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Posts de novembro 2008

Música e cinema

30 de novembro de 2008 17

Eu ainda não havia assistido a nenhum show da banda Delicatessen, até que, finalmente, assisti à apresentação de lançamento do novo CD, My Baby Just Cares for Me, no teatro do CIEE, em Porto Alegre. Aliás, mais um bem-vindo espaço cultural da cidade. O show? Uma delicadeza. Começam todos meio contidos, mas aos poucos a vocalista Ana Krüger vai se soltando e seduzindo a platéia com sua graça e sua voz deslumbrante, cristalina. Recheado de standards, numa seleção de muito bom gosto, é um espetáculo totalmente cool, que recupera a elegância que quase já não se vê por aí. Jazz cinco estrelas.

 

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E os irmãos Coen atacam novamente. Não cheguei a ver o ultraviolento Onde os Fracos Não Têm Vez, filme que ganhou o Oscar em 2008. Agora a dupla vem com uma comédia de humor negro, absurda e engraçadíssima: Queime Depois de Ler. Quem gosta de cinema já sabia que George Clooney e Brad Pitt não são apenas dois rostinhos bonitos – mas pra quem ainda não sabia, o filme não deixa mais dúvida. Brad Pitt rouba a cena como o paspalhão Chad, numa interpretação estereotipada que faz a gente esquecer o outro estereótipo que ele carrega, o de galã. George Clooney, como sempre, atua com um prazer escancarado, é o ator que mais se diverte em Hollywood, tenho certeza. E ainda tem John Malkovich, que já começa dando show na primeira cena do filme, Frances McDorman, que nunca desaponta, e a glacial Tilda Swinton. Elenco espetacular num filme que faz troça (troça!! essa saiu do baú) das nossas neuras - será mesmo que estamos caminhando para uma sociedade idiotizada, que transa, mata, rouba e sonha no piloto automático? Não se preocupe, está longe de ser um filme “cabeça”, é apenas um besteirol inteligente pra fazer rir - de quem? Obviedade: claro que de nós mesmos, os que levam tudo a sério demais.

 

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Beijos e bom início de semana!

 

 

  

Postado por martha medeiros

Espírito Santo, amém

28 de novembro de 2008 42

Conforme tinha comentado, estive em Vitória do Espírito Santo pela primeira vez. Achei a cidade bem simpática – me lembrou Floripa, só que menor. Infelizmente o tempo não ajudou a ter uma impressão mais justa, porque na quarta-feira estava nublado, e quinta caiu um toró daqueles. Mas valeu. Eu estava hospedada na Ilha do Boi, deu pra dar uma caminhada ao redor e sentir a atmosfera acolhedora do lugar.  

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Participei do encerramento do Ciclo de Palestras promovido pelo Grupo Buaiz em parceria com a Casa do Saber, do Rio. Fui sabatinada por três jornalistas diante de uma platéia lotada, numa sala de cinema. Peço desculpas a quem esteve lá e não conseguiu entrar, pois eu não sabia que era um evento apenas para convidados, acreditava que era aberto ao público, mas, em todo caso, antes da função começar, fiquei um bom tempo ali no saguão do Cinemark autografando livros e conversando com o pessoal – bastava chegar.

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O assunto do bate-papo? As mudanças nas relações comportamentais, as novas expectativas amorosas, as dores das separações, a fissura em buscar uma felicidade de revista, a necessidade de manter a juventude a qualquer custo, o que torna uma vida realmente interessante. Essas bobagens em que ninguém pensa (rsrs).  

 

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Depois, o almoço foi num restaurante de frutos do mar chamado Geraldo. Comi um delicioso bobó de camarão e uma moqueca de banana, mas ouvi dizer que o imperdível eu perdi: caranguejo. Recebi uma lição de como se come o bicho, mas só aula teórica não vale. Na próxima vez que for a Vitória, quero aula prática! 

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Está acontecendo em Vitória um Festival de Cinema, e muita gente ligada ao evento estava hospedada no mesmo hotel que eu. Cruzei com Kadu Moliterno, Angelita Feijó, George Isarel (do Kid Abelha), mas legal mesmo foi ter encontrado o Ernesto Piccolo, o Neco, que dirigiu a peça Divã. Fazia tempo que não nos falávamos, e Neco comentou comigo que soube, por amigos, que o filme (Divã, também, que estreará em março de 2009) está bacana demais, que a equipe está superentusiasmada com o resultado. Incrível, eu não vi nada, não sei de nada… Vou enviar um e-mail pra Lilia Cabral (protagonista da peça e agora do filme), pedindo mais notícias, e aí repasso pra vocês.

