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Posts de abril 2009

Santiago, o documentário

29 de abril de 2009 24

Entrei numa onda de assistir documentários. Acabei de ver Santiago, de João Moreira Salles. É perigoso quando a gente dá o “play” com expectativa excessiva, porque a reversão pode ser fatal. Nesse caso, não chegou a ser fatal, mas atrapalhou minha avaliação do começo do filme (assim como o horário em que embestei de assistí-lo: tem cabimento, depois do almoço, com a sala em penumbra? É pedir pra cair nos braços do Morfeu…)  

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De cara, não era o que eu esperava – e sei lá o que eu esperava. Mas lutei bravamente contra o sono e dei um ultimato a mim mesma: acorda! E, de repente, comecei a apreciar a beleza de um senhor de 80 anos dançando com castanholas, depois dançando apenas com as mãos nuas, homenageando a própria memória, invocando Fred Astaire, enterrado vivo num apartamento habitado por suas lembranças, anotações e resgates históricos - um homem preocupado em dar vida aos mortos. Muito a ver com a crônica que publiquei domingo passado no Globo, sobre as pessoas não morrerem enquanto houver alguém que lembre delas. De nós.

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O documentário me pareceu um mea-culpa do cineasta. Santiago foi o mordomo da família Moreira Salles por 20 anos. Santiago viu João menino, viu João crescer, e agora viu João, o patrãozinho, continuando a lhe dar ordens durante as filmagens. Todo diretor dá ordens, e os atores, se têm juízo, obedecem. Mas ali não era um ator e nem um simples diretor - havia uma outra espécie de hierarquia entre eles.

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Santiago, o ex-mordomo, não viu o filme pronto, morreu antes. Não sei se o documentário é uma homenagem, uma catarse, ou apenas uma idéia levada a cabo. A mim emocionou porque me fez pensar em como é difícil manter as pessoas despertas para a beleza da vida. Cores, formas, música, sentimentos, natureza, silêncio, arte.

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A beleza que compensa as decepções que a vida invariavelmente traz. A beleza que, tão etérea, tão subjetiva, talvez seja a única coisa que realmente tenha sentido.

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Me deu vontade de escrever poesia.  Vou e volto.

Beijos!

 

 

 

 

 

 

 

Postado por martha medeiros

Cancelamento

29 de abril de 2009 10

Olá! Passei aqui rapidinho para avisar que aquele debate que haveria dia 30 de abril no Centro Cultural da Oi, no Rio de Janeiro, foi cancelado. Ficarei por aqui, em Porto Alegre nos próximos dias, e semana que vem estarei em Fortaleza para a estreia da peça “Tudo que eu queria te dizer” no teatro José de Alencar, dia 8 de maio. Tá feita a atualização da agenda, qualquer hora eu volto com um novo post. Beijos!

 

Postado por martha medeiros

Mensagens dos leitores

27 de abril de 2009 51

Comecei o post anterior dizendo que não entendo quem não tem vida cultural. Pois entendo menos ainda pessoas que não conseguem pegar leve, abstrair e compreender que logicamente estou falando de pessoas que poderiam ter, mas não têm o hábito de consumir arte. É mesmo, Ana, que há fome no Brasil? Obrigada pela notícia em primeira mão. 

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Pedro Girardi, você pode me mandar o seu livro, mas eu preciso ser sincera: recebo de quatro a cinco volumes em casa por dia! É uma doideira. Muita gente publica e todos esperam que eu dê um parecer, mas não há como. Estou soterrada por livros. Costumo dar uma olhadela rápida quando chegam. Se o livro me ganha na primeira página, eu fico com ele. Se não me ganha, preciso ser prática: faço doações para bibliotecas públicas, escolas, etc. Um parente seu me escreveu pedindo que eu falasse do seu livro na minha coluna, mas as coisas não são simples assim. Não desanime, porque eu mesma, quando iniciei, mandei livros meus para um monte de escritores e jornalistas, e nunca recebi um pio de volta. Antigamente achava que era esnobação, hoje entendo que aquele pessoal não tinha condição de ler tudo o que lhe caía nas mãos. Se mesmo assim você quiser arriscar, mande para a redação do jornal Zero Hora (o endereço você encontra no google) e certamente seu livro virá aqui pra casa. Mas vai ter que entrar na fila… De qualquer forma, obrigada pelo teu carinho e interesse, beijão!E boa sorte.

