Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

O mundo segundo Wim Wenders

19 de agosto de 2008 31

Você deve conhecer essa sensação: ao final de um evento (pode ser um filme, uma peça, uma festa, um encontro, uma viagem, um livro) você suspira fundo e pensa consigo mesmo que não só valeu a pena, mas que saiu transformado da experiência. É mais ou menos assim que fiquei após assistir à palestra de Wim Wenders na  noite de ontem, uma segunda-feira chuvosa em Porto Alegre. Não por acaso, o público que tomava o Salão de Atos da Reitoria da UFRGS aplaudia e aplaudia e aplaudia sem parar, ninguém tinha vontade de cessar a homenagem. Por que? Por vários motivos. Aos 65 anos, o alemão Wim Wenders é um homem centrado, que fala pausadamente sobre coisas simples e universais, e que nos abre os olhos para o que intimamente sabemos, mas que no atropelo dos dias, esquecemos de lembrar. 

*

O ciclo de palestras chama-se Fronteiras do Pensamento e Wim Wenders escolheu esse tema: fronteiras. A palavra sofreu um desgaste e perdeu qualquer  status. Fronteira lembra muro, porteira, prisão, e quem quer isso? Então vem a globalização e faz do universo um lugar onde todos se parecem, tudo se parece. É bom isso? Pois Wim Wenders glorifica as fronteiras como um espaço importante para se concentrar no que se é, em quem se é. Ele valoriza uma coisa que estamos perdendo: a sensação de pertencer a um lugar, e tudo o que esse lugar nos transmite. Rejeita filmes que possam acontecer em qualquer cidade, em qualquer época. Ele quer a identidade, ele quer o foco no que é micro, para que isso possa ganhar o mundo e comunicar: há outras vidas além dos padrões instituídos.

 

*

Wenders fala do grande prazer que tem em aliar cinema e música. Para comprar sua primeira câmera, aos 22 anos, ele teve que vender seu amado saxofone. Acredita que o mundo perdeu um músico medíocre e ganhou um cineasta razoável. Modesto, o homem. Wenders ama o blues, o rock, a música latina. Ele apresentou Ry Cooder ao mundo, através do filme Paris, Texas (não sei se ao mundo, mas a mim, certamente, que saí do cinema correndo para comprar a trilha sonora). Ele dirigiu o documentário Buena Vista Social Club, que revelou os fantásticos músicos cubanos. Ele filma com o coração, com a mente, com os olhos, mas também com o ouvido.  

*

Eu falei documentário? Wenders diz que, ao chegar num cinema e encontrar  8 ou 10 opções de filmes, se entre eles houver um documentário, é nessa sala que ele entra. O documentário é o diferencial do cinema de hoje. É o olhar focado, que traz informação, emoção e que atravessa paredes. Enquando ele dizia isso, lembrei de Janelas da Alma, um documentário brasileiro sobre a visão e a perda da visão, sobre a miopia do mundo (direção de João Jardim e Walter Carvalho), que foi das coisas mais emocionantes que assisti no cinema, e que não por acaso contava com um depoimento de Wim Wenders, que usa um óculos de grau desse tamanho, mas que enxerga longe. 

*

Fim de palestra, Wenders pede licença para apresentar um documentário dirigido por ele, com duração de 20 minutos. A organização Médicos sem Fronteiras fez uma lista das terríveis mazelas por que passam várias regiões carentes e ofereceu a lista para vários cineastas escolherem o que filmar, numa tentativa de mostrar ao mundo as dores que ninguém vê. Wenders escolheu filmar depoimentos sobre mulheres que sofrem abuso sexual no Congo, na região mais pobre e isolada da África. O documentário chama-se Invisible Crimes e deixou a platéia de garganta seca e olhos marejados. Belamente filmado, ele colheu testemunhos de uma brutalidade que está acontecendo agora, nesse momento, com garotas de 13 anos, de 18 anos, com mulheres de 40, de 60 anos, cidadãs que não têm seus direitos respeitados e que sofrem nas mãos de criminosos impunes, em lugares onde não existe lei. Assim como no Congo, isso acontece aqui no Brasil e em diversos outros lugares. Mas o que a gente lê nas revistas? Como o botox pode nos rejuvenecer!

 

*

O mundo é imenso. Um grande playground onde só se cultua o sexo e a violência. Mas se prestarmos atenção nos detalhes, nos espaços fechados, onde câmeras não entram, onde fotógrafos não clicam, poderemos ter uma visão mais abrangente do mundo e alcançar a paz.  A globalização é uma falsa abrangência. É o que gera a verdadeira invisibilidade, e agora as palavras já não são dele, mas minhas, que saí comovida dessa palestra.

