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Posts de agosto 2008

Here I am

31 de agosto de 2008 26

Sorry, pessoal. Fiquei de me despedir antes de embarcar, mas de onde tirar tempo? Foi uma correria, mas ja estou aqui – e desculpem tambem esse teclado maluco sem acentos. Cheguei na sexta-feira a tardinha e desmaiei de cansada. Ontem, sabado, eh que a viagem comecou pra valer. Beatiful sunny day! Fui conhecer o Borough Market, que eh uma especie de mercado publico perto da London Bridge, e dali fui caminhando pela beira do rio Tamisa ate o Globe Theather, que estava fechado para visitacao. Entrei entao na Tate Modern, logo ao lado. Eh o centro de arte contemporanea mais importante de Londres hoje. Alucinante: muitas obras de Picasso, Matisse, Miro, Roy Linchenstein, mas o que mais me impactou foi uma instalacao da inglesa Cornelia Parker, e olha que nem sou muito de instalacoes. Depois da Tate atravessei a pe a Millenium Bridge e fui ver outra exposicao, dessa vez uma retrospectiva de Cezanne no complexo cultural Somerset House. Foi uma overdose (fantastica) de arte. Dali fui para Convent Garden e almocei num restaurantezinho ali por perto. Sei que nao estou explicando direito o que sao esse lugares, mas estou na corrida aqui. O que tenho pra dizer eh que os londrinos estao aproveitando como nunca os ultimos momentos do verao deles: ontem os parques pareciam praias, nao se achava lugar na grama para sentar – todo mundo pegando um sol! As garotas todas de pernas de fora, as calcas compridas foram banidas do guarda-roupa, so da saia, short (muito!)e vestido. A cidade esta florida e fervilhando, eh sensacional estar aqui, Londres recuperou o titulo de capital do mundo - ainda que Nova York insista em mante-la. Bom, hoje, domingo, Londres recuperou tambem sua fama metereologica: chove! Fui para o lado east da cidade, que esta sendo considerado o novo Soho. Fui ao Spitafileds Market, um mercado louquissimo com tudo que se pode imaginar: roupas, comida, acessorios, discos, uma muvuca e tanto. Andei por Brick Lane tambem. Agito total nas ruas. Ainda nao almocei, aqui sao 14:20h, estou quatro horas na frente do horario brasileiro. Os precos? Olha, a Europa sempre eh cara, mas sabendo pesquisar, da pra se virar bem. Eu caminho muuuito, nao vou a lugares sofisticados, compro so gadgets, entao nao pesa tanto. Mas pra quem quer comer em lugares sofisticados e visitar superbutiques, ai eh outro papo. Ha viagens para todos os bolsos. O importante eh ter uma boa sola de sapato, muito bom humor e atencao ao atravessar as ruas, porque a mao inversa, diferente da nossa, da uns sustos – todo o cuidado eh pouco para nao ser atropelada. No mais, eh isso. Qualquer hora volto. Bom inicio de semana a todos! Beijos!

Postado por Martha Medeiros

Quase embarcando

26 de agosto de 2008 74

Oi! Estava lendo as mensagens deixadas e vi que alguns se preocuparam por eu não gostar de domingo, acharam que isso poderia ser um sinal de desânimo com a vida. Talvez eu tenha exagerado, eu deveria ter dito que não gosto das noites de domingo. Mas, enfim, valeu pela preocupação, mas estou longe de estar desanimada, estou apenas vivendo um turning point, com tudo o que isso tem de bom e de ruim – e o domingo nada tem a ver com isso. Nem que eu quisesse eu conseguiria estar numa pasmaceira. Nunca pensei na frase que escreveria na minha lápide, mas provalmente seria algo como: “Não sei do que morri, só sei que de tédio não foi“.