 

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Uma coisa que me surpreendeu em Vitória foi que todos são muito calmos em relação a horários, ao menos as pessoas com quem convivi lá. Isso me fez ter vontade de comentar sobre um assunto quase proibido no Brasil: pontualidade.  

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Costumo brincar dizendo que sou a pessoa mais impontual do mundo: chego sempre 10 minutos antes. Parece ansiedade, mas é apenas previdência. Entre mim e o lugar do encontro pode existir uma coisa chamada imprevisto, e eu não suporto deixar as pessoas esperando por mim. Prefiro eu esperar por elas. E como espero.

 

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Não se dá muito valor a isso, porque infelizmente as pessoas não se importam em desperdiçar o tempo dos outros. Uma consulta médica, por exemplo. Se a consulta foi marcada para as 14h, o profissional tem que atender você às 14h. Você tem que trabalhar, tem outros compromissos, não pode ficar de bobeira lendo uma revista velha numa sala de espera. O mesmo vale para… tudo.

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Claro que pode acontecer de você marcar com uma amiga num café e ela se atrasar 5 ou 10 minutos por causa de um telefonema que recebeu de última hora, ou em função de um engarrafamento. Tolerável. Mas deixar alguém plantado é abuso. Assim como é grosseria ser convidado pra jantar na casa de alguém às 21h e, ao chegar lá, o dono da casa estar recém entrando no banho. Engraçado, enquanto escrevo isso, me sinto uma ET: em que país penso que estou? Quase ninguém dá a mínima para essas regras, principalmente havendo intimidade.

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Intimidade: esse é o álibi mais usado. É como se educação, entre pessoas íntimas, fosse frescura.

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Nesse final de semana, pretendo assistir à banda de jazz Delicatessen (que, aliás, estará em Vitória na semana que vem) e assistir ao novo filme dos irmãos Coen, Queime Depois de Ler. Estou com ótima expectativa para os dois programas. 

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Volto qualquer hora. Não vou dizer a hora exata, pra não deixar ninguém esperando.

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Bom findi! Beijos!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Postado por martha medeiros

Fotos e lembranças

25 de novembro de 2008 47

Oi! Vi que algumas pessoas se incomodaram com a resposta que eu pretendia dar (até agora não dei) para um entrevistador que me perguntou o que eu desejo para 2009. Pensei em dizer que eu gostaria que a privacidade voltasse a ter valor e que ninguém ficasse tanto nessa fissura de se expor, mas falhei ao utilizar a expressão “vitórias pessoais”, porque, realmente, compartilhar vitórias é uma coisa muito legal. Foi bobeada minha.

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O que eu quis dizer e não disse é que está ficando exagerada essa mania de documentar tudo: ninguém mais consegue ir a um show sem tirar várias fotos pelo celular, ter um filho sem filmar o parto, entrar na internet sem contar detalhes da vida íntima - putz, e aqueles caras que violentaram uma menina de 15 anos e filmaram tudo? É a maior prova de que algumas pessoas perderam toda a noção - até mesmo na hora de cometer um crime, a tentação da documentação se faz presente. Daqui a pouco as pessoas não vão mais conseguir lembrar do que foi vivido se não tiverem uma prova material. Festas, viagens, passeios… Se tudo isso não for fotografado ou filmado, terá acontecido mesmo? 

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Sei que a maioria vai discordar, mas é o que penso: eu gosto de tirar fotos, mas não dá para ficar obcecado com isso. Na última viagem que eu fiz ao exterior, não levei máquina, não tirei uma única foto. Sabe como registrei tudo? Escrevendo um “diário de bordo” pra mim mesma. Sempre faço isso quando saio fora, mesmo em viagens aqui pertinho, jogo rápido: escrevo sobre os lugares que fui, o que comi, quem encontrei, como estava o tempo, o que eu senti. É uma outra espécie de fotografia. E quando eu releio, anos depois, é como se eu estivesse vivendo tudo de novo, com a vantagem de lembrar de muito mais detalhes do que uma foto pode capturar, porque uma foto não registra sentimentos internos. Viva a fotografia, mas também é bacana exercitar a memória sem a ajuda de aparelhos. 

