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Posts de setembro 2009

Thanks God it´s Friday

25 de setembro de 2009 24

Oi!

Lembro que quando eu morava em Santiago do Chile havia uma loja da rede de fastfood norteamericana TGI Friday e eu não sabia o que esse nome significava. Depois descobri. Obrigada, Senhor, hoje é sexta! Tô pegando a estrada e indo agora pra Torres. Quem ler esse post a tempo, fica o aviso: estarei batendo papo e autografando hoje às 20h na Feira do Livro, que acontece na Prainha. Se você estiver lá por perto, apareça.

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A semana passou rápido e não pude comentar algumas coisas. Sobre a professora que obrigou o aluno a repintar as paredes da sala de aula depois que ele escreveu o nome dele na parede, tô com ela. A escola havia se mobilizado um final de semana inteiro para deixar a escola limpa, não tem sentido um garoto chegar no dia seguinte e já começar a rabiscar (não vou usar o termo pichar porque parece que não foi algo tão ostensivo). Se ela não coloca um freio na hora, outros alunos fariam o mesmo e continuaria o clima de desrespeito ao patrimônio escolar. Não vi a cena, e se ela foi indelicada e grosseira com o garoto, errou. Grosseria não se admite em circunstância alguma, bastava que mandasse o garoto apagar o que fez e fim, sem humilhar. De qualquer forma, ela fez bem em usá-lo como exemplo pro resto da escola: sujou, depredou, bagunçou? Conserte. 

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Ainda escolas: estou dividida sobre essa obrigação de se cantar o Hino Nacional nas escolas uma vez por semana. Vou confessar que quase morro de tédio quando participo de inaugurações de Feira do Livro e há cantoria do hino. Acho muuuito chato. Mas chatice não é um argumento razoável. É chato, e daí? Um pouco de civismo não faz mal a ninguém, e é bonito quando o hino é tocado em eventos esportivos, por exemplo, quando há uma competição entre países: ele passa a sensação de ser algo “nosso”, produz orgulho. E ninguém quer pagar mico que nem a Vanusa, né? Mesmo com a letra em frente, transformou o hino no samba do crioulo doido.

Bom, entre as minhas argumentações e as minhas argumentações (adoro discutir comigo mesma), sigo ainda sem posição definida – mas agora ligeiramente inclinada para o sim, apesar da chatice incluída. 

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Na quarta-feira assisti Quartett, espetáculo do aclamado dramaturgo americano Bob Wilson e com a atriz francesa Isabelle Huppert no papel principal. Foi arrebatador, pra dizer o mínimo. Uma espécie de ópera contemporânea que une música, luz, expressão corporal, poesia – teatro!!! Teatro de verdade, daqueles que impacta, provoca, transgride, fascina. Foi das coisas mais modernas que eu já vi num palco, e Isabelle Huppert é um assombro, que técnica. Saí do Teatro do Sesi pensando em como a gente se deixa resumir pela estética da televisão, pela objetividade da tevê, e como arte é outra coisa, é o contrário, é subjetividade, encantamento… A arte te eleva, a tevê apenas te faz sentar e engolir o que já vem mastigado. Por que essa comparação aparentemente esdrúxula? Porque a linguagem da tevê cada vez mais inspira peças, filmes, literatura, música. O próprio Divã é um exemplo disso. Muito satisfatório para comunicar-se rapidamente com o público, mas ao assistir Quartett, lembrei que um pouco de dificuldade faz a gente crescer. Semana que vem publicarei uma crônica sobre este assunto. 

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Fico por aqui. Aproveitem bem o friday, o sábado e o domingo! 

Beijos! 

 

 

Postado por martha medeiros

Carta inédita de Caio F!

21 de setembro de 2009 47

Olá!

Pra variar, foi muito bom estar no Rio, eu realmente adoro aquela cidade. Além dos dois eventos na Bienal (que por sinal estava mais bonita e bem organizada do que nunca), tive a oportunidade de sair da Barra (bairro com o qual não me identifico muito) e passar uma tarde adorável no Leblon, onde almocei com uma amiga. Tem coisa melhor do que almoçar com uma amiga? Ok,tem. Mas são poucas. 

