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Poemas

28 de janeiro de 2009 35

sou uma mulher madura

que às vezes anda de balanço

sou uma criança insegura

que às vezes usa salto alto

sou um mulher que balança

sou uma criança que atura 

 

Touché, Nathália. Esse é um poema antiiiiigo pra caramba, eu devia ter menos de de 20 anos quando escrevi. Foi publicado no meu primeiro livro, o Strip-Tease, de 1985, e depois entrou na coletânea Poesia Reunida. Apesar de ter sido escrito há tanto tempo, ele ainda me revela 100%.

 

*

No Poesia Reunida há também aquele poema que comentei uma vez, sobre levar um tiro. Será que cheguei a comentar? Não lembro. É assim: 

se você nunca levou um tiro

eu conto como é

não tem crononologia

primeiro o disparo, depois a dor

nada disso, você ouve o disparo muito depois

e bem fraquinho, só um eco

porque você não acredita no que aconteceu

aliás, esqueça a dor

tiro não dói

tiro é um impacto que você sente

e não sabe que é tiro

pensa que o sutiã arrebentou

que foi atingido pelo Cupido

que as artérias ficaram velozes de repente

você não sente o buraco que ficou

você não ouve sirenes

você sabe que algo aconteceu de importante

mas não é na morte que você pensa

você não repassa sua vida

como acontece com os afogados

você sabe que o tempo parou

mas não consegue chamar ninguém

a verdade é que você foi irremediavelmente surpreendido

e é isso que é esquisito

todo o sangue converge para o mesmo ponto

lá onde ficou a bala

todo o seu corpo vai dar boas-vindas a este corpo estranho

e você se contrai

você enfraquece

não raciocina como todo mundo

não articula a voz

ainda não há medo

e já se passaram quatro segundos

nada é rápido, nada é dramático

um tiro é o que há de mais definitivo

não machuca, não rasga

não estraga

é só o parto prematuro

de uma nova vida que te traga

 

Escrevi esse poema também há um tempão, e até hoje me perguntam em entrevistas como é que eu posso ter escrito isso sem ter levado um tiro de verdade. É que levei. Só que foi num sonho. Um sonho assombrosamente real. Quando acordei, corri pra máquina de escrever (eu avisei que foi há um tempão) e deu nisso. Qualquer dia coloco outros poemas aqui.

 

 

Dia 1, domingo, vou sair de férias. Ficarei 15 dias fora, mas, se der, passarei numa lanhouse e darei uma atualizada no blog, porque vocês sabem, quando eu digo férias, significa: sem celular, sem computador, sem nada que me desvie do dolce far niente merecido. Mas antes de viajar ainda volto aqui pra mais um papo e um tchau. Beijos!

 

 

 

 

Postado por Martha Medeiros

Comentários (35)

  • Helena diz: 14 de fevereiro de 2009

    Olá, Martha.
    Adorei o primeiro poema. Apesar de vc tê-lo escrito aos 20 anos, é apropriado para qualquer idade. Não tenho mais 20 anos (ja há algum tempo, rs), mas me sinto com a mulher do poema… Na verdade, o que mais gosto na sua escrita é que você diz coisas que eu disse ou gostaria de ter dito. Várias vezes leio seus textos e comento com meu marido — Amor, lembra quando a gente conversou sobre isso? Parabéns pelo talento!

  • Emanuela marques de menezes diz: 10 de março de 2009

    OI querida martha, sou fã do seu trabalho, sou atriz, produtora cultural. Gostaria de saber sobre a liberação de uma obra sua para encenação teatral, seria direto com você? Aguardo um contato.Abraços..ah tô doida para ssistir o filme!!!

  • Daiane Braghin diz: 2 de junho de 2009

    Oiê!
    Ó, sonhei, essa noite, que eu tava numa esquina comercial. De repente um ladrão aparece e ameça atirar numa senhora que não queria entregar a bolsa, e ele atira nela. Eu deitei no chão, aí ele virou pra mim e deu um tiro na minha cabeça. Meu corpo ficou todo dormente, e fui perdendo os sentidos aos poucos. Não senti dor. Muito parecido com o que você descreveu.

    Beijos!

  • Nathália Hecz diz: 28 de janeiro de 2009

    Mazaah, guria! Acertei! Eu li o Poesia Reunida há uns 2 anos, nem era meu. Preciso ter comigo, teus poemas são MUITO bons! Eu li e anotei algumas poesias, SÓ que minha mãe fez o favor de mexer nas minhas coisas e jogou fora! Só se salvaram algumas. A do tiro não tem pra niguém! Muito boa mesmo! Esta é fofa: “Era verão ou qualquer troço assim/
    lua cheia ou algo parecido/
    uma saudade ou quase a mesma coisa/
    era amor ou mais ou menos isso.” Florzita, te amo, não tem como não ser assim! Beijos!

