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Posts do dia 25 maio 2012

Nossa cota de dias...

25 de maio de 2012 1

Encontro minha amiga Maria do Horto. Aos 80 anos, esbanja juventude e vigor. Excelente atriz de teatro e cinema, sempre me presenteia com um largo sorriso. Pergunto como está e ela me responde que tudo bem, a vida segue tranquila. Digo-lhe que chegará, fácil, fácil, aos cem anos. “Não quero”, diz-me de supetão. “A maioria das pessoas que eu amei já morreram, não teria graça ficar por aqui sozinha.”

Fiquei mudo, sem saber o que lhe dizer. Depois, refletindo sobre sua afirmação, dei-me conta da inquestionável verdade contida. Viver só tem sentido se temos ao nosso lado quem nos ama: amigos, família, colegas com quem fomos estabelecendo um alto grau de intimidade ao longo do tempo. Ser livre sozinho não tem mesmo graça nenhuma. Mesmo em excelentes condições físicas e mentais. E lembrei de um romance que li há muitos anos. Chama-se A Imortalidade, da escritora francesa Simone de Beauvoir. Se bem me recordo, conta a história de um homem que vive cerca de 400 anos. Essa é a dimensão da sua imortalidade. Para ele um castigo, pois foi se separando, por força das circunstâncias e das perdas, de quem mais amou. Se o relesse hoje, mais maduro, tenho certeza que suas palavras estariam de comum acordo com o meu pensar. Naquela época provavelmente não. A juventude nos lança rumo ao desconhecido: adoramos aventuras, desafios, novidades. Não só sonhamos com a eternidade como nos sentimos mergulhados neal. Porém, com o passar do tempo, desejamos assentar nossos afetos, repetir, fazer as mesmas colheitas de sempre. Identificamo-nos mais com os outonos.

Não diria que sentir a existência assim é assumir-se velho. É, isso sim, ser fiel a um dado de realidade que se apresenta diante de nós sem disfarces, sem retoques. Uma das coisas mais tristes do mundo é sentir saudade. Saudade de alguém que foi tudo para nós  e que já morreu. Também não quero chegar aos cem. Que minha cota de dias não vá muito além da que pertence a quem me faz feliz.

Abraços,    Gil