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Na Bienal lancei o audiolivro do Divã (se você tem uma tia ou avó já meio cegueta, que não consegue ler mais nada, nem com óculos, ou um amigo que perde 2 horas no trânsito todo dia, dê de presente… livro pra ouvir não é a minha, mas tem gente que gosta – ou precisa!) e participei de dois debates, nada que tenha mudado o mundo, mas foi divertido. Com minha amiga Leticia Wierzchovski, na sexta à noite, foi um papo interessante porque nós duas temos uma escrita que se opõe: ela é uma exímia criadora de personagens e sagas familiares, eu uma autora totalmente umbilical, que fala apenas do universo interno de cada um de nós. No final das contas, chegamos à conclusão que estamos sempre revelando boa parte do nosso “eu” pela escrita, não importa o estilo de literatura que façamos. 

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Acabei de ler “O dia em que matei meu pai“, do Mario Sabino, gostei muito (tudo o que explora o nosso mistério interior me fascina) e agora comecei “Quem pensas tu que eu sou?” do psicanalista gaúcho Abrão Slavutsky, e lá vou eu para mais uma viagem pela mente humana.

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Voltando à Bienal: conheci Paula Dip, uma jornalista experiente que acaba de lançar seu primeiro livro, “Para sempre teu, Caio F.”, uma espécie de biografia do Caio Fernando Abreu, de quem ela foi muito amiga. Digo “uma espécie de” porque ela mesmo não considera o livro uma biografia, e sim um conjunto de registros desse cara que foi escritor, dramaturgo, jornalista, meio astrólogo, meio riponga, meio tudo, e tudo por inteiro, vivendo com uma intensidade incomum.

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Eu o conheci. Almoçamos uma vez juntos em São Paulo, depois ele escreveu duas orelhas para livros meus, e trocamos algumas cartas que nunca foram publicadas nesses livros de correspondências que saíram depois que ele faleceu. Ninguém nunca me pediu, e entendo, eu não era mesmo íntima dele, mas tenho uma honra imensa de ele ter dedicado um tempo a mim numa certa época das nossas vidas. E como esse meu blog tem estado meio insosso (reconheço), vou dar um presentaço pra vocês: vou reproduzir aqui uma carta que o Caio me enviou em agosto de 1987, totalmente inédita, não está em livro algum.  Na época, eu estava publicando meu segundo livro de poemas e pensava em colocar como título “Madame Mim”, um trocadilho com a bruxinha da Disney (Madame Min), mas logo que pensei nisso surgiu uma peça de teatro em Porto Alegre com esse mesmo nome, e eu desisti. Acabei lançando o livro com o nome “Meia-Noite e um Quarto”, que acho até mais poético. No entanto, Caio defendia que eu mantivesse o Madame Mim. Eis a carta na íntegra (os sublinhados são dele mesmo):

Sampa, 12 de agosto de 1987

Marthinha,

pensei tanto em você nos últimos dias. Believe me, it´s true. É que andei em Porto, fim-de-semana passado, aí pensei pô que legal seria encontrar a Martha de repente – me sentindo ao mesmo tempo meio canalha, porque você mandou pelo menos duas (ou três?) cartas lindas, que eu não respondi nem nada. Hoje chegou tua carta. Pura magia. Magnetizou? Chamou. Pois é, sem espanto.

Andei sem tempo algum, durante quase dois anos. O jornal, ah o jornal (aquele ventre de baleia que engoliu Jonas perde). Me vi livre daquela côsa (para ler com sotaque bem gauchês) há dois meses. Pirei de liberdade durante um tempo. Agora já tô nos êxos (sotaque gauchês again) de novo. Virginiano viciado em trabalhar, escrevendo uma telenovela para TV Manchete (é hilário, tenho me divertido muito), um roteiro para um longa (era um romance meu, encruadíssimo, descobri que era filme e fluiu, chama-se Nada Além (ou Onde Andará Dulce Veiga?) e terminando (oh dor, oh alegria, oh Nossa Senhora do Bom Parto!) um livro (tenho um título tramado, puro suicídio comercial: Os Dragões Não Conhecem o Paraíso). E vai-se indo assim, menina poeta, em tempos que não se ama mais, vivendo de ficções, ilusões, projeções, criações. Tenho jogado toda a libido na Praxis (20): o resultado são laudas & laudas, alguns quilos a mais (bem que eu precisava) e vezenquando umas dores parecidas com desvio de coluna.

