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Para que serve um amigo

21 de abril de 2017 0

Na tarde de cor sépia, no mais puro outono, eu e meus amigos Beatriz e Lívio vamos passar algumas horas na casa de Mádia, tão querida em sua exuberância e alegria de viver. Descemos do carro e, antes mesmo de tocar a campainha, vemos a porta se abrir. Escondendo o rosto, dois braços abertos seguram um cartaz onde lemos, em letras garrafais, a palavra FELIZ! Muitos abraços depois, continuamos conversando enquanto tomamos chá e nos deleitamos observando suas pinturas mais recentes. Cada um sabe, secretamente, que este é um momento de rara beleza, em que o prazer da convivência transforma tudo em ouro. Falamos de nós, dos outros, de arte, do tempo, de como é bom e difícil crescer respeitando as diferenças num mundo patologicamente padronizado. Ninguém atende o celular e muito menos envia mensagens. Estamos inteiros ali, contentes com a presença de cada um. Nada falta.

Não há abundância, nem escassez. Há a justa medida que nasce do olhar satisfeito de pessoas que sabem que a melhor coisa do mundo é estar na companhia de quem se quer bem. Não nos despedimos tristes, pois sabemos que logo ali adiante nossas almas se buscarão novamente. Conscientes, no entanto, de que tudo é provisório: o que temos nos será tirado. Portanto, nada de adiar a frase que diz do bem querer e muito menos o gesto largo que materializa o amor.

Algumas semanas depois, eu e minha irmã recebemos um casal de amigos na chácara, Tiago e Jerusa. Amantes da filosofia e atentos à poesia da natureza, nos presenteiam com longas conversas sobre espiritualidade, civilizações antigas, o valor da ética e da moral para os grandes pensadores. Dizem disso tudo com a naturalidade de quem fala sobre uma nova receita ou uma pequena descoberta em meio a um distraído cotidiano. Aos nossos pés, sua linda cachorra de olhos azuis dorme placidamente. Jantamos, dividindo comida e sabedoria. Silêncio e diálogo. Passeamos pelos caminhos que nos mostram os plátanos com suas folhas maduras, o jasmim de madagascar inundando de perfume a varanda que se abre para o horizonte. À noite, entre taças de vinho, sentamos para ver a série Mozart in the Jungle, sobre um maestro que dirige a Filarmônica de Nova York. Cinco horas de exultação estética, na certeza de que também esta é uma ocasião que queremos guardar nos escaninhos da memória. Há placidez no ar, doçura em existir. O céu plúmbeo anuncia chuva. Lufadas de vento arrepiam com doçura a pele. Duas horas da manhã e vamos dormir. Antes, leio alguns versos de Adélia Prado. Apago a luz e lembro do cartaz onde estava escrita a palavra FELIZ.

Para que serve um amigo, afinal? Para nos lembrar que, mesmo existindo a dor e a separação, podemos ser tocados sensivelmente pelo outro, conhecendo a substância do que não morre jamais.

 

Conserta-se

14 de abril de 2017 0

Se todo vício é um redutor da liberdade, imagine-se o grau de frustração que advém da incapacidade de se manter longe da bebida, do jogo, das drogas. E de alguns outros coadjuvantes que não são classificados como tal, mas que deixam as pessoas num estado de torpor, olhando passivamente a própria destruição. Falo distanciado da experiência pessoal, mas pude observar a derrocada de seres próximos a mim e o sentimento de impotência é doloroso. Não há o que demova um dependente desses prazeres nocivos. Desconfio que todos, absolutamente todos, sejam conscientes dos malefícios que vêm a galope, quando não conseguem frear estes ímpetos. O abismo está logo ali, mas continuam caminhando como se uma planície esperasse por eles. Nosso cérebro é ardiloso e o sistema de recompensas acaba por prevalecer. Pouco importa o alerta de que o processo é corrosivo e que acabará por arruinar a própria vida. É mais forte, e todo e qualquer argumento perde a sua força diante dos impulsos, das dificuldades em resistir ao desregramento. Onde isso inicia? Em que momento fomos incapazes de dizer não? Um descuido, um pequeno deslize e lá vamos nós. A velha afirmação de que “eu só vou experimentar, largo na hora que quiser” se defronta com evidências gritantes de que isso quase nunca é verdadeiro. Se você abre uma fresta (e isso é muito rápido), já não será mais capaz de fechá-la.

