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Jean Charles

28 de junho de 2009 35

Fui assistir ao filme Jean Charles, com o sempre excelente Selton Mello no papel daquele rapaz brasileiro que foi estupidamente assassinado num vagão de metrô, quatro anos atrás, confundido com um terrorista. O filme é quase um documentário, não tem artifícios técnicos, é uma narrativa comum, descolorida, acinzentada como a Londres dos imigrantes.  

*

Londres é minha cidade preferida fora do Brasil. A primeira vez em que estive lá, me hospedei na casa de uma inglesa que tinha quatro filhos e um monte de dívidas, por isso amontoava os filhos num mesmo quarto para poder alugar o outro para estrangeiros e ganhar algum trocado extra. A casa ficava num bairro ótimo, perto da Pimlico Station, mas a vida dela não era um passeio. Lembro que comprava comida com data de validade vencida, porque era mais barato. Já eu estava mais a fim era de bater perna na rua e conhecer a tal cidade que inspirou a frase: quem enjoou de Londres, enjoou de viver. 

*

Foi amor à primeira vista pela capital londrina. Foram apenas 18 dias, e não enjoei nem um segundo. Voltei mais três vezes depois daquela, me hospedando não mais em quartos de casa de família, mas em pequenos hotéis. Enfim, uma turista clássica curtindo os parques, os museus, os pubs, as feiras, os monumentos, as livrarias, as ruas. Há quem não tenha paciência pra isso e acredita que, se é pra viajar pro exterior, que seja pra morar, vivenciar de fato o dia-a-dia da cidade. Pois é. Quem me dera poder passar um longo tempo estudando em Londres, escrevendo em Londres… Mas isso é para poucos. Quem resolve sair do Brasil para morar fora, geralmente vai para lavar prato, fazer faxina, pegar no pesado, e não passa nem perto das flores do Hyde Park.

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Jean Charles de Menezes morava numa cidadezinha no interior de Minas e resolveu ir para o exterior tentar ganhar a vida como eletricista, imaginando um futuro melhor pra sua família. Passou a viver com mais três primos, todos tentando faturar algum em moeda forte. Eu saí do cinema pensando em como essa ilusão custa caro. A gente deveria ter condições de viver dignamente como eletricista ou  garçom ou o que for, aqui mesmo, no Brasil. É barra ter que enfrentar um cotidiano bruto, sem nenhuma fantasia. Há um momento em que a atriz Vanessa Giácomo, que interpreta a prima Vivian, que largou o namorado no Brasil para trabalhar em Londres como garçonete numa espelunca onde o dono cospe nos pratos que serve aos muçulmanos, diz a Jean Charles algo como: “maldita a hora que eu vim pra cá para ralar nessa porcaria de cidade”. Diz isso à beira do Tâmisa, em frente ao deslumbrante prédio do Parlamento, que para ela não tem nenhum significado – ela está na Europa apenas pelo dinheiro, longe do seu amor, do seu idioma e sem nenhuma oportunidade de crescimento real. Numa situação como essa, é perfeitamente compreensível que Londres se transforme numa porcaria, por mais que doa no nosso ouvido associar essa palavra à terra de Shakespeare.  

*

Jean Charles se divertia como? Não era ouvindo jazz no Ronnie Scott´s, no Soho,  e sim ouvindo Sidney Magal ao vivo num teatro de quinta, cercado de outros brasileiros, muitos deles ilegais no país, saudosos da pátria, do feijão, da goiabada, sem a possibilidade de absorver a cultura do lugar onde estão vivendo, sofisticar o gosto, viver uma experiência nova. O lance era economizar, faturar o máximo possível e voltar pra casa assim que desse. Como fazem milhares de trabalhadores rurais que se transferem para centros urbanos, que saem do interior para as capitais. O êxodo atrás de grana, de trabalho, de dignidade. Não bastasse a dureza que é viver desse modo, em Londres ou São Paulo ou em qualquer lugar, ainda levar uns tiros na cabeça às dez da manhã dentro de um transporte público, sem chance de defesa, entra pra categoria das histórias inacreditáveis. 

*

Vivian, a prima que chegou pela primeira vez em Londres odiando tudo aquilo, volta anos depois à capital inglesa, mais madura e mais mulher. E faz o quê? Coloca uma mochila nas costas e vai, sozinha, rodar o mundo e conhecer melhor a Europa e a si mesma. Decide, enfim, viajar – e honrar a vida que Jean Charles não teve tempo de merecer.  