Luciano (el Gran Alabarse) foi quem me falou de Madame Mim. O título novo também é muito bom, mas MADAME MIM É SIMPLESMENTE DEMAIS. Martha, ouça o conselho do seu velho & bom tio Caio: peças infantis passam, Martha Medeiros fica. Esse título é superbom. Quando o livro sair, a associação com a bruxinha da Disney será inevitável (mas tem o pronome – ah!), e a peça infantil terá passado. Eu gosto imensamente do seu trabalho, sou um leitor encabulado e ávido por coisas novas. A propósito: você já andou lendo O pelicano, da tia Adélia Prado? Leia leia leia leia leia, e preste atenção no poema chamado Objeto de Amor. É aula para todos nós.    

A laudinha charmosa que me deram no Ritz e eu pensei esta-é-pra-escrever-pra- Martha-sem-falta – vai chegando ao fim. Suzanne Vega continua cantando, é tão lindo, meio japa, supercool, você vai gostar. Amanhã ponho no correio, e você me responde e jura que, se eu demorar, é porque pintou atrolhamento urbano, mas respondo. E te beijo, seu amigo 

Caio F.

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Postado por martha medeiros

Já no Rio

17 de setembro de 2009 28

Já estou aqui pessoal, cheguei com um lindo dia de sol mas agora está estranho lá no horizonte, parece que vem água… tomara que não.

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Carlos Roberto, o texto que te deixou em dúvida é meu, sim. Chama-se “Sacanagem”.

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Suzana, não estou sabendo dessa homenagem na escola da sua filha, em Taquara. Ninguém me avisou, mas, valeu!

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Ainda sobre racismo: a poeta e atriz Elisa Lucinda diz que o fato de a Taís Araújo ser apresentada como a primeira negra a protagonizar uma novela das oito já é uma baita bandeira da diferenciação, e eu concordo com ela. A troco de que ressaltar isso? Assim como Obama, o primeiro presidente negro dos EUA, ou Dilma ou Marina, possíveis primeiras presidentes mulheres… Vamos demonstrar evolução no dia que não segmentarmos esses cargos por raça ou sexo. A extinção do racismo passa pela não percepção das diferenças, extinguindo-as.

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Daqui a pouco vou conhecer Paula Dip, que escreveu mais uma biografia do Caio Fernando Abreu. Nunca é demais. O cara era, esse sim, diferenciado, mas pelo talento. 

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Semana que vem vou assistir a grande atriz francesa Isabelle Huppert em “Quartett”, peça que integra o Porto Alegre Em Cena.

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E vocês não imaginam o que inventei. Dia 30 de outubro estou embarcando para o Marrocos!!! Sempre foi meu sonho. Vou montar num camelo e andar duas horas  pelo deserto, e depois dormir numa tenda num oásis, cercada por tuaregs, em meio ao nada! Tô contando os dias. Depois falo mas sobre isso.

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Amanhã às 22h estreia o documentário LOKI, sobre Arnaldo Batista, no Canal Brasil. Dizem que é imperdível.

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Até mais. Beijos!!

 

 

 

 

 

   

Postado por Martha Medeiros

Antes da Bienal

16 de setembro de 2009 29

Caríssimos, antes de qualquer coisa, mil desculpas pela demorada atualização desse blog. Argumentar que não tenho tido tempo nem assunto já não vale como desculpa, mas é a verdade: nem tempo, nem muito assunto, mesmo! Vocês sabem que eu não escrevo crônicas nesse espaço, não há nada de literário aqui, são apenas comentários breves, dicas, atualização de agenda… Às vezes não rola nada que valha a pena postar. Mas fico agoniada porque sei da fidelidade de  vocês. Vou tentar ser mais ágil.

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Sobre o twitter: não tenho!!!! Sei que há um falso rolando por aí com meu nome. Não sou eu. Não uso twitter nem tenho perfil no orkut. E esse texto chamado “Encoxada” que tem circulado pela rede como sendo meu, também não é. 