Mas se há algo comovente, é acompanhar o processo de recuperação de quem se entregou a essa dissolução do corpo e da alma. O itinerário em que, em grupo ou individualmente, descobrem ser possível consertar os estragos. A perspectiva de dias mais límpidos, de ser devolvido ao trabalho e às relações afetivas, é uma espécie de lume que a muitos demove nestas circunstâncias que são longas temporadas no inferno. Isso deve gerar uma força como em raros outros momentos. Sentir-se limpo, aberto para o mundo. É quando reaprendemos a ver com a clareza de antes. Não há mais deformações e nem ilusões. Temos ao nosso dispor o rico e complexo material das emoções e o renovado desafio de não cair em tentação outra vez. O perigo pode estar próximo, mas dizemos a nós mesmos: Tudo certo, isso não me afeta mais. É quando o foco não está mais no caminho de descida, mas sim na grandeza de olhar para si e sentir-se digno. Penso nisso também com certa melancolia, ao lembrar dos que fraquejaram diante dos sacrifícios que fizeram para ter novamente o governo de si.

Somos frágeis, vulneráveis; recebemos influências constantes. Porém, a retomada da própria vontade nos torna grandes. Dá sempre para arrumar o que parece destinado ao fracasso. É a melhor maneira de continuar nascendo.

Tudo o que é raro

07 de abril de 2017 0

Na chácara em que moro, há abundância de pêssegos, laranjas, bergamotas, caquis, limas. Mas apenas duas modestas plantas de jabuticaba. Adivinhe por que frutas espero ardentemente, toda estação? Há algo de especial em sorver sua polpa branca e macia. São poucas, são raras. E, a par o fato de as apreciar sobremodo, sei que seu sabor se intensifica ainda mais por não poderem ser colhidas às cestas. Pois não é assim com tudo o mais na vida? Por exemplo: os casais que mais se dão bem costumam ser os que passam boa parte do dia separados. Na melhor das circunstâncias, as qualidades se ampliam quando têm somente o fim de semana para usufruir da recíproca companhia. Desaparece a banalidade para dar espaço à expectativa e, numa analogia com a variedade de frutas acima citadas, a presença ganha o caráter da excepcionalidade. Continuar desejando significa estar longe dos olhos, ansiar. O que é a anestesia dos sentidos senão o resultado da repetição? O gosto, por mais refinado que seja, se visita o nosso paladar com constâncias, acaba se tornando desinteressante. O que está distante nos dá a sensação (às vezes falsa, salientemos) de que brilha mais do que aquilo que está sob nossos olhos. Somos animais que se enfastiam facilmente. Despertamos diante das novidades, reconhecendo a avidez do querer.

É um ideal a ser alcançado, esse de fazer com que nos queiram mais pela nossa ausência do que por um contato abusivo. Mas como agir quando a partilha das tarefas cotidianas impõe a divisão das cotas de responsabilidade? Os filhos não haverão de ser criados somente por um ou por outro. Afastar-se é ser omisso, deixando a responsabilidade para terceiros. Eu me debato sobre essa questão com frequência, sem ainda ter encontrado uma resposta satisfatória. Sei o que não dá certo quando há uma overdose de proximidade. Isso só vale quando estamos apaixonados. Depois, cada um deveria descobrir interesses particulares para servir de assunto para os momentos de intimidade. O ganho adicional será o da incerteza; não da segurança, que mata o amor e, em muitos casos, o respeito.

