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Uma cena

19 de junho de 2013 0

Caminhado pelo centro da cidade. Súbito, vejo um jovem casal passeando de mãos dadas com seu filho de três, quatro anos de idade. Uma cena linda. A criança pulava, ria, transbordando de felicidade. Pai e mãe participavam desse momento de alegria e, seguidamente, olhavam um para o outro e também sorriam. Sim, a vida pode ser uma experiência maravilhosa quando o seu alicerce é construído com as bases da afetividade.

Permaneci do outro lado da rua observando a cena até não ver mais meus queridos personagens. E me emocionei. O dia estava esplendoroso, temperatura de 20 graus e um céu azul, mas tão azul como só conseguem ser os desses outonos de despedida e renascimento. E fiquei pensando que momentos tais nos redimem das tristezas e de tantas vivências carregadas de tons escuros que não nos permitem ver que “a beleza salvará o mundo”. Guardo dentro de mim essa expressão e a transformo num lema para dias menos coloridos. Precisamos de tão pouco para conhecer o privilégio que é simplesmente saber-se existente. Esse casal que estava levando seu filho à escola era o retrato perfeito de que o sublime e o poético dançam ao nosso redor, basta que saibamos reconhecê-los. Dirão ao menos inclinados à poesia: “Espere, a eles também deve estar reservada uma cota de tristezas, de frustrações.” É bem possível, mas eles estavam tão presentes, física e espiritualmente falando, que nada parecia machucar esse êxtase. Senti uma branda inveja e segui em frente. Mas ainda reside em mim a clara consciência de que esses pequenos recortes de amor e ternura nos alçam a condição de seres privilegiados. Fui para casa com a certeza de que meu dia estava salvo. E que nem seria preciso rezar. Eu já havia testemunhado um milagre avulso.

Abraços,    Gil

Egoísmo e carência

18 de junho de 2013 0

O amigo, ou melhor dizendo, o conhecido, entra atabalhoadamente na minha sala de trabalho. São três horas da tarde de uma terça-feira. Não avisou que viria, não telefonou, não me perguntou se eu tinha muito trabalho a fazer. E eu tinha. Sentou-se na cadeira em frente a minha mesa e começou a falar. E falou, e falou, e falou. Durante mais de uma hora eu o ouvi pacientemente, afinal, precisamos ser solidários com a dor alheia. E ele apresentava uma expressão de Pietá no rosto. Fiquei sabendo de todos os seus problemas pessoais, profissionais e amorosos. Tudo certo, foi minha boa ação do dia. Melhor ouvir do que precisar ser ouvido, pensei. Mas não deixei de fazer uma reflexão sobre o acontecido.

Vivemos dias em que o egoísmo e a carência são as notas mais perceptíveis nos relacionamentos. Nunca estivemos tão próximos uns dos outros (vide internet, redes sociais, etc, etc) e, ao mesmo tempo, nunca nos sentimos tão sozinhos. Uma solidão coletiva, em que QUASE tocamos os outros, quem irá negar, mas que não permite nenhum tipo de intimidade. A consequência mais visível dessa situação é que, diante do primeiro sinal de acolhimento, nos atiramos afoitamente em cima do primeiro que se predispõe a escutar nossas mazelas ou nossas conquistas. Entramos sem pedir licença, como se a casa (e a alma) de nosso interlocutor fosse nossa. É um sintoma evidente de que as coisas não andam tão bem assim como querem nos fazer crer os otimistas crônicos. É inegável que avançamos muito na quebra de preconceitos, na ampliação dos espaços de liberdade, seja em que área for. Só que estamos pagando um preço excessivamente alto por essas conquistas. Enfim, espero que a próxima pessoa que for me visitar tenha delicadeza de se anunciar previamente. Aprecio muito uma boa conversa e procuro, sempre que possível, me disponibilizar afetivamente. Mas seria bom se nós (eu, você, eles - todos) não esquecêssemos que a vida avança muito além dessas duas letrinhas que nos parecem as únicas existentes: EU.

Abraços,    Gil

No supermercado...