 

*

Prova disso que é que estou com mais uma viagem agendada. Quinta-feira que vem estou embarcando pra Londres, como já adiantei. Na verdade, tenho uma reunião marcada em Dijon, na França, com minha agente literária, mas estou indo um pouco antes pra desfrutar de uns momentos comigo mesma: pois é, vou viajar sozinha. Algumas pessoas estranham. Sozinha??? Sozinha da silva. Já fiz isso duas vezes (excetuando as viagens a trabalho, claro). A primeira foi quando eu tinha uns 24 anos. Foi a primeira vez em que saí do Brasil, eu e minha mochila. Passei dois meses na Europa e me valeu por 30 anos de terapia. Já escrevi sobre isso algumas vezes, não vou repetir aqui, mas foi muito legal porque foi uma viagem dupla: pra fora e pra dentro. É muito bom sair da sua terra, onde você domina todos os códigos, e enfrentar a vida sem muita grana, sem saber direito como proceder em determinadas situações, e assim, aos poucos, descobrir a si mesmo, seus medos e sua coragem. Pra minha sorte, nada deu errado e fui muito feliz naquela viagem.   

*

A segunda vez em que viajei sozinha faz uns 6 anos, eu andava meio confusa, e nessas horas é bom se afastar de tudo e de todos. Tinha (e ainda tenho) uma amiga que mora na Suiça e ela me chamou, vem pra cá, vamos sair, conversar! Eu tinha condições de bancar essa viagem e fui. Não só pra Suiça, mas também para outros países ali por perto. Foi muito legal. Sempre é.

 

*

Sempre é????? Ora, é lógico que viajar acompanhada é mil vezes melhor. Eu já tive a sorte de viajar muito pelo mundo. Conheço vários países (Equador ainda não, tem um leitor aí que me deixou tentada, estou em falta com alguns lugares da América do Sul). Na maioria esmagadora das vezes, fui com alguém. E quando digo alguém,  leia-se: marido ou namorado. Já viajei muito com as amigas durante a adolescência, e era ótimo, mas passou. Em excursão não entro nem amarrada. Hoje em dia, ou vou (de preferência) com o amor da minha vida, ou sozinha mesmo. Estar só também é estar bem acompanhada.   

 

*

Óbvio que viajar sozinha tem um lado ruim: você tem que fazer uma viagem mais diurna que noturna. Pra mim, não chega a ser um problema, porque sou uma early bird: acordo cedíssimo e prefiro o sol do que a lua, adoro o dia! Mas quando se está viajando, cada segundo merece ser aproveitado, e isso inclui shows, jantares, pubs, etc. Almoçar sozinha, nenhum problema: tenho sempre um livro na bolsa, que é uma excelente companhia (pena que não rache a conta). Mas jantar sozinha, já não vejo tanta graça. Acabo me recolhendo mais cedo ao hotel. O lado bom, agora: você entra num museu ou galeria de arte e fica o tempo que quiser. Não precisa negociar nada. Quer se atirar num parque e tirar uma soneca? Vá em frente. Quer entrar em lojas e bisbilhotar? Tem todo o tempo do mundo. Quer pegar um metrô e ir para o outro lado da cidade? Ninguém te impede, ninguém te apressa, ninguém te julga. É o suprasumo da liberdade.   

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Porém… tem uma frase do filme Natureza Selvagem que eu gosto muito: a felicidade não tem muito sentido quando não se tem com quem compartilhar.

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Eu vou compartilhar a minha na volta: tenho com quem.

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Serão 5 dias em Londres e depois três na França, onde, aí sim, tenho esse encontro com minha agente pra tratar de business e da vida: ela, além de minha agente, é também uma baita amiga. A gente vive trocando e-mails e sente muita falta de um papo ao vivo. E em Paris tenho um amigaço, o Fernando Eichenberg, mais conhecido como Dinho, que é jornalista e o culpado por eu ter me transformado em cronista. Foi ele quem me apresentou ao pessoal de Zero Hora, onde comecei a escrever colunas.

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E o blog? Bom, eu viajo sem celular, sem laptop, sem nada. Apenas com uma bagagenzinha pequena, tudo leve, pra facilitar. É pra me perder no mundo mesmo, senão, que férias são essas? Vou deixar os textos entregues previamente nos jornais. Mas de vez em quando vou entrar num cybercafé para limpar minha caixa de correspondência, e se o computador não for muito lento e não me massacrar com a falta de acentos, vou mandar um alô pra vocês, aqui no blog. Mas não esperem boletins muito longos e espertos. Prometo que na volta, aí sim, eu conto tudo em detalhes. 

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Tudo o quê? Boa pergunta.