Como conseguir o equilíbrio? Não se pode tabular dados e depois transformar tudo numa mera estatística. Há que se considerar as peculiaridades de cada um. Temos os carentes abusivos, que precisam estar sempre colados em alguém. No outro extremo, os independentes, que não necessitam de ninguém para estar em perfeita sintonia consigo e com o mundo. Em meio a eles, continuamos todos em busca de uma relação ideal, que eu e você sabemos não existir. No entanto, podemos colaborar, aprendendo a servir aos demais doses exatas de nós mesmos. Em pequenos recipientes, como um néctar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Frase: “Despertamos diante das novidades, reconhecendo a avidez do querer.”

Escutar, compreender, meditar

01 de abril de 2017 1

Tenho repetido para mim, com insistência, estas três palavras. Numa época em que nada parece ser mais revolucionário do que olhar nos olhos da pessoa com quem estamos conversando, pode ser um bom caminho a seguir. O que fazemos nas redes sociais é uma troca de informações. Resisto a chamar isso de comunicação. Até porque o excesso mutila a percepção, não amplia. Então, sempre que posso, marco um encontro, abraço quem está comigo, com plena disponibilidade. Não conheço maneira mais eficaz de estar presente.

A escuta, cada vez mais comprometida num mundo onde tudo é vertiginoso e fugaz, tornou-se quase um ato religioso. É assim que ela deve acontecer: você senta na frente da pessoa e ouve de verdade, sem contrapor à fala alguma situação pessoal. Esqueça o eu. Neste momento existe somente o outro. Agindo assim, respeitamos de verdade quem está ali. Não custa lembrar, nem que seja esporadicamente, que existe algo além dos nossos sentimentos e necessidades. É gratificante colocar-se na pele de alguém que confia em nós e, verdadeiramente, estarmos dispostos a ajudar.

Há mais valia se conseguirmos avançar um pouco mais. A capacidade de compreender envolve também paciência, tolerância com tudo o que difere do nosso pensamento. Se você acha que deve dividir tudo em prós e contras, comece a reavaliar essa ideia. É muito mais uma questão de nuance, de entender que todo relato é um convite a aprender um idioma estrangeiro: no começo parece intransponível, mas aos poucos vai se revelando familiar. E aí começamos a perceber o ridículo dos preconceitos. A maioria das coisas são o que são, longe dos modelos que gostamos de categorizar como certo e errado. Pode ser para mim, mas sem a pretensão de transformar nada em lei. É tudo bem mais simples do que imaginamos.

A reflexão atenta é o resultado de nossa vontade em sair do próprio casulo e pensar a realidade por um prisma mais amplo. Ponderar. Despir-se de certezas que nada mais são do que opiniões. Para chegarmos a esse ponto precisamos parar, exorcizando a pressa que tantas vezes nos leva a fazer escolhas erradas. Considerando, sempre, a promessa de que convocaremos a prudência na próxima decisão. Meditar exige esforço, não é tão fácil como parece. Mas vale a pena disciplinar-se, pois os resultados nunca decepcionam.

Tentemos ser fiéis a essa santíssima trindade que exige de nós maturidade e bom senso. Afinal, envelhecer é mais do que empilhar os anos vividos. Quem observa e pondera sempre avança. Mesmo quando parece estar estagnado.

Histórias edificantes

24 de março de 2017 0

Eu me comovo, com previsível regularidade. Histórias de superação encontram em mim um leitor atento, um ouvinte apaixonado. Pessoas que passaram por terríveis provações e conseguiram dar a elas uma significação maior, sempre devem ser merecedoras de respeito. Mas encontramos quem prefira seguir outro roteiro: converter a dor numa justificativa para o fracasso. No entanto, há os que, imbuídos pelo desejo de extrair grandeza de tudo, aproveitam o momento de fragilidade para agigantar a própria alma. Fogem das lamentações. Até sua linguagem se torna mais exuberante para que ela não os debilite emocionalmente. Ficam mais vivazes, extorquindo do tempo o que ele tem de melhor. Gosto de estar ao lado desses seres que não reduzem os infortúnios a uma justificativa para a derrota. Então, fico garimpando, aqui e acolá, roteiros de vida que me mostram o quanto é possível suportar as adversidades sem tombar. Porque muitas vezes o que fazemos é sentir pena de nós mesmos, agindo como crianças que optam pelo choro, sem lutar por uma nova significação dos atos. E é impressionante como uma tragédia pode nos impulsionar a viver com mais coragem. Aptos, agora sim, a seguir em frente com os pulmões cheios, certos de que nada nos derrubará.