17 de junho de 2013 0

Uma vez por semana vou ao mercado. Durante muitos anos fui a contragosto, tentando reduzir ao máximo minha permanência entre as gôndolas forradas de alimentos e utensílios domésticos. Já não é mais assim. Procuro fazer minhas compras por volta do meio-dia, horário em que a maioria das pessoas está almoçando. Com isso, não preciso ficar em longas filas até chegar ao caixa e muito menos esbarrar em homens e mulheres afobados em busca dos produtos que desejam adquirir. E faço mais do que isso: aproveito esse momento para realizar uma investigação a respeito de como estamos nos alimentando. Pessimamente, diga-se de passagem. É impressionante como a maioria sente uma atração irresistível por pacotinhos de biscoitos, refrigerantes, batatinhas fritas, qualquer produto, enfim, hermeticamente embalado e com altíssimas doses de cloreto de sódio e açúcar. O setor onde estão as frutas e as verduras não costuma ser o mais concorrido. Uma pena. O fato é que estamos reduzindo nossas refeições ao que nos parece ser mais prático, sem nos preocuparmos com o valor nutricional do que estamos ingerindo. Mais fácil rasgar um saco plástico do que ficar uma hora em frente ao fogão, cozinhando. Saber escolher o que irá se transformar no sustento do nosso corpo é uma arte. E uma prova de resistência diante de tantos apelos que o comércio apresenta diante de nossos olhos.

Sem radicalismo algum, tento ficar atento ao que ingiro, já não me permito mais extravagâncias alimentares em nome de um prazer efêmero e nocivo. Sei que minha saúde depende, fundamentalmente, da maneira como vou “abastecendo” os órgãos do corpo. Isso não significa que, vez que outra, eu não me refestele diante de um prato que deixaria um nutricionista em estado de alerta. Mas isso precisa ser a exceção, nada mais. No restante do tempo, procuro ampliar a minha consciência e me tratar bem. Leia-se: muitas frutas, muitas verduras, pouca carne, fibras, água em abundância. Sinto-me leve e isso acaba repercutindo nas minhas relações de trabalho e também afetivas. Sim, porque é um horror ter que aguentar o mau humor de quem precisa ficar “jiboiando” um bom tempo até se sentir um ser humano novamente. Não é só o nosso estômago que fica embotado. A alma também fica. Portanto, vamos guardar a palavra transgressão para outro departamento. Aprecie mais o que é natural e saiba dizer não às embalagens reluzentes e industrializadas. Não se poderá dar outro nome a isso do que “sabedoria da sobrevivência”.

Abraços,    Gil

Regra de Ouro

15 de junho de 2013 2

A leitura do livro 12 Passos Para uma Vida de Compaixão, da escritora inglesa Karen Armstrong, me fez refletir sobre esse tema que parece estar cada dia mais distanciado de nós. Até que ponto conseguimos ver o outro com condescendência, suspendendo nosso onipresente senso crítico? Mais: quem de nós consegue colocar em prática esse preceito que muitas tradições religiosas denominam de A Regra de Ouro: “Não trate os outros como você não gostaria de ser tratado”. A compaixão pressupõe o acolhimento de todas as criaturas, independente das diferenças em sua maneira de pensar e ver o mundo. Somos, ao fim de tudo, um único ser. Essa aparente pluralidade esconde os mesmos desejos, as mesmas ansiedades e a renovada vontade de encontrar um pouco de alegria sob o sol. O que nos separa, muitas vezes, não vai além da retórica com a qual construímos nossos sistemas de pensamento. Erguemos um templo, começamos a adorar algumas estátuas e rapidamente nos mostramos hostis com quem não professa a mesma devoção. Daí para criar inimigos imaginários é um passo. E em muitos casos a manutenção dessa deformidade acaba por ocupar longos anos de nossas vidas.

Vale perguntar qual é o espaço, junto com a compaixão, que estamos destinando ao perdão. Não esqueço do que me relatou recentemente um amigo. Homem de rara sensibilidade, há muitos anos está distanciado de seu irmão. Por uma questão comezinha já não se falam mais, embora morando na mesma cidade. Este amigo já ensaiou várias tentativas de reaproximação, todas infrutíferas. Paradoxalmente, aquele ser que se recusa a estender a mão para um ato conciliatório, conseguiu aceitar o que aconteceu com seu filho, sem o afastar do convívio. Há alguns anos, envolvendo-se numa briga, acabou esfaqueando um colega de jogo. De alguma maneira, foi capaz de desentranhar de dentro de si um forte sentimento que o levou a compreender as razões que levaram o rapaz a cometer um ato tão extremo. Mas está totalmente paralisado diante do fraterno pedido de reconciliação. Dois pesos e duas medidas para uma mesma realidade. Com uma agravante, tão comum ao que envolve o humano: conseguimos tolerar algo no limite do insuportável e, ao mesmo tempo, negar o pequeno gesto que pode transformar o desafeto em apaziguamento.