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Em Londres, está havendo uma exposição de fotos de ícones que morreram aos 27 anos. Quem: Jim Morrison, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Kurt Cobain… Bobagem, né? Mas vá dizer isso para uma roqueira como eu. Vou! E também uma retrospectiva da obra de Cezanne. E há bairros que não conheço bem, e como vou ter a sorte de estar lá num sábado e num domingo,  pretendo ir a muitas feiras de rua. Em Paris, há uma exposição do fotógrafo Richard Avedon no museu Jeau de Paume. Vou também! E o resto nem planejo, deixo a vida me levar, como diz aquele nosso amigo pagodeiro…

 

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Pela primeira vez, atravessarei o Canal da Mancha por baixo d´água, pelo Eurotunnel. Vou testar o índice da minha claustrofobia. 

 

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Mas antes de tudo isso, voltarei aqui para me despedir. Beijos! 

 

  

 

 

Postado por Martha Medeiros

Bye bye domingo; hello segunda-feira

24 de agosto de 2008 78

Eu não gosto de domingos. Não sei o que acontece, mas me sinto melancólica e deslocada. Só há quatro coisas que podem salvar um domingo: um churrasco espetacular feito em casa (deus me livre almoçar em restaurante aos domingos), um bom livro e um bom filme. Sim, está faltando uma quarta coisa, depois eu digo qual é. Bom, churrasco, hoje, não tive. Aliás, não tenho tido. Os churrascos aqui de casa, quando acontecem, deixam lembranças, são divertidos. Segundo fator que salva um domingo: cinema. Fui ver o francês A culpa é de Fidel, sobre a iniciação política de uma menina, nos anos 70, através da militância de seus pais. É delicado, sensível, inteligente, a garota é ótima, mas ainda assim, não salvou esse dia chato. Livro? Estou quase terminando o instigante Claro que você sabe do que estou falando, da multimídia Miranda July. É um livro com um humor estranho, de contos totalmente fora do comum, e isso, por si só, já é um mérito. Algo diferente na paisagem. Costumo ser muito receptiva a tudo que me parece realmente novo. Mas ainda não salvou meu domingo. Estou apenas gostando. E gostar é chocho, não é? Gostei do filme, gosto do livro… Mas estou sentindo falta de ficar extasiada! Como desejar isso num domingo? Impossível. Domingo é dia de futebol, parque, família, Faustão, Fantástico, Galvão Bueno… Eu procuro nem ligar a tevê aos domingos. Só depois das 22h, pra ver a entrevista da Marilia Gabriela, e depende do convidado… Qual a quarta coisa que salva um domingo? Sei o que você pensou. Realmente, é ótimo aos domingos. E em qualquer dia da semana. Sexo, não é? Concordo, mas não é disso que estou falando. O que salva um domingo é você não estar na sua cidade. É você estar numa praia, num sítio, ou em um lugar ainda mais distante: isso vai acontecer comigo domingo que vem. Daqui a sete dias estarei em Londres. Posso jurar que  não estarei melancólica. Sou capaz de nem lembrar que é domingo. Prometo tentar escrever de lá.

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E agora, exalto meu dia preferido: segunda-feira! Não entendo como alguém pode não gostar de segunda-feira. Só pode ser por falta de espírito de aventura! Uma semana novinha em folha para ser preenchida. O que vai acontecer? Não se sabe. Ok, você vai estudar, trabalhar, ver as mesmas caras, mas estará na rua, estará cruzando com as pessoas, estará interagindo com a vida, e não na pasmaceira dominical. Seu telefone toca mais, as novidades caem no seu colo, tudo é mais excitante. Dias úteis: meus preferidos. Eu não quero descanso, muito obrigada! Eu descanso trabalhando, eu descanso conversando, eu descanso vivendo. Domingo eu envelheço dez anos. Na segunda-feira, rejuvenesço quinze!  

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Bom início de semana a todos. Tanto para os que lamentam o fim do domingo como para os que saúdam as segundas-feiras. 

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Beijos!