Lembro do médico americano BJ Miller, respeitado e admirado em seu país. Na adolescência, numa brincadeira entre colegas, foi jogado de encontro a fios de alta tensão. Passou meses no hospital, sentindo dores excruciantes. Perdeu a parte inferior das pernas e a mão esquerda. Não se transformou num ressentido, não aceitou o papel a que parecia destinado. Compreendeu seu erro e refez o itinerário. Hoje dirige um hospital em que se priorizam os tratamentos paliativos para doentes terminais, tentando dar-lhes um final o mais digno possível. Tornou-se um estudioso do zen budismo. Seu rosto bonito e feliz ostenta uma expressão da mais pura serenidade. Não há queixas em suas palavras, mas determinação e vontade de ajudar quem o procura. Por que não pode ser assim também com cada um de nós? Diante deste exemplo, como é difícil crermo-nos generosos. Há que se olhar ao redor: sempre nos deparamos com uma dor maior que a nossa. Precisamos acessar as reservas de perseverança e ir em busca do que nos faz crescer. O caminho mais fácil é o da desistência. Mas é sempre o pior.

Conte-me algo e eu o ouvirei atentamente. Sei que o real costuma ser, amiúde, mais interessante que a ficção. Observe atentamente os personagens com os quais se deparar.Eles são como livros em movimento, páginas que podemos ler a qualquer hora de nosso dia.

Por antecipação

17 de março de 2017 0

Não adianta. Parece que está no nosso DNA. Não basta padecer quando algo ruim acontece. Precisamos antecipar a aflição. Os mais sábios nos dizem: a cada dia a sua agonia; vive o momento; nada pode ser controlado. Difícil colocar isso em prática. Parece ensinamento básico de livro de autoajuda. Mas é bem mais, posto que acabamos experimentando angústias desnecessárias. Até porque, geralmente, o que imaginávamos que pudesse advir revela-se enganoso. Quando uma relação termina, quando sofremos um revés financeiro ou profissional ou uma pessoa que nos é cara morre. Tudo vai seguindo o seu fluxo. Não há um entendimento racional para como esses novos cenários nos afetarão. Em muitos casos só percebemos esses “encaixes” retrospectivamente. Como se uma engrenagem procurasse outra que se acoplasse a ela. Talvez porque há um chamamento permanente para que cada final ceda seu lugar a outro começo. Muitas vezes bem melhor do que aquele em que estávamos enredados, acreditando ser o único a nos fazer feliz. Tudo isso se assemelha a uma espécie de dança, onde o acaso, o destino ou Deus vão desenvolvendo um roteiro ao qual não temos acesso.

Acredito que hoje eu registro mais vitórias do que fracassos neste quesito. Isso é o resultado de um constante e vigilante trabalho de auto-observação. Nem sempre foi assim. Como me torturei esticando o fio do tempo! A mente, sempre tão ardilosa, permanecia no comando. Como um escravo dócil, seguia os desvãos do pensamento, deixando de lado o bom senso e o que a experiência me dizia. Não deve ser diferente com a maioria das pessoas. Falamos em probabilidades e perspectivas, esquecendo que não existe linha reta neste assunto. E talvez nisto resida a beleza da condição humana. Podemos, minimamente, interferir na ordem do que se apresenta diante de nós. Mas devemos sempre considerar a possibilidade de que tudo é especulativo e escorrega facilmente entre os dedos. O monge francês Matthieu Ricard costuma dizer que um dos nossos males é opor-se ao que sucede.Ele preconiza a não resistência, o cultivo da capacidade de entrega, sem gerar qualquer conflito. Talvez seja necessário meditar algumas encarnações para chegar a essa vivência. Pensá-la já sinaliza a vontade de refletir como estamos nos conduzindo diante dos fatos. Tudo pode adquirir contornos inesperados. Que sabemos nós, se não que somos um mistério enredado no mais complexo dos sistemas, o cérebro.