  • Andressa Collet diz: 29 de janeiro de 2009

    … sou uma criança insegura que às vezes usa salto alto …

    Não por nada redescobri seu talento dpois de anos, já que a vida me conduziu para caminhos jamais imaginados. E compartilhar a paixão pela palavras me faz estar mais perto de mim mesma e também do Sul do BR. Un bel far niente per te durante le vacanze! Baci, Andressa

  • CARLA COIMBRA diz: 30 de janeiro de 2009

    Que tuas férias sejam assim … MARAVILHOSAS! Como teus textos.
    Bjo enOrme pra ti.

  • Juliana diz: 28 de janeiro de 2009

    Martha,eu adorooooo esse poema da “mulher madura”,tb me vejo nele…sentirei sua falta nas férias,entrar na net e não ler vc,é mais difícil que vc pensa,mas de qualquer forma espero que curta bastante esses dias de paz e sossêgo…vai estar afastada da coluna de domingo da Zero Hora tb?
    Bjos!!!

  • Ana Figueiredo diz: 29 de janeiro de 2009

    Adoro quando posta seus textos.
    Ótimas férias para vc.
    Bjs

  • Margareth Andrade diz: 29 de janeiro de 2009

    Martha, você entrando de férias e eu voltando a luta, buscar filho no colégio, enfrentar o trânsito caótico de BH, acordar cedo… Mas tudo bem! Divirta-se e descanse pra continuar nos presenteando com textos maravilhosos!

  • fernanda diz: 30 de janeiro de 2009

    Martha

    ótimas férias pra ti, bons livros, boas risadas, bom sol na pele e nas idéias. Quero dizer que sou tua fã a decadas. Hj tenho 30anos, sou casada e continuo fã.
    Tenho um blog que queria ter tua visita ilustre , se der passe lá.
    http://www.scraapcanto.blogspot.com
    Se não for te pedir demaz!
    Fernanda.

  • Silvia Mara diz: 29 de janeiro de 2009

    Olá Martha!
    Adoro seus textos, crônicas, poesias, enfim, cada vez que os leio tenho uma excelente fonte de inspiração.
    Aproveite suas férias, descanse e desligue o celular interno, aquele que te deixa “ligada” no mundo. Esteja, realmente, em férias!
    Beijocas

  • Graziela diz: 30 de janeiro de 2009

    Martha,

    Acompanho seu trabalho desde que escrevias para o site do Terra. Amava as poesias, as histórias, as crônicas. Onde eu posso encontra-las? Sinto muita falta. Esperava ansiosa cada novo texto!
    Ah….se não for abuso, gostaria de conhecer a integra do poema que inicia esse post!

    Grande beijo

    De uma grande fã!

  • Liliana Garbin diz: 30 de janeiro de 2009

    Martha,boas férias…bom descanso….relax e curtição.
    Até breve,beijos.
    Lili.

  • zenilda loyo diz: 29 de janeiro de 2009

    Marta querida, seus poemas além de serem bonitos é tocante pois reflete exatamente o que sentimos. Parabéns e curta suas férias bem merecidas. Bjs. Zenilda.

  • Nathália Hecz diz: 29 de janeiro de 2009

    Boas férias, Martha! Aproveita beeem os teus 15 dias! Ah, só tu mesmo pra procurar uma lan pra entrar no blog! Eu ia dizer pra que tu não faças isso, mas isso é um bom sinal! Quer dizer que tu gosta da gente! Kkk! Eu viajo mesmo, flor! E tu já tinha comentado sobre o poema do tiro. Se tu não lembra, eu te lembro! =D Beijãão, guria!

  • Odair Cabrera diz: 29 de janeiro de 2009

    Querida Martha,
    Curta muuuito as suas merecidas férias e muito obrigado pelos seus (nossos) maravilhos textos, que tanto nos faz refletir.
    Volte logo!!!!!!!!
    Bjs.

  • Maria Luiza Bicca Bragança diz: 29 de janeiro de 2009

    Ahhh, certo que sentiremos falta )=
    Belo poema, Martha.
    Realmente, como disse a Zenilda, além de serem bonitos são tocantes!
    beijos

  • Adelino diz: 29 de janeiro de 2009

    Martha, bom dia. Genial os dois textos que você reproduziu, de sua autoria.
    Boas férias.
    PS – Férias, mas aposto que sente uma imensa saudade de escrever… Aí então corre “pruma lanrrauze” (!!!) e escreve tudo o que tem direito.^
    Abraços fraternos.

  • Priscila diz: 29 de janeiro de 2009

    Ai, Martha querida! Vou ficar com muitas saudades. Aproveite as suas férias, que eu acabei de voltar e queria mais. beijo grande

  • Caroline Back diz: 29 de janeiro de 2009

    Olá Martha!!
    Tu saindo de férias e eu voltando à ativa… ai ai, foi-se a praia, foi-se a casa da mamãe, volta à realidade e ao dia-a-dia! Mas, confesso que já estava sentindo falta, até as férias pode enjoar…rs

    Curta muito as tuas, sentiremos saudades!!

    Grande Beijo!!

  • Janine Stecanella diz: 29 de janeiro de 2009

    Incrivel como alguns sonhos têm esse poder de serem tão reais, é até assustadores. Mas esse hábito de escrever logo após o acontecido é benéfico, ainda mais quando encontramos aquele texto antigo em um caderno de anotações.