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Ok, estou na contramão, reconheço. Não falo mais nisso (mentira: ainda voltarei a esse assunto na crônica do próximo domingo, em Zero Hora).

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Puxa, soube que em Vitória do Espírito Santo está chovendo sem parar. Espero que por lá não aconteça a calamidade que tomou conta de Santa Catarina. Que o sol volte a brilhar no país inteiro, está mais do que na hora. Bom, com ou sem chuva, quinta de manhã (dia 27) estarei participando de um bate-papo na capital capixaba – será pela manhã, na sala 7 do Cinemark, no Shopping Vitória. Depois do bate-papo com a platéia, haverá sessão de autógrafos. Não sei dizer a hora exata em que tudo vai começar, creio que será às 9h da manhã e a programação se estenderá até o meio-dia. A imprensa local deve dar o serviço direitinho. Quem estiver em Vitória e quiser aparecer, vou adorar!

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Beijos, sexta estarei aqui de novo, contando como foi tudo.   

Postado por martha medeiros

Fatal

23 de novembro de 2008 13

Por pouco eu perco “Fatal”, filme que já está quase saindo de cartaz. Dirigido pela sensível diretora espanhola Isabel Coixet, o filme é uma adaptação do romance “O animal agonizante”, de Philip Roth. A história gira em torno de um professor de literatura (Ben Kingsley, premiado com o Oscar por “Gandhi”) que se encanta por uma linda aluna (Penelope Cruz). Em princípio, o professor quer apenas mais uma transa, mas aos poucos vai se apaixonando pela garota a ponto de morrer de ciúmes e de se atormentar por fantasias de traição, não conseguindo enxergar que, por trás da juventude e beleza da sua amante, há uma mulher verdadeiramente apaixonada por ele. Mas o filme é mais do que uma historinha de amor. É sobre o nosso confronto com a velhice e ao mesmo tempo com nossa eterna adolescência, não importa em que idade estejamos. É sobre a necessidade da amizade, sobre onde se encontra a real beleza de cada um, sobre o vazio de ter sexo sem intimidade, sobre as cobranças que há nas relações entre pais e filhos. Mas, sobretudo, é sobre o amor, sim. A gente pode viver mil anos que esse assunto nunca será esgotado. Não perca o filme!

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Beijos e bom início de semana.

 

 

Postado por martha medeiros

Sinuca

22 de novembro de 2008 20

Um jornalista me pediu para escrever um rápido depoimento sobre o que eu desejo pra 2009. Estou pensando em mandar algo mais ou menos assim: 

 

 “Que as pessoas se sintam satisfeitas com suas pequenas vitórias sem que seja preciso documentar isso em foto, orkut, you tube, blogs e sei lá onde. Que a privacidade volte a ter algum valor, que se brigue menos por mesquinharias, que tenhamos muitos momentos de folga entre um trabalho e outro, que seja possível viajar, que a economia mundial sossegue e que o nosso país se desenvolva social e moralmente. Filmes, livros, amigos, amor, saúde e, se não for abuso, algum dinheiro e um show da Amy Winehouse no Brasil”. 

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Coloquei a Amy Winehouse no meio dessa história porque estava ainda agora assistindo ao making of do DVD dela, e descobri que a mulher gosta de jogar sinuca. Lembra que eu fiquei de comentar algo a respeito aqui no blog?

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Em abril de 2006 tive minha primeira experiência frente a uma mesa de bilhar. Foi na Praia do Rosa, em Sta Catarina, num boteco bem fuleiro, com uma música do Zé Ramalho saindo da caixa de som e um bêbado falando sozinho na única mesa ocupada do recinto. Foi uma noite divertida e incomum.  

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Desde então, não me recuso a dar umas tacadas onde a oportunidade se apresenta. Jogo maaaaaal pra burro. Ainda que, da última vez que joguei, tenha conseguido um feito que nem Rui Chapéu conseguiria. Pura sorte. Mas foi bonito. Totalmente sem ângulo, encaçapei uma bola impossível.

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Dizem que é um esporte muito masculino. Como eu jogo só por farra, e sem dar bandeira, me sinto bem. Procuro lugares onde eu tenha total privacidade. E encontro.

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Já joguei na Lapa, no Rio. Em Minas Gerais. Muito nesse boteco da Praia do Rosa, e em Quatro Ilhas também. E em Torres, num restaurante na beira do rio Mampituba. Viciei no barulho das bolas se chocando, virou música para meus ouvidos.