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Confirmando, again: amanhã, dia 17, estarei na Bienal no evento Mulher e Ponto, às 17h30, e assim que acabar corro pro estande da L&PM para autografar, conversar, tirar fotos, etc. E dia 18 estarei por volta das 19h lançando o audiolivro Divã (no estande da editora Audiolivros) e às 20h no Café Literário.

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Não assisti a Caminho das Indias, mas vi os dois primeiros capítulos de Viver a Vida, a novela do Manoel Carlos. De cara, fiquei meio petrificada com uma frase dita pela personagem da Lilia Cabral, a respeito da “Helena” de Taís Araújo. Ela comenta com a filha que o ex-marido (José Mayer) sempre trocou o vinho pela cerveja, o banquete pelo sanduíche, o restaurantão pelo boteco, portanto era natural que agora, recém-divorciado, trocasse uma branca por uma negra. Caramba, doeu nos meus ouvidos! Ainda não sei avaliar se isso vai ser positivo ou não. É positivo se levarmos em conta que a novela vai enfrentar esse mito de que não há racismo no Brasil. Existe, e o primeiro capítulo já deu uma demonstração disso, não na forma de um ato de discriminação, que é crime, mas num comentário “intramuros”. Mas me senti envergonhada pela fala da Lilia, justamente porque sei que a ficção do Manoel Carlos é muito realista, esse tipo de frase escapa da boca de muita gente. Hoje pela manhã eu estava conversando com uma amiga negra e ela me disse que se sentiu muito ofendida pela cena. Não sei o que pensar, ainda. Volto a dizer que isso pode ser positivo se provocar uma reflexão sobre o racismo, mas é preciso cuidar pra não ultrapassar os limites do respeito. 

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Vou tentar postar alguma coisa lá do Rio. Se não conseguir, até a volta!

Beijos.

 

 

 

  

 

  

Postado por martha medeiros

E se fosse com a gente?

10 de setembro de 2009 54

Oi!

Tava relendo o post anterior, em que foi publicada a minha crônica de quarta-feira em Zero Hora, e me dei conta de como é delicado julgar os outros – e no entanto é o que mais fazemos, o tempo todo. Quando eu escrevo (ou qualquer pessoa escreve) que o consumismo anda desmedido, está passando a informação de que  é uma pessoa diferente, que o seu próprio consumismo é controlado. Cada vez que criticamos alguém, estamos nos auto-elogiando. Isso é uma sinuca… Mas uma sinuca inevitável, e isso me veio à cabeça porque estava lendo sobre dois acontecimentos recentes e pensei: e se fosse comigo? É com essa pergunta que a gente testa se estamos sendo realmente honestos na nossa crítica ou se estamos apenas jogando pra torcida. 

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Um desses acontecimentos foi a eleição do ex-presidente e atual senador Fernando Collor como o mais novo imortal da Academia Alagoana de Letras. Como se sabe, todo pretendente se candidata à vaga, e trabalha por ela, faz campanha. De campanha o Collor entende, mas de literatura? Recebeu 22 votos a favor e oito em branco – nenhum contra. Eu considero isso uma piada, mas o que mais me surpreende é a cara-de-pau. Suponhamos que não tenha sido ideia dele, e sim de um baba-ovo que tenha sugerido: “Fernando, candidate-se a uma vaga na Academia de Letras, seus artigos e discursos são literatura da maior qualidade, e será mais um momento de holofote em sua carreira, você ficará ainda mais prestigiado aqui na nossa terra, vamos lá, honre seu sobrenome”. Collor vem de uma linhagem de políticos reconhecidos, mas Academia de Letras é local de escritor, até onde sei - o que não impede que Sarney e Marco Maciel sejam imortais da ABL. Mas voltando à cena imaginária: como um homem ou mulher sensata responderia à sugestão? “Meu caro, obrigada pela gentileza da lembrança, mas meu negócio é política, nunca publiquei um livro, nunca colaborei para a vida intelectual do país, vamos deixar isso para poetas e romancistas, eu já tenho visibilidade suficiente no que faço”. E encerrava a questão. Mas isso é o que eu faria, e provavelmente o que você faria. Collor nem pestanejou.  