  • Silvia diz: 28 de janeiro de 2009

    Uma amiga me emprestou “Doidas e Santas”. Li algumas crônicas e quis saber mais sobre você. Achei seu blog e li todas as 14 páginas. Adorei seus textos, sua sensibilidade e seu humor. Obrigada por dividi-los conosco. Boas férias !

  • Leninha Ramos diz: 29 de janeiro de 2009

    Amooooooo tu, mulher!
    BOAS FÉRIAS!

  • Juliana diz: 29 de janeiro de 2009

    Ahhh Martha! Sentirei MUITA saudade tua!
    Mas, desejo essas férias sejam ótimas!
    Aproveita!

    Upa! ^^

  • Ana Paula diz: 29 de janeiro de 2009

    Olá, Martha! Nossa! Esse poema sobre o tiro é sensacional, bem como tudo o que você escreve! Aproveito também para te desejar boas férias e ótimo descanso! Beijão!

  • Leandro diz: 29 de janeiro de 2009

    Tem certeza que nunca levou um tiro? Nem de raspão?? Conseguir definir o efeito de um tiro da maneira tão meticulosa e num slow motion como vc fez, só para quem realmente tem o dom das palavras! Bjs

  • Juliana Amaral diz: 28 de janeiro de 2009

    Lindo este poema… e pra quem ja teve um sonho (ou melhor: pesadelo) que a bala entrava no lado esquerdo do peito… a descrisao esta perfeita!!! Como tudo o que voce escreve… LINDO!!!

  • Nathália Hecz diz: 28 de janeiro de 2009

    Posso colocar mais um poema aqui? Ah, diz que sim! Kkkk! Te dar uma ajudinha básica (se acha)¬¬ “Não morro de amores/
    por pessoas sem mistério/
    quando se é muito transparente/
    muito risonho e educado/
    é raro ser levado a sério/
    prefiro os mais silenciosos/
    os que abrem a boca de menos/
    os mais serenos e mais perigosos/
    aqueles que ninguém define/
    e que sempre analisam os fatos/
    por um novo enfoque/
    prefiro os que têm estoque/
    aos que deixam tudo à mostra na vitrine.” Beijos!

  • Nancy Moises diz: 30 de janeiro de 2009

    Eii querida sou mineira e estou residindo em Porto Alegre somente a 15 dias (Adorando esta cidade linda por demais).
    Ontem em uma livraria no Iguatemi procurava um livro que fosse interessante, o rapaz gaucho rs mto gentilmente me indicou
    “A Elegância do ouriço”, leitura esta segundo ele aprovada por vc em sua coluna do jornal local.Aceitei a opção e estou ca lendo o tal, depois te conto.
    Adorei seu blog e sua poesia.
    Parabens
    bjs
    http://luaempoemas.zip.net
    http://www.poetisadasminasgerais.50webs.c

  • BARBARA JARDIM diz: 29 de janeiro de 2009

    Martinhaaaaaaaaaaaa!!!
    Se vc soubesse….quão bom é poder usufruir das maravilhosas leituras suas……. Tua é Magnifica Mulerr…. Vc é MAraaaaaaa!!!!
    Boas Férias.

  • Mani diz: 31 de janeiro de 2009

    Uma vez te mandei um email, em que eu contava que achava que voce era criação do Luis Fernando Verissimo. Lembra disso? Acho que nao. Faz tanto tempo. Depois, um amigo encontrou o livro de poemas (Striptease) e me deu. Foi quando descobri que voce era real , e que me agradava muito o que voce escreve. Um abraço…

  • Amanda Antunes diz: 3 de fevereiro de 2009

    Martha Medeiros!!!
    Qta imaginação,qto sentimento,qta audácia e simpatia. Conheci seus textos há pouco tempo, mas ja se tornaram leituras necessárias no meu dia-a-dia.
    Adorooo tudo q escreve!
    grande bj e inspire-se, sempre!rs

  • Marna Amaral Pesoulos diz: 30 de janeiro de 2009

    Divina tua entrevista. É muito bom conhecer quem admiramos. Parabéns.

  • Paulo Artur Rodrigues diz: 7 de fevereiro de 2009

    Tchê, guria (permita-me a ousadia de tratar-te assim – pois não lembras, mas eu não esquecí – “autógrafo personalizado, paga direito autoral”. Eu já fui baleado. Não dói. Arde como picada de marinbondo. A dor aparece depois, quando a anestesia da cirurgia tem seu efeito passado. Gosto muito do que escreves, muito natural, ao gosto de todos, com raras exceções (como toda a regra, a exceção está presente,assim como a sombra se anuncia ao sol quente.
    Se me permites – um abraço, ainda q baleado!

  • Débora Michelle Martins diz: 31 de janeiro de 2009

    Oi Martha!Adoro muito tudo que você escreve, sou sua fã como muitos outros, claro!Guardo suas crônicas da zero – hora faz tempo… são palavras inspiradoras….Mande mais poesias, é encantador!!!
    Abraços,
    Débora

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