No caso a que me refiro, fica claro como a aplicação da Regra do Ouro é rara em nossos dias. O que transcende o eu é uma espécie de inimigo que precisa ser combatido. Quantas chances estamos perdendo de por em prática esse ensinamento religioso que nasce da contemplação silenciosa de nossas necessidades vitais. Muitas vezes procuramos embelezar nossos motivos egoístas. Ignoramos o sofrimento alheio unicamente para afirmar algumas verdades que não se sustentam diante de uma análise mais rigorosa. Que critérios, afinal, estamos usando para medir esse princípio de ordem filosófica e moral? Ao destinar tantas horas à dureza de nossas convicções, não acolhemos o sofrimento e muito menos o sentimos como uma extensão de nós mesmos. Talvez seja por isso que discursos e prédicas me enfastiam tanto. Tudo que é abstrato (“Eu amo a humanidade!”) é falso exercício de bondade.

Cultivar a empatia é essencial para que possamos seguir caminhando sem desafetos. Mais ao sabor das circunstâncias do que por uma verdadeira convicção, deixamos de dizer “sim, é claro que eu entendo e perdoo”, mesmo sabendo, como nos disse Jorge Luiz Borges, que esse sentimento só tem relação com o ofensor, nunca com o ofendido. As nossas melhores ações podem e devem ser exercidas no âmbito doméstico, entre as criaturas que, por força do hábito, já não vemos mais com o respeito e a admiração necessários.

Caminhamos feito sonâmbulos, buscando identidade entre aqueles que não nos tocam afetivamente. Vivemos a economia da individualidade, que nos incapacita para a brandura e o altruísmo. No limite da abnegação, deveríamos ser capazes de agir sem o desejo de reciprocidade. A lição máxima está contida nas palavras de Confúcio: “Quando são tratadas com reverência, as pessoas se conscientizam de seu valor sagrado, e atos corriqueiros, como comer e beber, são elevados a um nível mais alto que o biológico e investidos de santidade”. Não vamos nos prostrar diante de nosso ego. A compaixão e a empatia são a base para a supressão de nossos impulsos egoístas.

Sobre os costumes sexuais

14 de junho de 2013 1

“A antropologia e a história estão cheias de divergências (e, portanto, de horrores para os que estão em algum lugar do tempo) quando se fala de sexualidade. Na Grã-Bretanha de meados da era vitoriana, uma mulher que se masturbasse podia ser considerada louca e trancada num asilo por fazê-lo. Na Nova Guiné, havia uma crença de que a “masculinidade” estava incorporada no sêmen masculino, e havia um costume ritual entre os rapazes de se alimentar de sêmen. Na aldeia de Iwi, na Nova Guiné, chegou a existir um costume de se comer os pênis de homens que haviam sido mortos para ganhar força. Garotas mangaianas tinham os clitóris esticados, enquanto na sociedade Maasai uma garota tinha seu clitóris e pequenos lábios extraídos ao chegar à puberdade, para remover “a sujeira da infância”. O cruzamento de sexo existia entre os índios americanos, e homens capturados em guerra eram em algumas tribos levados para casa do vencedor com o status de mulher.”

Ensaios de Amor Alain de Botton (Editora Rocco)

