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Lições para viver mal

18 de novembro de 2011 4

Em novembro ele completará 82 anos. É um homem rico, muito rico. Eu o conheci através de um amigo que temos em comum, mas acredito que ele não tenha simpatizado muito comigo. Com minha visão humanista, tentei temperar nossa conversa falando sobre a importância que a arte tinha em minha vida. Deve ter pensado que era pura de tempo.

Mesmo não o tendo encontrado em outros momentos, sempre recebia notícias através desse nosso amigo em comum. Até porque, antropologicamente falando, fiquei muito interessado e quis saber sobre essa figura. Explico: soube se tratar de uma das pessoas mais sovinas da face da terra. Para deixar o personagem pai Goriot, de Balzac, morrendo de inveja. O fato é que o senhor em questão vive de forma muito modesta, quase franciscana, economizando em tudo. Parece que não raro ele se priva do essencial para uma vida minimamente digna. Detalhe: é proprietário de dezenas de imóveis, terrenos e aplicações bancárias as mais diversas. Vive às turras com a mulher e os três filhos. Quase não se falam, embora dividam o mesmo espaço físico. Soube que, ao completar 83 anos, pretende se internar num asilo particular. Não quer que ninguém da família cuide dele.

Ao refletir sobre isso, pensei em como podemos destruir a nossa vida, mesmo tendo todas as condições de transformá-la no mais agradável dos passeios. Não que o dinheiro seja a única condição para se chegar a isso, é claro. Mas quando não sabemos equilibrar alguns aspectos em nosso dia a dia, tudo se perde.

O velhinho, soube, passa os dias envolvido com cifras. Cobra pessoalmente o aluguel de seus imóveis, com mão de ferro, não perdoando um atraso. Deve imaginar que não vai morrer nunca, não há dúvida. Que triste. Podendo usufruir de afeto e condições materiais excelentes, entrega-se a esse jogo (um vício?) de ganhar mais e mais dinheiro. Para que, meu Deus? Provavelmente nem ele saberia responder. Acumula dinheiro pelo prazer de acumular. Usufruir não o interessa. Espero que seus filhos não tenham sido contaminados por isso e que, enfim, se divirtam quando essa considerável fortuna migrar para suas mãos.

Quanto a ele, precisamos nos condoer por essa deformação de alma. Empilha escrituras, esquecendo que a verdadeira sabedoria está em usufruir e desapegar-se. Ou, como está dito no provérbio budista: “Largue, ou você será arrastado.”

Abraços, Gil

Comentários (4)

  • Priscila Redede diz: 18 de novembro de 2011

    Quanto menos comes, bebes, compras livros e vais ao teatro, pensas, amas, teorizas, cantas, sofres, praticas esporte, etc., mais economizas e mais cresce o teu capital. És menos, mas tens mais. Assim todas as paixões e atividades são tragadas pela cobiça.
    Karl Marx

  • EDUARDO C. P. ANDRADE diz: 18 de novembro de 2011

    “Alimente a sua alma com amor, cure as suas feridas com carinho. Descubra-se todos os dias. Deixe-se levar pelas vontades, mas não enlouqueça por elas. Abasteça seu coração de fé, não a perca nunca. Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas. Se achar que precisa voltar, volte. Se perceber que precisa seguir, siga. Se estiver tudo errado, comece novamente. Se estiver tudo certo, continue. Se sentir saudades, mate-as. Se perder um amor, não se perca. Se o achar, segure-o. Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. O mais é nada”. (Fernando Pessoa)

  • Bê diz: 21 de novembro de 2011

    Oi Gil
    Que triste…mas ele não é o único.
    Tanto correr atrás de mais grana, mais sucesso, mais poder ( poder é quase tudo …já pensou? sair nas revistas, na Caras ??? ) e tudo termina quase da mesma forma…..
    Afastar-se de quem se ama, priorizando o trabalho duro e mais trabalho duro e mais trabalho duro….seria mesmo isso garantia de um futuro feliz ou de não ter uma doença grave?
    Talvez este dinheiro todo ajude a procurar a cura em outros paises, mas isso, nem sempre é verdadeiro.
    Morrem sós.
    Sou mais da linha do Fernando Pessoa como o Eduardo escreveu aí em cima……
    Beijos

  • Guilherme diz: 23 de novembro de 2011

    Oi Gilmar!

    Grande texto! Infelizmente, é triste constatar que a sua descrição serve para muitas pessoas da nossa serra gaúcha. Gente que vive para acumular dinheiro, posses, e sequer sabe para que vai utilizar tanto capital. Viver, para eles, é um eterno processo de ganhar dinheiro, nem que seja para mostrar que tem mais que o vizinho. É uma pena.

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