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Amy Winehouse está desafiada!

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Estou saindo agora para ver “Fatal”, filme inspirado no romance “O animal agonizante” de Philip Roth. Trago notícias em breve.

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Beijos!

 

 

 

 

 

 

 

 

Postado por Martha Medeiros

correção

20 de novembro de 2008 14

Já corrigi o “isentar”, Antonio, obrigada pelo toque.

Postado por martha medeiros

"Eu não o conhecia!"

19 de novembro de 2008 35

Antes de entrar no assunto que eu pretendo discutir, queria avisar que o texto “Livros que não li” não tem nenhuma razão para ser reproduzido, é apenas uma crônica que fiz por ocasião da Feira do Livro de Porto Alegre, em 2004, falando sobre alguns livros que eu pretendia comprar naquela época… Realmente, nada que acrescentará no momento, mas obrigada pelo interesse.

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O que eu queria falar é sobre algumas notícias que andam tomando conta dos sites de fofocas. Sou tão boba que ainda me impressiono com o grau de exposição a que chegou a vida de alguns famosos. Um dia fulano é “o grande amor da minha vida”, no dia seguinte “quero que morra”, e parece que o que está acontecendo é apenas mais um capítulo de novela, com todos os ingredientes que seguram a audiência: sexo, traição, violência e, claro, a volta por cima. 

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Nesses casos rumorosos que a gente tem acompanhado pela imprensa, uma frase é recorrente: “Incrível, eu não o conhecia”. A pessoa dorme e acorda por meses e anos com alguém, e diante de uma situação-limite, descobre que não o conhecia.  

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Declarar-se ingênua é a primeira estratégia de quem está a fim de se isentar de qualquer responsabilidade pelo fim de caso. Por um lado, ok, é verdade, não conhecemos profundamente ninguém. Todos nós somos seres tão complexos que costumamos não só surpreender os outros, mas também a nós mesmos. Por outro lado, ao ter uma relação de intimidade com um homem ou uma mulher, podemos intuir a natureza desse alguém: se é uma pessoa sensata ou desequilibrada, se tem tendência à meiguice ou à rudeza, se é controlado ou impulsivo, se é pela paz ou chegado numa encrenca.

 

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Refletindo sobre isso, cheguei à conclusão de que a gente faz um tremendo olho branco para as características que nos desagradam nos nossos queridos parceiros, em detrimento a outras tantas alegrias que eles proporcionam.  Como não queremos perdê-los, a gente agüenta o tranco, até que um dia a paciência vai pro ralo, a paixão deixa de ser tão ardente e você começa a enxergar o que não via antes. E aí surge a constatação fatal: “Incrível, eu não o conhecia”.

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Balela. O que a gente não conhece é a nossa capacidade de fingir que não vê aquilo que pode nos provocar dor. 

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Beijos!

 

 

 
                                                                          

Postado por Martha Medeiros

Agenda e dicas

18 de novembro de 2008 21

Marilza, eu estarei em Vitória do Espirito Santo dia 27 de novembro, quinta-feira da semana que vem. Participarei de um bate-papo numa empresa, pela manhã, e depois haverá uma sessão de autógrafos aberta ao público, mas ainda não sei  contar detalhes, vou pedir para minha “secretária” recolher todos os dados e quando chegar mais perto, avisarei de novo. Mas é certo que será bem divulgado, já há muitas entrevistas agendadas. 

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No Rio, estarei dia 11 de dezembro, também uma quinta, num evento no Centro Cultural Banco do Brasil, no início da noite. Detalhes, também, quando chegar mais perto. 

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Desvendado o mistério: uma leitora me enviou o “Livros que não li”, realmente é um texto meu publicado em 2004 em Zero Hora.

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Roberto, eu assisti “Antes que o diabo saiba que você está morto” há uns meses atrás, é um filme excelente, com um teor muito parecido com “O Sonho de Cassandra” de Woody Allen. Falando em Allen, recomendo a todos Vicky Cristina Barcelona. Essa semana publico crônica a respeito.

 

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Recomendo um livro também: Saga Lusa, de Adriana Calcanhotto. Comecei a ler ontem à tardinha e não parei enquanto o livro não terminou. Nele, Adriana conta a experiência que teve durante uma turnê em Lisboa: por causa de uma mistura equivocada de remédios, ela passou alguns dias sem conseguir dormir, sem conseguir articular direito as palavras, tomada por alucinações. Um delírio que ela passou para seu laptop, criando um texto divertidíssimo e que, de certa forma, ajudou a arrancá-la dessa bad trip. É clichê, mas é vero: escrever é terapêutico!  