 

*

Bom início de semana a todos!

 

 

 

Postado por Martha Medeiros

Comentários (35)

  • Fernanda diz: 14 de julho de 2009

    Martha, tive o privilegio de morar e estudar em Londres por 8 meses. Vivi periodos inesqueciveis assim como fiquei deprimida por causa dos sequenciais dias cinzentos e de ter que encarar subempregos para me sustentar. Meu professor nos chamava de “black sheeps”, as ovelhas negras que vieram se aventurar em Londres…Mas para visitar a cidade a turismo e no VERAO, seria um dos meus destinos certos.

  • Eloisa Helena Martins Rodrigues diz: 29 de junho de 2009

    Obrigada , querida, por mais esta crônica que só faz acrescentar o que pensamos sobre você.Imenso bom gosto e interesse pelo ser humano.
    Boa semana tambéms!

  • Monique dos reis diz: 28 de junho de 2009

    Não tive a opotunidade de ir ao cinema p assistir Jean Charles,mas esse final de semana assisti a uma outra produção nacional:Mulher invisível;muito boom,divertido e irreverente! Aaah,Europa está nos meus planos futuros,mas eu pretendo ir p desfrutar de toda aquela atmosfera,cultura e afins…realmente,quem vai com a cabeça de que lá tudo é paz e amor,definitivamente não tem nenhuma noção de mundo.Pena o acontecimento trágico deste brasileiro ;/
    Beijo!

  • Crítica diz: 29 de junho de 2009

    Puxa vida, li toda a reportagem, e no final…fiqueisabendo como o filme termina. Não vale mais a pena ir ao cinema para assistir.

  • Dirlei Nunes da Silveira diz: 28 de junho de 2009

    Falando em filmes, vi o lançamento de “Divã` e realmente cheguei a conclusão que eu já esperava:Que seria um ótimo filme, para quem já leu um dos melhores livros seus. Engraçado, ora dramático, mas sempre sensacional. Parabéns pela obra…

  • Márcio diz: 28 de junho de 2009

    Martha
    É “picuinha”, mas o termo eletricista aparece 2 vezes no texto. Em uma parte do texto está escrito “eletrecista”.
    Abs, Márcio

  • Gustavo diz: 28 de junho de 2009

    Estou louco pra assistir esse filme, Martha! Ver a realidade dos imigrante na Europa! A parte obscura do continente que a maioria de nós, como turistas, não observam!

  • Marco Antonio diz: 28 de junho de 2009

    Martha,
    Muito bem enfocado as diferentes visões de quem, por diversos motivos, se dispõe a ir a um lugar no estrangeiro.
    Triste e estúpido fim de um batalhador brasileiro.

  • Edu diz: 28 de junho de 2009

    Isso foi um comentário ou uma narrativa do filme?

  • Graziela Brum diz: 28 de junho de 2009

    Oi Marta!
    Que bom saber tua opinião sobre este filme, já imaginava algo do tipo, mas realmente estava curiosa. Aqui em Chapecó não vai passar, mas como vou para Passo Fundo seguidamente e vi que lá irá passar semana que vem, acabei procurando as críticas do filme. Irei assistir sem muita expectativa então.
    Abraço e parabéns pelo Blog, adoro teu trabalho
    Grazi

  • LEILA CARVALHO diz: 28 de junho de 2009

    Esse mundo é muito louco, nós enlouquecemos nesse mundo. Nós fazemos o que esse mundo é. Ando pelas ruas pedindo a Deus que guarde a mim e às pessoas que amo. Peço pelas pessoas que eu não conheço tb mas é como se eu soubesse q não adianta nada. Coisas ruins vão continuar acontecendo e o sentimento de segurança de confiança na vida foi pro c…, pro ralo. Boa semana para nós…

  • schuli diz: 28 de junho de 2009

    Me arrepio quando leio e ouço sobre essa história!

  • Giovana D`Alascio diz: 28 de junho de 2009

    Martha, o sonho de todos é ter uma vida digna independente do lugar e do trabalho.
    Não vi o filme ainda de Jean Charles, mas vivi como ele, trabalhando em uma cultura totalmente diferente mas que poderia me proporcionar sonhos na minha terrinha brasileira após sacrifícios e esforços… e foi assim que aconteceu.
    Mando pensamentos positivos a todos que conheço que ainda ficaram no exterior para batalhar pelo sonho, e nos resta batalhar por isso aqui no BR.
    Beijos.