O que virá. Tenho cada vez menos interesse em saber. Minhas especulações costumam ficar circunscritas entre o amanhecer e o anoitecer. Prefiro ser surpreendido, pois ignoro o fim. Todos os fins.

Paz e volúpia

10 de março de 2017 0

Se você tivesse que escolher um lema que te definisse, qual seria? Quanto a mim, pediria emprestado o que a escritora americana Susan Sontag considerava como uma divisa para a sua vida: “Paz e volúpia”. Ela chamava a isso de prece essencial. Pois fiquei aqui conjecturando como é importante a gente sorver o lado espiritual e físico da vida. Creio ser primordial ter um olhar que, ao menos, considere a possibilidade de existir algo depois da nossa morte. Prefiro manter o espanto, a chance de ver no mistério a própria razão do existir. Mas tenho medo dos fanatismos. Sabe essas pessoas pálidas, por dentro e por fora, que parecem já ter desencarnado antes do tempo? Falo desses místicos em tempo integral, que seguem uma doutrina rígida de comportamento, nada se permitindo além de seguir meia dúzia de mandamentos ditados por outro ser humano. Eles podem até conhecer momentos de paz, mas terão expulsado de suas veias todo o sangue. Como seria educativo injetar neles um gosto pelo desregramento, o mesmo que percebemos nas pessoas que sofrem de alguma doença terminal e sabem que não podem desperdiçar nada.

Em seu belo livro “Sobre a felicidade”, o filósofo Frédéric Lenoir nos dá um roteiro a partir do qual deveríamos conduzir os nossos atos. Poder-se-ia dizer, numa síntese talvez excessivamente simplificada, que o caminho é o da entrega, não o da resistência. Receber o que nos é oferecido em gratidão, seja o gozo ou a dor, o desejo ou a frustração. Não fazer oposição a essa roda viva de atos e sentimentos que é, em suma, toda a trajetória individual. Mas isso implica, em primeiro lugar, uma drástica redução dos nossos preconceitos. Relaciono a volúpia ao fogo, a algo que nos consome e nos dá prazer, simultaneamente. Pode ser perigoso, mas faz com que as paixões se legitimem e encontrem o seu espaço em nossa alma. E depois que estivermos suficientemente alimentados, talvez jejuar ou rezar. Não como uma forma de expiação, mas de agradecimento, deixando com que o fiel da balança permaneça no meio, sem pender para um lado ou para o outro. A força do embate amoroso com outros corpos e a serenidade da mente aquietada. Ah, que fórmula sublime a nos conduzir. Ver-se abrasado, sem deixar de sonhar com o êxtase dos santos.

Tudo, afinal, são maneiras de sentir. Sonhemos com esta: contemplar a si mesmo, surpreendendo-se satisfeito, saciado. Agradecer a inspiração que a beleza de um corpo nos dá, com o olhar voltado para Deus.