 

  

 

 

Postado por martha medeiros

Todas as mulheres têm 32 anos

21 de agosto de 2008 33

Uau, como é bom pro ego fazer aniversário, nunca recebi tantas mensagens carinhosas. E dos mais diversos pontos do país, até do exterior! Obrigada, thanks, gracias, danke, merci! Vocês são demais. Vou até deixar um presente aqui pra vocês. É um texto da escritora paulista Stella Florence. Eu estava assistindo agora a reprise do Happy Hour, aquele programa do GNT comandado pela Lorena Calábria (antes era pela Astrid Fontenelle), e vi a Stella debatendo com outros convidados sobre as agruras de se levar um fora. Quem já passou por isso, sabe… (quem não passou?) Bom, já citei um livro da Stella aqui no blog uma vez, e também falei sobre a seqüência de tatuagens que essa mulher traz nas costas. São mais ou menos umas quinze frases, uma embaixo da outra. Eu e ela costumamos nos corresponder por e-mail, e a cada vez que ela me dizia que tinha feito outra tatuagem, eu pensava: enlouqueceu. Mas enlouqueceu nada, está cada dia mais sã e mais engraçada. Prova disso foi o texto que ela publicou a respeito da idade das mulheres, esse tabu! Stella tem uma teoria: todas as mulheres têm 32 anos. Todas, inclusive ela, você e eu! Clique no link abaixo, veja de que modo ela defende essa tese e divirta-se!      

http://itodas.uol.com.br/portal/amor_e_sexo/colunistas/stella_florence/materia.itd.aspx?cod=5021&canal=646

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Falando em mulheres, sofri com o jogo da seleção contra os Estados Unidos. Nos minutos finais, eu gritava em frente à tevê como se estivesse assistindo a uma final de Copa do Mundo. As gurias jogam muito. Eu já impliquei com o futebol feminino, inclusive escrevi uma vez uma crônica em que admitia meu desconforto em ver aquela mulherada tão viril e masculinizada – precisamos cuspir em campo, feito homens? Enfim, achava que isso comprometia um pouco o espetáculo, mas retiro o que disse. Mesmo que o esporte obrigue as atletas a sacrificarem sua feminilidade (em campo, diga-se), elas mostraram que sabem jogar bonito, e isso é que importa. Valeu!

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Beijos!

Postado por martha medeiros

Um feliz dia

20 de agosto de 2008 130

Ora, ora, tenho leitores atentos a minha biografia! Quem mandou os parabéns antecipados acertou, é hoje mesmo o dia do meu aniversário. Fiquei pensando: será que tenho alguma história para contar sobre esse tema?

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Sempre gostei da data, ao contrário de muitas pessoas que fogem de si mesmas nesse dia. Eu, ao contrário, curto receber cumprimentos e quase sempre festejo. A primeira festa da qual me recordo foi a de 5 anos, que foi minha primeira balada forte (num clube, às quatro da tarde!). Depois segui recebendo amigos em casa por muitos anos. Aos 15, chamei uma turma e festejamos na casa da minha avó, que tinha mais espaço pra dançar. Mas foi simples, não um festão como se costuma fazer hoje e que até me espanta: agora os aniversários de 15 são verdadeiros “eventos”, com direção, produção, figurino e figurantes. Os pais gastam uma baba! Os que podem pagar, tudo bem, mas tem alguns que precisam economizar anos e anos para atender os desejos da sua princesinha, tudo para torrar numa única noite. Não vejo sentido, acho over. Se é pra gastar dinheiro, antes fazer um encontro menor com a família e os amigos e depois embarcar numa viagem dos sonhos. Mas cada um, cada um.

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Houve algumas poucas vezes em que passei o aniversário fora de Porto Alegre. A última foi dois anos atrás, quando meu níver caiu num domingo de sol e eu estava em Florianópolis. Foi um dia inesquecível. Tão inesquecível que esqueci de pegar o vôo de volta! O avião partiu sem mim…   

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Aos 40 resolvi fazer uma festa um pouco maior. Convidei umas 120 pessoas para jantar e dançar num lugar bacana. Amigos DJs colocaram o som (Cagê e Couto, pra quem conhece aqui no sul) e foi uma mistureba de gente: família, primos, amigas de infância, pessoal do teatro e cinema, publicitários, escritores,  jornalistas, veio até amigos de fora (São Paulo, Rio…).  Foi um barato, a pista cheia e todos se entendendo às maravilhas. Quando eu chegar em outra data redonda, vou repetir a dose.

