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Carta em homenagem ao pai

22 de outubro de 2008 33
Recebi de uma amiga carioca esse texto que reproduzirei abaixo. Foi escrito pela atriz Fernanda Torres, por ocasião da morte de seu pai, o ator Fernando Torres. Não tenho autorização expressa para reproduzí-lo, e se ele desaparecer brevemente desse post é porque fui notificada, mas enquanto isso não acontece (e não acontecerá!), deixo aqui esse exemplo de tanta coisa: de amor, admiração e gratidão filial, da importância de se humanizar a morte, da importância de se humanizar a vida, e de como um texto solto, bem escrito e emocionante (sem ser piegas) faz bem pra nossa alma. Regalem-se. O mundo tem tanta mesquinhez, tanta mediocridade, que um relato simples e comovente como esse nos recoloca no eixo.

 

A DANÇA DA MORTE

 

“A peça Seria Cômico Se Não Fosse Sério, de Friedrich Dürrenmatt, foi o melhor espetáculo teatral que meus pais produziram em anos e anos de parceria. Baseada na Dança da Morte, do dramaturgo sueco August Strindberg, ela se passa no início do século passado e conta a história de um general aposentado, Edgar, e sua esposa, Alice, que vivem às turras, isolados em um farol. Um dia, o casal recebe a visita de um primo mafioso, que se esconde com eles no alto da torre. Depois de desassossegar a vida dos dois por doze vertiginosos rounds, o primo cafajeste se manda, devolvendo o par à sua mais derradeira solidão.
Jamais vou esquecer meu pai com barbas de Matusalém, vestido de general da I Guerra, dançando furiosamente a Dança dos Boiardos. Era sensacional. Lá pelo fim do espetáculo, Edgar se levantava louco, altivo, e dizia:
– Agora vou dançar a Dança dos Boiardos!
E começava uma coreografia ensandecida, meio russa, meio gaúcha, pulando em torno de uma espada no chão. Querendo exibir vigor ao primo escroque da esposa, Edgar dança até o limite de suas forças e acaba sofrendo um AVC. A peça termina com Edgar numa cadeira, seqüelado pelo derrame, e Alice arrumando a desordem da casa por causa da passagem do primo.
Era de uma beleza terrível, cortante, teatro com T maiúsculo. Quem viu sabe. Como com teatro não se brinca, havia ali o prenúncio de algo que viria a acontecer com meus pais anos depois, só que de maneira muito mais doce, amorosa e redentora. Minha mãe cuidaria dele, e ele dela; mais ela dele, por problemas de saúde, no terço final de seus 57 anos de casados. Uma amiga gostava de dizer que meu pai ainda estava vivo porque minha mãe e ele queriam assim.
Em 1986 meu pai sofreu um primeiro derrame, não detectado, durante a representação da tragédia grega Fedra. Ele esqueceu o texto em cena e, como a neurologia ainda engatinhava, levamos anos para entender que não era um problema psíquico, mas físico, o início de sua dança da morte, que levou vinte anos para acontecer.
Meu pai é um mistério tão grande para mim que fica difícil falar dele numa crônica. Mas, como estou chegando à conclusão de que todo pai é um mistério para os filhos, ao contrário das mães, que são desabridas, arrisco aqui um modesto perfil.
Dono de um humor cortante, que seria cômico se não fosse sério, doce e sádico, careta e maluco, velho e criança, meu pai foi produtor, diretor e ator, um homem dedicado a todas as facetas do teatro. Teve coragem de largar a medicina, enfrentando o pai médico e político dos tempos da política do café-com-leite, para fazer parte dessa profissão etérea. Dizem que o estalo se deu no trote da faculdade, quando em plena Cinelândia ele gritou: `Fiat Lux!`. E as luzes da praça se acenderam numa sincronicidade cósmica. Foi ali, logo de cara, que perdemos um médico e ganhamos um diretor. Devo a ele toda a minha curiosidade científica, devo a ele dizer o que penso, devo a ele o cinema, a infância, Veneza, Machu Picchu, Buenos Aires e as montanhas russas. Devo ao meu pai tudo o que sou que não é ser atriz, e certamente devo ao meu pai a promessa de alguma serenidade diante da velhice e da morte.
Como ele adoeceu há muito tempo, as lembranças do homem de teatro, do pai jovem e doidão, do barbudo enraivecido pela censura de Calabar se misturam fortemente com as do Fernando de saúde frágil com quem convivi nos últimos tempos. É muito difícil para um filho lidar com a doença de seu pai. Por isso, gostaria de agradecer às muitas pessoas que nos ajudaram nesse período, em especial à Roberta, sua fisioterapeuta, aos enfermeiros Jorge e Cristiano e, acima de todos, à doutora Lúcia Braga, do Hospital Sarah Kubitscheck, que deu ao meu pai cinco, seis, dez anos a mais de vida, libertando-o dos especialistas em doenças, cortando catorze medicamentos e colocando no lugar o teatro, os barcos, o pingue-pongue e a vida; e à doutora Claudia Burlá, geriatra, especialização cuja profundidade só fui entender na noite em que meu pai morreu, em casa, conosco em torno dele, e com ela. Sem tubos, sem CTIs, sem prolongadores artificiais de respiração ou batimentos cardíacos. Foi ela que mandou chamar a mim e ao meu irmão, foi ela quem nos ajudou. A morte do meu pai foi uma experiência tão caseira, humana, pacífica e acolhedora, apesar do sofrimento e da dor, que me fez por alguns segundos achar que esse absurdo que é a morte, afinal de contas, pode fazer parte da vida.
Um salva de palmas para ele. Foi um guerreiro discreto, forte e corajoso. Espero conseguir ser assim quando chegar a hora de eu dançar a minha Dança dos Boiardos.”
(Fernanda Torres)