 

Do que você se alimenta

03 de março de 2017 0

Se você passa o dia inteiro pensando em sexo, não conseguirá ver mais nada de interessante ao seu redor, além disso. Se, por outro lado, for obcecado por comida, reduzirá todos os seus prazeres ao ato de se alimentar. O gozo supremo se dará na presença de um prato bem servido. Como para muitos é impossível também conceber a boa vida longe do álcool, do esporte, das compras. Em si, isso não é bom ou ruim, se bem dosado. É a clássica diferença entre o veneno e o remédio. O grande problema é quando queremos uma única coisa: reduzir o mundo segundo nossas vontades. Não falo isso de maneira abstrata. Tenho amigos que transformam o prazer (ou o vício) numa religião. Não se permitem sequer discutir a possibilidade disso ser uma patologia. Rezam por uma cartilha como o crente pela sua salvação. Dizem aproveitar a vida muito mais, exaurindo o máximo do que lhes é oferecido. Só que é da natureza do desejo não se saciar nunca. A sensação de apaziguamento, de que se está contendo a fera, é incondicionalmente provisória. Há sempre a queda depois do pico. E a fadiga por ter que começar tudo de novo. É bem longe desses extremos que se pode encontrar a serenidade. Aproveitar, mas sabendo que se usufrui bem mais a paisagem quando nossos olhos ainda são virgens de novidade.

A proliferação de material que se debruça sobre o tema da felicidade, mostra o quanto ela se tornou uma busca permanente em nossas existências. Eu a pressinto na pluralidade dos meus interesses. Em nada excluir, mas também em ficar bem distante da crença em acreditar que algo em especial pode ser constitutivo da minha alegria. Manter a curiosidade é praticar o saudável exercício de mapear tudo o que nos é ofertado. Pode-se dizer sim ou não, tanto faz. Ruim mesmo é ficar polindo as grades de uma prisão, confundindo-a com uma ampla moradia. Conheço quem sinta na convivência familiar um mero estorvo que os afasta do que eles elegem como a prioridade absoluta de seus dias. Imagino o cansaço que isso deve dar. Acordam e já repassam o roteiro a ser seguido ou perseguido. Sempre o mesmo, como se tivessem sido treinados por uma máquina que lhes incutiu a necessidade da droga que lhes dá saciedade momentânea. Eu gosto de gostar de quase tudo. Não passo cinco horas do dia lendo e acho que sexo é ótimo, mas é superestimado. E por aí vai. É bom sentir falta do que nos sustenta. Ter expectativas, mas deixar que um intervalo entre uma e outra dê conta de nos renovar interiormente.

Aprendamos a domar o lobo que nos acompanha nesta breve jornada. Não o deixemos morrer de fome. Mas empanturrá-lo não significa que ele desistirá de nos incomodar. Um pouco de tudo, para tudo ter.

Lamente-se ou siga em frente

24 de fevereiro de 2017 0

Na vida há sempre dois ou mais caminhos. Raramente estamos encurralados numa única situação. Nossa mente é que está. Basta fazer um movimento para descobrir outras possibilidades. Creio que se conseguíssemos ver isso com mais clareza, muitos lamentos seriam trocados pela ação. A palavra, só a palavra, paralisa, reforça o medo. Quando nos sentimos atormentados por algo, é natural que queiramos repartir essa sensação de aprisionamento. Mas a linguagem deve ser apenas uma válvula de escape temporária. A mudança está mais atrelada a uma espécie de esforço físico, do funcionamento dos músculos. O cérebro comanda, claro, só que é possível desestabilizá-lo quando o foco é alterado. É difícil admitir, porém.Muitas vezes a dor e o descompasso com os nossos anseios nos deixam presos numa zona de conforto. Repare, analisando o que acontece ao longo de um dia, a quantidade de pessoas que sentem um discreto prazer em se vitimizar. Agora, pergunte a elas se estão fazendo algo para romper essa casca que as isola das demais e das situações que consideram perfeitas para a sua felicidade. Preferem desfiar o velho rosário de sempre, pois isso exige menos de cada um.