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Outro assunto que me incomodou: a confirmação de que Nelsinho Piquet realmente provocou um acidente de propósito no GP de Cingapura de 2008, uma palhaçada planejada pela Renault para facilitar a vitória de Fernando Alonso. Foi todo mundo pego com as calças na mão: a Renault por desrespeitar os princípios do esporte, o Piquet por não ter a grandeza de se negar ao papelão (ok, ele disse amém pros chefes para garantir a renovação do seu contrato, mas onde fica aquela palavrinha chamada honra, caráter?) e Fernando Alonso por ter aceitado levantar o troféu (no caso de saber antecipadamente da farsa – não sei se sabia). Posso estar parecendo ingênua, já que estamos falando de uma escuderia com muita bala na agulha, ou seja, assunto de gente grande. Mas honradez e caráter não são negociáveis, ao menos não pra mim, e acredito que pra você também não. Até mesmo as facilitações de ultrapassagem entre parceiros de escuderia, razoavelmente explicáveis com o argumento de “trabalho de equipe”, me irritam,  acho que ferem o espírito esportivo, imagine então provocar um acidente na pista como estratégia. É de uma cafajestada ímpar, sem falar no risco que algumas pessoas correram de sairem feridas, o próprio Nelsinho, inclusive. 

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Vergonha na cara. Como a gente vê pouco. 

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Mudando radicalmente de assunto, deixo aqui minha agenda na Bienal do Livro do Rio, que está começando hoje. Estarei na próxima quinta, dia 17, participando da sessão Mulher e Ponto ao lado da escritora e feminista Rosiska Darcy de Oliveira,  às 17h30. Uma hora depois, ou seja, às 18h30, estarei no stand da L&PM autografando o livro Doidas e Santas e outros.    

No dia seguinte, dia 18, sexta, lançarei às 18h30 o audiolivro Divã no stand da  Audiolivros Editora, e às 20h participarei do Café Literário ao lado da minha conterrânea, a escitora Leticia Wierzchovski. Quem puder, apareça!

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Beijos.

 

 

 

  

 

 

 

Postado por martha medeiros

Dinheiro, vaidade e vazio

09 de setembro de 2009 39

Às vezes, um pensamento se instala dentro de nós motivado pelos acontecimentos mais incongruentes. Primeiro, teve a repercussão da crônica de quarta passada, sobre a barriguinha da modelo Lizzie Muller. A maior parte dos e-mails que recebi era de homens jurando que valorizam suas mulheres do jeito que são e que buscar um corpo perfeito é paranoia nossa, e eu acredito neles, então por que sucumbimos a um padrão irreal e fazemos loucuras para atingi-lo?

Semana passada, também soube que numa reunião de condomínio foi aprovado um orçamento de R$ 87 mil para decorar o hall e o salão de festas de um prédio. O bom gosto e o conforto de um ambiente coletivo e pouco utilizado precisa passar por uma conta abusiva?

Vou seguir tergiversando. Estive no Uruguai no último feriado e fiz um programa que nunca faço: fui ao cassino. Não me atraem os jogos de azar, mas minha filha, 18 anos recém feitos, ficou curiosa em conhecer o ambiente e topei, até porque recentemente nos divertimos vendo o ótimo filme Se Beber, Não Case, que se passa em Las Vegas. Então, lá fomos nós perder uns trocos de livre e espontânea vontade. Mas enquanto a gente brincava de jogar, com dinheiro contado para a experiência, havia à nossa volta gente apostando alto, largando dezenas de notas de US$ 100 sobre a mesa da roleta como se aquilo não valesse nada. Perdiam, jogavam mais, perdiam mais, e não eram viciados, que vício é doença e respeito. Eram mulheres e homens gastando simplesmente porque tinham grana sobrando. É o mesmo impulso de quem compra uma bolsa de R$ 10 mil: compro porque posso, porque quero, porque faço com meu dinheiro o que bem entender. Mas uma bolsa de menos dígitos não surtiria o mesmo efeito? A pergunta que engloba todas até agora aqui feitas: por que tanta gente está precisando de tanto?

Perfeição, beleza, luxo. Eu não seria louca de desprezar a vaidade humana. Encaro essas buscas como algo legítimo, natural e saudável — até certo ponto. Mas qual o ponto certo? O meu limite é diferente do limite de quem se contenta com artigos de camelô, e também diferente do limite de quem só exige do bom e do melhor, sem concessões. Ou seja, “até certo ponto” é uma total abstração. Pessoas estabelecem a própria média de acordo com seu bolso e suas carências.

