Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

A idade autoriza?

07 de abril de 2012 2

Já estou na idade em que me sinto autorizado a dizer tudo o que me vier à cabeça, falam muitos, ao chegar na casa dos sessenta, setenta anos, com variações para mais ou para menos. Sempre achei esta frase temerosa, imprudente, pois acredito que a passagem do tempo deve nos empurrar exatamente no sentido contrário. Precisamos nos aliar à prudência e não ao impulso, sob pena de nos tornarmos inconvenientes, quando não mal-educados. A velhice ou, vá lá, a maturidade, não pode ser o salvo-conduto para a prática de atos que condenamos durante toda a vida. Uma coisa é deixar de lado certas conveniências sociais. Outra é aliar-se à turma dos que adotam comportamentos sem freios verbais, onde tudo pode ser dito, à revelia do desconforto que possa causar.

Suspeito que para isso contribua o fato de que, filhos criados e aposentadoria no bolso, já não precisamos mais dar satisfação de nossos ações para patrões e muito menos para a sociedade em geral. É claro que sair do jugo das regras impostas pela convivência no trabalho ou mesmo nas relações familiares cria em nós um gosto pela liberdade. Agora eu posso fazer o que sempre tive vontade, mas nunca pude, grita uma voz que nos recusamos a ouvir durante tantos anos. O problema é quando o freio civilizatório é afrouxado e deixamos que a impulsividade tome as rédeas e conduza atos e pensamentos. Cansei de ver homens e mulheres com o rosto marcado pelas rugas agindo como adolescentes voluntariosos. Só não avançam mais porque os limites físicos os impedem. Mas, em essência, não diferem muito desses pequenos deuses que passeiam pelo mundo certos de sua autoridade e autossuficiência.

Tenho observado essa postura em diversas situações. Uma das mais emblemáticas é nas salas de cinema. Casais que lembram nossos avós e despertariam uma simpatia imediata agindo como se a projeção do filme estivesse sendo feita somente para eles. Falam sem se preocupar se estão incomodando quem está ao lado, alheios a tudo. E ai de quem se atrever a pedir silêncio. Eu mesmo já fui alvo de uma saraivada de frases que fez com que me encolhesse na cadeira. Mas a raiva se agigantou na proporção inversa. Pois é como se um casulo invisível os protegesse das críticas. Não fazem a menor questão de saber se estão sendo inoportunos ou não.

Quem me conhece sabe o respeito e o carinho que tenho pelas pessoas mais velhas. Convivo com criaturas adoráveis que adornam sua personalidade com educação e sabedoria. Mas o que tenho visto por aí não confirma sempre a imagem de doçura a que estão atreladas. Parece que precisam recuperar um tempo perdido, quando as amarras impostas pelos compromissos que garantem a subsistência e a boa convivência já não existem mais. Somos uma raça estranha. A proximidade da morte deveria nos tornar mais humildes, diante da certeza de que teremos que abandonar tudo. Talvez o que esteja acontecendo seja uma espécie de revanchismo contra um mundo que adula e endeusa a juventude. Na perda do viço da pele e da agilidade dos movimentos, fazemos pequenas revoluções individuais, mostrando que ainda temos algum tipo de poder. Uma boa conta bancária também ajuda a seguir em frente com audácia.

Para que a gente não caia nessa armadilha, temos que nos preparar com muita antecedência. Os últimos anos de nossa vida apenas definem com mais nitidez o que fomos desde sempre. Ninguém se torna mau ou bonzinho do dia para a noite. É ilusão acreditar que grandes mudanças acontecerão nessa altura do campeonato. Ainda manejamos nossos desejos com destreza mental, quando os neurônios não conspiram contra. Mas está tudo mais ou menos posto. O que fazemos é escolher as peças com as quais pretendemos continuar jogando. Tudo depende de cada um. É sempre bom lembrar que existem pessoas ao nosso lado e que a delicadeza é o melhor passaporte para que sejamos acolhidos. Aos quinze ou aos noventa anos de idade.

Comentários (2)

  • Fátima diz: 7 de abril de 2012

    Oi Gil!
    Polêmico esse texto! Não sei se a idade autoriza ou não determinadas atitudes comportamentais, e também não sei dizer se “os últimos anos de nossa vida apenas definem com mais nitidez o que fomos desde sempre”. Estou na casa dos cinquenta anos e, com certeza, muitas mudanças acorreram comigo, tanto fisicamente como psicologicamente. Às vezes me sinto uma adolescente, outras “acabada”, mas para mim educação, humildade, respeito independe da idade. Gosto de ver velhinhas usando Jeans surrados, cabelos compridos e que riem como adolescentes. Há muito preconceito em relação à idade, por que velhinha tem que ser aquela pessoa ditada pela sociedade? Já me disseram que na minha idade eu deveria ter o cabelo curtinho. Daqui a pouco me dirão que devo usar terninhos e só andar com pessoas da minha idade. Gosto de todas as idades. Às vezes criamos expectativas sobre determinadas pessoas e, quando elas não correspondem, nos decepcionamos.
    Uma coisa é certa: nem sempre velhotas são criaturas adoráveis! Rsrsrsrs
    Beijos

  • EDUARDO C.P. ANDRADE diz: 7 de abril de 2012

    Gil, caro amigo, é preciso navegar no mar de emoções com pingos de racionalidade. Paz, amor, compressão são os requisitos de uma boa gentileza, gerando em nós uma longa maturidade por anos indeterminados.
    Momentos impregnados de energia, amor, alegria, paz e presença.
    ABRAÇOS, Dudu

Envie seu Comentário