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Antonio, difícil participar do sarau em Niterói. Eu moro em Porto Alegre e é bem verdade que costumo ir ao Rio com certa frequência (aliás, quinta-feira estarei no Centro Cultural da Oi, no Flamengo, às 19:30h, num debate com Lilia Cabral e o psicanalista Luiz Alberto Py, logicamente sobre o filme Divã), mas quase sempre é uma correria e assim que eu cumpro com meus compromissos, tenho que retornar a Porto Alegre. Mas obrigada pelo convite e por ler textos meus nesses encontros. Beijo!

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Maninha, concordo plenamente com você: aquele comercial de tevê em que uma mulher sai do carro do namorado e vai pro carro de um outro qualquer que está parado no sinal, só porque ele tem um carro mais bacana, é afrontoso! Sei que há muita maria-gasolina por aí, e esse tipo de comercial praticamente avaliza esse comportamento babaca das mulheres. Escolher homem pelo carro? Faz-favor!!

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Aline, era eu mesma ontem no Bourbon e senti que vocês estavam querendo se aproximar para tirar uma foto, mas o que eu podia fazer? Como é que eu ia me oferecer? E se não fosse nada disso? Fiquei na minha… Na próxima vez, é só chegar, pedir e feito: click, click. Numa boa.

*

O livro Nada Precisa Ser Como É, do Paulo Sergio Guedes, é um livro de poemas escritos num tom muito pessoal, a maioria dirigido a seus familares e amigos. Diferente do anterior, O Sentimento de Culpa, em que o psicanalista faz uma análise devastadora e fenomenal de um dos maiores obstáculos da nossa vida. De qualquer forma, fica aqui um tira-gosto do livro de poemas:  

O vínculo com sentido,

querida,

só busca nos afastar.

Ele é a voz do consenso

provoca um vazio imenso

não nos faz particular.

*

 

Dan, sobre livros adaptados para o cinema… É natural que a gente prefira quase sempre o livro, já que através dele podemos usar a imaginação, viramos co-autores, sem contar que o livro nos permite mais entrega, temos o controle do tempo. Podemos retornar para algumas passagens, sublinhá-las… É diferente de uma obra que precisa ser condensada em duas horas. Ou seja, um livro é um espaço livre e aberto para o desenvolvimento de personagens, enredos - tudo convida a um aprofundamento. O filme, por sua vez, ganha em impacto visual e sonoro, duas coisas que são enriquecedoras, alimentam nossos sentidos. A gente se obriga a gostar mais de um do que de outro, quando deveríamos avaliá-los independentemente. Mas quem consegue? Valeu por levantar o assunto, beijo! 

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Alguns leitores pedem autorizações para publicação, etc. Lembrem que meu e-mail está disponível junto às colunas do Globo e da Zero Hora. É mais fácil escrever pra lá, porque por aqui não tenho como tratar de “negócios”.

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Agradeço a todos que se manifestam – pró ou contra, diga-se. É sempre um feedback importante, que me sinaliza. Nem sempre posso fazer o que fiz hoje, escolher algumas mensagens e respondê-las, mas tenham certeza de que todas são lidas. Obrigada pelos elogios ao filme, que bom que a maioria está gostando!

E vamos em frente.

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Beijão!

 

 

 

 

  

 

 

   

 

 

Postado por martha medeiros

Teatro, filme, poesia

26 de abril de 2009 43

Eu ontem estava falando para uma amiga que não entendo quem não tem vida cultural. Claro que a gente sabe como estão caros os preços dos ingressos pra shows e teatro, sem falar nos preços dos livros, mas às vezes a gente gasta bestamente numa pizza e deixa de investir em risadas, reflexões, conhecimento, tudo isso que a arte proporciona.

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Ontem eu tive um sábado como eu gosto, com uma dobradinha artística totalmente diversa uma da outra. De tarde – sim, matinê às quatro horas! – fui assistir a sessão extra de Os homens são de Marte… e é pra lá que eu vou, um monólogo com a excelente Monica Martelli, uma atriz linda e engraçada que é autora do texto também. A peça já está em cartaz há quatro anos (dois anos no Rio e dois em São Paulo), e agora saiu em turnê. É a velha ladainha da “mulher solteira procura…” Já está meio antiga essa história de tratarmos toda mulher como uma compulsiva por casamento, como se fossemos todas desesperadas para arranjar marido, mas entendo que a atriz buscou retratar  uma determinada fase da vida, aquela em que a mulher está com uns 35 anos e nunca casou, e por isso está subindo pelas paredes… É meio dejá-vu, mas rende boas gargalhadas, achei o espetáculo bem simpático. Eu sabia o que me esperava e, por não ter expectativas shakespearianas, relaxei e me diverti muito. É bom sair de casa já com alguma informação sobre o que se vai ver, aí não se entra no teatro com a disposição de detonar com tudo, apenas com a disposição de curtir. Foi meu caso. Curti. 

