A leitura do livro 12 Passos Para uma Vida de Compaixão, da escritora inglesa Karen Armstrong, me fez refletir sobre esse tema que parece estar cada dia mais distanciado de nós. Até que ponto conseguimos ver o outro com condescendência, suspendendo nosso onipresente senso crítico? Mais: quem de nós consegue colocar em prática esse preceito que muitas tradições religiosas denominam de A Regra de Ouro: “Não trate os outros como você não gostaria de ser tratado”. A compaixão pressupõe o acolhimento de todas as criaturas, independente das diferenças em sua maneira de pensar e ver o mundo. Somos, ao fim de tudo, um único ser. Essa aparente pluralidade esconde os mesmos desejos, as mesmas ansiedades e a renovada vontade de encontrar um pouco de alegria sob o sol. O que nos separa, muitas vezes, não vai além da retórica com a qual construímos nossos sistemas de pensamento. Erguemos um templo, começamos a adorar algumas estátuas e rapidamente nos mostramos hostis com quem não professa a mesma devoção. Daí para criar inimigos imaginários é um passo. E em muitos casos a manutenção dessa deformidade acaba por ocupar longos anos de nossas vidas.
Vale perguntar qual é o espaço, junto com a compaixão, que estamos destinando ao perdão. Não esqueço do que me relatou recentemente um amigo. Homem de rara sensibilidade, há muitos anos está distanciado de seu irmão. Por uma questão comezinha já não se falam mais, embora morando na mesma cidade. Este amigo já ensaiou várias tentativas de reaproximação, todas infrutíferas. Paradoxalmente, aquele ser que se recusa a estender a mão para um ato conciliatório, conseguiu aceitar o que aconteceu com seu filho, sem o afastar do convívio. Há alguns anos, envolvendo-se numa briga, acabou esfaqueando um colega de jogo. De alguma maneira, foi capaz de desentranhar de dentro de si um forte sentimento que o levou a compreender as razões que levaram o rapaz a cometer um ato tão extremo. Mas está totalmente paralisado diante do fraterno pedido de reconciliação. Dois pesos e duas medidas para uma mesma realidade. Com uma agravante, tão comum ao que envolve o humano: conseguimos tolerar algo no limite do insuportável e, ao mesmo tempo, negar o pequeno gesto que pode transformar o desafeto em apaziguamento.
No caso a que me refiro, fica claro como a aplicação da Regra do Ouro é rara em nossos dias. O que transcende o eu é uma espécie de inimigo que precisa ser combatido. Quantas chances estamos perdendo de por em prática esse ensinamento religioso que nasce da contemplação silenciosa de nossas necessidades vitais. Muitas vezes procuramos embelezar nossos motivos egoístas. Ignoramos o sofrimento alheio unicamente para afirmar algumas verdades que não se sustentam diante de uma análise mais rigorosa. Que critérios, afinal, estamos usando para medir esse princípio de ordem filosófica e moral? Ao destinar tantas horas à dureza de nossas convicções, não acolhemos o sofrimento e muito menos o sentimos como uma extensão de nós mesmos. Talvez seja por isso que discursos e prédicas me enfastiam tanto. Tudo que é abstrato (“Eu amo a humanidade!”) é falso exercício de bondade.
Cultivar a empatia é essencial para que possamos seguir caminhando sem desafetos. Mais ao sabor das circunstâncias do que por uma verdadeira convicção, deixamos de dizer “sim, é claro que eu entendo e perdoo”, mesmo sabendo, como nos disse Jorge Luiz Borges, que esse sentimento só tem relação com o ofensor, nunca com o ofendido. As nossas melhores ações podem e devem ser exercidas no âmbito doméstico, entre as criaturas que, por força do hábito, já não vemos mais com o respeito e a admiração necessários.
Caminhamos feito sonâmbulos, buscando identidade entre aqueles que não nos tocam afetivamente. Vivemos a economia da individualidade, que nos incapacita para a brandura e o altruísmo. No limite da abnegação, deveríamos ser capazes de agir sem o desejo de reciprocidade. A lição máxima está contida nas palavras de Confúcio: “Quando são tratadas com reverência, as pessoas se conscientizam de seu valor sagrado, e atos corriqueiros, como comer e beber, são elevados a um nível mais alto que o biológico e investidos de santidade”. Não vamos nos prostrar diante de nosso ego. A compaixão e a empatia são a base para a supressão de nossos impulsos egoístas.