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Mas a história mais peculiar aconteceu não no meu aniversário, mas no aniversário de 1 ano do meu irmão. Eu tinha 2 anos. Dizem as más línguas que minha mãe preparou uma mesa bonita, com bolos e doces para comemorar o primeiro aniversário do seu caçula, e que parece que eu não gostei nada disso, tanto que meia-hora antes de os convidados chegarem, eu passei feito um flash pela mesa, agarrei a ponta da toalha e fiz tudo vir abaixo. Por certo estava tentando fazer aquele truque de tirar a toalha mantendo as coisas em seus lugares, mas não deu certo. Foi uma catástrofe. Minha avó juntando os restos mortais dos brigadeiros e do bolo, minha mãe correndo atrás de mim pela sala para me dar um corretivo e meu irmão rindo, fazer o quê - ainda não tinha vocabulário suficiente para reclamar. Bom, essa é a história que rola entre os Medeiros. Eu não lembro de nada, ainda acho que essa cena é fruto da imaginação fértil da família, mas seja como for, o crime já prescreveu.

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Hoje, nada de baladas, será um dia normal de trabalho. Mas, por dentro, estou em festa.

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Beijos e obrigada pelo carinho de todos que lembraram!! 

 

Postado por martha medeiros

O mundo segundo Wim Wenders

19 de agosto de 2008 31

Você deve conhecer essa sensação: ao final de um evento (pode ser um filme, uma peça, uma festa, um encontro, uma viagem, um livro) você suspira fundo e pensa consigo mesmo que não só valeu a pena, mas que saiu transformado da experiência. É mais ou menos assim que fiquei após assistir à palestra de Wim Wenders na  noite de ontem, uma segunda-feira chuvosa em Porto Alegre. Não por acaso, o público que tomava o Salão de Atos da Reitoria da UFRGS aplaudia e aplaudia e aplaudia sem parar, ninguém tinha vontade de cessar a homenagem. Por que? Por vários motivos. Aos 65 anos, o alemão Wim Wenders é um homem centrado, que fala pausadamente sobre coisas simples e universais, e que nos abre os olhos para o que intimamente sabemos, mas que no atropelo dos dias, esquecemos de lembrar. 

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O ciclo de palestras chama-se Fronteiras do Pensamento e Wim Wenders escolheu esse tema: fronteiras. A palavra sofreu um desgaste e perdeu qualquer  status. Fronteira lembra muro, porteira, prisão, e quem quer isso? Então vem a globalização e faz do universo um lugar onde todos se parecem, tudo se parece. É bom isso? Pois Wim Wenders glorifica as fronteiras como um espaço importante para se concentrar no que se é, em quem se é. Ele valoriza uma coisa que estamos perdendo: a sensação de pertencer a um lugar, e tudo o que esse lugar nos transmite. Rejeita filmes que possam acontecer em qualquer cidade, em qualquer época. Ele quer a identidade, ele quer o foco no que é micro, para que isso possa ganhar o mundo e comunicar: há outras vidas além dos padrões instituídos.

 

*

Wenders fala do grande prazer que tem em aliar cinema e música. Para comprar sua primeira câmera, aos 22 anos, ele teve que vender seu amado saxofone. Acredita que o mundo perdeu um músico medíocre e ganhou um cineasta razoável. Modesto, o homem. Wenders ama o blues, o rock, a música latina. Ele apresentou Ry Cooder ao mundo, através do filme Paris, Texas (não sei se ao mundo, mas a mim, certamente, que saí do cinema correndo para comprar a trilha sonora). Ele dirigiu o documentário Buena Vista Social Club, que revelou os fantásticos músicos cubanos. Ele filma com o coração, com a mente, com os olhos, mas também com o ouvido.  

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Eu falei documentário? Wenders diz que, ao chegar num cinema e encontrar  8 ou 10 opções de filmes, se entre eles houver um documentário, é nessa sala que ele entra. O documentário é o diferencial do cinema de hoje. É o olhar focado, que traz informação, emoção e que atravessa paredes. Enquando ele dizia isso, lembrei de Janelas da Alma, um documentário brasileiro sobre a visão e a perda da visão, sobre a miopia do mundo (direção de João Jardim e Walter Carvalho), que foi das coisas mais emocionantes que assisti no cinema, e que não por acaso contava com um depoimento de Wim Wenders, que usa um óculos de grau desse tamanho, mas que enxerga longe. 

