Ciúme é uma coisa burra, mesmo. Ontem eu senti e não achei nada agradável. Ficar disputando uma pessoa, como se tivéssemos direito a exclusividade. Sempre lutei contra esse tipo de sentimento, acreditando que a liberdade tem que estar no roteiro de uma relação feliz. Mas, como é mais do que sabido, dificilmente a inteligência racional anda de mãos dadas com a emocional. E a gente nunca sabe, em nós, qual das duas está no comando. O fato é que sempre que sinto ciúmes uma sensação de desconforto de apodera de mim. Tenho a sensação de voltar ao jardim da infância, disputando um brinquedo com outras crianças. Na verdade ninguém fica sem e quanto mais a gente democratizar, melhor. Ah, mas a velha escola em que fomos criados, acreditando que o que é nosso deve ser somente nosso.
Mas eu não fico parado, curtindo a sensação de impotência diante do que me desagrada. Acossado por uma insônia e reduzindo a mente a um pensamento único, acendi a luz e abri aleatoriamente um livro que está na cabeceira da minha cama e que gosto muito. Chama-se Bilhões e Bilhões, do físico americano Carl Sagan. E aí, quando me dei conta, estava eu lendo sobre galáxias e planetas e universos sem fim. E percebi o óbvio: daqui a pouco tudo acaba, eu acabo e a pessoa que amo também. Então, convenhamos, é pura perda de tempo sofrer por isso, colocando cercas de propriedade particular. Ninguém é de ninguém... não era a Nora Ney quem cantava isso?
Quando estamos sofrendo, não conseguimos analisar com lucidez e sobriedade o que, aos olhos alheios, muitas vezes parece ridículo, um despropósito de mentes desocupadas. Mas o dor está lá e pode ser torturante. Pois é. Planetas, galáxias, universos... bendito sono que nos presenteia com o esquecimento. Amanhã? Sim, amanhã tudo será possível. Dorme, coração atomentado.