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Muito em breve, também publicarei uma crônica sobre esse que classifiquei como um “roadbook”: é uma viagem!   

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Tenho lido todos os comentários deixados aqui no blog. Nossa, vocês ainda vão me transformar numa pessoa besta. Como diz a Adriana Calcanhotto no final do livro, em agradecimento aos seus amigos: “A única coisa que posso dizer, embora singular para uma escritora de razoável vocabulário, é: não tenho palavras”. 

 

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Beijos!!

 

 

Postado por martha medeiros

Poesia oculta

16 de novembro de 2008 47

A leitora Ana me pergunta sobre um texto chamado “Livros que não li”. Ana, pode ser meu, porém digitei esse título nos meus arquivos e não apareceu nada, talvez eu tenha salvo com outro nome, mas vá saber qual. Se eu descobrir o texto, te mando.

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Em breve irei ao Rio, rapidamente, participar de um evento com a filósofa e poeta Viviane Mosé, para falar justamente de poesia. Uma repórter me ligou essa semana para saber o que o público pode esperar desse encontro. Nunca se sabe, mas creio que falaremos sobre a ausência de poesia nos dias de hoje. Nosso olhar é apressado, não contemplamos mais nada, perdemos a essência das coisas simples que tanto podem nos comover, se permitirmos. Eu provavelmente não vou falar sobre a poesia impressa, a que está nos livros, mas a poesia cotidiana, a poesia que está ao alcance de todos nós nesse exato instante.

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Semana passada publiquei um texto no jornal Zero Hora que chamava-se “O isopor e a neve”, a respeito de um episódio prosaico que vi acontecer no meio da rua: um caminhão deixou cair algumas lâminas de isopor no asfalto e seguiu adiante. Essas lâminas começaram a ser “atropeladas” pelos carros e foram se transformando em pequenos flocos flutuantes: parecia nevar em plena tarde de novembro, no meio de uma avenida movimentada da cidade. Foi lindo e foi estranho. Escrevi sobre isso, na falta de assunto melhor. Acreditei que iriam me acusar de falta de inspiração, mas, ao contrário, foi das crônicas mais comentadas do ano. Percebi que as pessoas estão precisando de um pouco de magia para se aliviarem do corre-corre diário e insano.

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Hoje estou meio triste. Uma etapa importante da minha vida se encerra, e essa melancolia também é poética: reúne, ao mesmo tempo, gratidão pelo o que foi vivido e esperança no futuro que virá.

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Nesse clima, deixo aqui um texto que publiquei no Globo chamado “Poesia oculta”, que mostra como se pode extrair emoção de pequenos flashes que acontecem dentro da nossa casa, em meio ao nosso dia-a-dia, ao alcance dos nossos olhos: basta querer enxergar. 

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Um bom início de semana a todos. Beijos!

 
  
                                        POESIA OCULTA
 
 
            Não, hoje não vou trabalhar. Acordei tão cedo que consegui ver os primeiros raios solares refletidos nos vidros dos edifícios e dando a eles uma coloração rósea que deixou a cidade com uma cara diferente da que ela costuma ter nas horas mais adiantadas do dia. Havia ali, naquele instante, 6h47 da manhã, poesia. Uma poesia com a qual nossos olhos desacostumaram. Hoje não vou trabalhar, preciso procurar por ela, essa poesia oculta.
            E sei que vou encontrá-la em todo lugar, bastando pra isso a minha intenção. Começou. Já consigo vê-la na lombada dos livros que estão dispostos na estante, vários, um ao lado do outro, compondo um mosaico de cores e possibilidades. E na xícara de cafezinho, de louça branca, ao lado do jornal aberto, em cima da mesa, e um copo d´água, os três em colóquio matinal, clássicos do cotidiano. Ali: a poesia da caixa de fósforos quietinha na cozinha. Da mulher passando o batom na frente do espelho fingindo que não está vendo que seu marido a espia escondido, ele próprio também fingindo que já não se deslumbra com a cena.
            A letra caprichada da criança na primeira folha do caderno. A fila de táxi no ponto em frente ao parque, enquanto os motoristas conversam e fumam aguardando os passageiros. O carrinho de supermercado abandonado no meio do estacionamento depois que todos se foram, esquecido na noite. Os cachos ruivos que estão no chão de um salão de beleza mixuruca, onde alguém cortou o cabelo e
se arrependeu. A poesia oculta não é tão oculta assim.
            Um varal com roupas puídas, penduradas numa janela de um edifício antigo. A torcida de um estádio explodindo ao ver entrar em campo o seu time. Duas adolescentes de cabelos longos cochichando e rindo à saída do cursinho. O olhar perdido da mulher dentro do ônibus. Um guarda-chuva preto.
            Sua amiga que piscou o olho pra você lá do outro lado da festa, o afeto atravessando o salão e desviando dos convidados que separam vocês duas. A chama da vela que balança porque você está gargalhando. O casal que caminha na noite escura na beira da praia, agasalhados e agarrados, achando que ninguém os vê. Um resto de bolo dentro da geladeira.
            O canhoto do cartão de embarque no fundo da bolsa. A almofada que caiu do sofá da varanda por causa do vento. O vapor que embaçou o espelho do banheiro depois do banho. A mochila em cima da cama da sua filha. Seu filho dormindo.