E à noite assisti na tevê, no Telecine Premium, o filme nacional  Meu nome não é Johnny com Selton Mello. 
Achei que eu não iria conseguir segurar o sono (começou às 22h em ponto e eu sou uma dorminhoca crônica), mas fui até o fim grudada na tela, é um filmaço!!
Só pelo desempenho do Selton Mello já valeu ficar acordada, mas a verdade é que tudo é bom: o roteiro, a direção… Como foi um dos maiores sucessos de bilheteria do ano passado, a maioria de vocês conhece a trama, mas pra quem não se antenou: é a história verídica de um carioca playboyzinho que nos anos 80 começou a se drogar por distração, aí começou a traficar sem se dar conta de onde estava se metendo, e por fim se enrolou até o pescoço. Tem uma participação rápida da Cassia Kiss, como juíza, que é um luxo. Vai passar hoje de novo no Telecine Pipoca, às 20h - pra quem tem Net, fica a dica, e pra quem não tem, o filme está disponível nas locadoras.
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Pretendo passar o domingo trabalhando em casa e no final do dia talvez vá  prestigiar o psiquiatra Paulo Sergio Guedes, que está lançando um livro de poemas cujo título me ganhou: Nada precisa ser como é. Conheço o talento dele e sei que vou adorar. É um homem com ideias vanguardistas e libertárias, que defende que não precisamos ser reféns das nossas escolhas e muito menos da opinião alheia. A sessão de autógrafos será em Porto Alegre, no Dado Bier do shopping Bourbon Country, às 19:30h. Acaso eu não vá,  comprarei o livro assim mesmo e depois comento.
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Bom início de semana a todos! Beijos.
 
 

Postado por martha medeiros

Tudo novo de novo

24 de abril de 2009 25

Paulinho Moska tem uma música muito legal cujo refrão diz: “É tudo novo de novo/vamos nos jogar onde já caímos/tudo novo de novo/vamos mergulhar do alto onde subimos”. É com esse tema de abertura que estreou a nova série da Globo sexta passada, Tudo Novo de Novo, com Júlia Lemmertz e Marco Ricca nos papéis principais. Eu gostei demais. Tem três mulheres talentosas e sensíveis por trás desse programa: a direção é de Denise Saraceni, a redação é de Licia Manzo e a supervisão é de Maria Adelaide Amaral, de quem sou fã declarada. 

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O programa mostra o dia-a-dia da nova familia contemporânea: se antes o divórcio era uma exceção, hoje é quase regra, então o que acontece? Há aí uma geração que está tendo que se acostumar com irmãos do primeiro casamento do pai, a mãe grávida do novo marido, finais de semana alternados na casa de um e de outro. Essa é a nova “grande família” que a tevê brasileira resolveu mostrar, e já deu pra perceber, pelo primeiro capítulo, que será um programa inteligente e bem-humorado, sem perder a discussão adulta que o tema merece. 

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Era essa a dica de tevê que eu tinha pra dar. Hoje irá ao ar o segundo capítulo, às 23h, depois do Globo Repórter.

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Beijão!!

 

 

 

 

Postado por Martha Medeiros

Dois filmes

23 de abril de 2009 15

Hoje quero comentar sobre dois filmes. Um eu assisti em DVD. Não é novo. Uma produção francesa de 2002, que aqui no Brasil ganhou o título de Bem-me-quer, Mal-me-Quer (no original é À la Folie… Pas du Tout), e com a ótima atriz Andrey Tatou no papel principal. Eu não sabia nada vezes nada sobre esse filme, nunca havia ouvido falar nele, uma amiga que me emprestou. Simplesmente adorei. O filme começa mostrando a relação de Angelique (uma jovem estudante de artes plásticas), com um médico mais velho e casado. O filme vai se desenrolando e mostrando detalhes dessa relação naturalmente difícil, em função do estado civil dele. A garota vai ficando cada vez mais obsessiva com o amante, os amigos vão alertando-a de que ela está levando a história muito longe, até que… Bom, aí é que o filme dá uma virada sensacional e infelizmente nada mais posso falar, porque o roteiro é bom demais para que eu estrague a surpresa. Só recomendo que se preste bem atenção nesses primeiros 40 minutos de filme, onde tudo parece uma história aparentemente trivial. A partir de então, começamos a enxergar nuances que nos escaparam completamente, e então descobrimos que nada parece ser como é – isso vale pra vida rotineira de todos nós, também. Não sei se é um filme fácil de encontrar nas locadoras, mas tentem. Entretenimento dos bons. 