*

Vi poucos filmes dele. Gostei de alguns, outros achei maçantes. Mas o papo foi muito além do cinema. Falou-se de vida. E nisso ele consegue ser um mestre ainda maior. 

*

Desculpem a tietagem. Estou escrevendo sem racionalidade ou revisão, apenas transmitindo o que senti pra vocês, que não estavam lá.

*

Vida longa aos que ainda conseguem enxergar o mundo com olhos sensíveis. 

*

Eu volto. Beijos.

 

 

 

   

 

 

         

Postado por Martha Medeiros

Comentários (31)

  • Camiilla diz: 19 de agosto de 2008

    Puxa, arrepiante o texto!
    O que mais que comove é saber que aqui mesmo na minha cidade, na sua cidade isso está acontecendo agoora! Mas parece que estamos sempre cheios de nós mesmos, do nosso próprio “eu” que esquecemos da palavra “próximo” que fica cada vez mais distante…

    Obrigado por ter tirado nossos “óculos” da ignorância!

    Um beijo, queridona!

  • Shigueko diz: 19 de agosto de 2008

    Martha, obrigada por nos trazer sentimentos e emoções tão distantes do nosso dia-a-dia.
    Sempre aprendo com você. A ser mais curiosa, sensível e sobretudo muiiiittttooo chic…
    Beijo

  • Claudia diz: 19 de agosto de 2008

    Que delicia de programa para uma segunda -feira!!! Fiquei tres meses em Porto e não tive esta chance!!!
    Engraçado enquanto lia seu blog tb não pude deixar de lembar de JANELAS DA ALMA que muito me tocou.
    Não vi Wenders mas deu pra sentir um pouco do que rolou através de vc, valeu Marta por ter enfrentado estacionamentos e congestionamentos na Ipiranga e trazer um pouco daquilo que alguns perderam de ouvir. Sou fã dele!! adoro a trilha de paris Texas.. é simplemente envolvente!!!!

  • Mariana diz: 19 de agosto de 2008

    Martha, querida!

    Deu pra perceber que esta postagem foi colocada com todo o sentimento. E eu amei ler!

    Ontem já vi o teu livro à venda: “Doidas e Santas”. Não sabia…achei que só estaria disponível perto da data de lançamento, mas então já vou comprar.

    E Feliz Aniversário um dia adiantado, Martha! Preciso escrever, né? Como todos os anos.

    Um beijão, com muito carinho.

    Mariana

  • Raquel diz: 19 de agosto de 2008

    Marthinha, como nos faz falta nesta vida doida ter óculos “deste tamanho” para enxergarmos as coisas por lentes melhores…
    Beijão!

  • Adriana diz: 19 de agosto de 2008

    Fico aqui babando, síndrome de alguém que cresceu e até hoje não foi ao cinema?, infelismente na minha cidade não tem essa maravilha, já locadora e fármacia, em cada esquina se vê, das duas uma, ou estamos sempre doentes ou adoramos ficar em casa. Adoro suas crônicas, me remetem a um mundo tão diferente, dinâmico e pensante. Conheço a vida fora da ilha através da internet e dos livros -aqui, vende-se apenas no supermercado- ou seja, eles escolhem e dá-lhe auto-ajuda! obrigada por compartilhar.

  • Luciana diz: 19 de agosto de 2008

    Parabéns pelo texto!
    Vida longa mesmo!
    Hj vivemos em um mundo rodeado de imbecis…
    Gente que não fala de nada produtivo, gente vazia que apenas cultua a embalagem e critica opiniões diversas a sua.
    Vc sentiu isso ao falar do Batman.
    Eu sinto isso diversas vezes quando quero debater alguma ideía, ou um filme em comunidades no Orkut.
    Martha, a humanidade está doente.