Postado por martha medeiros

Comentários (33)

  • Carolina diz: 13 de novembro de 2008

    Palmas. Palmas para Fernanda, para o Fernando e para a Montenegro-Mãe-Guerreira-Artista.
    Beijos de boa noite!

  • Marta diz: 23 de outubro de 2008

    Nossa Marta. Que texto lindo!!!!! Obrigada por nos dar a chance de lê-lo. bjs

  • Ana Cristina diz: 23 de outubro de 2008

    Nossa, que lindo!
    Espero que não tenha que ser tirado do blog para que mais pessoas possam ler!

    Conferi ontem a programação da Feira do Livro e vi que estará autografando o Doidas e Santas no dia 05/11.
    Que ótimo, estarei lá!

  • Léia diz: 22 de outubro de 2008

    Boa noite, Martha!
    Obrigada por dividir esse texto com aqueles, como eu, que não tiveram a oportunidade de conhecer antes.
    Essa crônica é muito mais do que uma declaração de amor e respeito.
    Não é um simples desabafo, e sim a experiência contada por alguém que pôde despedir-se de uma pessoa, da qual amava muito, com dignidade.

  • jose carlos mendes de oliveira diz: 24 de outubro de 2008

    Marta, muito bacana a imagem que o Fernando Torres deixa de legado para nõs atraves deste depoimento de sua filha, que é uma espetacular artista.Gostaria que ao morrer, meus filhos pensassem com carinho sobre mim. José Carlos

  • Nathália Hecz diz: 23 de outubro de 2008

    Ai, Martha! A cada dia tu me surpreende mais com a tua generosidade. Obrigada por dividir esse lindo texto! Nossa, a mensagem do texto chegou em mim… Emocionante sim, me tocou bastante. Beijão!

  • Juliana Longhi diz: 24 de outubro de 2008

    Emocionante!! Cada vez mais admiro essa família.

  • ENÉAS BISPO diz: 23 de outubro de 2008

    Martha, Bom Dia! Estou feliz de ler tão bela declaração de amor de uma filha para o seu pai morto. Nós que lemos todos os dias notícias de filho matando pais, na maioria das vezes matando lentamente e de maneira cruel, a exemplo de filhos que vão para as drogas e assim conseguem ferir de morte e de vergonha os pais; é bonito ler uma declaração de amor tão verdadeira de uma filha. Vejo meus pais como divindades, e gostaria de ter essa paz na hora de suas partidas.