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Fim de palestra, Wenders pede licença para apresentar um documentário dirigido por ele, com duração de 20 minutos. A organização Médicos sem Fronteiras fez uma lista das terríveis mazelas por que passam várias regiões carentes e ofereceu a lista para vários cineastas escolherem o que filmar, numa tentativa de mostrar ao mundo as dores que ninguém vê. Wenders escolheu filmar depoimentos sobre mulheres que sofrem abuso sexual no Congo, na região mais pobre e isolada da África. O documentário chama-se Invisible Crimes e deixou a platéia de garganta seca e olhos marejados. Belamente filmado, ele colheu testemunhos de uma brutalidade que está acontecendo agora, nesse momento, com garotas de 13 anos, de 18 anos, com mulheres de 40, de 60 anos, cidadãs que não têm seus direitos respeitados e que sofrem nas mãos de criminosos impunes, em lugares onde não existe lei. Assim como no Congo, isso acontece aqui no Brasil e em diversos outros lugares. Mas o que a gente lê nas revistas? Como o botox pode nos rejuvenecer!

 

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O mundo é imenso. Um grande playground onde só se cultua o sexo e a violência. Mas se prestarmos atenção nos detalhes, nos espaços fechados, onde câmeras não entram, onde fotógrafos não clicam, poderemos ter uma visão mais abrangente do mundo e alcançar a paz.  A globalização é uma falsa abrangência. É o que gera a verdadeira invisibilidade, e agora as palavras já não são dele, mas minhas, que saí comovida dessa palestra.

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Vi poucos filmes dele. Gostei de alguns, outros achei maçantes. Mas o papo foi muito além do cinema. Falou-se de vida. E nisso ele consegue ser um mestre ainda maior. 

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Desculpem a tietagem. Estou escrevendo sem racionalidade ou revisão, apenas transmitindo o que senti pra vocês, que não estavam lá.

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Vida longa aos que ainda conseguem enxergar o mundo com olhos sensíveis. 

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Eu volto. Beijos.

 

 

 

   

 

 

         

Postado por Martha Medeiros

Fim-de-semana em São Paulo

17 de agosto de 2008 31

Não vou mentir: São Paulo nunca foi uma cidade fetiche pra mim. Mas, nesse final de semana, tirei o chapéu. O clima ajudou. Sábado e domingo de ar limpo e céu azul, sem uma única nuvem. A temperatura chegou a 30 graus. Em agosto! E a varredura que fizeram nos outdoors e cartazes publicitários fazem a diferença. São Paulo está bonita. Ou eu é que estava de muito bom humor. 

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Cheguei sábado às 11 da manhã. Depois de me instalar no hotel, uma amiga me buscou pra almoçar no Maní, restaurante da Fernanda Lima e da chef Helena Rizzo, um lugar superinformal e ao mesmo tempo charmoso, no Jardim Paulistano. Não é barato, mas compensa. Comi um peixe divino e o papo foi ótimo – amizade de muitos anos, isso tem uma valor incalculável. O lugar está bombando, lá estavam o estilista Alexandre Herchcovitch e a atriz Laura Cardoso.

 

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De lá seguimos pra Bienal do Livro. Megaespaço. Fico feliz de ver que a literatura começa a ser mais valorizada. Estandes gigantescos e grande movimentação. Apareceram leitores fiéis aqui do blog (Keila, finalmente! Isabela, lembro sim). E outros, e mais. A minha amiga e escritora Stella Florence também pintou, com Eduardo Haak, que escreve em seu (blog? site?) uns textos muito politicamente incorretos, mas necessários, transgressores, excitantes, divertidos e paro por aqui, porque sei que ele não gosta de nenhum desses adjetivos.

 

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À noite, jantei num restaurante que se diz especializado em carnes argentinas. Hummm. Já comi picanhas melhores, em casa! A Christiane Torloni estava lá. Muy bella.

 

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Dia seguinte, domingão de sol, fui me encontrar com uma turma de amigos gaúchos que vivem em São Paulo há muitos anos. Almoçamos juntos num clube perto da Consolação. E mais uma vez, repito e canso vocês: quem não fez amigos, não teve por sua vida nenhum respeito. Conversamos e rimos à beça! 

