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Theatro São Pedro

31 de outubro de 2008 8

Estive, na noite de quinta, num coquetel para celebrar os 150 anos do Theatro São Pedro, de Porto Alegre. Ele esteve fechado por anos, para reforma, e reabriu em agosto de 1984, quando então comecei a freqüentá-lo e nunca mais parei. Vivi emoções inesquecíveis na platéia: assisti Bibi Ferreira em Piaf, Beatriz Segall em Emily, Fernanda Montenegro em As lágrimas amargas de Petra von Kant, Paulo Autran e Cecil Thiré em Variações Enigmáticas, Fernanda Torres em Budas Ditosos, e mais um sem-número de espetáculos sensacionais. O que eu nunca poderia imaginar é que um dia veria um texto meu encenado no palco desse templo sagrado, e aconteceu. Duas vezes. Primeiro, a montagem gaúcha de Trem-Bala, sob direção da Irene Brietzke, e depois Divã, com Lilia Cabral. E teve os shows e espetáculos de dança também. O São Pedro faz parte de todos – não só gaúchos – que reverenciam esse instante sublime que é o de assistir a um sonho acontecendo a nossa frente, no palco.

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Esse aniversário do Theatro São Pedro está sendo comemorado com várias atividades, entre elas o lançamento de um livro com depoimentos de diversos  atores, diretores e amantes desse deslumbrante espaço cênico, e traz também  fotos de arrepiar. Flagrantes de Dina Sfat, Raul Cortês, Procópio Ferreira, Paulo José e tantas outras feras em cena. Não custa barato: 150 reais, mas é um legado histórico do que já se fez de melhor no teatro nacional, e a renda é destinada à conclusão do Multipalco, o anexo cultural do São Pedro, ainda em obras. Maiores informações pelo site www.teatrosaopedro.com.br

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Por trás desse deslumbramento existe o braço forte de dona Eva Sopher, que não poupou sonhos nem esforços para mantê-lo como é hoje: um exemplo mundial de beleza arquitetônica e eficiência administrativa. Os aplausos (de pé) são todos para ela.

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Eu escrevi um relato para esse livro comemorativo, mas ele é longo demais. Então deixo aqui pra vocês um texto que eu adoro escrito pela poeta e publicitária gaúcha Paula Taitelbaum, que o publicou originalmente na revista Mod, mas que agradou tanto à dona Eva que acabou sendo destacado numa parede do Memorial do Theatro. Já que nem todos podem ir até lá conferir, o transcrevo aqui, com o consentimento da autora. Acho que esse texto diz tudo: tem a solenidade de uma oração e a transgressão de toda arte.

 

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ORAÇÃO A SÃO PEDRO (Paula Taitelbaum)

  

Ó São Pedro, bendita seja sua generosidade que nos alimenta de palco e platéia. Venham a nós as peças e os espetáculos, as óperas e as orquestras, as danças e os musicais. E todos os prantos, os risos, os espantos e os espasmos que merecemos.

Protegei Dona Eva, sua força e sua fibra. Mas também as donas Marias, fulanas e beltranas – sem rosto, sem nome e sem máscara – que limpam, lavam e arrumam o templo que nos recebe.

Concedei espaço para os que têm fama e também para os que têm gana. Abençoai todos os que nos oferecem o ímpeto de interpretar mesmo quando são poucos os olhares atentos. E não abandonai jamais os que tremem por trás das imensas cortinas de veludo na incerteza de suas falas.

Fazei com que os aplausos sejam merecidos e os sonos esquecidos. Afastai de nós aqueles que chegam atrasados, aqueles que tossem e, acima de tudo, aqueles que esquecem seus celulares ligados.

Lembrai sempre de acender as luzes que fazem brilhar os 35 mil cristais que iluminam os olhares embevecidos dos que vislumbram sua beleza pela primeira vez. Oferecei vida longa à pintura que nos cobre com sua fauna e sua flora e que glorifica a memória de Mancuso, Dexheimer, Bernhardt e Gonçalves.

Perpetuai o que é sonho e o que é concreto. Mas não deixei que se caia na tentação de ultrapassar os limites – os urbanos, os físicos e os morais – tirando espaço daqueles que andam pelas ruas ou fora dos trilhos. 

Oferecei o conforto de suas aveludadas poltronas verde e vinho aos afortunados. Sem esquecer de ajudar os mais baixos a chegarem antes nas galerias. Dai força, fé e um bom traseiro aos que sentam nas galerias. 

Ó glorioso São Pedro, louvado seja seu chão em onde pisou Villa-Lobos, Eugène Ionesco, Cacilda Becker e Olavo Bilac. E inesquecível os dias de abandono em que ficastes silencioso – para que nunca mais repita-se tamanha tragédia.

Louvados sejam os seus 150 anos. O que já é pleno. E o que ainda é plano. Santificado seja o vosso nome. A vossa fachada. Os vossos projetos. As vossas entradas francas. E a vossa vontade de fazer por nós. Assim na terra como quando nos sentimos no céu.

Merda!

 

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Postado por Martha Medeiros

Comentários (8)

  • lio aguiar diz: 19 de novembro de 2008

    Infelizmente, nenhum santo pode interceder por nós, só Jesus Cristo.

  • Nathália Hecz diz: 1 de novembro de 2008

    Nossa! Muito legal mesmo! Parte que mais gostei: “Lembrai sempre de acender as luzes que fazem brilhar os 35 mil cristais que iluminam os olhares embevecidos dos que vislumbram sua beleza pela primeira vez.“ Ui, vou lá pela primeira vez no dia 9… Expectativa lá no alto! Beijão!

  • Juliana Amaral diz: 31 de outubro de 2008

    Quantas emoces ja passei no TEATRO SAO PEDRO, Tangos e Tragedias, NDN, Bailei na Curva, e muito mais….
    Very nice “a Oracao a Sao Pedro”, aproveito pra lembra-la: SHOW DO NDN 7 a 9 de Nov nao perca, lembro que em 2000 comprei tickets para apresentacao deles no sabado e domingo “Acustico”, eh imperdivel!!! Boa Viagem, Bom find, Beijos

  • Paula diz: 31 de outubro de 2008

    Adorei essa “oração”, sem palavras…

  • Luisa diz: 1 de novembro de 2008

    Duas autoras das quais sou fã lado a lado. Um texto da Paula no seu blog Martha, adorei.

  • Léia diz: 1 de novembro de 2008

    Boa noite, Martha!
    Quanta criatividade essa oração!
    Já li várias crônicas suas a respeito desse theatro e, fico aqui a sonhar de um dia poder conhecê-lo.
    Beijo.

  • Neusa Conte diz: 1 de novembro de 2008

    Taitelbaum,
    Na CONSTRUÇÃO CIVIL UM SUCESSO…

    Neusa Conte

  • Eli diz: 1 de novembro de 2008

    Obrigada,querida Martha.
    bjs cariocas…

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