  • Camila diz: 23 de outubro de 2008

    Muito obrigada, Martha. Você vem fazendo parte da minha vida há anos – e faz ela e eu melhores. Obrigada!

  • Cecilia diz: 23 de outubro de 2008

    Lindo texto! Nos faz refletir sobre a importancia de um ciclo e sobre a imagem que levamos e deixamos dos outros e de nós mesmos.
    Obrigada por dividir este texto..

  • Liane diz: 24 de outubro de 2008

    oi Martha!! esse texto é simplesmente emocionante!!! bjusss

  • renata diz: 23 de outubro de 2008

    Lindo texto.
    Entender que a morte do pai, da maneira como ela entendeu, que não deve ser fácil. Fica o exemplo…

  • KARINA DAUDT diz: 23 de outubro de 2008

    Recolocar no eixo….bela expressão, lindo texto, obrigada por compartilhar conosco! Se todos tivessem essa lucidez! Um grande beijo, Marta, ainda não tenho teu livro novo, mas em breve vou adquirir para devorar…sou leitora assídua aqui do blog, não escrevo muitos comentários, mas quero que saibas que sou tua admiradora, pela tua sensibilidade e lucidez. Um abraço com sincero carinho.

  • Juliana diz: 23 de outubro de 2008

    Martha,que linda mensagem vc nos proporcionou agora, muito tocante,é uma situação que ninguém está livre de passar,mas poucos tem esse cuidado e essa dedicação pelo cuidado de seus pais na sua velhice.
    Bjosss!

  • Luciane Magui diz: 24 de outubro de 2008

    Magnífico, espetacular não existem palavras para descrever o que senti ao ler este texto.

  • Fátima Freire diz: 23 de outubro de 2008

    A cada dia que passa compreendo mais a importãncia de ser simples na vida, ou seja descomplicar o grande mistério que é ser HUMANO.Esse texto da Fernanda fez me debulhar em lágrimas, mas lágrima boas, de paz.
    Obrigada Fernanda e obrigada Martha por tomar conhecimento dessa carta.

  • Joelma diz: 22 de outubro de 2008

    A doença e a morte de um homem forte e eficiente, como todo pai é para seu filho, acabam confundindo nossas lembranças.Mas sempre há aquela lembrança do pai constante na nossa vida. Belíssimo texto… Felicidades Martha!

  • Lucia diz: 24 de outubro de 2008

    Martha, obrigada por compartilhar conosco essa maravilhosa carta ao pai falecido. Muito comovente; fui às lágrimas lembrando do meu velho pai que mora em outra cidade… Lindo, também, é perceber o sentido da morte pra Fernanda Torres! Beijos.

  • Suélen Griebeler diz: 22 de outubro de 2008

    Maravilhosas, tocantes, plenas e extremamente lúcidas as citações. Pois para saber valorizar e intrepetar as contribuições de caratér que seus pais lhe proporcionam é no mínimo necessário maturidade de compreensão sobre os reais valores na vida. Quero dizer ao meu pai em tempo, o que devo a ele :)

  • Afrodite diz: 23 de outubro de 2008

    Linda mensagem…de uma simplicidade e tocante como apenas as coisa simples da vida podem ser!Parabéns pela excelente idéia em divulgar essa linda homenagem de uma filha a su pai!
    Afrodite

  • Leticia diz: 23 de outubro de 2008

    Martha: Quanta generosidade, dividindo esse belo texto conosco. Obrigada! Leticia

  • Mani diz: 23 de outubro de 2008

    Eu recebi esse texto por e-mail também, e fiquei muito comovida. um abraço..