Sendo assim, uma medida genérica poderia ser a do vazio existencial de cada um. Será que estamos gastando em cirurgias estéticas desnecessárias, em grifes de preço imoral e em hábitos quase cafonas de tão ostensivos por um prazer pessoal genuíno, ou apenas para nos compensar? É fato: quanto mais sem sentido está a nossa vida, mais ficamos tentados a consumir. Quanto menos admiramos a nós mesmos, mais necessitamos da aprovação alheia. Quanto mais equivocado foi o caminho que escolhemos, mais tentamos dar a ele algum significado fictício. Quanto menos sabemos lidar com nossa solidão, mais precisamos atrair holofotes.

Passei essa semana tergiversando, como se pode notar, tudo para concluir o óbvio. Temos gastado muito e nos dado pouco valor.

* Texto publicado hoje em Zero Hora.

Postado por Martha Medeiros

Em trânsito, novamente

05 de setembro de 2009 19

Estou novamente fora de Porto Alegre, escrevo do Uruguay, retornarei segunda à noite. Infelizmente, tempo ruim por aqui, chuva e frio, mas dá pra tomar um bom vinho e ontem fiz um programa raro, fui jogar boliche. Pois é, também gosto de esportes bem pouco radicais, como boliche, sinuca…  

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Incrível a repercussao do texto sobre a modelo com a pelanquinha… Aqui no blog a reaçao foi heterogênea, mas no meu e-mail pessoal a grande maioria de mensagens foi deixada por homens. Todos dizendo que estamos muito enganadas se pensamos que eles exigem um corpo sarado. Juraram que nao se importam com barriguinha, celulite, etc. O mundo tem salvaçao!!!

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Por essas e outras, tô eu aqui comendo “medialuna” adoidado… 

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Na volta prometo um post mais caprichado. Bom feriado a todos!!

Beijos!

 

 

Postado por Martha Medeiros

A mulher da página 194

02 de setembro de 2009 382


Reprodução, glamour.com

Ela é loira e linda. Tem 20 anos. Modelo profissional. Saiu na última edição da revista americana Glamour ilustrando uma reportagem sobre autoimagem, e foi o que bastou para causar um rebuliço nos Estados Unidos. A revista recebeu milhares de cartas e e-mails. Razão: a barriga saliente da moça. Teor das mensagens: alívio. Uma mulher com um corpo real.

Não sei se Lizzie Miller, que ficou conhecida como a mulher da página 194, já teve filhos, mas é pouco provável, devido à idade que tem.

No entanto, quem já teve filhos conhece bem aquela dobrinha que se forma ao sentar. E mesmo quem não teve conhece também, bastando para isso pesar um pouco mais do que 48 quilos, que é o que a maioria das tops pesa. Lizzie não é um varapau — atua no mercado das modelos “plus size”, ou seja, de tamanhos grandes. Veste manequim 42, um insulto ao mundo das anoréxicas.

A foto me despertou sentimentos contraditórios. Por mais que estejamos saturados dessa falsa imagem de perfeição feminina que as revistas promovem, há que se admitir: barriga é um troço deselegante. É falso dizer que protuberâncias podem ser charmosas. Não são.

Só que toda mulher possui a sua e isso não é crime, caso contrário, seríamos todas colegas de penitenciária. Sem photoshop, na beira da praia, quase ninguém tem corpaço, a não ser que estejamos nos referindo a volume. Se estivermos falando de silhueta de ninfa, perceba: são três ou quatro entre centenas. E, nesse aspecto, a foto de Lizzie Miller serve como uma espécie de alforria. Principalmente porque ela não causa repulsa, ao contrário, ela desperta uma forte atração que não vem do seu abdômen, e sim do seu semblante extremamente saudável. É saúde o que essa moça vende, e não ilusão.

Um generoso sorriso, dentes bem cuidados, cabelos limpos, segurança, satisfação consigo próprio, inteligência e bom humor: é isso que torna um homem ou uma mulher bonitos. Aquelas meninas magérrimas que ilustram editoriais de moda, quase sempre com cara de quem comeu e não gostou (ou de quem não comeu, mas gostaria), são apenas isso: magérrimas. Não parecem pessoas felizes. Lizzie Miller dá a impressão de ser uma mulher radiante, e se isso não é sedutor, então rasgo o diploma de Psicologia que não tenho. Ela merecia estar na primeira página, mas, mesmo tendo sido publicada na 194, roubou a cena.