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Eu queria ter visto a exposição sobre Bossa Nova na Oca, e queria ter visitado o Museu da Lingua Portuguesa, e a exposição sobre Machado de Assis… mas passei um final de semana à toa, ao ar livre, pegando sol com uma gente muito querida. Perdi? Ganhei? Não importa. Me diverti!

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Para Mariana, de Fortaleza: sim, a frase “Não fale, não conte detalhes…” é minha. Essa que você leu no Orkut. 

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Pra quem não é de São Paulo: o lançamento do Doidas e Santas acontecerá em Porto Alegre dia 30 de setembro e em seguida no Rio, ainda sem data marcada (possivelmente em outubro ou novembro). Se houver sessão de autógrafos em outras cidades, avisarei.

 

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Hoje à noite, se tudo der certo, assistirei a uma palestra do Wim Wenders. Meu Deus, Wim Wenders!! Diretor do Paris, Texas. O último filme que vi dele foi Estrela Solitária, com Sam Shepard fazendo o papel de mais um outsider buscando sentido pra vida. Irresistível.  

 

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Depois conto. Beijos!

 

 

 

  

 

 

   

Postado por Martha Medeiros

Análises profundas: estamos em falta

14 de agosto de 2008 69

Alguns leitores, fãs do Batman, ficaram de cara com minha “análise”. Mas que análise? Eu lá sou algum Rubens Ewald? Fiz apenas um comentário rápido dizendo que não caí totalmente de amores pelo filme. A bilheteria vai pro brejo por causa disso? Sempre gostei do Batman e gosto de filmes de ação (aliás, adorei o último Homem-Aranha, o que isso muda?) As pessoas podem ter opiniões divergentes umas das outras e é justo que defendam seus pontos de vista, mas ninguém precisa ser desagradável só porque não encontrou o que procurava.  

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Cada um escolhe o que fazer do seu blog, é o espaço mais democrático que existe. Eu, como já tenho três colunas semanais em jornal, apareço aqui apenas para dar um alô, fazer comentários, dar umas dicas para quem curte meu trabalho, tudo muito informal, como se fosse um e-mail, sem nenhum rigor com o texto ou compromisso com a atualidade dos assuntos. É puro bate-papo, como já deu pra sacar. Sorte que o que mais dá em árvore no Brasil é colunista - e os caras são bons demais, tem uns que arrebentam, entendem do riscado, sabem tudo. Ave! Todos nós temos escolha.

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Anyway, valeu pela puxada de orelha: é Coringa em vez de Curinga (três pai-nosso de penitência) e o bombom é Ouro Branco (uma ave-maria resolve). 

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Roberto, vou assistir ao Homem de Ferro. Já ouvi falar superbem do filme, e gosto demais do Robert Downey Jr. Valeu a dica! 

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Reprisando: sábado que vem, às 16h, estarei na Bienal de São Paulo, no Anhembi, lançando minha nova coletânea de crônicas, Doidas e Santas. A capa ficou um barato. Não será um lançamento oficial nem cerimonioso, nada disso, apenas um aquecimento: estarei por ali, no estande da editora L&PM, para quem estiver a fim de um papo, de uma dedicatória, de uma foto… Se puder, apareça. 

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Beijos!!

 

 

 

 

 

 

Postado por Martha Medeiros

Finalmente, Batman

12 de agosto de 2008 37

Filme de ação não é meu gênero cinematográfico preferido, mas de vez em quando, gosto. Heróis com poderes ou sem poderes sempre cumprem o que prometem na telona: manter a adrenalina em alta. Então fui conferir Batman, o Cavaleiro das Trevas. Na verdade, meu interesse maior era na tão comentada última atuação de Heath Ledger, como Curinga. E ele merece os holofotes, está aterrorizante com aquela lingüinha de cascavel escapando da boca – mas nada supera a parte em que ele aparece travestido de enfermeira! Bem diferente de Jack Nicholson, que foi um Curinga mais palhaço do que perverso. Mas cada filme é um filme. Já esse Batman encarnado pelo ator Christian Bale me pareceu totalmente sem sal, e aquela sua voz pseudo-rouca, convenhamos, que coisa ridícula. Ok, é um filme, um gibi, uma irrealidade total, portanto, recomenda-se abstração. E eu abstraio. Abstraio tanto que, nesse tipo de filme, fico prestando atenção nos efeitos especiais e acabo me confundindo sobre quem é bandido e quem é mocinho (isso acontece também quando leio os jornais, diga-se). Resumindo: gostei mais ou menos. Muita pancadaria, muita violência e pouco Michael Caine: pois é, no fundo, no fundo, eu sempre gostei mesmo é do Alfred.