  • Nathália Hecz diz: 28 de junho de 2009

    Oi, Martha! Assisti ontem Jean Charles. O que tu disseste é exatamente o que eu pensei sobre o filme, eu e minha amiga debatemos o filme e saíram essas ideias mesmo. Nunca fui a Londres, mas me parece uma cidade muito bacana, um dia eu visito, acredite. Quando a Vivian soltou aquela frase sobre Londres, te juro que eu pensei em ti: “A Martha não vai gostar de ouvir isso!” Mas ela estava num momento muito difícil, não dá pra julgar. É um filme triste, trazendo à tona a pesarosa morte de Jean.Bjo!

  • Gabi diz: 28 de junho de 2009

    Isso é o que eu acho lindo!Brasileiros que mal conhecem o bairro onde vivem, se jogam pelo mundo para ganhar dinheiro, fazer turismo e amar a mesma Londres que mostrou o que as autoridades dos países desenvolvidos pensam dos estrangeiros. Pobre Jean Charles!Infelizmente, o caso dele parece que não abriu os olhos dos brasileiros que ainda buscam no exterior o que poderiam achar nos seu país. Independente da sujeira política, ainda prefiro o “deu pra ti, baixo astral, vou pra Porto Alegre, tchau”.

  • Miguel Antonio Alves da Rosa diz: 28 de junho de 2009

    Querida Martha.
    Estou lendo Coisas da Vida. Sou suspeito para dizer que gos6tei, por diversas razões. Primeira, por gostar da tua forma de escrever; segundo, pq sou rato de crônicas; terceiro porque Coisas da vida é maravilhoso. Haveriam outras razões que poderia expor, mas prefiro ficar nesse resumo.

    Gostria de recomendar que lesse no site http://www.bookess.com.br o livro Coletânea que publiquei lá. Queria tua avaliação para que possa ficar ou não convencido de que devo continuar escrevendo. Abraços

  • Ana Paula Sales Tavares diz: 29 de junho de 2009

    Estou bastante a fim de ver esse filme! Selton Mello é sempre uma ótima pedida, não é mesmo? Beijos e boa semana!

  • Gustavo Jaime diz: 28 de junho de 2009

    Pois é, Martha… sou estudante/trabalhador em Lisboa e vim aqui sabendo que o mestrado em Jornalismo era um grande pretexto para absorver da cultura europeia. Mas ralei lavando pratos e chão de um café (hoje trabalho com clipping) para conseguir me sustentar. Divido um quarto pequenino, quando antes morava num apartamento de dois quartos em Florianópolis. Tudo isso para estar no dia-a-dia e sentir a vida lamber meu rosto. Mas vemos tantos “Jean Charles” espalhados pelo mundo…

  • Juliana diz: 29 de junho de 2009

    Quem não quer saber do filme é só não ler todo texto da Martha, no inicio dá p saber do que ela vai falar, não precisa vir aqui para ser tão indelicada.
    Bjos Marthinha!!

  • Aline diz: 29 de junho de 2009

    Li na Zero Hora de hoje a reportagem do Segundo Caderno sobre você, o Veríssimo e a Lya. Achei o áaapice você estar lá no meio de dois autores consagrados há tanto tempo <3 Tá cada dia mais poderooosa, tenho um orgulho gigante de ser fã de tudo que você escreve.

    beijos

  • Suzana diz: 29 de junho de 2009

    Comoventes… seu texto, a história de Jean e a realidade que narrou…

    Realmente merecíamos ter “condições de viver com dignidade” através da profissão que exercemos. Sou professora…

    Assistirei ao filme essa semana…

    Beijos e ótima semana!

  • Fabiele Goulart diz: 29 de junho de 2009

    Oi Martha!
    Sou amante de sua arte escrita e assim como você permito-me exercer ou pelo menos tentar exercer esse meu amor pela escrita. Pois bem, passei aqui somente para lhe agradecer pela honra que nos dá ao compartilhar sua arte com todos nós internautas. Parabéns pela brilhante maneira com a qual toca nossas imaginações. Sou sua fã, nem era preciso mencionar…hehehe…Beijos boa semana!