Fazendo estardalhaço

13 de junho de 2013 2

Não sei você, mas eu me incomodo muito com gente que fala alto, adora fazer um barraco, diz palavrões gratuitamente. Ando apreciando muito a discrição, o tom baixo de voz, a elegância de chegar e partir com suavidade. Talvez como um reflexo dos ruídos do mundo, que estão cada vez mais altos, estamos nos sentindo autorizado a ocupar os espaços de maneira vulgar e desrespeitosa. E isso se acentua de maneira preocupante nos grupos de adolescentes. A gente cria os filhos a danoninho e muito, muito afeto, e de repente descobre que eles atravessam a madrugada na rua, bebendo, fumando, fazendo algazarra. Pois é isso que tenho visto nas vezes em que retorno ao apartamento mais tarde da noite. Não sei o que faria se alguém da minha família agisse assim. Mas sei que ficaria muito envergonhado. Não entendo como isso pode ser sinônimo de diversão. Chegar em casa com o sol raiando, bêbado, tendo no currículo afetivo a contagem de vinte ou mais pessoas beijadas. Estarei ficando velho, incapaz de acompanhar os tempos modernos? Prefiro acreditar que tudo se resume a isso: a ser bem ou mal educado. E muitas vezes não se pode culpar os pais por isso. Conheço casais que passaram anos e anos investindo quase tudo o que ganharam na formação de seus rebentos. E hoje se angustiam toda vez que eles saem para uma festa, sem saber onde seus “bebês” estavam, com quem estavam e, principalmente, em que condições retornarão.

Este é apenas um exemplo do que vemos acontecendo em nosso dia a dia. Nós, adultos, também estamos nos habituando a bater portas, a levantar o tom de voz bem acima do que determinam as regras da boa convivência. E pra que tudo isso? Parece que já não temos mais vontade ou determinação para argumentar, usando a inteligência como a mais poderosa das armas para o convencimento, para a aceitação da multiplicidade de pensamento. Casais também se valem desse novo modelo, por assim dizer. Não está bom? Vamos ganhar no grito e se não funcionar, tudo bem, opções é que não faltam no mercado. Confesso que me policio ao máximo, tentando não invadir o espaço alheio. Detesto brigar, fico física e emocionalmente destruído. Nada me deixa mais feliz do que dialogar, mostrar para o outro as minhas razões para agir dessa ou daquela maneira. E assumir os equívocos, quando for preciso. Existe uma maneira mais saudável de se conviver? Faço essa aposta na civilidade, na tentativa nem sempre fácil de entrar em acordo com quem diverge de mim. E baixar o tom de voz toda vez que me surpreendo sendo espaçoso, fazendo estardalhaço. Ganhar silêncio em nossa mente é uma das maneiras mais sábias de atravessar a vida. Exige treino e perseverança, mas oxigena a alma.

Abraços,    Gil

Carta de uma amiga

12 de junho de 2013 0

Meu querido amigo:

O tempo corre pelos meus dedos e muitas vezes penso que não consigo realizar com e sobre ele as potencialidades de mim... Fere-me a sensação de deixar escapar observações, cheiros, pequenos detalhes que poderiam compor um quadro cotidiano mais intenso como o perfume da dama-da-noite.

Aliás, mais um de nossos encontros surpreendentes: minha avó paterna morava em uma casa no subúrbio do Rio. Era a única casa da família, já que todos os outros meus parentes moravam em apartamentos. Tinha um grande jardim no quintal da frente onde ela plantava suas ervinhas medicinais. Tudo em minha avó cheirava alquimia: está com dor de estômago? - chá de boldo! Caiu e machucou roxeando? - saião amassado! Os nervos estão incomodando? - chá de erva doce! Os diagnósticos iam sendo dados de forma simples e ela dirigia-se com paciência a minha "floresta encantada" onde ia colhendo sua sabedoria popular e espalhando pela vizinhança e pela família. Minha avó era também uma rezadeira. Gostava de invocar São Benedito e ia tecendo suas falas em sussurros, enquanto nos rodeava com a fumaça do incenso queimado e com os galhinhos de arruda, que, de forma impressionante, iam murchando até o final da reza - sinal de que o mal havia sido desfeito... Cresci nesta mítica espiritual, de acreditar que é no cheiro e na oração que tudo se resolve. Por isso me emocionei quando falou sobre o perfume da dama-da-noite. Minha avó tinha uma delas em seu quintal mágico e ficávamos horas sentadas à noite, em dias de companhia silenciosa, só sentindo o seu perfume que a tudo invadia... Eu era a sua primeira neta e desenvolvi com ela os laços afetivos das pessoas que se reconhecem além dos graus de parentesco - de pessoas que se reconhecem por utilizarem da mesma alquimia...