* Texto publicado na página 02 da Zero Hora de hoje.

Postado por martha medeiros

Livros confessionais e um troféu honroso

01 de setembro de 2009 27

O escritor Cristovão Tezza, nascido em Santa Catarina, mas criado no Paraná, sedimentou seu reconhecimento público depois que seu livro O filho eterno foi amplamente premiado. Trata-se de uma narrativa sobre o filho que ele teve com síndrome de Down. Lembro que gostei do livro, quando o li dois anos atrás, só que agora estou lendo um outro, sobre o mesmo assunto, que está me agradando ainda mais. 

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Em tempo: não pensem que sou tão compulsiva - é verdade que emendo um livro no outro, mas às vezes dá a impressão de que eu engulo livros e não é bem assim. Se já estou terminando esse, é porque é curtíssimo.

Em tempo 2: alguma coisa está errada quando a gente se defende por ler demais.

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Mas voltando ao livro. Chama-se Aonde a gente vai, papai?, do francês Jean-Louis Fournier, que também foi premiadíssimo por esse relato que conta sua experiência não só com um filho, mas dois filhos deficientes! Raios caem duas vezes no mesmo lugar, sim. O livro não tem nenhum ranço de auto-piedade e por vezes até tenta achar graça da situação, como forma de segurar a barra e não abrir mão da literatura em prol do tom confessional. Não é desrespeitoso jamais, e sim humano. Editora Intrínseca.

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Aliás, essa editora tem colocado ótimos títulos no mercado, a exemplo do Clube do Filme.

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Mudando radicalmente de assunto, hoje à noite eu e mais nove homenageados receberemos o Troféu Guri, premiação concedida pela Rádio Gaúcha, de Porto Alegre. O troféu vai para as mãos de pessoas que ajudam a divulgar o Rio Grande do Sul além de suas fronteiras. Me sinto honrada e também um pouco nervosa, pois terei que dizer algumas palavras. Pretendo ser breve, já que discurso está na minha lista de “as 10 coisas mais chatas do mundo”. O que dizer? Não quero botar todo mundo pra dormir. 

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Dizer a verdade, né? Primeiro, que sou guria, mas também tenho um lado “guri”, desde pequena era fissurada em ser independente e aventureira, nunca compactuei muito com o clube da luluzinha, e talvez isso seja uma das razões pelas quais hoje eu atinja um público heterogêno, apesar de muita gente ainda achar que escrevo só para as mulheres. Dizer também que me orgulho quando me apresentam como uma “escritora gaúcha” e não apenas como uma “escritora”, e que por mais que isso pareça bairrismo, é apenas uma afirmação de identidade: não é apenas meu berço familiar que diz quem eu sou, mas também meu berço geográfico e cultural. Ser gaúcha não é ser melhor nem pior do que ninguém, é simplesmente situar minhas raízes, faz parte do meu DNA.  

E, por fim, por mais piegas que possa parecer, vou ter que agradecer a uma turma: vocês, caras-pálidas. Não fosse pela fidelidade dos meus leitores, pelo boca-a-boca, pelas comunidades no Orkut, pela corrente de distribuição de textos que se estabeleceu pela internet, pela divulgação feita nas escolas e tudo mais, minhas palavras cairiam no vazio. Eu escrevo para entender a mim mesma e para compartilhar minhas reflexões, então, obrigada por vocês estarem aí do outro lado!!!

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Por fim, quem também receberá o troféu será a “guria” Diza Gonzaga, presidente da Fundação Thiago Gonzaga e grande batalhadora do movimento Vida Urgente, que existe para conscientizar os adolescentes a não beber quando saem pra noite motorizados. Ela é uma das pessoas que mais admiro no mundo, pois não é qualquer mulher que perde um filho de 18 anos num acidente automobilístico e transforma sua dor em motivação para salvar os filhos dos outros. Viva ela!

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Beijos!

   

 

Postado por martha medeiros