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Ainda cinema: soube que a rede Picture House, da Inglaterra, proibiu o consumo de pipocas em suas salas, por causa do cheiro e do barulho. Eu já comentei aqui, uma vez, que não entendo muito esse condicionamento: parece que é obrigatório comer enquanto se assiste a um filme. Mas a pipoca dos outros até que não me incomoda tanto. O que me enerva é o barulho de papel de bala. Se eu fosse proprietária de uma rede de cinemas, liberava a pipoca, mas proibia as azedinhas, as gomas, os salgadinhos, os bombons. E olha que sou tarada por bala azedinha, bala de goma, Doritos e bombom, em especial o Ouro Preto. Ou Ouro Branco. Sei lá, faz tanto tempo que não como um que me esqueci do nome. Saudades.

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Estou nas nuvens: comprei hoje à tarde um livro do David Sedaris. Tomara que eu goste tanto quanto gostei do Pelado e do De veludo cotelê e jeans, ambos dele também. Comentários em breve. 

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Beijos!

 

 

 

    

 

 

 

Postado por martha medeiros

Onde está o amor?

09 de agosto de 2008 18

Fui assistir ao show Onde está o amor? no Theatro São Pedro, de Porto Alegre, que estava merecidamente lotado – o show é um espetáculo, desculpe a redundância. Pouca gente fora do Rio Grande do Sul conhece o Nico Nicolaiewski, e até mesmo os gaúchos só o conhecem por causa do vitalício Tangos e Tragédias, mas o trabalho do Nico vem de antes, do Musical Saracura, que eu curtia nos meus 20 anos de idade – sejam generosos comigo, não faz tanto tempo…  Bom, esse show agora do Nico traz algumas músicas do Saracura (“marcou bobeira, já era”… só quem viveu, lembra) e algumas releituras que são o ponto forte do show. Comida, dos Titãs, ficou dramática, e que efeito bacana que o diretor José Pedro Goulart conseguiu com a tela em frente ao piano, mostrando cenas de amor e dor em preto e branco – de matar o Gerald Thomas de inveja!). A recriação de Ana Júlia, do Los Hermanos, não me comoveu tanto, mas foi engraçado (porque no início a gente fica com aquela impressão de “onde é que eu já ouvi isso?” e quando entra o refrão: aahhhh, lembrei”. Vale como  piada. Ainda no quesito diversão, Coração de Luto, do Teixeirinha, transformado em rock metaleiro, é de morrer de rir (buscando nos arquivos da memória: fui colega de aula de duas filhas do Teixeirinha, lembro delas e dos nomes, Gessy e Fátima – essa última era a cara do pai - alguém me dá notícias das duas?). Mas o mais impressionante é quando Nico, ao piano, toca uma música romântica, lenta, de dilacerar corações, e aos poucos a gente percebe do que se trata e não acredita: Tô nem aí, da meteórica Luka, da qual nunca mais ouvi falar. Nessas horas é preciso tirar o chapéu: o que era uma musiquinha à toa, chiclete pra ouvir no rádio durante um verão, vira uma balada sofisticada e elegante. A gente já viu o Caetano fazer isso com música do Peninha, não é? Transformar o brega em chique, o chique em brega, tudo isso me dá um alento: nada é definitivo, rótulos não se sustentam. A única coisa que sempre se mantém de pé é o talento – sorry a rima, não foi proposital. Bravo, Nico! Bravo, João Pedro! E menção especial pro violino do Hique Gomez, participação afetiva e luxuosa desse espetáculo redondo, moderno, versátil, comovente e divertido, tudo isso em apenas 1h e 15 minutos. Quem estiver em Porto  Alegre, hoje, domingo, ainda há chance de assistir, às 19h. Corre pro São Pedro e garante teu ingresso. 

 

 

 

Postado por Martha Medeiros