realização das duas maratonas anteriores, deixando claro o seu repúdio ao recebimento de verba direta do Governo do Estado de Santa Catarina que foi efetivado mediante fortes indícios de ilegalidade, como por exemplo, a não submissão do projeto à avaliação do Conselho Estadual de Cultura, literalmente passando por cima de diversos projetos de todo o Estado que estavam normalmente tramitando naquela instância, além de indícios de apadrinhamento político” (Fórum Setorial Florianópolis).
Além disso, a intervenção do Governo do Estado pela retirada do Bokarra Club da programação, que acarretou no cancelamento do espetáculo “Kassandra”, que seria ali realizado, trouxe à público a impossibilidade da Harmônica em oferecer resistência a esta determinação, despertando o repúdio de diversos artistas, formadores de opinião e de público.
Este aspecto também foi motivo de crítica da Cia. Experimentus: “Seja por moralismo ou por qualquer outro motivo, entendemos que não é direito do poder público decidir que tipo de arte pode ou não ser vista e, principalmente, que tipo de projetos devem ou não ser pagos. Entendemos isto como um desrespeito aos processos legais instituídos para a seleção de projetos culturais a serem beneficiados com a rescisão de impostos destinada à cultura catarinense”.
O Fórum Setorial Permanente de Floripa sugeriu ainda que os teatreiros do estado cancelassem sua participação no evento, demonstrando de maneira ética a união e o descontentamento do setor perante as políticas utilizadas pelo Governo do Estado para a distribuição de recursos do Funcultural e a atual gestão da cultura em nosso estado.
Dessa maneira, a FECATE sendo solidária à Cia Experimentus, companhia que atua profissionalmente a mais de 14 anos e a Trip Teatro, que ano passado foi homenageada com a “Medalha de Mérito Cultural Cruz e Souza”, e de acordo com a postura por elas tomada, e, acreditando que esse seja um momento decisivo e importante para as nossas antigas lutas, sugere que os grupos se unam para fazer valer os apelos que tanto temos ouvido nas reuniões infindáveis sobre a política estadual que vem sendo imposta a nós artistas.
Fica nossa reflexão para todos os teatreiros que almejam a construção de políticas justas, a fim de que não percamos a oportunidade de demonstrar nosso descontentamento com a má gestão da cultura de nosso estado e dos processos de liberação dos recursos do Funcultural.

Comentários (2)

  • Fátima diz: 23 de março de 2013

    É gratificante ver um jornal que noticia a indignação da grande maioria da população que pensa e produz teatro nessa cidade e nesse estado com a censura. Se a ditadura militar costumava cortar textos, a Maratona Cultural de Florianópolis corta espaço cênico. Isso me parece sintomático num tempo em que, performativos e pós-dramáticos, transitamos da dramaturgia textual para a dramaturgia cênica.

  • Iraci Seefeldt diz: 25 de março de 2013

    Marcos. Obrigada por abrir espaço para a livre manifestação dos profissionais da cultura. Os protestos são justos e merecem o respeito da imprensa. Abraços, Iraci Seefeldt

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