                   A poesia é uma fatalidade do olhar. Basta um frame de segundo e ela se revela, para então se esconder novamente atrás da pressa, do tédio, do desencanto, do hábito, do medo do ridículo que paralisa todos nós. Eu hoje não vim aqui para trabalhar, vim estimular o mistério.

 
                                   —————————————

Postado por Martha Medeiros

O cachorro do Obama

12 de novembro de 2008 34

O título acima pode parecer ofensivo ao futuro presidente dos Estados Unidos, mas eu não cometeria essa indelicadeza, sou mais uma torcedora do Obama Futebol Clube e espero que ele consiga acabar com as guerras e tensões promovidas pelo governo Bush. O cachorro, em questão, é aquele que foi mencionado distraidamente em seu primeiro discurso depois de eleito: Barack Obama prometeu às filhas, ao vivo em rede mundial de televisão, que compraria um mascote assim que se mudassem para a Casa Branca. Foi o que bastou.

No mundo em que a gente vive, todos estão atentos (com razão) às questões que interessam à humanidade: Obama acabará com o embargo econômico a Cuba? Reduzirá a emissão de gases poluentes? Retirará mesmo as tropas americanas do Iraque? Mas todos também se sentem muito à vontade para palpitar sobre assuntos pessoais: por que não dar um cãozinho abandonado em vez de um golden retriever?

Obama, pelo que ouvi dizer, pensava em um golden retriever, provavelmente atendendo ao gosto de suas meninas, mas foi pressionado a ser politicamente correto (que praga): vai adotar um vira-lata para demonstrar que é um cidadão comovido com o futuro não só dos cidadãos norteamericanos, mas também com o futuro dos cuscos norteamericanos (isso se não for impelido a aceitar o presente que a Associação de Amigos dos Cachorros Sem Pêlos Peruano já enviou: um filhote de cruz-credo). O coitado não pode mais ter o cachorro que quiser.

Não que eu reprove a idéia de se adotar um animal carente. É claro que se o presidente mais visado do planeta tomar uma atitude magnânima, isso servirá de exemplo e inúmeros cães sem raça ganharão um lar. Bravo. O problema é que hoje os políticos e artistas não são apenas pessoas públicas: são de domínio público. Exigem-lhes nobreza o tempo todo, sem respeitar o direito que eles têm, como nós, de fazer o que lhes der na telha em sua vida privada.

Eu pretendo doar meus órgãos, por exemplo. Minha família sabe disso, e acho que todos deveriam fazer o mesmo. Mas jamais constrangeria uma pessoa pública, intimando-a a defender uma causa que não sei se é dela também.

Deixar o futuro presidente dos EUA sem saída, induzindo-o a não ser “elitista” numa escolha estritamente familiar, é uma pequena invasão. Bem intencionada, claro, como todas as invasões que acontecem em nossas vidas particulares.

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Cátia, SIM, o texto que você tem dúvida sobre a autoria foi escrito por mim.

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Adelino, se é chique ter assessoria de imprensa, então sou chinelona mesmo… Quem sabe, um dia… E aos que me perguntaram se eu cozinho: infelizmente, não. Tenho uma funcionária que trabalha comigo há quase 18 anos e é ela que faz as tarefas domésticas. Não sei o que seria de mim sem ela.

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Beijos!

Postado por Martha Medeiros