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É a nossa frieza que causa a miséria

22 de julho de 2013 3

A prefeitura de Florianópolis mobilizou uma força-tarefa para atender aos moradores de rua nesta onda castigante de frio. Criou um abrigo emergencial na Passarela do Samba Nego Quirido. Só no final de semana 170 pessoas passaram por lá, onde receberam alimentação, roupas e um canto quente para dormir. Mas a emergência tem que virar uma política pública, algo que historicamente nunca aconteceu.

Há dois anos eu vivi uma experiência de autoconhecimento com este povo. Era um inverno também, mas longe do rigor deste. Eu estava morando na casa do grande amigo de longa data Ubirajara Santos, o Bira. Ele é professor universitário e reuniu um grupo de alunos seus da Unisul para fazer um sopão e distribuir ao povo nas ruas.

Todas as quintas-feiras saíamos pelas ruas do Centro da Capital para fornecer as quentinhas. Foi assim durante todo aquele inverno. E foi assim que eu aprendi a diferença entre miserável e estar na miséria. Miserável é a indiferença, a frieza da sociedade e do poder público em jogar para baixo do tapete uma situação latente. É fácil achá-los e conhecê-los. Nós sabíamos as marquises onde se abrigavam, os horários em que poderíamos chegar e as pessoas que logo deixaram de ser indigentes. Viraram conhecidos.

Daí que aprendemos com eles que também não caberia a gente julgá-los e isso foi fundamental para entender a condição de “estar na miséria”. Isso foi determinante para que nós continuássemos, porque num primeiro momento há o choque da realidade, da falta de perspectivas diante do “caramba! eu tenho tudo e eles nada”, “isso ainda é tão pouco para eles”. Mas deles nunca recebemos cobranças, apenas palavras generosas de agradecimento por saciá-los naquela noite. Eles ainda teriam um outro dia inteiro pela frente. Se você se choca com algo, a primeira reação é se resguardar no “conforto da indiferença”. Lembro que eu, minha namorada (hoje mãe da minha filha) e o Bira voltamos arrasados para casa e que voltar na semana seguinte foi muito mais difícil do que nas demais.

Pelas andanças encontrávamos também outros grupos que silenciosamente percorriam aqueles espaços, distribuindo agasalhos, cobertores, caixas de papelão, remédios e comida. No terminal Cidade de Florianópolis, um dos mais concorridos pontos de abrigo dos moradores de rua, encontramos vestígios das marmitas distribuídas horas antes ou na noite anterior. Esse era o rito. Chegavam, distribuíam e seguiam em frente. Voltávamos com os panelões vazios, mais de 150 pratos distribuídos. Não eram raros os casos em que mesmo saciados, esses moradores aceitavam a nossa contribuição, para não fazer desfeita ou para guardar para um companheiro que por ventura chegasse ali desavisado. Numa dessas visitas, dois figuras que sempre nos recebiam com uma seresta melosa embaixo da marquise do prédio das Diretorias vieram se desculpar porque repetiram a canja e não deram conta da segunda pratada. “É que eu sei que vai fazer falta para alguém aí”, resignou-se um deles.

Pode parecer grosseiro, mas a rua é um meio de vida, de subsistência. Ou melhor: sobrevivência. O que os levou à condição de estar na miséria são fatores tão diversos quanto compreensíveis: do senhor que caiu em desgraça com o negócio que ruiu, da família retirante do Norte que preferiu a rua à vergonha de voltar para a terra natal, do homem que largado pelo amor da sua vida quase no altar. Aliás, desilusões amorosas são causas muito mais comuns do que imaginamos. E tem a nefasta derrocada para o vício do álcool e do crack _ estes, por sua vez, sempre recusam a nossa sopa.

A cachaça não esquenta, ela faz esquecer. Adormece o corpo para enfrentar a condição do chão e da realidade dura e fria _ mistura que pode levar à morte por hipotermia.

Você passa a entender que a rua também é uma opção, de viver à margem de um status quo que oprime com seus padrões, castiga e alija. É fato, muitos ali preferem viver do mínimo a ter que sofrer e se desiludir tentando obter o máximo de tudo. E são todos resultados de um meio. No caso nosso, um meio muito próximo, pois segundo um levantamento feito no município, mais de 80% das pessoas que vivem em situação de rua na Capital são da Grande Florianópolis, o que põe fim a outra absurda ideia vendida há anos de que a indigência vem de fora. Sofrimento não tem procedência.

Agir com frieza e desfaçatez é muito mais letal do que uma onda polar, pois é uma situação que perdura, como uma estação vil permanente e que só faz gerar a miséria humana. O Estado e a sociedade só vão conseguir mudar a perspectiva de vida para estas pessoas se conseguirem primeiro mudar a sua própria perspectiva sobre a sua realidade e passar a enxergá-las com nomes, origens e uma dignidade forjada nas ruas. É entender e aceitar que sim, como cidadãos, eles têm direito ao que anseiam para sobreviver, mesmo que seja o mínimo e isso lhes é negado pela nossa miserável indiferença.

Em tempo: desde sábado, o professor Ubirajara e seus bravos estão nas ruas na campanha silenciosa.

Comentários (3)

  • Leo diz: 22 de julho de 2013

    Texto co-movente, inspirador e que incomoda a gente em nossa indiferença…

  • Fran diz: 23 de julho de 2013

    Eu pensava que só encontrei gente fria em florianópolis, mas graças a este seu artigo vejo que não é bem assim…

  • Pedro Nogueira diz: 24 de julho de 2013

    Artigo muito bom , fazia tempo que não lia algo tão profundo e verdadeiro . Parabéns.Farei questão de pedir para meus amigos darem uma olhadinha e refletirem sobre o q vc escreveu.

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