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O outro filme eu assisti ontem à noite aqui em Porto Alegre. É o documentário Contratempo, dirigido por Malu Mader e Mini Kerti. O foco de interesse no filme geralmente é a curiosidade em saber como Malu se sai por trás das câmeras, mas não se fixe nisso. É um pormenor. O que merece ser aplaudida é a iniciativa de Malu e Mini em divulgarem o trabalho do Villa-Lobinhos, um projeto de inclusão social que atende uma garotada da favela, dando a eles um futuro através da música. Sei, sei, muita gente acha que documentário é um filme chato, panfletário, sem atrativos… Nada disso. Contratempo é uma obra emocionante e por vezes divertida. Cada um daqueles garotos e garotas se “salva” através de um instrumento musical. Fazendo música, eles se sentem integrados, viram cidadãos, e não candidatos a marginais. É comovente vê-los tocando numa orquestra e ao mesmo tempo tocando suas vidas com mais dignidade, sem deixarem-se levar pela facilidade de uma trajetória à margem. Acreditem, é um documentário necessário, obrigatório, já que todos os dias a tevê e as revistas nos enfiam goela abaixo uma felicidade maquiada, de faz-de-conta. Precisamos ter acesso também ao que acontece longe dos nossos olhos, até pra acreditar que o Brasil tem jeito sim, basta mais boa vontade do governo, mais acesso à cultura e à arte, e mais projetos mobilizantes como o do Villa-Lobinhos. Se você anda meio borocochô em relação ao país, assista Contratempo e volte a ter esperança. Nas outras cidades do país eu não sei se ele continua em cartaz. Em Porto Alegre está no CineBancários (rua General Câmara 424 – centro) até 03 de maio, em sessões às 15h, 17h e 19h (por via das dúvidas, confirme na programação do jornal). 

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Volto em breve para comentar sobre outro projeto bacana, dessa vez televisivo. 

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Beijos!

 

  

Postado por martha medeiros

Mal-entendido

22 de abril de 2009 18

Oi, pessoal. Dei uma lida nas mensagens deixadas e me dei conta de que a maioria não entendeu direito meu último post, achou que eu estava condenando quem se suicida. Longe de mim. Acho uma atitude muito séria e pessoal, e nenhum de nós pode imaginar o drama íntimo que a pessoa está vivendo, quanto mais julgar. O que condenei foi os suicidas que antes de se matarem, matam seus filhos ou parceiros. Ou seja, saem da vida acompanhados, levando outras pessoas junto, decidindo prepotentemente o destino de quem não escolheu a morte. 

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Amanhã volto aqui para falar de um filme bacanérrimo que assisti no DVD e que de certa forma trata sobre o mal-entendido, esse lapso que inferniza nossas vidas.

 

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Até breve!

 

  

Postado por martha medeiros

A morte e a vida

20 de abril de 2009 35

Primeiro, queria comentar essa doideira que aconteceu semana passada em duas cidades do Rio Grande do Sul. É claro que nos comove ver pessoas que, no auge da depressão, tiram a própria vida por não enxergar mais nenhum caminho à frente. É um ato de desespero quase sempre planejado e que deixa familiares e amigos de mãos atadas, impotentes. Mas nossa comiseração se transforma em raiva quando essas pessoas cometem o desatino de levar junto com elas quem não pediu pra embarcar nessa viagem sem volta.

         Aconteceu em Novo Hamburgo, aconteceu em Livramento. No primeiro caso, uma mulher de 47 anos, falida, matou o marido, a irmã e a sobrinha antes de tentar um fracassado suicídio, porque julgou que estaria fazendo um bem a eles, evitando que herdassem sua colossal dívida. No outro caso, uma mãe matou os dois filhos, de 6 e 8 anos de idade, antes de tirar a própria vida. Ambos os casos mostram uma prepotência sem tamanho.