  • Leandro diz: 23 de outubro de 2008

    Realmente Martha, lindo o texto. Para Fernanda, foi uma peça de teatro que a marcou. Para mim, foi a atuação dele na novela “Laços de Família”, numa cena que não me esqueço até hoje: aquela em que ele e sua mulher (Lilia Cabral) estão sentados, vendo o pôr do sol, lembrando os bons anos que viveram juntos e, lentamente, sua bengala vai caindo, até a mulher perceber que ele havia morrido. Pode ser uma simples novela, mas foi algo emocionante. Abraços!

  • Carol diz: 23 de outubro de 2008

    Martha,

    Li este texto na Veja Rio. A Fernanda escreveu logo após a morte do pai e, ao lê-lo, fiquei extremamente tocada. Tão tocada que escrevi um para o meu, que está morto há 20 anos.

    Ficaria imensamente feliz se vc lesse minhas linhas.

    Segue o link do post: http://filigranademim.blogspot.com/2008/09/para-meu-pai.html

    Um beijo grande,

    Carol

  • Fabiana J. Nunes diz: 24 de outubro de 2008

    Martha, parece que este texto caiu do céu. Perdi meu pai agora no dia 09/10, bem semelhante como foi relatado neste texto. A minha dor ainda é imensa, são 15 dias de muita saudade, que parece que nunca irá passar. É difícil demais, saber que nunca mais poderei dar um abraço, ouvir sua voz… Mas criei inspiração e vou escrever um texto para homenageá-lo. Um abraço carinhoso.

  • Luciana diz: 25 de outubro de 2008

    Simplemete fantástico,adorei!!!

  • Keila diz: 22 de outubro de 2008

    A brevidade da vida é tão espantosa que acabamos por achar que é normal.
    Hj um conhecido, amanhã um parente próximo, amanhã a nós.
    E quando acontece de fato percebemos que a brevidade da vida nos torna fortes para viver cada dia como se fosse o último!
    É uma verdadeira tragi-comédia!

  • Francine Romanquio diz: 27 de outubro de 2008

    Qta sutileza e maturidade ao falar de sentimentos e momentos tão difíceis! Estou com um nó na garganta e alguns pensamentos na mente… e como será quando chegar a vez de meus pais dançarem a Dança dos Boiardos? Fica a indagação e descem as lágrimas…

  • daniel reis diz: 26 de outubro de 2008

    PERFEITO.Eu sempre fui muito fã da Fernanda Torres,por tudo o que ela é e representa.Conheci a faceta escritora da Fernanda através da revista Piauí.Ela fez uma matéria-biografia bárbara sobre Bráulio Mantovani,roteirista de Cidade de Deus.Fernanda Torres sabe muito bem lidar com a palavra escrita.A família Torres não só merece aplausos no palco,mas também aplausos(de pé) na vida devido a postura,a elegância de todos.Um exemplo em tempos que se perderam os limites do público e do privado!!!

  • andréia diz: 30 de outubro de 2008

    muito obrigada, marta, por nos trazer este texto. de uma “beleza cortante”…

  • Paula diz: 23 de outubro de 2008

    um texto lindo!!!!! acho que é mais fácil guando a morte vem aos poucos, lenta, como foi a morte do Fernando, a família aceita com mais naturalidade. Um dia meu pai saiu de casa e não voltou mais, morreu em uma rodoviaria de um ataque fulminante do coração,sem parentes por perto, foi difícil aceitar e dói até hoje, já passodos 20 anos

  • Neusa Conte diz: 23 de outubro de 2008

    Martha,
    Vivi a mesma situação com minha mãe, por dois anos. A família se desfez diante da doença, de doze filhos sobraram apenas DOIS para cuidar dela, eu e minha irmã. Aprendi demais com essa doença e agradeço ao Dr. Vinicius da Sta. Casa. o neurologista , o ser humano mais competente q conheci… Bem obrigado por dividir com a gente um relato tão valioso
    Beijo,
    Neusa Conte

  • Ana Faria diz: 6 de novembro de 2008

    Sem comentarios possiveis. Outra coisa nao seria de esperar dessa grande senhora que e a Fernanda Torres!
    Obrigada por ter partilhado estas linhas com os seus leitores!

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