Quando me sinto desconfortável, quando algo me incomoda, reflito por um curto tempo e depois saio de casa. Mudo de cenário. Coloco as pernas para andar. A fórmula tem se mostrado proveitosa. Principalmente porque o drama se revela de menor importância. É como se eu desse um zoom ao contrário. Ao invés de enxergar a mim mesmo, somente, passo a incorporar à minha realidade seres e objetos que até então eram periféricos. Isso é o resultado de estar olhando cada vez mais para o corpo e suas reações. Ah, e tenho considerado o cansaço físico uma benção. Menos devaneios e mais ação. Somos criaturas orgânicas, respondemos aos humores corporais. Provocar o esgotamento pode ser uma boa maneira de esquecer nossos tormentos cotidianos. Quando nos damos conta de que tudo é um sopro, não gastamos nossas energias com enredos que são apenas rascunhos de uma realidade mais valiosa. Já não tenho muita paciência para servir de confessionário das miudezas alheias. Ouço com atenção, porque é sempre educado fazer isso. Mas quando a lâmpada “perigo” acende, dou meia volta volver.

Bom mesmo é pisar no acelerador sem olhar muito para trás. Não dá para ficar demasiado em ponto morto. Oxida as engrenagens da mente. Um. Duzentos. Seiscentos mil. Sete bilhões de criaturas se colocando no centro do mundo. Não há espaço para todos. Reserve suas melhores horas para cantar a vida. Não enterre antecipadamente o que ainda pulsa. E lembre: tudo é uma única vez.

Girassóis

17 de fevereiro de 2017 0

Então, o dia nasce assim, todo silente, depois dos pássaros terem feito sua visitação matinal. O sol rasga as pesadas nuvens que anunciam chuva. Abro a janela e vejo que os girassóis já acordaram e estão todos voltados para a luz quente dessa manhã de verão. Nossos cães latem alegremente, me chamando para carinhos e afagos. Preguiça no corpo, que ainda rescende a sono. Resisto ao chamado para dormir um pouco mais e vou até o jardim. Se não bastasse o fulgor dessas bolas de fogo que foram amadas por Van Gogh, há ainda os lírios para perfumar as bordas do bosque a as estradinhas de chão batido. A tia Mima os adorava e toda vez que vinha passar o final de semana conosco levava largas braçadas para enfeitar o seu quarto. Imagino-a tecendo suas infinitas colchas de crochê, enquanto o pensamento vagava, sorvendo o mágico perfume.Tão serena, a tia. Assim como as flores que ia colhendo nos muros das casas desabitadas. Fevereiro evoca em mim essa nostalgia, essa vontade de receber abraços tardios de todas as pessoas que amei e não estão mais aqui. Ou ainda estão, o que sabemos nós.

E, talvez por estar lendo o livro com a correspondência que Caio Fernando Abreu trocou com Hilda Hilst, sinto vontade de escrever cartas. Vontade de saber como estão amigos distantes, mas deixando que entre a saudade e a chegada das notícias uma fatia de tempo enovele tudo. Continuo resistindo à rapidez, ao desejo de eficiência, à pressa. Gosto dos olhos pousando sobre as coisas, ampliando sua beleza. Penso nisso enquanto percorro um recanto coberto de bromélias, que florescem em tons vermelhos, amarelos e rosa. Próximo a elas, uma planta de hibiscos exagera na quantidade de botões, prometendo uma semana do mais puro gozo estético. Será para rivalizar com os jasmins dos poetas que transbordam da treliça de madeira, inundando o ar com um odor tão antigo? Sim, cartas. Eu as postaria no correio (com uma flor seca entre a página dobrada) e saberia esperar, como já é difícil fazer hoje em dia. Bendigo a proximidade, mas tenho em mim esse gosto pelas horas que se desmancham lentamente, que não nascem envoltas em afazeres. Ah, não lembrem de mim como alguém que foi eficiente, que realizou isso ou aquilo. Pois não passa de paisagem efêmera. Recordem, sim, de um homem que leu poesia e cuidou das suas flores, que plantou petúnias, aspargos, violetas, hortelã, dálias, íris, manjericão. Tudo o mais foi vaidade, tentações a que não foi capaz de resistir.

Nesta hora tão clara do dia, pressinto que é bom viver. Tenho mãos livres para o afeto. Saúde no corpo e na alma. Solidão e fome de encontro. Tenho tudo.