         Ok, para chegar a um ato extremo como o suicídio, a pessoa não está em seu juízo perfeito, não se pode cobrar dela equilíbrio, mas, ainda assim, a palavra prepotência é justificada. Se não queremos que nossos amores sofram com nossa ausência, basta ter a coragem de ficar, de seguir vivendo, a despeito de todo o sofrimento. Mas se não há mais como seguir adiante, que assumamos essa fraqueza como nossa e de ninguém mais. É covardia querer sair de cena sem permitir que os outros permaneçam e enfrentem a própria dor. Eles se recuperarão. Será que é isso que o suicida assassino não tolera?

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Vamos para amenidades: assisti ao filme Estômago, no DVD, e adorei. Não tinha conhecimento prévio da história, por isso foi tudo uma excelente surpresa. Já sabia que o ator João Miguel era ótimo, mas não esperava um roteiro tão bem costurado. São duas histórias paralelas envolvendo o mesmo personagem, que sobrevive na selva urbana graças a sua “mão boa” para a cozinha. A gastronomia como forma de alcançar algum poder num mundo onde todos querem te devorar. 

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Li O outro, de Bernhard Schlink, uma novela curtíssima (pra ler de um fôlego só em uma hora) sobre um homem que fica viúvo e descobre que a mulher tinha um amante que ele desconhecia. Ele resolve conhecer esse homem. Mais uma história sobre o nosso eterno estupor diante da vida. Não sabemos nada sobre ninguém, apenas achamos que sabemos. Aliás, foi esse o título da minha crônica do último domingo para o Globo. Achamos que sabemos. Vou reproduzí-la em breve em Zero Hora.

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Quarta-feira, como já disse, Malu Mader estará em Porto Alegre para prestigiar o lançamento do documentário Contratempo, que ela dirige. Será no CineBancários, na General Câmara, 424. Às 19h haverá um coquetel e às 20h a projeção do filme. A entrada é livre, sujeita a distribuição de senhas. 

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Bom início de semana a todos!

Beijos. 

Postado por martha medeiros

Cultura geral

17 de abril de 2009 36

Olá. Mais um final de semana chegando. Eu sempre penso em tudo que quero assistir no cinema, ler, curtir… mas o tempo passa tão rápido.

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Não é a primeira vez que uma leitora faz menção a um livro chamado Casais - Histórias de Amor que Resistiram ao Tempo como sendo de minha autoria. Não é. Eu apenas escrevi um prefácio para esse livro, e essa informação foi colocada na capa. 

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Terminei ontem de ler mais um livro do israelense Amós Oz, dessa vez Rimas da Vida e da Morte. É um dos meus escritores favoritos, escreve bem demais sobre a alma humana. Se você nunca leu nada dele, comece por Caixa Preta, um livraço. “Rimas…” é um livro que me interessou porque conta a história de um escritor que vai dar uma palestra num sarau literário e, diante da plateia, ele, em silêncio, vai inventando histórias para cada um dos desconhecidos que estão sentados a sua frente, e assim o livro se desenrola, mesclando ficção e realidade.    

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Em determinado ponto do livro, Amós Oz menciona algo que sempre me perturbou. Ele fala que a morte da última pessoa que ainda lembra de você faz com que você morra pela segunda vez, e de forma definitiva. Depois que a última pessoa que lembra de você morrer, será como se você nunca tivesse existido. Acho isso impressionante e dramático: nossa vida depende da lembrança dos outros. A maioria de nós busca estender a imortalidade através de filhos, netos, bisnetos (você ainda se lembra do seu bisavô???), e há os que deixam um legado artístico, como músicas, livros, pinturas, esculturas, atuações, e tudo isso sobrevive a nós, mas estamos nas mãos da pessoa que nos lembrará pela última vez: quando esta criatura falecer, será a data não só da morte dela, mas da nossa também. Para sempre. Eu sei, eu sei: é mórbido falar disso, mas ao mesmo tempo me excita, nossa vida pode ser bem mais longa do que imaginamos, basta que as histórias e lembranças que deixamos se perpetuem por gerações.  

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Ontem eu estava lembrando de um amigo meu que morreu num acidente de carro em 1987, ou seja, já se vão mais de 20 anos. Os pais dele imagino que já tenham falecido, ou estão quase indo. Ele tinha um filho que faleceu também. Seu círculo íntimo de familiares e amigos está se reduzindo a cada dia. Lembrar dele, de seu sorriso, de sua voz, dos momentos que vivemos juntos, é uma maneira de ainda mantê-lo vivo. Daqui a 50 anos, na cabeça de quem ele viverá? 

