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Pina Bausch e a delicadeza

01 de julho de 2009 13

Nessa quinta-feira, dia 2 de julho, estarei autografando na Feira do Livro de Gramado, às 16h. Quem estiver na serra gaúcha, é só aparecer!

*

Eu só descobri quem era Pina Bausch quando assisti ao filme Fale com Ela, de Pedro Almodóvar, cuja abertura mostrava uma coreografia dessa alemã que era considerada um dos maiores nomes do “teatro-dança”. Pina faleceu na última terça-feira, aos 68 anos. Por sorte, tive a oportunidade de assistir em Porto Alegre, três anos atrás, a um de seus espetáculos, chamado Para as Crianças de Ontem, Hoje e Amanhã. Aquilo me emocionou tanto que na época escrevi uma crônica a respeito para o jornal Zero Hora. Transcrevo um trecho aqui, como homenagem. 

      “A coreógrafa Pina Bausch certa vez revelou em uma entrevista: “Quando vou assistir a uma peça, quero sentir algo. Não quero só estar lá, ver o que vai ou não acontecer. Quero ver e sentir.” Inspirada nesta sua necessidade como espectadora, Pina cria espetáculos onde não importa “o que se quer dizer” e sim o quanto eles podem provocar riso, espanto, angústia, fascínio, alegria. A platéia jamais fica indiferente. Entender? Não há nada para entender. Não é uma obra feita de pontos de interrogação, e sim de pontos de exclamação. E, vá lá, algumas reticências…

         Desta vez ela trouxe para o Brasil uma coreografia baseada
no mundo infantil. De repente, o palco, praticamente despido de
cenário, vira um grande playground, onde os dançarinos pulam
corda, sentam em balões, imitam pássaros, cospem água uns nos
outros, brigam, vivem suas fantasias e não temem ser julgados.
Criancices. Fragmentos de uma época da vida em que a opinião
dos outros não nos interessava em nada, em que tudo era
permitido, tudo tinha graça, tudo era novo.
         Não precisaríamos perder nada disso com a passagem do
tempo, mas perdemos. Ficamos blindados. Tudo o que não for
“adulto” passa à categoria do ridículo. E um belo dia nos damos
conta de que não possuímos mais a leveza necessária para apreciar
o que é simplesmente belo, simplesmente inusitado, simplesmente
espontâneo, simplesmente sem sentido. O “simplesmente” deixa
de ser algo aceitável. É preciso vir uma teoria junto, uma bula,
uma explicação.
         Aplausos, então, para a coordenação do Em Cena, que
trouxe até nós um pouco desta experiência teatral do sentimento
pelo sentimento, através de uma dança muito profissional, mas
também propositadamente amadora em seus objetivos – se é que
se pode chamar de amador almejar apenas o encantamento – e que
veio acompanhada de uma trilha sonora impactante, de um figurino
elegantíssimo e de uma modernidade espantosa. A modernidade
que há no que para alguns parece tão antigo: o simplesmente sentir.

                                Martha Medeiros

 

Postado por martha medeiros

Comentários (13)

  • Rodrigo Zenio Corá diz: 16 de julho de 2009

    Mas gente!! Martha, não tem um mês minha amiga leu esta sua crônica sobre este mesmo espetáculo, e contextualizou com o momento por que passávamos. Parfait!!

  • Ana Claudia Braga diz: 2 de agosto de 2009

    Martha, sou sua fã, mas li um dia desses um texto, dizem seu, que eu não conhecia, algo como promessas de casamento, que faz alusão aos votos de casamento. É seu?

  • Dodora diz: 1 de julho de 2009

    Com uma simplicidade você escreve seus belos textos,e podemos sim dizer que ainda temos escritoras que nos fazem simplesmente sentir.

  • Paula Blaas diz: 1 de julho de 2009

    “Quero ver e sentir”
    Exatamente isso que queria – e consegui – anos atrás ao ler o teu livro Divã e no domingo passado quando assisti o filme!
    A mistura da minha escritora preferida com a grande atriz brasileira Lília Cabral não poderia ter sido melhor!
    Beijos da tua sempre leitora,
    Paula Blaas – estudante de jornalismo

  • Renata Moreira diz: 2 de julho de 2009

    Martha,
    Prepare-se para o frio. Estou em Gramado no Seminário Cooplantio e vou assistir o talk show que vai rolar por aqui!
    beijos

  • claudia aita de almeida diz: 2 de julho de 2009

    Guria… nao preciso dizer poque te chamo assim, pois mesmo vivendo na Italia sou gauchissima!!!!
    Bom, lendo a tua cronica de hoje em homenagem a coreografa aproveitei pra escrever… Tu te tornaste uma minha amiga das horas livres (mae, mulher, profissional, tem poucas horas livres), mas li o teu livro: Doidas e Santas, e a cada conto me parecia uma velha amiga conversando comigo… muito bom!!! E tirei muito bom proveito dele!!!
    Na minha proxima ida ao Brasil, vou providenciar os outros! Bjs

  • Márcia Elisa diz: 1 de julho de 2009

    Oi, Martha, lendo sobre Pina me lembrei do show do Jorge Drexler, que vai acontecer aqui e aí em Poa. Tu sais da sala com sensações, não apenas com os ouvidos cheios de música. Vais? Eu fui ano passado e foi lindo. Altamente recomendável! Abraço de uma cataúcha.

  • Mariana Chaves Oliveira diz: 2 de julho de 2009

    Oi Martha…

    por favor me diga se o film Divã já saiu em DVD.Não pude ver no cinema e to doida pra assistir. Tô até relendo o livro. Ah, até comprei outro (mesmo já tendo um) pois a capa nova ficou linda.
    Bjo MAriana

  • Henrique vidal diz: 2 de julho de 2009

    Não conto as vezes querida que fiz as pessoas felizes com seus maravilhosos textos!! E no final …falo com a boca cheia ” da escritora Martha Medeiros ” No final todo mundo corre às livrarias pra comprar suas obras!!! aDORO VC!!!

  • Tatiana Barros diz: 2 de julho de 2009

    Olá Martha, sempre gostei dos seus textos, poesias… me deu a louca aqui de saber mais sobre vc, pois muitos deles me iluminam muito. Gostaria de saber se tem algum livro com todos ou a maioria dos seus textos! Não sabia onde postar minha pergunta então entrei na primeira porta rsrs
    Abraços e te admito mt

  • Juliana diz: 2 de julho de 2009

    Martha querida… gostaria de saber se vc tem alguma programção em Poa nos dias 24 e 25 de julho, vou estar ai e queria vê-la.
    Bjosss!!

  • Marciane Faes diz: 3 de julho de 2009

    Que bom que em menos de um mês andaste duas vezes aqui por perto.
    Bem, quanto à Pina Bausch, sempre me foi lembrada pelo carinho que tinha pela palavra afeto.

  • Cristina Masiero diz: 2 de julho de 2009

    Olá Martha!

    Faço parte de uma comunidade do Orkut chamada “Afinal, quem é o autor?” e frequentemente surgem textos seus nos tópicos em discussão.

    Gostaria de saber se o título da sua crônica abaixo é “BAZAR” ou “VENDE-SE TUDO” e se ela faz parte de algum dos seus livros.

    “No mural do colégio da minha filha, encontrei um cartaz escrito por
    uma mãe, avisando que estava vendendo tudo o que ela tinha em casa, pois a
    família voltaria a morar nos Estados Unidos.(…)”

    Obrigada!

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