Quanto ao meu trabalho, ele foi sendo forjado em mim, acredito, que pela mesma poética da essência alquímica. Sou filha de uma professora visceral, extremamente competente! Minha brincadeira preferida na infância era a de dar "aulas" para minhas bonecas: as enfileirava ordenadamente e no quadro negro versava sobre conhecimentos que a mim mesmo eram desconhecidos. Mas, junto com essa brincadeira, a outra preferida era a de me fantasiar - bagunçava todo o armário de minha mãe e me trajava dos mais impossíveis personagens: a secretária bem sucedida, a princesa do castelo, a heroína das histórias, a bailarina no espetáculo... Ou seja, arte e educação sempre andaram paralelas em minha vocação. Gosto do que é belo! E não há beleza maior do que perceber que, como as damas-da-noite, o ser humano é capaz de enlevar e marcar o outro com sua presença definitiva, com atos de entrega e de cuidado... tento fazer isso em meu trabalho,apesar das distâncias percorridas e cansativas e mesmo sendo uma pessoa, por vezes, muito autoritária - acredito tanto no que faço que não aceito daqueles que comigo trabalham rasgos de desistência... Um defeito grave! Preciso entender e consolidar em mim que o outro é o outro e que meus sentimentos e minhas paixões pessoais podem sim transparecer no que faço, mas não obrigar o outro a agir da mesma forma, com a mesma intensidade, a sentir o mesmo que eu... E isso, meu amigo, se aplica a quase tudo em minha vida...

Outro defeito, acho que vindo da minha imaginação fértil na infância - tenho tendência ao drama!(risos). Muitas vezes situações se revestem para mim de enredos complexos como os dos belos romances épicos que gosto de ler e o que era simples se torna uma batalha interior! Pronto, confessei: sou visceral! Também não sei amar em conta gotas, gosto de amar em travessias conjuntas, em mergulhos profundos... por isso não se penitencie por achar-se por vezes invasivo (o que não foi absolutamente), conheço bem o sentimento...

Confesso que a proximidade destes meus 41 anos e alguns acontecimentos pessoais que os vem antecedendo, tem me feito rever alguns dos conceitos em mim muito arraigados. Questões como: até onde vai a dedicação ao outro? Quanto de nós é preciso ficar colocado de lado pelo sentimento de culpa de não estar se doando o suficiente? Reflexões. Aprendizados importantes. Um amigo querido meu me disse que gostaria de me dar de presente um pouco mais de egoísmo próprio... Reflexões!

Abraços,    Danielle

Encenação da morte

12 de junho de 2013 0

“A vida nos quer, a morte nos quer. Somos o resultado da tensão ocasionada pelas duas forças que nos puxam. Esse equilíbrio não é estável. Amplo, diverso e elástico é o campo de força da vida, e vale a mesma coisa para o campo da morte. Se ficamos facilmente deprimidos ou exaltados é em razão das oscilações de intensidade desses dois campos magnéticos, sendo o tédio o relativo equilíbrio entre os dois. Às vezes é mais intensa a pressão da vida, outras vezes é mais intensa a pressão da morte. Não se diz com isso que a exaltação seja a morte e a depressão seja a vida. Há exaltações e exultações que se polarizam na morte, assim como há sistemas de depressão que gravitam em torno da vida. O estranho, do ponto de vista biológico, é que somos medularmente solidários com ambos os estados de imantação mais intensa, os da vida e os da morte. Não aproveitamos apenas a vida, mas usufruímos, também, as experiências da morte, desde que estas não nos matem. Tudo dependerá da resistência, não da nossa vontade, do nosso mistério: se o mergulhador descer um pouco mais a desigualdade de pressões lhe será fatal; se o centro de gravidade da torre de Pisa se deslocar mais um pouco, ela ruirá; enquanto não ruir, a torre usufruirá de sua inclinação, do mesmo modo que os mergulhadores vivem um estado de euforia nos estágios submarinos que precedem a profundidade mortal.”

O amor acaba Paulo Mendes Campos (Editora Civilização Brasileira)

Novos tempos

11 de junho de 2013 0

A escritora e psicanalista carioca Regina Navarro Lins costuma provocar polêmica sempre que concede uma entrevista. Seus conceitos arrojados sobre a sexualidade e os novos modelos de comportamento que aponta não agradam aos mais conservadores. Eu aprecio muito a sua coragem em quebrar determinados conceitos que se cristalizaram ao longo dos anos. É a única maneira de se romper com velhos dogmas, de fazer alguns enfrentamentos morais, em detrimento do olhar rançoso e ultrapassado que costuma caracterizar quase todos os catecismos religiosos.