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Tá bom, tá bom – desculpem!!! Vamos trocar de assunto.

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Ontem tirei o filme “Rebobine, por favor” pra assistir no DVD, mas não consegui ir até o fim. Ou eu me desconcentrei, ou o filme é chato mesmo. Hoje o devolvi na locadora e peguei Estômago, filme brasileiro recentemente premiado e que coleciona críticas positivas. Acho que agora vou me dar bem. Depois comento.

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Terminado de ler Amós Oz, estou com vários outros livros por iniciar. Devo começar a ler hoje O outro de Bernard Schlink (mesmo autor de “O Leitor”), e tem também na minha cabeceira A arte da ficção de David Lodge e Os Aparados da Leticia Wierzchovski. E ainda os poemas da Marina Colasanti em Passageira em Trânsito. Assim que ler o livro da Marina vou comentar aqui sobre a importância que essa escritora teve na minha vida.

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Semana que vem Malu Mader lançará em Porto Alegre seu documentário Contratempo. Ela não atua, é sua estreia como diretora. Estou muito a fim de assistir. Será quarta-feira, dia 22, mas ainda não tenho informações sobre o cinema e o horário, e se será aberto ao público. Assim que souber, aviso. 

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Bom final de semana a todos! Beijos.

 

 

  

 

Postado por Martha Medeiros

Burt Bacharach

13 de abril de 2009 47

Cheguei agorinha do show do Burt Bacharach, realizado no Teatro do Sesi, em Porto Alegre. Pra quem não conhece, Bacharach é um jovem senhor de 81 anos que há cinco gerações vem encantando com músicas que são verdadeiros clássicos, como Close to you, The look of love, Raindrops keep fallin´on my head e What the world needs now is love.  

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Eu já chorei em cinema muitas vezes, chorei lendo livro pouquíssimas vezes, mas em show, jamais deixei cair uma lágrima, que eu me lembre. Mas, dessa vez, rolou. Rolaram! Foi uma viagem no tempo. Voltei à minha infância, à minha casa e à minha família: meu pai, minha mãe, meu irmão e eu juntos na sala, numa época em que não havia essa onda de um computador e uma tevê em cada aposento, mantendo cada um no seu quadrado. Era diferente. O único aparelho de som ficava na sala e a gente ouvia música juntos, e tampouco havia essa história de  “música pra criança” – Xuxa e assemelhados. Criança ouvia a música que os pais ouviam, então cresci escutando Janis Joplin, Beatles, Astor Piazzola e muito, mas muito Burt Bacharach, que era sofisticado demais para ser classificado como  “música pra velho”. Bacharach nasceu clássico. Nasceu moderno. Nasceu e vai morrer jovem.

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Acabei de vê-lo aos 81 anos, no palco, meio capenga, a voz falhando, mas um guri fascinado pelo seu ofício, um guri ainda regendo sua banda como sempre fez, um guri cercado de excelentes back vocals, simplesmente um guri - juventude é manter o entusiasmo, o resto é cirurgia.

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Eu senti muita saudade da minha família reunida, da minha infância, dos meus sonhos daquela época, da minha inocência, do meu romantismo, tudo isso que de certa forma ainda mantenho, mas a que custo… Tanto espírito de porco em volta, tanta gente rude, tanta descrença… Burt Bacharach tem uma coisa que já não se vê por aí: classe. Isso não é elitismo, não depende de dinheiro, e sim de educação, de uma certa elegância no comportamento, coisa que qualquer um poderia ter, se quisesse… Eu me senti muito bem dentro do teatro, me senti comovida e me senti resgatada. Sei que pra quem não conhece o maestro, ou pra quem conhece mas não teve a imersão que eu tive na obra dele, essas palavras aqui soam banais e sem sentido. Mas tente pensar em algo que te remete a um tempo bom, a um tempo em que você ainda era puro: pode ser um programa de tevê, uma comida, um brinquedo, um amigo, ou mesmo uma música, já que o assunto é esse. Qual é sua lembrança de infância mais tocante, mais verdadeira?

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Pois então. Minha melhor lembrança da infância é Burt Bacharach. Impossível não me emocionar sabendo que essa lembrança segue tão viva.

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Beijos!

 

 

   

Postado por martha medeiros