  • Silvana Maranhão (www.silvanamaranhao.com.br) diz: 28 de junho de 2009

    Nooossa, como me identifico com sua maneira de ver as coisas. Chorei!
    Abraços, Silvana

  • Marcia Breda diz: 29 de junho de 2009

    Ainda não vi o filme, mas estou morrendo de vontade. E concordo contigo: Londres é uma cidade incrível e minha preferida. Sempre quis ir pra lá, desde que tinha 15 anos. E com 23 realizei o sonho. Fui passear,e pensei em ficar. Mas nao tive coragem, porque pensei bem no que você falou, nao ia curtir a cidade. Melhor trabalhar no Brasil…e curtir Londres nas férias!!

  • Juliana diz: 28 de junho de 2009

    Olá Martha, estou curiosa para ver esse filme, infelizmente uma história com final triste.
    Bjosss!!

  • Gabriela diz: 29 de junho de 2009

    LEILA CARVALHO: se continuares pedindo a Deus com o pensamento de que nda adianta… não adiantará…nessa hr ter fé é indispensável. Deus faz o que é justo por mais q nao pareça; Ele é justo e precisamos acreditar num amanhã melhor…Beijos e boa semana!

  • Avner Posner diz: 28 de junho de 2009

    Ai ai … o sonho de fazer um mochilão pela Europa me invadiu de novo. Milhões de lugares belíssimos pra ver. Ainda mais pra um estudante de arquitetura. Chega a ser torturante. Mas um dia … um dia … um dia (risos)

  • Renata Cavalcanti diz: 29 de junho de 2009

    Gostaria de saber se este texto é de sua autoria, pois na internet circulam muitos textos com autoria errada. Agradecida.

    “Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. ”

    PS: É só um trecho do texto.

  • Fleur de Joie diz: 29 de junho de 2009

    Nossa… dizer o quê?! Tou sem palavras.

  • Janaína Silva diz: 29 de junho de 2009

    Histórias cada vez mais inacreditáveis…
    (e cada vez mais reais)
    bj

  • Ellen Kemmerich diz: 29 de junho de 2009

    Fiz a mesma coisa que Jean e sua prima fizeram, com uma diferença, não estou em Londres e sim em Dublin. Estou a pouco mais de um mês e com uma saudade enorme do Brasil e decidida a voltar em um ano, nada de renovar visto. Acredito que não mude de idéia, tomara que não, porque o que mais quero é voltar pro meu Brasil, de preferência com meu inglês afiado, com algum dinheiro no bolso, e com boas lembranças de no minímo três países europeus que pretendo conhecer (Londres está entre eles, claro!!).

  • fernando moya diz: 30 de junho de 2009

    QUANDO minha ex-professora de Ingles, Susan Epson, me escreveu de London pedindo desculpas pelo que fizeram com JEAN CHARLES é que tive a real dimensão da “” que eles fizeram , pois até ingleses legítimos ficaram muito envergonhados.

  • Francisco Dias diz: 19 de julho de 2009

    Pois entao. Acho que voce nao conhece muito bem Londres Martha. As coisas nao funcionam somente dessa maneira nessa cidade, que abriga milhares de imigrantes e culturas e tem que lidar com isso 24 horas por dia. Turismo eh uma coisa, viver aqui eh outra completamente diferente. Todas as pessoas, e digo todas mesmo, vao nos parques no findi, e ateh mesmo no meio da semana. Fazem turismo tb e pegam pesado nos outros momentos. Ellen, Londres ainda nao declarou independencia do UK.

  • Leticia diz: 3 de julho de 2009

    Martha: Excelente comentário! É bem isso mesmo. Ainda não assisti ao filme, mas pretendo assisti-lo. Já fui a Londres como turista e já vivenciei essa experiência de estar num paraíso para muitos e uma frustação para quem está colocando a mão na massa para os outros usufruírem aqui num paraíso brasileiro. Parabéns pelas colocações. Sua fã, Leticia

  • Ana Braga diz: 5 de julho de 2009

    Pobre Jean Charles. Só fiquei muito irritada com a toda indignação do nosso Presidente, que enviou representantes do governo para acompanhar o caso. Quer dizer que matar brasileiro só é um absurdo quando acontece fora do Brasil?? Nossos bandidos – da polícia inclusive – fazem igual, e ninguém fala nada.

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