Em sua fala lúcida e corajosa, Regina aponta para duas novas tendências comportamentais: as mulheres estão traindo tanto ou mais do que os homens e estamos caminhando para a bissexualidade generalizada. Tudo indica que ela esteja certa. Quanto à primeira constatação, é muito fácil de ser comprovada. Em rodas sociais ou, mais especificamente em confissões íntimas, vê-se claramente que o sexo feminino está em paridade absoluta neste quesito. A monogamia não costuma mais ser um ponto de referência para avaliar o caráter de uma mulher. Elas gritam aos quatro ventos que querem ter os mesmos “direitos” que seus parceiros. Não aceitam mais a ideia que eles são galinhas por uma questão meramente biológica. Quando não se sentem realizadas sexualmente em seus casamentos, não costumam hesitar e partem em busca de variedade. Ou, em muitos casos, o fazem mesmo quando estão satisfeitas. Querem experimentar, variar o cardápio. Procuram dar um novo status aos desejos físicos. Com isso, embora ainda paire alguma clandestinidade que só é quebrada nos consultórios de terapia, mulheres não se conformam mais com o papel que lhe parecia destinado vida afora: a de serem as que dizem amém para maridos autoritários e que precisam sufocar seu prazer em detrimento de uma vida doméstica miúda e muitas vezes ao preço de muita frustração.

Segundo ponto: talvez a maior revolução desses novos tempos seja o olhar de aceitação sobre quem tem relações sexuais com ambos os sexos. E para a psicanalista, nas próximas décadas isso será um comportamento recorrente. Diz ela que quem verá isso com naturalidade serão nossos netos ou bisnetos, mas que é um caminho sem volta. E diz mais: além de termos a liberdade de amar uma mulher ou um homem, sem que pese sobre nós a pecha de homo ou heterossexuais, tudo leva a crer que teremos vários companheiros (as): um para transar, outro para viajar, outro para apreciar arte, outro para ter filhos. Estaremos, em suas palavras, tirando de nossos ombros o peso das escolhas irreversíveis e das cobranças absurdas. Afinal, ninguém é capaz de satisfazer todas as nossas expectativas. Se conseguirmos eliminar ou, ao menos, minimizar o ciúme, é certo que a vida pode se transformar numa aventura ainda mais interessante e plural.

Quem viver, verá.

Estética ou patologia?

10 de junho de 2013 0

Não há novidade alguma em se dizer que as cirurgias plásticas estão proliferando cada dia mais em todo o mundo. Até nos países árabes, onde a mulher ainda tem o mesmo status que um escravo de antigamente. Alguns estudiosos da área, atentos a essas mudanças, estão apontando para algo que merece nossa atenção. Tudo certo que uma pessoa, descontente com alguma parte de seu corpo, tente melhorá-la. Deve doer muito, inclusive no bolso, mas a maioria se diz satisfeita com o resultado, acreditando que valeu a pena. Alguns relatos, inclusive, apontam para a reconstrução de alguns relacionamentos que pareciam fadados a terminar. Quase um milagre, digo eu. Enfim, o que tem preocupado muita gente é o fato de que não há mais limite nestas intervenções no corpo. Alguns exemplos falam por si mesmos: As cirurgias estéticas dos pés são a especialidade de muitos centros médicos. Uma das mais comuns é a que diminui o dedo do meio do pé. Sabem pra que? Para poder usar com mais elegância sandálias, de preferência de marcas famosas. Há também uma técnica que enxerta gordura do abdômen na sola do pé para facilitar o uso de saltos altos. Agora, uma curiosidade: milhares de mulheres chegam aos consultórios carregando fotos de Kate Middleton, mulher do príncipe William. Querem ter um nariz exatamente igual ao dela. Mas a história não fica por aqui. No Brasil, a cirurgia que tem conquistado mais adeptos chama-se gluteoplastia, que consiste em aumentar o volume das nádegas. E por aí vai...

Que exagero, não? Tudo bem um retoque aqui, outro acolá, mas o que muitas pessoas (homens e mulheres) estão fazendo com o próprio corpo é uma verdadeira mutilação. Haverá um limite para a busca da perfeição física? Só o tempo e os cirurgiões plásticos poderão nos dizer.

Abraços,    Gil