  • Julia diz: 19 de agosto de 2008

    O problema é que hoje temos acesso a tantas coisas, que por vezes acabamos perdendo nossos valores, sem saber o que de fato é certo ou errado. A correria é tanta que sem querer nao reservamos tempo para refletir sobre o que realmente importa. Coisa bem boa esses seus textos!Abraço de urso! Julia

  • Juliana Amaral diz: 19 de agosto de 2008

    Well, now you know… Agora vc sabe como nos seus fas, nos sentimos em relacao e tietagem. As vezes, nos sentimos uns palhaços escrevendo pra voce, tamanha eh a tietagem…
    Em relacao a documentarios, adoro nao conheç o trabalho de WW vou seguir sua dica e aprender mais sobre esse genio…
    Se vc gosta de documentario deixo aqui duas dicas: ” BORN INTO BROTHELS ” refere-se a criancas em Calcuta direcao de Zana Briski com Ross Kauffman muito bom, outro GONZO: referente a Hunter S.Thompson , B

  • Luis Dutra diz: 19 de agosto de 2008

    Bom dia, Martha. Às vesperas do seu aniversario, te lanço um desafio: que tal reescrever sua primeira biografia? Pra refrescar, a escrevo na integra, tirada do Strip-tease:
    “Nasci em Porto Alegre, dia 20 de agosto de 1961. Redatora publicitária. Tenho um Gol, um namorado, alguns planos, milhões de sonhos e um disco de rock q é a minha cara. Meu strip tease é diário, o palco é 24 horas e a música não pára. Se o livro não der certo, vou partir pros night-clubs.”
    Bjus e até amanhã

  • Keila diz: 19 de agosto de 2008

    Tietagem?? Desconheço o que seja isto rs
    Mas vc PODE!
    rsss

  • aline zanchi diz: 19 de agosto de 2008

    Martha,

    Gostaríamos de saber o seu calce.

    Obrigada,

  • angela diz: 19 de agosto de 2008

    Oi Martha!
    Olhar o cotidiano e extrair através da sensibilidade e simplicidade a vida.Wim Wenders deu um banho de inteligência,simplicidade e sensibilidade!Ótimo texto ,emocionante como foi a participação dele!!!Beijo

  • Gabriela Alencar diz: 19 de agosto de 2008

    Martha obrigada por você ser essa escritora maravilhosa, amo de paixão cada um de seus livros. Meu preferido é O Divã.
    Te adoro, Bjos.

  • Nathália Hecz diz: 19 de agosto de 2008

    Acho tão fofo isso que tu faz… Dividir as tuas experiências com os teus leitores. Guria! Tu escreve bem assim à noite?? Nossa, olha a hora da tua postagem: “Postado por Martha Medeiros às 00h00“. Que palestra, né?! Serve como um choque pra nos alertar sobre o mundo hoje. Obrigada por dividir tudo isso com a gente. Beijão, Martha!

  • Silvia Britto diz: 19 de agosto de 2008

    QUE BOM QUE NÃO ME ENCONTRO SOLITÁRIA EM MEUS PENSAMENTOS.O VERDADEIRO MUNDO É O QUE SE ENCONTRA ATRÁS DOS BASTIDORES.TEMOS QUE TER CORAGEM PARA BUSCÁ-LO,VISTO QUE NÃO É UM MUNDO COR-DE-ROSA…DESEJO QUE CONTINUES SEMPRE BUSCANDO,POIS ESSE É O VERDADEIRO MUNDO !

  • Júlio Brum diz: 19 de agosto de 2008

    Uuuufffffffaaaaaa
    Alguém tem que enxergar e ouvir, e o melhor e mais difícil, saber transmitir.
    Só mesmo äs pessoas futilmente globalizadas para perderem o sentido de pertencimento.
    E que só viram o muro de Berlim ser derrubado, mas não enxergam as separações xenófobas do muro no México construído pelos estadunidenses, o muro horrendo na palestina, por Israel. Tem muitos documentários, livros sobre isso também.
    É fato q barulhinho de papel de bala, no cinema é chato,mas copão pipoca RIDÍCULO

  • Patrícia Drummond diz: 19 de agosto de 2008

    Obrigada, Martha.
    É um grande privilégio poder “acessar” seus pensamentos e suas emoções.
    É muito bom…
    Abraço carinhoso

  • sandra diz: 19 de agosto de 2008

    Oi Martinha!
    Também sou fã de carteirinha dos documentários ( e das biografias! ). Edifício master ( imperdível, na minha opinião ) foi um documentário que não esqueci.Interessante demais.Talvez vc já tenha visto, mas caso não tenha, fica a sugestão.
    Beijo, adoreiiii o blog.

  • karla diz: 20 de agosto de 2008

    Simplesmente adorei Martha…como sempre é um banho de cultura o teu blog, e obrigada por dividir os teus sentimentos conosco…não queremos só racionalidade, fique certa disso!!!amei!
    bj karla

  • Ricardo Valente diz: 19 de agosto de 2008

    Engraçado a tietagem. Tudo que sai da boca dum “cult” parece ser sábio. O “pum” é perfumado? Exageros à parte, como falta autenticidade nesse mundo! Amor próprio, auto-estima, descobrir o “gênio” dentro de nós. WW e suas “Asas do Desejo”, que o digam…

  • Juliana diz: 19 de agosto de 2008

    Bendita tietagem Martha,é o que faço aqui todos os dias lendo vc…
    Bjos,bjos,bjos!!

  • Fernanda Guimarães diz: 20 de agosto de 2008

    Martha,
    Também fui apresentada ao Ry Cooder em Paris, Texas…impossível esquecer a trilha sonora do filme, a bela fotografia de Robby Muller e as magníficas atuações da Nastassja Kinski e de Harry Dean Staton…a música de Ry é visceral e envolvente!
    beijos

  • thiago diz: 22 de agosto de 2008

    to lendo um livro do bauman que fala sobre essa coisa de globalização, chamado, em busca da política. fala de como as pessoas se apoiam nessas ilusões pra afastar o fato de que cada vez se está mais só, como cada vez é mais dificil criar laços verdadeiros entre as pessoas, não existe mais a visão de comunidade e então as pessoas acham que globalização é algo bom pq une, quando na verdade só destrói aquilo que torna cada um, cada um.

  • thiago diz: 22 de agosto de 2008

    e sobre o wenders, vi uns quatro filmes dele só, e acho que gostei de todos, seu texto me animou, vou atrás de mais coisas dele amanhã.

  • Mateus Massierer diz: 20 de agosto de 2008

    Martha adorei as suas crônicas!!!!!
    Uma rápida história de como cheguei até elas:
    Estava eu almoçando quando a minha mãe chegou e comentou que adorou as suas crônicas fez à elas 1001 elogios, na hora eu pensei não deve ser nem um pouco bom ficar lendo crônicas, prefiro baixar músicas ou entrar no orkut… isso eu pensava antes de conhecer os seus dotes com as palavras, agora com certeza será sagrado a leitura de suas crônicas todos os dias!!! Meus parabéns Martha e um abraço.

  • Fabiana Goncalves Barbosa diz: 25 de agosto de 2008

    Olá Martha Medeiros!
    Gostaria de saber onde posso conseguir o Invisible Crimes de Win Wenders.

  • natalia setúbal diz: 20 de agosto de 2008

    Oi Martha, vindo de vc não surpreende a excelência do texto, ainda que num post.
    Parabéns! Eu tb estive lá, e até pude vê-la na saída, e receber seu simpático “OI” Fecho com você! Lamentavelmente, a humanidade está cega e surda. Superestima a aparência, vive de maquilagem, mesmo! É só lembrar da farsa chinesa, na abertura dos jogos Olímpicos/Pequim, com as 2 meninas: a gordinha, de dentes irregulares e de bela voz melodiosa, preterida pela linda menina de vermelho! Triste e odioso exemplo!

  • Simone diz: 19 de agosto de 2008

    Meu deus, Martha! Que texto ótimo. As palestras deviam estar maravilhosas, mesmo! Como alguém já disse aqui “Que inveja (boa)!”.
    “A globalização é uma falsa abrangência.” Que esconde o individualismo de todos nesses tempos modernos… beijos, tudo de bom!

  • sandra saugo diz: 26 de agosto de 2008

    Oi Martha, genial esse cara nao? Nao apenas no que diz, mas acima de tudo no como diz, com simplicidade e clareza as coisas e ´sentires´ que hoje ja parecem tao banais… parece ate que falou de outro tempos… Me fez lembrar o Ensaio sobre a cegueira´do Saramago, que estou relendo, parece que estamos cegos para ver, sentir, pensar, escolher,e precisando de alguem que urgentemenete, como este sujeito, nos diga que é possivel. Beijo

  • José Antonio Klaes Roig diz: 30 de agosto de 2008

    Oi, Martha. Paradoxal e surpreendente mesmo:”A globalização é uma falsa abrangência. É o que gera a verdadeira invisibilidade”. Nunca se mostrou tanbto na TV, e ao mesmo tempo nada se mostra de relevante. Que vontade de ter assistido palestra de WWenders! Na TV aberta resta sabadões e domingões (sic).Nunca se falou tanto e nunca se disse tão pouco. Sorte q a internet rompe c essa lógica e descobrimos pérolas como teu blog e outros tantos, que propõem a reflexão interior. Parabéns, Abrs, Zé.

Envie seu Comentário